A Máscara de Seth
12 Capítulo 12
Notas iniciais

Mu acompanhou com os olhos vidrados Shaka deixar o salão e fechar a porta atrás de si.
Seu abalo era tamanho que o tornava incapaz de mover um músculo sequer.
Sentindo-se rejeitado e ainda em choque, não impediu o sacerdote e tampouco foi atrás, uma vez que reconhecia-se culpado de todo o mal que a verdade causara a Shaka.
Ainda ajoelhado naquele cenário dantesco, coberto em sangue e envolto por membros mutilados, Mu sentia seu coração comprimido dentro do peito. A culpa lhe causava desconforto físico, dor.
Talvez se tivesse tido coragem e se relevado antes...
No entendo, era justamente o temor por uma reação como aquela do sacerdote que fez o Nut se calar, omitir a verdade. Não queria perdê-lo.
Toda a alegria que experimentava momentos antes, o regozijo de ter conseguido consumar seu amor pelo Setita sem dar cabo de sua vida, agora se transfigurava em tormento, culpa e temor.
Shaka tornara-se a primeira criatura na história dos imortais a sobreviver ao Consumo Conspícuo, o que deixava Mu exaltado, admirado, e com a plena certeza de que o destino juntara o sacerdote a si, porém agora tudo lhe parecia arruinado.
Sua única razão de existir no novo mundo havia deixado aquele salão aterrorizado, e se Shaka não o quisesse mais, não via razão para continuar existindo naquela era.
Baixou a cabeça e levou ambas as mãos ao rosto, escorregando seus dedos longos pelo couro cabeludo os emaranhando nos cabelos imundos e encharcados, dando puxões, em completo desespero, enquanto pranteava o abandono e fuga de seu amado sumo sacerdote.
***
Do lado de fora, Shaka, em meio a sua confusão, sentia a brisa da noite tocar seu rosto, e então fechou os olhos.
Alguns fios do longo cabelo dourado serpenteavam pelo ar embalado pelo vendo, mas grande parte permanecia colada em seu corpo nu banhado em sangue.
A ferida aberta no flanco já estava quase que completamente regenerada, pois agora seus poderes primordiais eram triplicados.
Olhou para trás, para a porta fechada, e imaginou Mu lá dentro daquele salão sozinho. Não apenas imaginava, mas também sentia! O laço de sangue que os única agora era poderosíssimo.
— Seth... — sussurrou perturbado, com voz trêmula e angustiada.
Sentiu raiva, tristeza, medo...
Muito mais medo do que qualquer outra coisa.
O que diria aos Seguidores de Seth, seu clã?
Passara dois mil e quinhentos anos procurando o deus deles, para no fim clamá-lo como somente seu!
Sentia-se sujo, desleal, leviano, imprudente, herético.
Deveria estar naquela sala se curvando a seu deus e colocando sua vida em suas mãos, mas lhe virara as costas.
Renegara a Seth e a sua fé.
Ao sentir pelo elo a dor e tristeza de Mu atrás daquela porta, teve um rompante de desespero e começou a caminhar pela grama a passos lentos, enquanto um choro compulsivo o acometia.
Conforme sua ira crescia, seus passos se tornavam mais rápidos, e mais rápidos, até que se viu correndo como um bicho arisco e ferido, em meio aos campos de trigo e plantações adjacentes, dizimando o que visse pela frente com suas garras.
Queria achar um jeito de externar sua frustração e destilar toda aquela raiva, e o encontrou através da morte.
Cada vaca, bezerro, cavalo ou ovelha que achasse pelo caminho era dividido ao meio com um só golpe de suas garras poderosas, enquanto um rosnado voraz de fúria e frustração irrompia pela noite.
Sem perceber já tinha corrido por muitos quilômetros e saído totalmente do perímetro londrino, chegando próximo à fronteira de Canterbury, a poucos quilômetros do Canal da Mancha, bem distante de seu território.
Em sua mente, um pensamento o guiava para o mais profundo dos poços.
Despertara Seth, o deus de seu clã e não se curvara perante ele, como também o forçara a provar de sua paixão humana, carnal, mesquinha e egoísta.
Estava tão perturbado pela revelação recente que não notara estar sendo seguido!
Contudo, mesmo que estivesse gozando de seus plenos sentidos, agora ainda mais aguçados, mesmo que sua consciência estivesse em alerta, não seria capaz de perceber, a tempo, seu algoz, já que se tratava de um filho de Haquim, do temido e odiado clã de mercenários, os Assamitas!
Shaka estava sendo caçado!
E quando um alvo percebe que está sendo caçado por um Assamita, já é tarde demais!
Uma ordem de assassinos com sede de sangue que cobra sua paga justamente com o elixir precioso da vida, uma vez que não se alimentam do sangue do gado, mas do sangue imortal, uma prática hedionda que os permitiu desenvolver poderes além da compreensão de qualquer vampiro, já que ao consumir outros de sua espécie seus dons eram apurados a níveis inimagináveis, além de seu sangue tornar-se um veneno mortal a qualquer filho da noite que com ele tenha contato.
