Notas iniciais
Olha quem volou... É meu povo esse capítulo NÃO FOI FÁCIL. Demorou muito para ser betado porque nem eu nem a ju ficavamos satisfeitas com o resultado. Foi uma verdadeira batalha de semanas contra ele, e meio que desistimos. Fizemos o melhor que deu , mas ainda nos sentimos incomodadas com algumas cosas. O problema é que era muita informação e ficou muito difícil transmiti-las sem nos repetir. Enfim, esse é o tão esperado lemon...que foi escrito com muito carinho mas tambem com muito sofrimento por nós. Esperamos que gostem

A viagem de volta à Londres havia sido bem mais tranquila.

Mu ainda mostrara certo receio e relutância na hora de entrar novamente na Besta metálica voadora.

Havia pedido a Shaka que viajassem por qualquer outro meio, até mesmo usando seus dons para cruzarem os países que os separavam de casa a pé, mas o sacerdote tinha pressa, e mesmo para eles, mais rápidos que qualquer outra criatura que habitava o planeta, seria perda de um tempo precioso.

Shaka ansiava por marcar uma reunião com seu clã para coloca-los a par das decisões do Conselho. Pensava até em preparar alguma armadilha para os Espectros das Sombras, e principalmente, não queria mais adiar sua união definitiva com Mu, pois sentia que a decisão do Nut em aceitar ser seu companheiro pudesse ser um sinal de que ele estivesse pronto, finalmente, para um elo maior.

Mal podia esperar para provar o sabor daquele poderoso vampiro e experimentar com ele o tão desejado prazer máximo dos imortais.

Sendo assim, após muito insistir entraram no avião e poucas horas depois o Rolls Roice negro do sumo sacerdote Setita estacionava em frente às escadarias da mansão londrina, mas nenhum dos ocupantes descia.

Dentro do automóvel, tomados pela euforia do compromisso vitalício recém-firmado, Shaka e Mu trocavam beijos e carícias tórridas sem se importarem com o carniçal que os conduzira até ali, e que agora esperava pacientemente os mestres descerem do carro para que pudesse conduzi-lo até a garagem.

Ao fim de uma espera consideravelmente longa, os dois imortais deixaram o veículo aos tropeços, uma vez que não se largavam, tampouco abriam mão dos beijos trocados nem quando subiram os degraus da escada.

Mu então empurrou Shaka contra a porta da frente da mansão enquanto aos gemidos tateava a mesma com uma das mãos à procura da maçaneta, ao passo que com a outra percorria o corpo do sacerdote, arranhando com suas garras a pele alva por cima do tecido fino das vestes que ele usava.

Eram todos sorrisos e arquejos um para o outro.

Quando finalmente conseguiram abrir a porta e adentraram a sala perceberam, finalmente, a belíssima melodia que Afrodite tocava ao piano.

O jovem músico discretamente ergueu seus grandes olhos azuis e se alegrou ao ver os mestres sorridentes como estavam, voltando sua atenção novamente às teclas do instrumento dando seguimento à canção.

Encostados à porta, Mu olhava agora para os olhos de Shaka com uma aspiração nova. O desejava mais que tudo, e com um urgência pungente! A experiência vivida antes da viagem não saia de sua memória e necessitava experimenta-la outra vez.

— Preciso de sangue... — sussurrou o Nut, entrelaçando seus dedos nos cabelos dourados do Setita e dando um leve puxão para expor seu pescoço, onde esfregou o nariz com impaciência, aspirando o odor tão desejado do sacerdote — Ah, Shaka... Quero sentir de novo... Aquilo que me fez antes da viagem. Eu... Quero que sinta também!... Beba Afrodite. Beba!

Shaka deixou escapar um riso diante da ansiedade do outro, afinal, aquela era a primeira vez em semanas de convivência que realmente sentia em Mu a mesma necessidade sexual que habitava em si, e jamais perderia aquela oportunidade de ouro!

— No fundo da casa... — Shaka sussurrou em resposta, arranhando a cintura do Nut quando cravou suas garras na pele para puxar seu corpo para mais junto do seu —... Há carniçais que devem estar fazendo a limpeza do Templo subterrâneo... Vá... Eu o espero no nosso quarto.

O sacerdote então se apartou do Nut e com um sorriso sedutor caminhou até o piano, enquanto ainda o encarava com olhos plenos em luxuria.

Apenas quando Mu deixou a sala ás pressas foi que Shaka deu a volta em torno do instrumento e parou ao lado do servo, que tal qual um boneco pré-programado ergueu novamente os olhos das teclas e encarou o vampiro.

Sem dizer nada, Afrodite afastou a banqueta e se levantou, puxando as longas madeixas loiras para o lado desnudando seu pescoço esguio, o qual fora aceito de imediato pelo sumo sacerdote, que cravou suas presas na carne tenra e sorveu o sangue quente e doce do garoto, sentindo seu corpo morto explodir mais uma vez em vida.

Após alguns goles generosos, Shaka lambeu a ferida e acariciou os cabelos do músico num gesto carinhoso, depois segurou em seu queixo e fazendo um pequeno furo em seu próprio polegar com a ponta do canino afiado o ofereceu à Afrodite, que de pronto sugou o dedo sorvendo o sangue, agora quente, como quem saboreia o mais doce e delicioso néctar, de olhos fechados e com a respiração ofegante.

— Bom menino... Mas, vá com calma... Aprecie o sabor! — dizia em delírio o sacerdote, pois para ele, manter o humano cativo através de seu sangue lhe dava uma sensação hedonista de poder.

Quando achou que já bastava, Shaka puxou a mão para trás, livrando-se daqueles lábios ávidos e sorriu para o músico.

— Toque, Afrodite! Toque sua bela música.

Gentilmente limpou os cantos da boca do servo correndo os dedos nas pequenas manchas do sangue que se acumulara ali e depois afastou-se, deixando a sala a passos decididos a caminho do quarto no porão.

***

Pouco antes, Mu cruzava apressado as imediações do terreno que ficava ao fundo da mansão.

Sua Besta interna urrava, sentia uma fome desmedida, ao passo que sua consciência nada mais desejava a não ser voltar para os braços de seu sacerdote.

Ansioso, invadiu o templo subterrâneo e num ataque voraz abateu o primeiro carniçal que ali encontrou, o carregando para longe dos outros e dando cabo de sua vida amaldiçoada ali mesmo, entre as colunas de mármore escuro.

Sua pressa, aliada a vontade de sentir-se vivo para desfrutar dos prazeres que Shaka lhe oferecia era tanta que devorou o carniçal em poucos minutos, mal se sujando ao faze-lo, visto que não sobrara quase nada da presa para deixar vestígios.

Ao deixar o local, livrou-se das vestes que usava e enfiou-se debaixo de uma ducha que ficava a beira da enorme piscina, pois, por mais que soubesse que Shaka adorava lamber o sangue que restava em seu corpo após alimentar-se, ainda tinha receio de que ele, o sangue, pudesse instiga-lo mais do que deveria e faze-lo perder o controle da Besta.

No fundo ainda temia pela vida do sacerdote.

