Kagome

O cheiro de fumaça e carne queimada atinge meu rosto antes mesmo de eu ver a vila. É um cheiro pesado, denso, que gruda na pele e nos pulmões. Meu estômago revira, e por um instante, sinto que estou respirando o próprio desespero das pessoas que viviam aqui.

Dou mais alguns passos e vejo as chamas dançando contra o céu escuro, tingindo tudo de um laranja febril. O calor é insuportável, tornando o ar ondulado e opaco. O fogo não apenas consome as construções de madeira—ele engole vidas, histórias, tudo o que havia antes.

Então, vejo os aldeões. Eles correm pelas ruas estreitas, mãos vazias, olhos arregalados. Alguns gritam pelos nomes de entes queridos, outros apenas correm, como se fugir fosse a única coisa que ainda pudessem fazer. Há um homem carregando uma criança nos braços—ele tropeça, cai, mas não para. Seu olhar atravessa o fogo como se enxergasse um destino invisível, mas não há para onde fugir.

Minhas mãos apertam o cabo da naginata, os dedos úmidos de suor. Isso não é uma invasão, isso é um massacre. Então, entre as chamas, eu os vejo.

Sombras se movendo com precisão, figuras encapuzadas deslizam pelo vilarejo, silenciosas, metódicas. Os homens da Seita Norai, mas algo está errado, eles não estão atacando. Eles se movem entre as casas em ruínas, carregando jarros de óleo, espalhando chamas com controle absoluto. Esses malditos não estão apenas matando — estão apagando algo.

Minha respiração fica curta, eles não querem que nada sobreviva.

Ao meu lado, passos ecoam sobre a terra ressecada. Hannya para um pouco atrás de mim. Seu rosto permanece oculto pela máscara, o reflexo do fogo tremulando no metal. Ele observa as chamas sem pressa, como se já soubesse o que encontraria.

Sinto minha garganta seca.

— Isso não foi um ataque. — Minha voz sai fraca.

Hannya não me olha. Mas sua resposta vem baixa, sem hesitação.

— Foi uma execução.

Os gritos dos aldeões se misturam ao rugido das chamas, transformando tudo em um caos ensurdecedor. No meio desse inferno, um som diferente atravessa o ar carregado de fumaça — baixo, irregular, sufocado pelo calor. Um choro.

Meu corpo reage antes que eu possa pensar. Corro na direção do som, os olhos varrendo o cenário de destruição à minha frente. O som do choro ecoa entre os estalos da madeira queimando, fraco e irregular, quase sufocado pelo calor opressor. Meus pés já se movem antes que eu possa pensar, meus olhos vasculhando o caos em busca da origem. Entre as chamas que devoram o vilarejo, há uma casa prestes a ruir—paredes trincadas, vigas enegrecidas dobrando sob o peso do próprio fogo.

— Ali!

A fumaça fere meus pulmões quando tento correr, mas Hannya já está à minha frente, se movendo com a mesma precisão letal de sempre. Quero impedi-lo, dizer que é perigoso demais, mas sei que seria perda de tempo. Ele já decidiu.

A silhueta dele desaparece entre as labaredas, e meu coração dispara. Sigo seu rastro sem hesitação, ignorando o calor sufocante e os estalos traiçoeiros que se espalham pelas paredes da casa. O choro está mais próximo agora. Entre os restos de móveis carbonizados, há uma mesa tombada, e sob ela, uma pequena silhueta encolhida, tremendo, os braços cobrindo o rosto em um instinto inútil de proteção.

A criança soluça, o corpo encolhido de medo.

Hannya para diante dela, observando-a por um instante que dura menos de um piscar de olhos. Quando fala, sua voz não carrega a frieza de sempre.

— Feche os olhos e segure firme.

Ele a ergue sem dificuldade, protegendo-a com o próprio corpo, e então se vira para sair. Mas o fogo já tomou controle do lugar. O teto range, ameaçando ceder a qualquer momento. Uma rachadura se abre acima de nós.

Ele a ergue sem dificuldade, protegendo-a com o próprio corpo, e então se vira para sair. Mas o fogo já tomou controle do lugar. O teto range, ameaçando ceder a qualquer momento. Uma rachadura se abre acima de nós.

— Hannya, cuidado!

A viga cede.

O pedaço de madeira maciça despenca do alto, caindo exatamente sobre ele. Por um instante, meu coração para. Mas o som que ouço não é o impacto de algo atingindo carne e ossos.

É o som seco da madeira quebrando.

A viga se despedaça contra seu ombro como se fosse feita de gravetos, as lascas voando pelo ar. Ele sequer diminui o passo. Apenas segue em frente, carregando a criança como se nada tivesse acontecido.

Saímos dos escombros da casa em colapso, e o calor das chamas ainda dança na minha pele como um aviso de quão perto estivemos da morte. A vila continua um caos ao nosso redor, o fogo consumindo tudo em seu caminho, mas por um instante, o mundo parece menor, reduzido a nós três. A criança está entre nós, pequena e encolhida, os olhos vidrados no vazio. Ela não chora, não grita. Está imóvel. O trauma a consumiu de dentro para fora.