Exatamente por esse motivo, por serem considerados canibais, os Assamitas foram banidos do Conselho, vivendo à margem da Sociedade vampírica e operando nas guerras secretas dos imortais.
Assim sendo, os olhos que seguiam Shaka na noite não eram quaisquer olhos, eram os olhos peritos e habilidosos de um caçador nato, os olhos sujos e inescrupulosos de um Assamita, capazes de tornar alvo fácil até mesmo um vampiro poderosíssimo como o sumo sacerdote dos Seguidores de Seth.
Aquele “encontro”, no entanto, estava longe de ser apenas um encontro casual.
Shaka já estava sendo seguido pelo caçador mercenário há alguns dias, mas como todo bom espreitador, o assassino aguardara o momento exato de acuar e atacar sua presa, e foi exatamente ali, naquele momento, longe do perímetro londrino, longe de seus Seguidores, longe do misterioso vampiro que o acompanhava há semanas, e enfim sozinho, que o sagaz caçador encontrou o momento perfeito para o bote.
Quando Shaka se viu na trilha de Wye Valley, às margens do rio que corta a pequena cidade de Chepstow, ele parou.
Atordoando, e com o olhar perdido, vislumbrava a paisagem bucólica das grandes planícies e campos que abasteciam a agricultura local e que formavam um carpete verde, banhado pelo luar, o qual calçava a cadeia de montanhas ao horizonte.
Naquela contemplação percebeu-se muito distante de casa, de seu porto seguro, e imediatamente pensou em voltar, mesmo que não quisesse encontrar com Mu tão cedo, mas tinha consciência de que era extremamente perigoso estar tão longe e sozinho em campo aberto.
Todavia, quando Shaka deu um passo para trás, pensando em recuar já era tarde.
O Seguidor de Seth, ao virar-se para retomar a trilha e iniciar o caminho de volta sentiu o mundo mergulhado em um silêncio de morte.
De repente, o vento não zunia mais em seus ouvidos. Também o som do gado próximo a si, da água corrente, dos insetos e feras notívagas, tudo desaparecera em uma fração de segundos.
Imediatamente soube que estava sendo atacado! E por quem!
Conhecia aquele poder e assim como todos, o temia.
Junto com a constatação, porém, veio a reação instantânea.
Mesmo estonteado, já que a perda do sentido lhe causava uma desorientação desmedida, o sacerdote atirou-se de joelhos ao chão e seguindo seus instintos de sobrevivência espalmou ambas as mãos no solo úmido, sentindo, ainda que fraca, uma pequena vibração na terra de passos que se aproximavam numa velocidade prodigiosa.
Sem saber para onde correr ou o que atacar, apenas se orientando pela vibração no solo, Shaka esperou os passos da criatura que o caçava se aproximarem, e quando o solo deixou de vibrar, deu um salto para trás e livrou-se de ter as mãos decepadas por uma cimitarra de lâmina afiadíssima, a qual cortou o ar e cravou-se no chão.
Mesmo atordoado, Shaka se firmou ao solo em posição de guarda e finalmente pode olhar para o rosto de seu perseguidor.
O que viu quase fez seu coração sem vida bater com força novamente!
— Como eu imaginei... — falou, mesmo que o som não lhe saísse dos lábios.
Estreitou os olhos e rangeu os dentes ao olhar para a figura à sua frente que vestida totalmente em negro confundia-se com as sombras projetadas pela noite.
Um colete de couro abrigava toda sorte de armas pontiagudas, entre elas adagas e punhais cujas lâminas haviam sido banhadas pelo sangue venenoso Assamita. A cimitarra, agora também suja de terra, era ajeitada na mão calçada por luvas, e o rosto estava encoberto por um Shemagh, um lenço preto com desenhos quadriculados em vermelho, muito usado pelo povo do Oriente Médio, que lhe deixava apenas os olhos, totalmente negros, de fora.
O caçador endireitou sua postura e puxou para baixo a parte do lenço que lhe cobria a bocarra enorme, expondo seus poderosos dentes de aparência hedionda e tom amarelado, alguns deles apodrecidos.
A pele tinha um tom cianótico forte e seus olhos negros afundavam nas cavidades arroxeadas das pronunciadas olheiras.
Era uma criatura amaldiçoada, tanto pelas eras quando pelo hábito hediondo do canibalismo.
Então, o Assamita, num movimento lento e provocativo, passou a língua enegrecida e viscosa pelos dentes pontiagudos daquela boca horrenda, enquanto abria os dois braços em paralelo.
Em uma mão segurava a cimitarra, na outra agora uma adaga moura de cabo dourado.
Sem tirar os olhos de Shaka, que o observava meio que paralisado, pois qualquer encontro fortuito com um Assamita era pressagio certo de morte, o caçador passou lentamente a lâmina da cimitarra sobre a própria língua, quase a partindo em dois, fazendo o sangue negro altamente venenoso escorrer por pelo fio em sua completa extensão.