Sendo assim, após estar minimamente limpo, mais calmo e com seu corpo vivo queimando em desejo, Mu foi direto para o porão, onde já sentia o Setita o aguardando.

Ao abrir a porta notou o ambiente iluminado pela luz proveniente de algumas poucas velas acesas em castiçais de ouro espalhados pelo cômodo, porém para seus olhos sobrenaturais nenhuma penumbra era empecilho para que vislumbrasse a belíssima imagem do sacerdote nu sobre os lençóis negros da cama.

Shaka parecia ter luz própria, tão alva e translucida era sua pele, tão cintilantes e dourados eram seus cabelos em contraste com a seda negra sob si.

— Lindo! — balbuciou o Nut aproximando-se lentamente do leito, hipnotizado pelo olhar voluptuoso do Setita que parecia o atrair com um magnetismo ferino — Eu quero senti-lo de novo, Shaka!

Sem mais poder se conter, Mu atirou-se na cama, nos braços do sacerdote, que o recebera com a mesma ansiedade, tomando sua boca com beijos aguerridos.

Em êxtase, os corpos se atritavam provando avidamente um ao outro com toques ousados, vigorosos, no regozijo do calor que agora exalava das peles febris e instigava seus sentidos mais primitivos.

Um sobre o outro, rolavam sobre os lençóis negros, esfregavam-se, arfavam, gemiam, delirantes com o que ansiavam por vir, até que, numa sanha delirante, Mu correu uma das mãos até o membro de Shaka e gemeu despudoradamente ao agarra-lo e senti-lo rijo e pulsante entre seus dedos.

— Quero você, Mu... O desejo mais que o próprio sangue que me mantem existindo! — grunhiu o Setita ao lamber a lateral do rosto do Nut, indo à loucura com aqueles dedos que apertavam avidamente seu membro.

Arrebatado, o sumo sacerdote projetou o quadril para baixo, forçando o contato de seu membro ao do Nut, igualmente excitado, remexendo-se sobre ele, fomentando o desejo de Mu, que para sua completa desgraça e aflição sentia a Fome da Besta crescer na mesma proporção que seu apetite sexual por Shaka!

— “Não... Não... posso...” — pensou angustiado o Nut.

Cerrou os olhos, apertando as pálpebras com força, sentindo Shaka invadir sua boca com sua língua quente e habilidosa, enquanto colocava-se entre suas pernas aumentado o contato entre os corpos exaltados.

A cada toque, cada sussurro, cada contração do membro do sacerdote em sua mão, Mu sentia mais ânsia em seguir em frente e provar o tão prazer sublime que sempre lhe fora renegado, mas, ao mesmo tempo também sentia uma fome descomunal, um apetite indômito que lhe parecia esmagar as entranhas.

— “Por favor... Não... Tenho que... Controlar...” — clamava a si mesmo em intensa angustia.

Beijava os lábios do sacerdote, mas não sentia mais seu sabor único.

Tudo que sentia era um desejo pungente de dilacerar a garganta daquele vampiro, mastigar a carne revivida, triturar os ossos, cartilagens, nervos...

— Quero você... Mu... Seja meu!

Alheio à luta que o Nut travava consigo mesmo, Shaka apartou o beijo e escorregando seu corpo para baixo, traçando uma linha de saliva sanguinolenta por todo o torço do companheiro, abocanhou o pênis rijo e vigoroso de Mu iniciando a felação com uma sugada primorosa.

O Nut tombou a cabeça sobre um dos travesseiros e mordeu o próprio lábio, provando o sabor de seu sangue enegrecido enquanto cravava as unhas no colchão.

Seus membros tremiam. Braços, pernas, peito, rosto, formigavam.

O prazer era consideravelmente maior, comparado à experiência anterior, mas também o levava ao limiar do descontrole.

Atreveu-se a abrir os olhos e erguer a cabeça para ver o Setita lhe provando daquela maneira tão excitante, mas o tesão que sentiu com aquele instigante vislumbre só fomentou sua gana por devorar o amante.

Em sua mente não conseguia mais distinguir o sentimento de amor, o afeto por Shaka, da fome, da vontade de literalmente come-lo inteiro.

Tudo que mais temia estava acontecendo novamente.

A Besta o estava dominando e seu Consumo Conspícuo, sua maldição, vencendo sua racionalidade. Ela rugia, sedenta por sangue, como uma loucura incurável e sem controle, a qual nublava totalmente sua mente e lhe entorpecia os demais sentidos.

Seu corpo todo agora repudiava o frisson delicioso do prazer para entrar em um torpor terrível. Seus olhos abandonaram o verde plácido das íris e já eram inundados pelo negro profundo das trevas de sua alma.

Foi quando, de repente, um rosnado selvagem irrompeu por todo o recinto, ecoando pelos corredores da enorme mansão luxuosa.

Um único segundo de descontrole fez com que Mu soltasse os lençóis para agarrar os cabelos de Shaka e lança-lo para fora da cama.

Imediatamente em seguida o Nut usou seu poder para prender o Setita contra o chão e saltar sobre ele, agarrando-o novamente pelos cabelos para girar sua cabeça para o lado e expor o pescoço alvo a seu bel prazer, enquanto com a mão que estava livre o segurava pelo braço com tanta força que poderia arrancá-lo a qualquer momento.

— Nãããoooo! — gritou o sacerdote quando viu o companheiro abrir a bocarra.

Mu deteve o ataque na iminência da mordida.

Suas presas afiadas chegaram a arranhar a pele na garganta do sumo sacerdote.

Shaka olhava aterrorizado para os olhos negros do Nut que o encaravam com flama. A boca salivava, e da garganta de Mu um rosnado aspirado era ouvido.

Foi a voz do sacerdote que reacendeu a minúscula faísca de consciência que ainda restava ao Nut, e foi se agarrando a ela que ele saltou para longe do Setita embrenhando-se na escuridão do cômodo.

— Eu quase... — disse Mu, a voz gutural e embargada denunciava seu tormento —... Eu...

— Mu... — Shaka levantou-se do chão e de pronto tentou correr até ele.

— NÃO SE APROXIME! EU AINDA QUERO MATÁ-LO, SERÁ QUE NÃO ENTENDE? — o grito fez o outro deter-se ao meio do caminho.

— Não vai me matar... Eu sei... Pensa que vai, mas... Não vai... Por favor...

— Eu não posso... Achei que conseguiria... Não me atormente mais... Não posso.

Em um surto de fúria, Mu agarrou uma das estátuas que haviam ali e a jogou contra Shaka, que vinha em sua direção, em seguida não esperou nem mais um segundo para correr para longe do sacerdote mais uma vez.

— MU! NÃO! VOLTE AQUI! — Shaka desviou facilmente do objeto lançado contra si e partiu atrás do Nut — QUE INFERNO! ATÉ QUANDO VAI FUGIR?

Sabia que o Nut não havia ido longe, apenas se trancara em um dos tantos quartos que havia na propriedade, assim como sabia que não adiantava ir atrás dele, uma vez que Mu lhe rechaçava com seu poder, o impedindo até de se aproximar.