E então, vejo o sangue pingando devagar do ombro de Hannya, marcando o chão queimado com pequenas gotas escarlates. Seu braço está rígido, o tecido negro da roupa rasgado, mas ele não faz nada a respeito. Não reage. Apenas segue andando como se aquilo fosse um detalhe irrelevante.

— Pare.

Seguro seu braço, tentando puxá-lo para que me olhe. Ele para, mas não porque eu o forcei. Seu corpo se mantém rígido, e ele sequer olha para mim.

— Seu ombro, você está sangrando.

— Não importa.

Minhas sobrancelhas se franzem. A primeira vez que vejo isso acontecer, e é para proteger uma criança. O mesmo homem que parece não se importar com nada, que se mantém distante, que mata sem hesitação, se lançou entre as chamas para salvar uma vida pequena e indefesa.

Isso não combina com a frieza que ele insiste em mostrar.

— Me deixe ver.

— Não precisa.

A resposta vem firme, sem hesitação. É como se esse tipo de ferimento já não tivesse significado para ele.

Eu não o conheço há tempo suficiente para dizer que ele sempre faz isso, mas sei que ele quer que eu pense que nada do que aconteceu agora foi importante. Mas foi. Eu vi. Vi a forma como ele protegeu a criança, como a segurou com firmeza, como ignorou tudo ao redor para tirá-la dali e agora, vejo como ele descarta a própria dor com a mesma frieza com que encara o mundo.

A criança ainda está conosco, os olhos atentos, silenciosos nos observando.Eu me aproximo mais um passo.

— Você age como se dor não importasse. Mas isso aconteceu. Eu vi. Você pode dizer o que quiser, mas o sangue escorrendo no chão não é ilusão.

Ele fica em silêncio, e por um momento acho que vai simplesmente me ignorar, seguir em frente como sempre faz. Mas então, ele fala.

— Dor não significa nada.

As palavras dele me atingem de um jeito inesperado. Não há arrogância nelas, nem desafio. Apenas uma certeza absoluta.

Minha garganta aperta, meus punhos se fecham.

— Não é disso que estou falando.

Ele finalmente se vira para mim, e por um segundo, me vejo refletida na máscara dele. Seu olhar não está ali para que eu o veja, mas sinto seu peso sobre mim. Ele está me avisando para parar. A criança ainda nos observ e por algum motivo, sinto que ela também entende algo que eu não consigo nomear.

Hannya desvia o olhar e volta a caminhar. Para ele, essa conversa já acabou, mas não para mim. Porque agora, mais do que nunca, sei que ele está escondendo algo e isso me assusta mais do que o sangue escorrendo de seu ombro.

Hannya segue em frente, sem diminuir o ritmo, sem hesitar. Seu ferimento continua aberto, o sangue escorrendo pelo tecido escuro de sua roupa, absorvido pela pele que ele insiste em ignorar. Seus passos são firmes, como se o corte não fosse nada além de um incômodo passageiro, um detalhe irrelevante diante do que ainda precisa ser feito. Ele não sente dor? Ou apenas escolheu não senti-la?

Minhas mãos ainda estão trêmulas. O cheiro de fumaça e carne queimada impregna o ar, as cinzas grudam na minha pele, e a cena do incêndio continua viva ao meu redor. Mas agora, há outra coisa exigindo minha atenção, algo que vejo pela primeira vez.

Quando ele se vira ligeiramente para continuar andando, a luz das chamas ilumina sua pele exposta por baixo das vestes rasgadas. É nesse instante que percebo.

As cicatrizes cobrem seu braço e ombro, algumas quase imperceptíveis, outras profundas e tortuosas. Há cortes antigos, marcas de lâminas que desenham linhas irregulares em sua carne. Algumas são finas, como se tivessem sido feitas com precisão, enquanto outras são brutais, rasgos mal cicatrizados que falam de batalhas onde sobreviver foi a única vitória possível. Mas entre elas, há algo ainda mais perturbador.

Vejo queimaduras espalhadas pela pele, manchas irregulares que deformam a superfície, endurecendo o que deveria ser liso. Há marcas que parecem ter sido feitas por algo quente e pontiagudo, pressionado contra a carne tempo o suficiente para gravar sua presença. Esses não são apenas ferimentos de guerra. São cicatrizes de algo muito pior.

Meu estômago se aperta. Quantas batalhas ele lutou? Quantos cortes, quantas queimaduras, quantos golpes ele já suportou? Quem fez isso com ele? Quem o torturou?

Por um momento, esqueço o incêndio, esqueço a criança ainda silenciosa ao meu lado, esqueço até mesmo a Seita Norai. Hannya nunca falou de si mesmo. Nunca mencionou o passado, nunca deu qualquer indício de que um dia foi algo além do que é agora.

Eu não sei de onde ele veio. Não sei que tipo de vida teve. Não sei quantas vezes já esteve à beira da morte e quantas vezes se recusou a ceder a ela. Tudo o que sei é que ele sobreviveu.