Repetiu o ato com a lâmina da adaga, prenunciando ao sacerdote o que estaria por vir.
E foi com um salto, numa velocidade incredível, que o Assamita deu sequência a seu ataque.
Dessa vez, a lâmina silenciosa na noite acertou o braço do sumo sacerdote, que ainda sob efeito da habilidade especial do assassino, o Quietus, apenas conseguiu se desvencilhar de um golpe mais certeiro, recuando com um salto para trás.
Shaka gritou, mas não ouviu o próprio grito.
O corte profundo perto do ombro, diferente de quaisquer outros ferimentos que lhe foram já infligidos, não se regenerou de imediato, uma vez que o veneno do caçador não permitia que o dom das trevas curasse o corpo injuriado, e com isso o sangue do Setita jorrava para fora da ferida em grande quantidade.
Contudo, Shaka não se ateve àquela chaga, pois não tinha tempo sequer para pensar que fora atingido, uma vez que se não matasse aquele Assamita seria morto por ele.
Por isso, não pensou duas vezes em sair da defensiva e ataca-lo.
Precisava cortar o efeito do Quietus, e para isso usou seu poder para criar uma distorção de tempo e espaço, confundindo os sentidos do caçador e evitando o segundo golpe, já que, através de uma ilusão criada por si, Shaka fez o assassino acreditar que o atacava quando na verdade cravava a lâmina de sua cimitarra em uma das árvores que ficavam às margens do rio que corria ali ao lado.
O sacerdote aproveitou-se dos segundos de distração que a ilusão lhe proporcionaram para fechar os olhos e invocar as feras que habitavam aquele ecossistema.
Em segundos, como por magia, criaturas peçonhentas brotavam das entranhas da Terra, se rastejando para fora de suas tocas, ou avançando por terra e por ar, lançando-se contra o Assamita em um frenesi desvairado.
Foram tantas picadas de serpente, escorpiões, bicadas de corujas e outras aves de rápida, também mordidas de algumas feras locais, que o Assamita não mais conseguiu manter ativo seu dom de sangue, desfazendo o Quietus e libertando Shaka daquele silêncio atordoante.
O Setita recuperara seus movimentos e equilíbrio, mas ainda assim o assassino estava longe de ser derrotado.
Muito mais rápido que qualquer outro vampiro, o Assamita, logo que percebeu que caíra num golpe de ilusão, e que serpentes e escorpiões lhe cobriam o corpo limitando seus movimentos, usou outra de suas habilidades de sangue, a Ofuscação, e se livrou, desaparecendo completamente do alcance dos olhos de Shaka, que agora sentia seu braço inteiro e ombro formigarem pela ação do veneno, lhe causando uma dor lancinante.
Podendo estar o assassino agora em qualquer lugar, o sumo sacerdote olhava para todos os lados com uma agilidade ímpar, procurando um mínimo sinal de sua localização através do deslocamento de ar, o qual percebeu logo atrás de si segundos antes de atirar-se ao solo e dar um rolamento para frente.
A lâmina afiada da cimitarra do caçador ainda cortou algumas mechas de seu cabelo, e só não atingiu o corpo de Shaka logo em seguida, quando o Assamita se fez visível novamente e o atacou mais uma vez, porque esse, para seu próprio espanto, se teleportou para alguns metros longe dele.
— Mas o que? O que... Que foi isso?
Disse confuso ao se perceber agachado do outro lado da margem do rio, até que, absorto, tomou consciência de que os poderes de Mu, ou grande parte deles, agora também faziam parte de seus dons de sangue, pois através do elo sanguíneo não apenas as lembranças, sensações e experiências foram trocadas, mas também o poder do Nut foi passado para si.
Era óbvio que isso aconteceria, mas seu estado de desespero e agonia fora tão grande quando descobrira que Mu era Seth que nem se dera conta de que agora estava mais poderoso e que, inclusive, regredira algumas gerações.
Da décima sexta geração, o sumo sacerdote regredira até alcançar a impressionante nona geração, se tornando o único vampiro de digito único da nova era.
Esse fator lhe daria uma vantagem e tanto contra o seu algoz, não fosse pelo fato de ele estar envenenado pelo sangue doente e nocivo do Assamita, o qual já corria em suas veias tal qual uma maldição que minava rapidamente seus sentidos.
Quando o Assamita viu sua presa na margem oposta do rio, imediatamente correu para lá.
Com uma velocidade incompreensível para qualquer imortal, em segundos ele estava saltando novamente sobre o sacerdote, conseguindo derruba-lo e o atacando com adaga e cimitarra ao mesmo tempo.
Shaka segurava seus braços desviando dos golpes com agilidade, mas estava longe de ser mais rápido que o outro, e foi atingido novamente por mais dois golpes, os quais lhe resgaram o abdome e as coxas com cortes profundos que eram portas de entrada para o veneno que rapidamente entrava em sua corrente sanguínea.
O sumo sacerdote ainda conseguiu reunir forças e num ataque por sua sobrevivência cravou suas garras no braço que segurava a adaga, arrancando o membro com um puxão apenas, fazendo o Assamita soltar um urro animalesco e se jogar para trás se contorcendo no chão.