Parado, então, no meio do corredor que dividia as duas alas da mansão, o sumo sacerdote Setita entregou-se a um ataque de fúria, frustrado com toda aquela situação que se repetia.

Chutou moveis, rasgou estofados, parede, telas famosas que ornavam as paredes, até que, emocionalmente perturbado parou.

Percebia Mu ali perto em mesmo estado. O elo sanguíneo que os unia também lhes fazia dividir a mesma aflição, até que, no silêncio repentino que se fizera, ouviu ao longe as notas harmoniosas da canção que Afrodite ainda tocava ao piano.

Continuou alguns minutos ali parado, contemplando calado o luar que derramava seu véu de prata sobre o contorno das janelas e ouvindo a melodia que bailava pela casa.

Sabia que teria que ser paciente e o estava de fato sendo, porém, sentia que faltava em Mu a confiança que sobrava em si. Não bastavam promessas, palavras. Não era com elas que iria convencer o Nut a se arriscar.

Teria que provoca-lo ainda mais, faze-lo cruzar o limite!

Foi pensando em uma maneira de fazer com que a vaidade, o ego e o desejo de Mu se sobressaísse ao medo que uma ideia lhe lampejou nos pensamentos.

Como um vulto funesto que se ergue na penumbra, Shaka apareceu atrás de Afrodite, que sentando na banqueta tocando o piano de olhos fechados não notou sua presença assombrosa de imediato.

Com suavidade, o sacerdote tocou os ombros do garoto que imediatamente abriu os olhos e fitou o vazio daquela sala com um olhar perdido, afastando os dedos das teclas do instrumento no mesmo instante.

Shaka o estava manipulando como de costume, e tal qual um robô pré-programado, Afrodite se levantou da banqueta lentamente e ainda de costas passou a aguardar pelas ordens de seu mestre.

— Desça o bastidor e a tampa da caixa. — sussurrou ao ouvido do sueco enquanto soltava o laço que prendia a túnica egípcia que ele usava pela cintura, o jogando ao chão.

Em seguida, enquanto Afrodite executava a ordem, Shaka enfiava ambas as mãos por debaixo das vestes de linho e puxava para baixo a cueca do músico, até deixa-la escorregar pelos tornozelos.

— Eu vou toma-lo aqui... — segurou nos braços esguios do jovem e os suspendendo retirou a túnica por cima de sua cabeça, o deixando completamente nu —... Em cima do seu piano... E você... — encostou seu corpo ao corpo menor roçando sua ereção robusta nas nádegas delgadas do músico, que mesmo em transe respirava ofegante —... Você vai gritar, e gemer, bem alto... Bem alto!... Porque você vai gostar. Vou te dar o meu sangue, você quer?

— S-sim. — respondeu Afrodite, um tanto vacilante, pois o Setita lhe lambia os ombros enquanto já forçava o membro contra suas nádegas.

Sem esperar mais, Shaka espalmou uma das mãos nas costas do servo e com um empurrão o forçou a debruçar-se sobre a tampa da caixa do piano, então abriu suas pernas e com uma única lambia o lubrificou para sem rodeios penetrá-lo de uma só vez.

— Aaaaaaaaaaaaaahhhh...

Afrodite gritou, como o mestre o havia ordenado, mas também porque Shaka não esperou nem mais um segundo para começar a movimentar-se com vigor, o tomando com impetuosidade.

— Isso, grite... — sussurrava o sacerdote enquanto se arremetia contra o corpo delgado do músico, lambendo e esfregando as presas em seus ombros — Geme... Alto... Para ele ouvir...

Sem aviso cravou suas presas no músculo trapézio do sueco sugando uma pequena quantidade de sangue e fazendo Afrodite delirar.

— Aaaaaaaaaaah... Mestre Shaka!...

O garoto gemia cada vez mal alto.

Shaka então agarrou em seus cabelos e com um puxão forte tombou sua cabeça para o lado para novamente cravar suas presas na carne tenra no servo, agora no pescoço, sentindo como o sangue quente e doce que avivava suas veias fazia seu membro pulsar ainda mais dentro do outro.

— Aaaaah... Delicioso! — o sacerdote também gemia enlouquecido, intercalando sua voz potente com os pequenos gritos e grunhidos de Afrodite e as teclas do piano que produziam notas dissonantes à medida que seus corpos se chocavam contra elas.

Passou a língua pelos lábios rubros e tombando a cabeça do servo para o outro lado novamente o mordeu no pescoço, intensificando o ritmo da penetração e o fazendo gritar e gemer de prazer ainda mais alto, mesmo que estivesse enfeitiçado, tudo no intento verdadeiro de fazer Mu lhes ouvir.

E Mu ouviu.

Há muito tempo o Nut ficava curioso em saber por que Shaka atacava Afrodite sempre que fugia após as carícias que trocava com o sacerdote se intensificarem a um nível que temia perder o controle da Besta, uma vez que encontrava o músico sempre tão machucado que se apiedava e curava suas feridas, já que se culpava pela ira do sumo sacerdote, a qual julgava descontar no servo.

No entanto, dessa vez, além da raiva que sentia emanar do Setita através do elo sanguíneo que partilhavam, ainda que fraco, Mu também sentia uma excitação fora do comum.

Intrigado, e temendo que Shaka estivesse mais uma vez descontando sua frustração no garoto, o Nut abriu a porta do quarto em que se refugiava e seguindo os sons dos gemidos e pequenos gritos cruzou os corredores lentamente em sua direção.

Já de longe podia sentir o corpo vivo do pianista atiçar seus sentidos de forma arrebatadora.

Era como se pudesse ouvir o bombear do coração de Afrodite e seu fluxo sanguíneo dentro de sua mente, fazendo sua pele se eriçar por completo, o suor sanguinolento brotar pelos poros e a saliva escorrer espessa pelos cantos da boca.

Tal qual uma fera que lutava constantemente para conter seus instintos, Mu aproximou-se lentamente da sala, e quando entrou no recinto seus olhos, verdes novamente, jamais esperariam ver a cena que viram.

— Está... copulando... — murmurou em baixo tom, os lábios trêmulos devido ao espanto que aquela cena lhe causou.

Dentro de seu entendimento, Shaka estava copulando com o humano, como já havia visto tanto animais, como humanos, fazerem, mas com outros humanos... Jamais imaginou que vampiros pudessem também copular como o gado, uma vez que vampiros não geravam vida, apenas morte, o que para si tornava o ato inútil.

Sua família o havia mantido ignorante sobre os prazeres sexuais por medo que seu Consumo Conspícuo acabasse por torna-lo um assassino sem controle e estuprador de outros vampiros. Por isso, todo desejo que Mu algum dia sentiu, ele atribuiu estritamente à fome, já que desconhecia outra forma de saciar as vontades do corpo.

A cena lhe era ao mesmo tempo confusa e excitante.

Shaka bebia o sangue do servo enquanto o penetrava e ao perceber que Mu estava ali, ainda com a boca aderida ao pescoço do garoto ergueu seus olhos âmbar faiscantes e o encarou.

Mu apertou os dedos das mãos contra as palmas, cravando as garras poderosas na própria carne, vendo agora Shaka lhe dirigir um olhar selvagem, pleno em malícia, enquanto desferiu algumas estocadas mais fortes contra o corpo menor sob si, que agora, meio débil pela perda de sangue, chacoalhava sobre o piano em ritmo frenético.

O Setita então finalmente largou a jugular do músico e passou a língua pelos dentes e lábios rubros num gesto provocativo a Mu.

— Delicioso! — disse num gemido de forma sarcástica, agora dando trancos violentos no corpo do humano, atento ao semblante perturbado do Nut — Eu... quero... você... assim!

O principal Shaka já havia conseguido. Atraiu Mu até ali e lhe mostrou exatamente o que desejava dele.

O Nut por sua vez, olhava fixamente nos olhos do sumo sacerdote numa espécie de transe lúbrico.

Não podia, e nem se preocupava, em esconder a excitação de seu corpo em ebulição ao vislumbrar a cena, mas junto com a excitação crescente que o tomava, um sentimento intenso de ódio, raiva, ciúmes e inveja também brotava em seu peito, o esmagando, causando uma angústia sem precedentes.

Desejou estar no lugar de Afrodite, aliás, era ele quem deveria estar com Shaka.

Aqueles gemidos deveriam ser proporcionados por si, Shaka era seu, seu sumo sacerdote! E mesmo ele estando ali, diante dos dois, o Setita não interrompia o coito com o humano.

Mu sentiu novamente suas mãos tremerem. O ódio por aqueles dois malditos, por estarem fazendo aquilo que ele almejava fazer e não podia só aumentava, porém agora também sentia ódio de si mesmo, por sua estupidez em não ter percebido antes.

Durante todo aquele tempo era com o humano que Shaka saciava o seu desejo, enquanto ele amargurava.

Foi completamente tomado por esse sentimento atroz que Mu assumiu sua forma bestial e rangendo os dentes, enquanto encarava o sacerdote com olhos ferozes, deixou escapar uma lagrima carmim, que lhe escorreu pesada e amarga pelo rosto cianótico.

Presenciar Shaka lhe trocando por simples gado fora humilhante, sentia-se traído, e através do elo com o Setita o fez tomar conhecimento de toda sua dor.

Com um urro gutural, Mu tentou aplacar a ânsia que sentia em matar aqueles dois, mas antes que ela lhe dominasse por completo, levou as mãos ao rosto contorcido e usando seus poderes se desmaterializou diante dos olhos de Shaka, que de imediato se apartou de Afrodite em aflição.

— MUUUUUUUUUUUUUUU!

O sacerdote correu até o ponto onde Mu estava antes de desaparecer, enquanto Afrodite, agora livre do transe, escorregou pela lateral do piano até se encolher aos pés do instrumento tapando os ouvidos, aterrorizado pelo grito do Nut que para ouvidos humanos era como um brado que premeditava o caos.

Em desespero, pois não sentia a presença de Mu nos arredores da mansão, Shaka correu até seu quarto, vestiu uma túnica branca de linho, passou a mão na capa preta com capuz que usava para ocultar-se de olhos curiosos e deixou a propriedade, guiado apenas pelo tênue laço sanguíneo que tinha com o Nut, o qual por estar ainda mais fraco lhe indicava que Mu estava há bons quilômetros de distancia à sua frente.

E de fato ele estava!

Como usou seu poder de teleporte, Mu agora corria ao saltos, como um felino em plena caça, fora das imediações da capital inglesa. Aprendia com seus erros, e fugira para a área agrícola da cidade.

Aquela não era a forma mais bela de se correr, mas certamente a mais eficaz, já que sua velocidade dobrava quando usava os quatro membros.

O ódio, a frustração, a excitação não o abandonavam, e somado a eles agora a fome bestial também o atormentava.

Precisava de sangue, queria matar, mutilar, devorar! Aplacaria a dor em sua alma da única forma que sabia.

Foi quando estava cruzando um campo de trigo que ficava na região sul de Londres, que viu ao longe um pequeno vilarejo iluminado por luzes festivas em toda sua extensão.

Aquilo lhe pareceu um presente divino! O gato lhe fora entregue em uma bandeja de ouro!

Lentamente acercou-se da área, pé ante pé, e como a morte que ronda silenciosa os vivos a espera de dar o bote derradeiro, rastreou trinta e nove corações pulsantes. Todos reunidos em um só lugar.

A pequena vila pertencia a um povoado de agricultores e contava com doze pequenas casas e um grande salão à Oeste. Era nele que todos os ocupantes do povoado estavam naquela noite para celebrar o casamento de um jovem casal.

Seus ânimos eufóricos e emoções elevadas transfiguravam-se me música aos ouvidos aguçados do predador, que sentia os corações baterem como uma fanfarra cadenciada, o sangue correr como quedas d´água volumosas e o odor convidativo da carne lhe queimar as narinas.

Jovens, adultos, idosos, crianças... Um banquete completo!

Galgou alguns poucos passos até a entrada do salão e quando se viu de frente àquele festim preparou o bote e abateu logo a figura mais ilustre das bodas, a noiva!

O apavoro foi imediato.

Os convivas que ali estavam ainda não haviam tido tempo de realizar o que acontecia quando a cabeça ornada em véu e grinalda da jovem camponesa fora atirada no meio do salão, entre os pés de algumas pessoas que dançavam. Logo, a música deu lugar os gritos.

Mu havia decapitado a noiva com uma só mordida em sua garganta e agora devorava sua carne tal qual um demônio faminto, porém sempre atento às outras presas, as quais agora, em completo terror, gritavam, choravam e corriam desorientadas pelo salão a procura de uma rota de fuga.

Estas, no entanto, não existiam mais, pois Mu lacrara portas e janelas com seu poder, impedindo a qualquer um ali de fugir, deleitando-se com medo que exalava do gado e com os gritos que eram música a seus ouvidos.

Em segundos havia desmembrado e quase devorado por completo a noiva, a reduzindo a uma mancha disforme no chão, envolta por tecido rendando, agora tinto de vermelho.

O noivo fora sua próxima presa, e o coração, que há pouco havia sido conclamado à amada, agora jazia pulsante fora do peito, na mão do Nut, o qual o devorava entre grunhidos e rosnados.

O seguinte fora o padre, e assim, um a um, em uma velocidade sobre-humana, Mu caçava, abatia, esquartejava, mutilava, bebendo o sangue e comendo a carne, saciando sua maldição da maneira que mais lhe convinha, e enquanto fazia isso a cena que vira há pouco na mansão ainda lhe atormentava repetidamente em sua mente.

Agachado em meio à imundície de sangue, vísceras, ossos e toda sorte de sujidades, Mu devorava o pé direito da daminha de honra que se debatia em meio a um choro desesperador, enquanto vivenciava o sorriso malicioso de Shaka ao estocar de maneira tão bruta e excitante o pianista.

Parecia ouvir os gemidos de Afrodite em meio aos gritos da criança que devorava viva.

Irritado, a calou abocanhando sua garganta para em seguida devorar em segundos o resto do corpo.