Shaka viu nessa a oportunidade perfeita para fugir dali.
Corria, o mais rápido que conseguia, pela margem do rio numa tentativa de fuga desesperada.
Sangrava muito, e o veneno lhe causava câimbras e espasmos horrorosos que o lançavam contra o chão diversas vezes.
Sua mente e visão estavam turvas, mas mesmo assim ele era rápido e em poucos segundos estava longe do caçador, cerca de alguns bons quilômetros de vantagem.
No entanto, Shaka tinha consciência de que era uma presa, e que seu predador não iria desistir fácil.
— Maldição... Deveria ter arrancado... ARHG... A cabeça dele! — resmungou enquanto, agachado na margem do rio, tentava lavar as feridas nas coxas, as quais sangravam em abundância — Se tivesse alcançado a garganta...
De súbito levantou-se e novamente se colocou em posição de defesa.
O cheiro pestilento do assassino tocou suas narinas o deixando em alerta.
— O maldito deve estar perto... — sussurrou para si mesmo fazendo uma careta de dor.
Naquele momento de apuro, seu coração clamava por Seth, seu deus, seu protetor, mas agora toda sua fé estava abalada.
Seth era Mu, e ainda não sabia como lidar com isso, nem se um dia saberia.
De repente, enquanto olhava para as águas escuras correndo por cima de seus pés, distraído ao pensar na terrível peça que o destino lhe pregara o fazendo se apaixonar pelo deus de sua devoção, uma flecha sorrateira cruzou a noite, silenciosa e implacável, e atravessou seu peito.
O sacerdote tomou o corpo para frente e caiu de joelhos ao chão, ainda sem saber ao certo o que lhe atingira, só vendo a ponta de aço envenenado da flecha ao baixar a cabeça e olhar para seu torso.
— AAAAAAAAHHHHH!
Gritou, de raiva, e de dor, então olhou para trás a tempo de ver o Assamita lhe apontando uma balestra e atirando novamente, uma, duas, três vezes.
A cimitarra estava presa na cintura e o rosto não mais estava coberto pelo Shemagh, que agora servia de torniquete para o membro amputado.
Outra flecha atravessou o ombro de Shaka no momento que ele se atirava para o lado, livrando-se da anterior, e só não fora atingido por mais uma porque se teleportou novamente para o outro lado da margem do rio, buscando refugio ao se embrenhar em meio a uma plantação de trigo.
Enquanto corria, ele quebrou a ponta da flecha que lhe atravessava o peito e com um puxão a arrancou.
Ia fazer o mesmo com a outra, mas teve de apertar o passo na fuga, pois o assassino já vinha em seu encalço sem hesitar.
Shaka era sua presa, e o troféu que deveria entregar a quem contratara seus serviços por um preço bem generoso.
Mas, agora que o vira resistir tanto e por tanto tempo, começou a ver naquele sacerdote um poder além de sua compreensão, e sua chance de aumentar seu próprio poder!
Certamente quem o queria conhecia muito bem seu potencial, o qual, por sinal, seria muito bem vindo em seu próprio benefício.
Sua missão era capturar o Setita vivo, mas consumir o sangue dele seria um pagamento muito mais justo e proveitoso!
Foi pensando nisso que com um golpe muito bem arquitetado e executado, o Assamita usou novamente sua ofuscação para se aproximar de Shaka, caso contrario nunca conseguiria, e retirando a cimitarra da cintura aproveitou-se de um segundo de distração dele para num único golpe, covarde e muito ágil, cravar a lâmina maldita nas costas do sacerdote, atingindo em cheio seu coração.
Shaka arregalou os olhos e soltou um grito abafado, a única reação que conseguira após ser tomado pela paralisia fulminante resultante do golpe.
O Assamita soltou um riso sádico, então deus dois passos para trás, dobrou uma das pernas e com um chute forte nas costas do sacerdote o fez cair de bruços contra o chão. Em seguida, sentou-se sobre sua coluna e agarrou seus cabelos desgrenhados, dando um puxão violento para trás e fazendo os olhos âmbar de Shaka cruzarem com suas orbes negras como a noite.
— Meu pagamento! — disse o Assamita num sussurro debochado, e sem esperar mais abriu a bocarra horrenda e cravou todos os dentes de uma vez na garganta do sumo sacerdote.
Sugaria sua essência e se tornaria o mais poderoso de seu clã!
***
Momentos antes, no salão onde era celebrada as bodas do jovem casal de camponeses, agora cenário da chacina proporcionada pela ira e fome de Seth, o deus do Caos, Mu permanecia encolhido, agarrado às próprias pernas, em meio a sangue e morte.
Em sua mente, palavras há muito ditas por sua mãe eram revividas em suas lembranças.
“Você é especial Seth. Muitos não o compreenderão, e muitos o irão temer além do esperado, pois não serão capazes de enxergar além da Besta, mas... Aqueles que realmente se mostrarem dignos irão além. Esses o enxergarão além da fome, da morte. É somente a esses que deve confiar seu coração e sua amizade. Isso mesmo, meu menino, seu coração, pois nunca existiu, e nem existirá, em toda a superfície desta Terra, um coração tão puro como o seu".
Chorava baixinho, parecendo ouvir a voz de Aset falando diretamente à sua mente.
Sua mãe estava errada pelo visto.
Era um amaldiçoado entre os amaldiçoados.
Achava que Shaka tivesse o enxergado além da Besta, mas não. Nunca ninguém o enxergaria de tal forma.
Ainda mergulhado nesse transe melancólico, repentinamente o Nut arregalou os olhos fixando os globos negros de íris avermelhadas ao nada, onde uma imagem agora se formava.
Era como se estivesse em outro corpo e visse através de outros olhos.
— Sha... Shaka! — o nome escapou de sua boca em baixo tom.
O laço de sangue intenso e recém-criado com o sacerdote o estava alertando de que havia algo errado.
Via cenas desconexas de uma batalha e sentia todo o desespero e dor do Setita, pois a cada golpe sofrido por Shaka era como se tivesse sido desferido contra si mesmo, em tempo real!
Mu teve um estalo e abandonando qualquer sentimento de melancolia que ainda pudesse pesar em sua alma desapareceu daquele salão no mesmo instante, indo ao auxílio do amado.
O elo era muito intenso, mas também recente, por isso tinha dificuldades em conseguir localizar precisamente para onde deveria seguir, mas com cada vez mais cenas angustiantes lhe assolando a mente, só tinha como certo de que teria que se rápido!
Seu sacerdote precisava de si, e não deixaria nada, nem ninguém, lhe tirá-lo.
***
Enquanto era sugado de modo voraz, Shaka sentia aos poucos sua consciência desaparecer sem ao menos conseguir se mexer, quando, de repente, sentiu a presença dele.
— S-Seth! — sussurrou aos gemidos, antes de fechar os olhos e ser tragado pela escuridão.
O Assamita que bebia sem freios, estreitou os olhos ao ouvir aquele nome. Conhecia toda a crença poderosa que ligava as Serpentes ao poderoso deus egípcio da mitologia, mas, mesmo não desmerecendo a religião do outro nada temeu.
Seth era uma piada Setita, um deus extinto que provavelmente jamais existira.
Estava errado, e constatou isso com seus próprios olhos ao sentir uma Presença ameaçadora em seu encalço.
Imediatamente colocando-se em alerta, soltou a garganta de Shaka e retirando a cimitarra de seu peito às pressas se pôs em posição de ataque, o sangue grosso do sacerdote ainda lhe escorrendo pela boca, queixo e pescoço.
— Quem está ai? — bradou, dando uma gargalhada a seguir — Pode vir! Eu o beberei também!
O Assamita ganhara poder ao beber o sangue de Shaka, e tomado pelo frenesi da alimentação decidiu que também beberia o outro que lhe cercava.
Sentia-se tão forte e poderoso que se julgava invencível!
Nesse exato momento Mu se materializou frente ao assassino, que sem vacilar usou seu dom do sangue para invocar o Quietus e atordoar o intruso.
Em seguida, protegendo-se pela ofuscação, o Assamita saltou sobre o Nut com a cimitarra em mãos cravando novamente a lâmina agora no peito de Mu.
O que o violento caçador não sabia era que naquele momento a caçada terminara, mas a caça agora era o caçador!
Ele tinha caído em uma armadilha!
No momento em que o Assamita atravessou o coração do Nut com sua cimitarra, deixou escapar um riso grotesco, de escárnio e vitória, e então, sem mais delongas, abriu a bocarra, pronto para abocanhar a garganta de Mu e sorver todo o sangue poderoso que sentia correr dentro dele. Mas, quando estava prestes a cravar os dentes na carne ancestral do Nut, o riso deste lhe chamou a atenção.
O assassino se deteve, olhando confuso para o rosto sereno do vampiro cujo coração estava transpassado por sua lâmina envenenada, e quando pensou em ignora-lo e seguir com o ataque em sua garganta, percebeu-se ele mesmo paralisado, ao em vez do Nut.
— Mas o que? — grunhiu em espanto, agora encarando os olhos bestiais do demônio que minavam sua vontade e oprimiam sua alma, lhe causando um terror nunca antes experimentado.
O Nut liberara todo o seu poder, de uma única vez, causando a paralisia total no Assamita, então arqueou os lábios, e com um rosnado grotesco, proferiu em alto e bom tom:
— NINGUÉM TOCA EM MEU SUMO SACERDOTE!
O grito veio seguido de um ataque letal.
Com apenas uma mordida, Mu separou a cabeça do Assamita de seu corpo, a qual caiu ao solo inerte, depois, tomado em uma fúria desmedida, desmembrou o assassino com tanta facilidade que nem parecia usar força, lançando seus membros para longe para então atirar o corpo no rio, deixando que a correnteza levasse embora aquele demônio covarde.