Todo o ataque não demorou mais que cinco minutos, finalmente inibindo o seu poder ao redor do local.

Nesse curto espaço de tempo, trinta e nove humanos foram mortos violentamente, e Mu, agora apoiado nas mãos e nos pés, como um animal carniceiro chafurdava entre as vísceras de um dos padrinhos quando a porta do salão se abriu.

No mesmo instante Mu colocou-se em posição de defesa e ainda acocorado no chão sibilou para o intruso em sinal de que não aprovava sua presença ali, mas sem vacilar o visitante deu um passo à frente avançando lentamente, deixando clara sua intenção em não voltar para trás.

— Vá embora, Shaka. — vociferou contra o sumo sacerdote, sibilando como um felino em seguida .

Normalmente sentiria vergonha em ser visto naquele estado, mas seu frenesi feral lhe privava de qualquer recato, e não era o embaraço de ser visto em meio aquela imundice que o incomodava, mas o anseio em tornar Shaka mais uma de suas presas.

Olhava para ele sedento, ávido por mais sangue e também por sexo, mas ainda furioso por sentir-se traído.

— Eu não vou embora. — respondeu o sacerdote com firmeza na voz.

Shaka sabia que brincava com fogo, mas tinha plena consciência de que se quisesse passar a eternidade ao lado daquele Nut teria que encontrar um meio de acabar com o impasse que os tolhia, e foi justamente pensando nisso que deu outro passo à frente.

Os músculos do rosto de Mu se contrapunham à inércia de seu corpo, tremelicavam, contraiam, enquanto ele não mexia um só dedo, observando o Setita se aproximar analisando cada passo.

O sangue em poças no chão escorregava entre os dedos descalços de Shaka e tingiam seus pés de vermelho, enquanto seus olhos âmbar se mantinham fixos às íris purpuras envoltas em trevas do Nut.

Passo a passo, lentamente, e em silêncio, o sacerdote seguia entre os corpos mutilados, ou apenas o que havia restado deles, enquanto abria sua capa negra e a deixava escorregar pelo corpo até jazer ao chão.

No passo seguinte Shaka desceu as alças de sua túnica a deixando deslizar também até o chão, revelando seu corpo nu aos olhos lascivos do Nut, numa demonstração explícita do que buscava ali.

Mu correu seus olhos indômitos por todo o belo corpo do sacerdote, deixando que o instinto sexual agora se sobressaísse ao da violência e então, movendo-se quase que em câmera lenta caminhou aos quatro membros na direção de Shaka, sibilando e franzindo o nariz como se o farejasse, e quando o Setita menos esperava Mu saltou sobre ele entrelaçando as pernas em sua cintura.

Shaka deu um passo para trás, equilibrando-se, e na mesma hora envolveu o corpo do outro com os braços, deslizando as mãos pelas costas de Mu até suas nádegas, onde as apoiou apertando aquela carne deliciosamente firme e agora quente novamente, com força e desejo.

Mu por sua vez, segurou o rosto do sacerdote com ambas as mãos, deixando que suas garras pontiagudas arranhassem a nuca de Shaka enquanto tomava sua boca num beijo tão aflito e exigente que chegava a ferir os lábios do Setita, sentindo o sabor do sangue dele se misturar ao de suas vitimas fomentando sua cobiça ainda mais.

— Você vai acabar morto, sumo sacerdote. — o Nut lambeu os lábios do companheiro, enquanto puxava seus cabelos dourados pela nuca.

— Eu morrerei se não puder ter você. — pontuou como uma promessa, sustentando o corpo de Mu preso ao seu.

— Eu acho que irá morrer de qualquer forma... — outro sussurro e outra lambida, agora no pescoço —... Mas antes que você morra você vai copular comigo! Igual fez com o gado. Faça! Agora!

Mu não pedia, ordenada.

Seu tom de voz era diferente de antes, era selvagem, gutural.

Já muito excitado o Nut se remexia sustentado pelo Setita, maculando sua pele de vermelho, esfregando seu membro rijo contra o abdome dele, enlouquecendo Shaka que não tinha mais condição de ponderar nada, e que, por isso mesmo, dobrou os joelhos os apoiando no chão e colocou Mu sentado sobre suas coxas, novamente tomando sua boca com um beijo ansioso.

O odor do Nut lhe era enlouquecedor e parecia fazer todo seu interior urrar de desejo!

De súbito, interrompeu o beijo para segurar nos ombros de Mu e empurra-lo para baixo, o fazendo se deitar de costas em meio às vísceras e membros mutilados da chacina, então encaixou-se entre suas pernas abertas e o segurando pela cintura o puxou de encontro a si, delirante com a visão do outro deitado sobre todo aquele sangue.

Lindo como nunca!

Curvando-se para baixo, Shaka tomou o membro excitado do amante em sua mão e lambeu algumas vezes enquanto o estimulava.

Seus olhos pareciam duas fogueiras incandescentes alimentadas por um êxtase desmedido, e foi com esse olhar abrasador fixo aos olhos de Mu, os quais esbanjavam luxuria, que Shaka escorregou a mão por entra as nádegas firmes do Nut e o tocou, ouvindo pequenos arquejos que escapavam de sua garganta.

Estimulando o amante, o sacerdote o conduzia a um nível de excitação do qual sabia que ele não seria mais capaz de declinar, então quando sentiu o corpo do outro já mais receptivo, segurou em seu membro e o posicionando forçou a penetração, que de início foi lenta, introduzindo-se aos poucos no corpo febril do amante que instintivamente se contraiu ao sentir-se invadido, fazendo uma careta de dor que forçou Shaka a deter seus movimentos.

— Não! — rosnou Mu ao agarrar os braços do sacerdote com urgência — Não pare. Copule comigo, sumo sacerdote!

Atiçado por aquele pedido, Shaka suspendeu uma das pernas de Mu a apoiando em seu ombro e projetou com furor seu quadril para frente, chocando-se contra o corpo do amado, que gemeu dolorosamente.

— Aaaaah! — Mu cerrou os olhos e cravou as garras nos braços do sacerdote, sentindo o membro invasor pulsar dentro de si.

Doía, muito! Mas também havia uma sensação nova, de prazer e acolhimento, já que sentia o corpo do sacerdote em uma cadência perfeita com o seu, como se estivessem de fato se fundindo um ao outro.

Shaka ia ao delírio com a expressão de agonia no rosto ensanguentado do Nut, enquanto sentia-se ser deliciosamente pressionado pelo corpo arquejante em meio às vísceras.

— Ah!... Mu! — gemeu o Setita quando começou a movimentar-se de forma mais vigorosa, penetrando-o bem fundo, invadindo o outro até onde conseguia para depois quase sair dele por completo e novamente investir, com mais força, com maior velocidade, até que seus corpos estivessem se chocando ruidosamente num ritmo frenético.

Possuído por uma ânsia impar, Shaka ergueu também a outra perna de Mu, agora apoiando ambas em seus ombros para encaixar-se melhor ao corpo dele, que também se remexia e respondia de forma instintiva, soltando gemidos nada contidos.

O sacerdote debruçou-se sobre o amado e agora, enquanto o estocava com fúria, grunhindo e rosnando como um animal selvagem, também lambia o sangue sobre sua pele, roçando suas presas enormes no peito, ombro, pescoço e queixo de Mu.

— Você é meu!... Aaaaah!... Meu! — dizia Shaka entre gemidos e rosnados.

— Aaaah... Não... Você é meu... Aaaaahhhh... Meu sumo... sacerdote... — Mu sussurrou em resposta, delirante.

A penetração se intensificava ainda mais. Após a resistência inicial Mu sentia seu corpo responder melhor aquele estímulo tão prazeroso e erguia seu quadril empurrando-se contra o de Shaka para sentir ao máximo que podia as estocadas vigorosas, gemendo junto com o ele de forma enlouquecida, ansiando por mais prazer a cada movimento.

Literalmente nadavam sobre uma piscina sanguinolenta, com restos mortais que grudavam em suas peles, cabelos, unhas, boca, unindo o prazer sexual ao do líquido que para eles era a razão de suas existências, levando a ambos a um estado de transe primitivo que nem mesmo Shaka, em toda sua experiência, havia sentido antes.

Mas, quando Mu achou que não podia sentir prazer maior que aquele, eis que Shaka o surpreendeu levando uma das mãos em seus cabelos encharcados e com um puxão forte virar sua cabeça para o lado.

Não teve tempo algum de pressentir o que viria, pois antes mesmo que pudesse reagir sentiu as presas afiadas do sacerdote lhe rasgarem a carne do pescoço, enterrando-se profundamente em sua jugular.

O sangue poderoso, quente, escuro e espesso do Nut descia em jatos garganta abaixo do Setita, dando a ele uma experiência tão fascinante quanto reveladora.

O êxtase do beijo vampírico era tão intenso que as presas do Setita no pescoço do Nut foram como atirar gasolina em uma fogueira já ardendo em chamas!

Imediatamente, Mu sentiu todo seu corpo ser tomado por um comichão arrebatador o fazendo arregalar os olhos.

Seu sangue era sugado vorazmente e a Besta agora despertara em defesa!

O Nut perdera todo e qualquer controle que conseguia manter ainda sobre o demônio dentro de si e foi com um grito selvagem e bestial que alertou Shaka.

— Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah! Nããoooo!

Contudo, quando o sacerdote enfim saiu do transe e pensou em largar o pescoço do Nut, ele foi mais rápido e o impediu.

Agarrando em seus braços, Mu inverteu as posições em que estavam girando rapidamente e se colocando sobre Shaka, sentado sobre seu quadril, o pressionando contra o chão imundo.

Completamente fora de si o Nut abriu a bocarra e cravou todos seus dentes na curva do pescoço do Setita, numa mordida profunda e extremamente dolorosa, a qual fez com que o sacerdote soltasse um gemido de dor estrangulado, já que aquilo não fora um beijo vampírico e sim uma mordida violenta e sem piedade.

O sangue viscoso brotava na boca de Mu como água que jorra de uma fonte, causando no Nut um frenesi nunca antes experimentado, ao passo que Shaka agora delirava também de prazer ao sentir seu sangue sendo sugado pelo outro apesar da dor intensa causada devido à selvageria do amante.

Rapidamente, e quase em desespero, sem no entanto largar a garganta do Setita, Mu conduziu uma das mãos ao membro de Shaka e o posicionando novamente o reintroduziu em si mesmo ao sentar-se com força sobre ele.

Agora era ele a ditar o ritmo da penetração, enquanto sugava o sangue do sacerdote com voracidade, os olhos arregalados, delirando com o sabor do líquido grosso e pegajoso, sem parar, nem por um instante que fosse, de cavalgar deliciosamente sobre o quadril do amante.

Havia se tornado a fera sexual irracional que a família tanto temia, mergulhado em ondas de prazer, entregue à insanidade luxuriosa que o tomava.

Tudo acontecia muito rápido, frações de segundos, e percebendo que Mu entrara em frenesi irracional, Shaka lhe sentia ceifar toda a vitalidade golada à golada, numa velocidade absurda. Seu corpo já dava sinais de debilidade, sendo chacoalhado facilmente pela fera em cima de si, a qual tinha plena consciência, naquele estágio, ser impossível livrar-se.

Shaka agora sabia que quando Mu provou seu sangue não mais o largaria até esvaí-lo por completo. O Consumo Conspícuo era implacável e indomável!

Mu só o largaria quando tivesse roído todos os seus ossos!

— M- MU!... Não!... Pare... Pareeeeee! Já basta!

Em desespero, o sacerdote sussurrava, pois sua voz já fraquejava, e tentava de toda forma livrar-se do demônio que o consumia, fosse procurando se debater, ou cravando as garras nas coxas de Mu na tentativa de interromper a cavalgada frenética, na ânsia de fazer o outro tomar consciência de que apesar do prazer que sentia, o estava matando.

Mas, Mu apenas respondia com mais rosnados guturais e chiados animalescos, incorporado pela Besta que ansiava por mais! Mais sangue! Mais sexo! Mais prazer!

Shaka sentiu sua fé estremecer. Estivera errado o tempo todo? Mu não era para ser seu? Seu companheiro? Sentira que tinha encontrado finalmente quem mais procurava e não podia estar tão enganado.

Foi quando, não vendo outra alternativa e agindo por instinto de sobrevivência, Shaka, como pode, esticou a cabeça mais para o lado e com um esforço sobre-humano abocanhou com força o lado oposto do pescoço de Mu, sugando o sangue dele em desespero na gana de manter-se vivo e recuperar a vitalidade que Mu lhe arrancava golada por golada.

Assim, de forma ativa, ambos sugavam um ao outro, bebendo vorazmente o líquido vital de modo a formar um circuito fechado consanguíneo, onde a sucção bombeava instantaneamente o sangue de um para o outro o fazendo correr por veias e artérias de ambos, de forma única.

Nesse momento algo que ambos não esperavam aconteceu.

Com a troca sanguínea em velocidade e quantidade absurdas, as memorias e lembranças também fluía de um para o outro.

Era normal haver uma pequena troca de informações quando se bebe o sangue de outro filho da noite, mas ali não foi apenas um pouco e sim todo o volume.

Enquanto um bebia do outro, simultaneamente um filme com o resumo das memorias de suas pós-vidas passava na mente de ambos, e assim, como um cataclismo não anunciado, Shaka finalmente descobriu o segredo de Mu.

***

“Seth! Seth! Seth! Seth! Seth!”

O coro de milhares de vozes era entoado em uníssono e ecoava pelo vale do Nilo com a força de sua crença.

Uma multidão se ajoelhava perante o trono de ouro do Imperador do Antigo Egito, que todo adornado em joias e vestes cerimoniais recebia as libações oferecidas pelos sacerdotes apenas em sinal de respeito à sua devoção, já que seu alimento preferia ele mesmo caçar.

A seu lado, Bastet, sua irmã, lhe sorria.

Soube que era ela pelo brasão com a figura de um felino em seu colar.