O sangue do Assamita em sua boca era amargo, pútrido, fétido, lhe dava náuseas.
Enquanto tentava se livrar daquele visco asqueroso em sua boca com cusparadas no chão, Mu agarrou a cimitarra e a arrancou do peito, jogando a arma também no rio, então finalmente correu até onde Shaka jazia caído, de bruços, coberto por sangue, sujeira de terra e vegetação.
Em desespero, o Nut se ajoelhou a seu lado sentindo toda a dor que ele sentia.
Foi tomado por uma agonia sem precedentes que Mu cuidadosamente removeu a flecha que atravessava o flanco do Setita e depois o ergueu do chão, tomando nos braços seu corpo ferido e inerte, sentindo a pós-vida de Shaka por um fio.
— Shaka... Meu amado, por favor... Por favor, não me deixe. — sussurrava em meio a um pranto agonizante e desesperado, enquanto afastava os cabelos colados no rosto do sacerdote — Me perdoe, é minha culpa, minha culpa!... Me perdoe... Não quero existir se não estiver comigo, Shaka. Não quero!
Rapidamente se teleportou para a margem do rio onde, com cuidado e impaciência, já que tinha muita pressa, mergulhou com o sacerdote nos braços, deixando que a água corrente lavasse as feridas abertas no corpo dele na tentativa de remover o máximo daquele sangue peçonhento.
Quando julgou ser suficiente, voltou para a margem às pressas, então se sentou em um barranco com o Setita nos braços e usando as presas afiadas mordeu o próprio punho.
Na mesma hora o sangue brotou abundante da ferida, a qual agora ele colocava diretamente sobre os lábios do sumo sacerdote.
— Beba, anda! Beba! — pedia em desespero, mas sentindo que o outro não engolia o sangue, mas sim se afogava nele, adotou outra estratégia, passando a despeja-lo diretamente nas chagas espalhadas por seu corpo.
— De que me vale ser Seth, como você diz, um deus, sem meu sumo sacerdote? De que me vale possuir tanto poder? — dizia olhando para os traços do rosto inanimado do Setita — De que me vale ser Mu, se não tiver Shaka para me mostrar o novo mundo?... Nosso encontro nessa era está além de sua compreensão, meu sumo sacerdote, e também da minha. As areias do Tempo nos uniu, e nada pode nos separar... Não me deixe, por favor!... Reaja!
Mu soluçava em meio a lágrimas.
A ferida no punho se regenerou, mas o sangue não foi o suficiente, Shaka precisava de mais, e, apesar de já sentir-se fraco, daria ao amado o que ele precisava.
Mordeu novamente o punho e de novo o levou à boca do Setita, agora segurando em seu queixo e erguendo sua cabeça para faze-lo engolir o líquido quente e salvador.
— Eu o amo tanto... Entende isso? Eu o amo mais que a mim mesmo... Eu tive medo de decepciona-lo, medo de sua rejeição, porque eu o amei desde o momento que o vi pela primeira vez naquela praia, por isso não me revelei. Agora eu estou aqui, e não vou permitir que parta, Shaka, nem que seja ferido novamente. Não permitirei... Reaja, por favor, reaja!... Eu sou seu deus, está me ouvindo? EU SOU SETH! E ordeno que sobreviva e fique comigo!
Aquele clamor, ou seria a ordem, não passaram em vão dessa vez.
O sangue poderoso de Mu começava a correr por todo o corpo de Shaka que aos poucos dava sinais em resposta, ora mexendo sutilmente as pálpebras, ora tendo alguns espasmos, até que finalmente conseguiu reunir um mínimo de força e consciência para beber o sangue lhe ofertado em goladas, devolvendo a esperança a Mu, que agora até esboçava um sorriso.
Lentamente Shaka abriu os olhos, encontrando os olhos escarlates do Nut sobre si.
Não era surpresa alguma que Seth estaria ali, salvando sua vida, já que tantas e tantas vezes, nas situações mais adversas rogava a ele sua salvação, acreditando que só existia até hoje por ser abençoado.
Dessa vez não seria diferente.
A única mudança era que Seth viera a seu encalço de corpo presente!
— S-Seth... — sussurrou num fiapo de voz o sacerdote ao deixar o pulso de Mu.
Tinha ouvido as palavras do Nut, mesmo inconsciente.
Achou ter ouvido Seth dizer que eram prometidos?
Impossível!
Em nenhum papiro estava escrito que o deus do caos seria prometido a alguém.
Mas, também em nenhum papiro constava que Seth seria um imortal de aparência jovial e delicada, até mesmo frágil, ou que seria amaldiçoado pelo Consumo Conspícuo, ou até que tinha problemas em dormir sozinho, tendo Osíris, seu tão odiado irmão segundo as lendas, lhe feito companhia em seu leito durante milhares de anos, lhe garantindo conforto e proteção.
Estaria louco?
Delírio ou não, Shaka só conseguiu olhar nos olhos de Mu e sentir o tão temido aroma do orvalho que precede o amanhecer.