O gado então se levantou ao final da entrega dos sacrifícios e voltaram a bradar:

“Seth! Seth! Seth! Seth!”

A visão se esvaeceu dissipada por uma tempestade de areia repentina, mas, a mesma areia que a levara embora logo trouxera outra.

Agora ele estava sentado sobre um dique à beira do Nilo.

A noite era calma e ele observava a lua enquanto molhava os pés na água translucida.

Osíris se aproximou e tocou em seu ombro.

Soube que era ele pelo pássaro tatuado nas costas e o cajado em punho.

— Venha Seth! Logo vai amanhecer. Bastet já lhe preparou o banho... Você está muito mimado! Setecentos e oitenta anos e ainda não se lava sozinho!

Seth sorriu, e com um salto colocou-se ao lado do irmão.

Soube que era ele, pois aquele era Mu!

— Primeiro, pare de me chamar de Seth, Shion! É muito formal. Deixe isso para o gado. — disse o Nut apoiando-se ao ombro do irmão — Estamos sozinhos. Me chame apenas de Mu. Segundo, sabe que não faço questão alguma de aprender a me lavar sozinho. — riu divertido — Adoro quando me ajudam... Principalmente aquela massagem na cabeça que a Yuzuriha faz! Hum!

Mais uma vez a cena se desfez repentinamente, borrada por um tufão de areias revoltas, e quando aquele ciclone se dissipou a figura altiva de Mu ressurgiu, agora trajando uma armadura dourada de batalha.

Atrás dele, um exército a perder de vista.

O contingente de homens armados e inflamados pelo calor da batalha que se anunciava batiam as lanças em seus escudos produzindo um estampido retumbante que ecoava entre as dunas de areia.

De súbito, as areias revoltas não lhe deixavam ver com exatidão o que acontecia, quando num relance enxergou os cabelos cor de lavanda de Mu cruzarem a delimitação imposta pelo contingente inimigo e ele atacar, sozinho, centenas, milhares de soldados armados, os dizimando em segundos, um a um.

A batalha havia sido ganha, e agora seus soldados se ajoelhavam à sua volta.

Não conseguia ver seu rosto, pois estava de costas, e ele parecia bem maior do que de fato era, mas ali estava Mu, ou melhor, ali estava o deus do caos e da guerra.

“— SALVE SETH! O SENHOR DO CAOS E DA GUERRA! O SENHOR DE TODO O EGITO! A DESTRUIÇÃO! SALVE SETH, NOSSO DEUS!”

“— SETH! SETH! SETH!”

***

E assim, em alta velocidade, Shaka vivenciava cena após cena.

Não somente o passado revelador de glórias e conquistas de ninguém menos que seu deus de devoção, mas também nuances e passagens que para Mu deveriam ser memórias agradáveis, já que ainda habitavam suas lembranças.

Como uma represa que se rompe despejando suas águas furiosas em uma velocidade incrível, varrendo tudo pela frente, assim Shaka via o Egito antigo e a influência de Seth sobre ele, a adoração do povo, a devoção dos súditos, as lendas...

Mu em contrapartida, via Shaka em meio a papiros e pergaminhos das bibliotecas antigas as quais frequentava, estudando, analisando, construindo sua fé e aprendendo o ofício de sacerdote de Seth.

O Nut vivenciou também as inúmeras tentativas frustradas do arqueólogo em encontrar seu deus, a amizade com Camus, os inúmeros amantes, tanto humanos quanto imortais... E como estavam em raro momento de troca sanguínea, Mu não apenas via, mas tinha uma experiência sinestésica, sentindo tanto os prazeres experimentados pelo sacerdote durante sua vida, quanto a solidão que habitava sua alma em sua pós vida.

Tudo era rápido e intenso demais.

Ambos estavam em frenesi e as emoções eram vividas em sua plenitude.

Não só trocavam informações, vivencias, mas também mesclaram suas essências ao fazerem o sangue circular por ambos os corpos.

Shaka bebia o Nut com tanto furor que sua fisiologia vampírica começava a dar sinais dessa troca, uma vez que o sangue de Seth continha todo seu poder, o qual agora era transmitido ao sacerdote.

Gradativamente sua pele ia ganhando um tom azulado nos mesmos pontos onde costumava se pintar para os rituais de seu clã, na parte superior dos olhos, testa, têmporas, ombros e pontas dos dedos das mãos.

Sua geração regredia rapidamente, conforme tornava-se mais poderoso, mas de longe era isso que mantinha o Setita ali, atracado ao pescoço do Nut.

Sentia-se preso a Mu, subjugado, cativo.

Seu corpo sofria espasmos e seu raciocínio não conseguia mais suprimir seu instinto.

Assim, quando o êxtase que ambos sentiam devido a troca sanguínea, as vivencias e a intensidade do coito atingiu um nível absurdamente sublime, explodiram ambos em um orgasmo compartilhado que só os imortais podiam experimentar.

Mesmo já tendo feito sexo com outros vampiros, Shaka nem de longe estava preparado para aquilo.

Era forte demais, intenso demais!

O laço de sangue entre eles agora os ligava de tal forma que ambos estavam arrebatados.

As pupilas muito dilatadas, o corpo quase em convulsão, cada célula, cada receptor neural, musculo, ossos, pele recebia descargas elétricas intensas que geravam nos dois contrações e espasmos do prazer mais sublime possível.

Mu urrava extasiado e Shaka gemia em resposta.

Após instantes de puro arrebatamento, finalmente parecia que o mundo havia parado de soltar fogos de artifícios e conseguiram ter um mínimo de raciocínio.

Percebendo que ainda estavam conectados tanto pelo sexo como pelas mordidas, Mu, sentindo pela primeira vez a letargia e cansaço pós-sexo, fez um esforço tremendo e conseguiu enfim se afastar do sacerdote, porém não sem antes lhe dar uma generosa e tão almejada mordida no flanco, arrancando um naco suculento de carne que fez Shaka soltar um grito longo de dor.

Trêmulo, mas completamente arrebatado pela experiência, Mu se deixou cair sobre o amante, sem forças, enquanto mastigava lentamente a saborosa carne do Setita.

— Hum... Eu sabia! Eu sabia que você era saboroso. — sussurrou o Nut depois de engolir, em estado de graça por sua primeira experiência sexual — Eu quero mais! — riu, aconchegando-se mais ao sacerdote, sentindo-se pleno de alegria.

Já Shaka não podia dizer o mesmo.

Não que a experiência não tivesse sido sublime, pelo contrário. Foi a melhor e mais intensa relação que pudesse ter com qualquer ser que habitasse a Terra. Mas, nem todo o prazer e o arrebatamento daquele momento podiam ser maiores que o assombro da revelação que acabara de ter.

Mu era Seth!

Seth, seu deus!

O mesmo que tanto procurara.

O mesmo para quem tanto orara, a quem tanto chamara em preces e pedira por seu retorno.

Ali, na sua frente, de carne e osso!

Shaka ainda vacilante olhava para Mu mastigando sua carne com os olhos arregalados, em completo assombro.

Como pode ser tão cego? Como pode não perceber?

Mu era tão diferente de Seth!

Ou não?

Shaka sentiu-se pequeno, pois tudo em Mu remetia à Seth das lendas, mesmo que muito de sua história ele só tivera visto agora, através do elo de sangue.

Ver Mu comendo sua carne era como ver um demônio caótico que vivia apenas para satisfazer a suas próprias vontades.

Um espírito sem amarras.

Um deus sem limites.

Mas aquele era mesmo Seth. Seu deus!

Além de não o reconhecer quando o despertara, acabara de fazer sexo com ele, havia o tomado de forma profana e trocado todo seu sangue com o dele realizando um elo raro entre os imortais e ligando suas pós-vidas para sempre.

Em choque, o sumo sacerdote apoiou ambas as mãos no chão e aos poucos, trêmulo e atarantado, arrastou-se para trás, afastando-se de Mu enquanto o olhava com horror e assombro.

— Você... Você... é Seth... Você é Seth! — vociferou de maneira alucinada, enquanto lagrimas escarlates tingiam ainda mais seu rosto já muito sujo por todo aquele universo de sangue e morte onde eles selaram seus destinos.

Mu nesse memento ergueu a cabeça e com os olhos negros arregalados, ainda muito extasiados, encarou o sacerdote, somente agora tomando consciência do que acontecia, pois se ele havia visto as memorias de Shaka, o sacerdote também havia visto as suas!

— Seth!... Não! Não posso acreditar! Eu... — o loiro balançava a cabeça negativamente — Eu... Como posso não o ter reconhecido? Como? O meu deus?... Você pode se ocultar como quiser... De quem você quiser... mas, não de mim! Eu... Eu deveria... Eu... tinha a OBRIGAÇÃO de reconhece-lo!

— Shaka! — Mu agora reunia forças para recuperar sua consciência plenamente — Acalme-se, por favor! — pediu angustiado.

— Eu o desejei de forma profana. Eu... Eu sou... O sumo sacerdote...

— Meu sumo sacerdote!

Mu rosnava olhando para ele como uma fera espreita a presa.

Não de proposito, pois sua forma bestial em si já o fazia de maneira natural, e quando o Nut fez menção em se aproximar, Shaka, em desespero e completa confusão, se levantou do chão num salto, meio trôpego e cambaleante, tanto pela exasperação que sentia, quanto pela angustia de ter Seth ali, diante de si, em uma situação jamais imaginada para o momento em que descobrisse seu deus.

— NÃO!... NÃO SE APROXIME! — bradou tomando em aflição, depois esfregando o rosto tinto de vermelho — Eu jamais deveria tocá-lo... Jamais deveria... Você é sagrado!

— Não fuja de mim! Você é meu sacerdote, e a quem eu tanto amo! — Mu dizia olhando nos olhos de Shaka, tentando arduamente acalmar sua forma bestial e voltar ao normal, mas falhando miseravelmente, uma vez que todo aquele sangue apenas o instigava cada vez mais.

— Não diga isso! Não! — o pranto sofrido do Setita assustava o Nut, que novamente ensaiou uma aproximação.

— Por favor, não me rejeite, Shaka. — arrastava-se entre as víscera no chão — Veja! Você estava certo, meu amado! O tempo todo você estava certo. Eu consegui! Eu consegui Shaka! Eu não o matei. Eu consegui amar você plenamente... — Mu dizia com um sorriso genuíno no rosto selvagem.

Não ter matado o sacerdote era uma vitória tão grande que sentia regozijar por dentro. Tinha plena consciência de que fora seu amor por Shaka que o salvara, apenas isso e nada mais nada.

O problema é que agora o elo sanguíneo entre eles era tão forte que Mu sentia as emoções de Shaka tão vívidas quanto as suas, e com elas pode sentir toda a tristeza, medo, confusão e assombro que assolavam a alma do sacerdote.

— Por que... Está tão triste? — perguntou o Nut que arrebatado pela tristeza do outro agora também tinha os olhos marejados e a garganta embargada — Não se afaste de mim... Não tenha medo, nada mudou!... Não vou ferir você, eu juro, apenas não me rejeite, Shaka, por favor!

O inusitado acontecia ali.

Seth, o deus, era quem se ajoelhava perante seu sumo sacerdote, rogando ser amado, aceito.

Em choque, Shaka olhava para Seth, que suplicante avançava lentamente, trêmulo, e de joelhos, enquanto ele continuava se afastando com passos cambaleantes para trás.

Contudo não era o fato de Shaka não saber como lidar com aquela situação o que mais assustava o sacerdote Setita, mas sim a consciência do amor que sentia por Mu.

Um amor que surgira forte no mesmo dia em que o trouxera para sua casa. O mesmo amor que o fazia lamber o sangue de suas vitimas somente para poder tocar seu corpo... Um amor que o fez desejar partilhar com Mu tudo aquilo que considerava belo e extraordinário.

Shaka amava Mu, e Mu era Seth!

Quando se viu nesse dilema, o sumo sacerdote também se pegou cometendo um pecado bárbaro.

Não amava seu deus como um devoto deve amar, mas sim como um vampiro, que um dia já foi um homem, ama a outro, com paixão humana e desejo!

O amor do sumo sacerdote Shaka pelo seu deus Seth não tinha nada de sublime.

Não era alimentado por devoção, tampouco por adoração.

Seu amor era carnal e possessivo.

Queria Mu para si e somente para si.

Mas como poderia clamar um deus que deveria ser de todo o seu clã, como sua propriedade?

Atormentado por esse dilema e não conseguindo identificar qual seu papel nesse destino complexo, Shaka olhou novamente para Mu com os olhos mergulhados em poças sanguinolentas e se afastando dele caminhou de costas em direção à saída, sem quebrar o contato visual.

— Seth... Era eu que deveria estar de joelhos dobrados perante você... Eu... Não sei mais qual é minha missão... Nesse mundo...

Sem nenhuma pressa, Shaka baixou a cabeça, olhou para o chão, virou-se de costas para Mu e abriu a pequena porta de madeira que selava aquele salão amaldiçoado pela morte, deixando o local e a fechando atrás de si.

***

Notas finais
Bom vamos a algumas observações: Porque diabos mu nunca pensou em transar? Simples.. porque ele tambem não pensou em comer comida, em ir ao banheiro,em tomar remedio! Pra ele sexo era coisa de seres vivos, foi isso que sua familia lhe disse, e por isso pra ele era inutil. Mas ele não tinha tesão? Tinha, mas achava que aquele desejo enorme dentro de si era fome, por isso ele confunde o tesão com fome...a vontade de transar com Shaka, de morde-lo e ter prazer, ele acha que é vontade de comer ele...de se alimentar, simplesmente porque não entendia o que acontecia com o corpo. Mu e Shaka agora possuem um elo praticamente eterno de sangue, eles fizeram uma troca tão intensa que os uniu de forma que podem até ler os pensamentos um do outro, precisam apenas se acostumar a isso. Se alguém tiver alguma duvida por favor pode por nos comentários que nós respondemos. O próximo capítulo está quase pronto então não ira demorar.