Sabia que sobreviveria apenas se se refugia em um porão bem escuro, ou um quarto bem fechado, mas Mu não, e era por ele que temia!
Não suportava a ideia de amar seu deus com um amor carnal.
Desejava morrer a ter que deturpar toda uma lei já redigida por sua seita, mas a ideia de perder Mu era ainda pior, ainda mais desesperadora, e foi pensando nisso que juntou as forças que lhe restavam para segurar no braço do Nut e lhe fazer um derradeiro pedido.
— O... amanhecer... Corra... Mu... Salve-se. Você não pode... morrer... Não deve... Argh!
— Shii, não fale mais nada. Eu não vou morrer, e nem você. Não agora que eu o encontrei e o tenho para mim.
Com um singelo sorriso por ver que Shaka despertara, Mu selou com um beijo sutil seu reencontro, encostando seus lábios aos dele, e então novamente o tomou nos braços e levantou-se.
Tinha pressa.
Se estivesse com sua força total conseguiria usar todo seu poder e se teleportar diretamente para a mansão do sacerdote. Era uma manobra arriscada, pois desprenderia muito poder e seria arrebatado pela fome, o que o levaria certamente a matar Afrodite e todos os carniçais que serviam a Shaka, porém valeria o risco.
Mas, somente se estivesse com sua força total, o que não era o caso.
Dera muito sangue a Shaka, sentia-se letárgico e não conseguiria nem ao menos correr a tempo de chegar antes do amanhecer.
Todavia, como sempre lhe fora ensinado "situações desesperadas requerem medidas desesperadas", palavras de seu pai, Rá, as quais lhe garantira a vida inúmeras vezes.
— Eu não vivi mais de dois mil anos apenas sendo mimado por minha família, Shaka. Eu sou Seth! Eu ergui o Egito e dizimei exércitos... O mínimo que devo saber fazer é sobreviver ao amanhecer.
Mu então se agachou e colocando uma das mãos sobre o solo emanou pulsos de energia que funcionavam como um sonar, pelo qual ele mapeava toda a geografia do local em busca de um abrigo.
Assim, detectou que ali por perto de onde estavam havia uma colina, e logo abaixo uma mata fechada, uma queda d´água e um lago.
Era tudo que precisava.
O Nut então se levantou, ajeitou Shaka em suas costas, que mesmo gemendo e gritando de dor agarrou-se a seu flanco como pode, e assim que o sentiu seguro passou a correr em direção à colina.
No caminho caçou um ou dois cervos, já que havia perdido grande quantidade de sangue e precisaria repor de algum modo, ou sua fome descontrolada o acabaria levando a matar o sacerdote.
Seu Consumo Conspícuo não o afetara muito, afinal sangue animal não supria suas necessidades, mas apenas o ajudava a se manter consciente quando preciso.
Faltando poucos minutos para o sol despontar no horizonte eles chegaram ao local.
Apressado, o Nut tirou Shaka de suas costas e o ajudou a se escorar em uma pedra em frente ao lago.
— Espere aqui. — ordenou de pronto.
Correu até a cachoeira que havia ali, mais precisamente às rochas que haviam atrás dela, e concentrando o restante de poder que lhe restava com um só golpe abriu um buraco profundo na parede de pedras criando uma pequena e improvisada caverna.
De tão pequena não era possível nem ficar em pé, mas caberia os dois deitados facilmente.
Um tanto débil e enfraquecido, correu mesmo que cambaleante até a mata que circundava a queda d´água e recolheu um bom número de folhagem, lodo, musgos e tudo que achava que pudesse isolar o calor, os teleportando um a um para dentro da caverna improvisada.
No horizonte, o céu já assumia tons corais, prenunciando o amanhecer e Mu o podia sentir nas queimaduras que começavam a surgir em sua pele.
Atirou-se à margem do lago e rolou sobre a lama lodosa, cobrindo o corpo inteiro com aquele material viscoso, formando um protetor solar primitivo, então correu em completo desespero até Shaka, o pegou no colo de qualquer jeito e se teleportou para dentro da caverna, para que a água da cachoeira não removesse a lama em seu corpo, selando a entrada com as próprias rochas que havia removido, usando telecinese.
Lá dentro, ajudou Shaka a sentar-se e rapidamente passou a recobrir toda a parede interna do local com as folhagens e musgos que havia coletado.
A rocha e a água da cachoeira deveriam mantê-los frescos e no escuro, e as plantas absorveriam alguma onda mais profunda de calor, como raios ultravioleta ou infravermelhos.
Somente depois de recobrir tudo é que Mu conseguiu, finalmente, ajoelhar-se e dar-se por esgotado.
No fundo da mini caverna, Shaka se contorcia de dor, pois o veneno Assamita ainda estava ativo em seu organismo.
Mu então virou-se de frente para ele e usou o que sobrara da vegetação recolhida para improvisar uma cobertura mais confortável sobre a pedra dura, onde o ajeitou com cuidado.
Limpando o punho com a língua para retirar a lama, Mu o mordeu novamente para despejar seu sangue sobre as feridas do sacerdote e depois oferecer para que o bebesse.
— Beba... Você precisa combater o veneno. — dizia o Nut — Por enquanto estaremos seguros aqui. Não é muito confortável e ao meio dia posso sentir dores e ter queimaduras, pois o sol é mais forte, mas eu vou sobreviver. O veneno que corre em seu corpo é muito agressivo e bem mais preocupante. Nem a ferida em meu peito, aberta por aquele demônio hediondo, se curou. — passou a outra mão sobre a chaga em seu peito causada pela cimitarra Assamita — Você foi muito atingido e eu quase o perdi... Por minha culpa.
O Nut falava com o punho aberto sobre a boca do Setita, enquanto deixava seu sangue escorrer e se deitava a seu lado.
Enquanto sorvia o sangue de Mu, protegido pelo covil improvisado que os manteria vivos naquele ermo hostil, mil pensamentos corriam pela mente de Shaka.
Além dos pensamentos íntimos que o deixava angustiado e confuso, o sacerdote também podia sentir tudo que Mu sentia, e assim pode experimentar, com nitidez, toda sua ansiedade, a concentração, a sabedoria e a perspicácia que faziam parte de seu ser.
Em meio a tudo aquilo, Shaka sentiu-se um tolo ingênuo.
Era obvio que ele daria um jeito, era obvio que ele encontraria uma saída.
Mu era Seth e Seth podia tudo!
Era um deus! Era obvio que sobreviveriam!
O sacerdote então se pegou pensando que sua fé, de certa forma, fora balançada com aquela revelação, porém não o abandonara nem assim.
Estava nos braços de Seth quando mandou que ele o deixasse ali para salvar a própria vida!
Como foi tolo!
Shaka então bebeu mais alguns goles do sangue de Mu e depois segurou em sua mão, afastando o pulso do outro de sua boca.
— Você não teve... Culpa alguma. — disse o sacerdote ao encarar os olhos do Nut, mas logo em seguida baixou o olhar os evitando.
De repente ficara muito difícil encarar os olhos de Seth.
Shaka não olhava para Seth com os olhos de um devoto, um discípulo obediente e temente, mas olhava com luxuria, com um desejo pungente e por isso sentia-se sujo, baixo, vil.
Sem saber como lidar com aquilo e para evitar abrir os braços e puxar Mu para seu peito para que dormissem juntos e abraçados como faziam desde que o encontrara, Shaka se encolheu, cruzando os braços em frente ao peito e baixando a cabeça, quase em posição fetal.
— Obrigado por me salvar... Sei que, se estais comigo... Nada tenho a temer... Seth. — disse em um fiapo de voz.
Esperaria o terrível dia acabar daquele jeito, sem se mexer ou olhar para Mu, temendo muito mais o momento em que a noite caísse e eles voltariam para a casa e para a vida que, talvez, nunca seria a mesma, do que o sempre tão temível alvorecer.
Mu olhou para ele sentindo seu peito comprimir em agonia.
Não estava acostumado a ser rejeitado, pois como Seth, sempre tivera tudo que desejara, e agora desejava Shaka, e não iria desistir dele.
Além disso, apesar de toda a tristeza, embaraço e culpa que pairava sobre eles, Mu sentia o amor que vinha do outro.
Haviam finalmente consumado sua união, havia visto as estrelas explodirem em super novas quando finalmente se entregou ao sacerdote, e conseguira não mata-lo. Então, apesar da "tragédia” posterior, Mu não abriria mão de viver ao lado de Shaka.
— Sim, eu estou com você, meu sumo sacerdote. Mas, aqui, no novo mundo, eu sou apenas Mu.
Dito aquilo, o Nut venceu aquela distância detestável entre eles e abraçou o companheiro.
Como Shaka estava muito frágil, dessa vez fora o Nut a acolhê-lo entre seus braços.
Antes de fechar os olhos e se render ao esgotamento físico e mental, Mu ainda falou em pensamento, diretamente à mente de Shaka.
"Quanto tempo vai levar para perceber, e aceitar, que seu destino foi traçado a eras? Que seu lugar sempre foi, e sempre será, ao meu lado? Divino ou não, Sagrado ou Profano, eu amo e desejo você. Nossas almas estão ligadas, e eu sei que sabe disso desde o momento em que nos olhamos pela primeira vez. Mas, eu compreendo que há todo um compromisso com seu clã, e sei que está confuso, por isso eu vou esperar. Vou esperar você, Shaka, assim como você esperou milênios por mim."
Mu fez um afago nos fios loiros sujos e desgrenhados e o trouxe mais para perto, em um abraço protetor e delicado.
Shaka se deixou ser abraçado, pois como iria contestar a vontade de seu deus?
E como contestaria sua própria vontade?
Sentia-se no céu e no inferno ao mesmo tempo, e entre a angustia de não saber como lidar com aquela revelação, com a paixão que sentia por Seth e seu dever para com o clã dos Seguidores, Shaka adormeceu e só acordaria quando os últimos raios do sol fossem engolidos pela noite.
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