Meu olhar segue suas costas enquanto ele continua caminhando, indiferente à dor, indiferente ao sangue que pinga de seu ombro e se mistura à terra coberta de cinzas. Ele não se dá o direito de parar.

E pela primeira vez, me pergunto se o homem que vejo à minha frente não é apenas uma sombra do que restou de alguém que já existiu. Quem ele foi antes de se tornar o homem da máscara?

A noite cai sobre o vilarejo devastado, trazendo um silêncio pesado, como se as ruínas e as cinzas ainda segurassem os últimos vestígios da tragédia que ocorreu ali. O fogo já não consome as casas, mas o cheiro de madeira queimada e sangue seco continua impregnado no ar, tornando impossível esquecer o que aconteceu. Não há mais gritos, apenas o som distante do vento soprando por entre os restos do que um dia foi um lar para aquelas pessoas.

Hannya repousa próximo à fogueira, os braços cruzados sobre o peito, a máscara ainda no rosto. Sua respiração é lenta e controlada, mas há algo em sua postura que sugere que ele nunca está realmente relaxado. Mesmo dormindo, seu corpo parece preparado para se mover a qualquer momento, como se o descanso fosse um luxo que ele não pudesse se permitir.

A criança dorme a poucos metros de distância, encolhida sobre um cobertor improvisado, o rosto sujo e ainda marcado pelo terror que presenciou. Ela não disse uma palavra desde que Hannya a tirou das chamas. Eu também não insisti. Algumas dores precisam de tempo antes que possam ser transformadas em palavras.

Meus olhos vagueiam pelo acampamento improvisado até pararem sobre a espada de Hannya, pousada no chão ao lado dele. A lâmina reflete a luz da fogueira, ainda manchada com o sangue seco dos que caíram naquela vila. É uma arma pesada, diferente da minha naginata, forjada para golpear de maneira decisiva e brutal. Mas não é o sangue que me chama a atenção.

Algo está gravado próximo ao cabo.

Minha respiração prende por um instante. Me aproximo devagar, os joelhos afundando na terra, os olhos fixos no pequeno emblema entalhado no aço. Eu já vi esse símbolo antes.

Os traços são discretos, quase imperceptíveis sob o desgaste da lâmina, mas não há dúvidas. Um brasão antigo, de um clã que já não existe mais.

Shiragane.

Meu corpo enrijece. Meu coração acelera.

Meu olhar se move instintivamente para Hannya, ainda adormecido sob a máscara, imóvel como uma estátua. Por um momento, a única coisa que escuto é minha própria respiração. Shiragane.

O clã massacrado anos atrás.

As histórias não são apenas lendas. Eu ouvi sobre eles, sobre sua linhagem de guerreiros de elite, sobre como desapareceram da noite para o dia, exterminados por algo ou alguém que ninguém soube nomear. Nenhum sobrevivente. Nenhuma testemunha. Apenas um silêncio que nunca foi preenchido.

Então por que esse símbolo está na lâmina de Hannya?

Me afasto devagar, meus pensamentos um turbilhão desordenado. Ele nunca falou sobre seu passado. Nunca mencionou nada sobre sua origem. Mas agora, um novo peso se instala dentro de mim, um conhecimento que não sei se deveria ter.

Quem é ele?

O homem que dorme diante de mim não é apenas um guerreiro mascarado. Ele é algo mais. Algo que talvez tenha sido esquecido pelo mundo. Algo que ele mesmo pode ter esquecido.

Mas agora eu sei, Hannya não surgiu do nada. Ele pertenceu a algo que não deveria mais existir e isso muda tudo.

O brasão gravado na lâmina ainda brilha sob a luz fraca da fogueira. Meu coração bate forte, e minhas mãos permanecem fechadas contra meus joelhos. Eu deveria simplesmente esquecer o que vi?

Meu olhar se volta para Hannya. Ele está imóvel, a respiração ritmada, o rosto oculto pela máscara que nunca remove. Um sobrevivente do clã Shiragane. Isso por si só já seria suficiente para transformar tudo o que eu achava saber sobre ele, mas algo não faz sentido.

Se ele realmente era um Shiragane, então por que ele ainda está vivo?

Eu já ouvi as histórias. O clã foi massacrado. Não apenas derrotado—erradicado. Não houve prisioneiros, não houve exilados. Apenas corpos queimados e um nome apagado da história. Não havia sobreviventes. Não podia haver.

Então, como ele escapou?

Uma onda de desconfiança me atravessa. Meu instinto grita que há algo a mais nessa história, algo que Hannya nunca quis contar. E se ele não apenas tivesse sobrevivido?

E se ele tivesse sido poupado?

Sinto um arrepio percorrer minha espinha. A Seita Norai.

Não consigo ignorar o pensamento que me assombra. A Seita Norai esteve envolvida no massacre do clã Shiragane. O padrão de destruição que vi nesta vila não foi uma simples queima de evidências—foi algo metódico. Uma execução planejada, da mesma forma que o extermínio de Shiragane.

Minhas mãos apertam minha roupa.

Se Hannya esteve presente naquele massacre, se ele carregava essa espada consigo… então ele sabe mais sobre Norai do que admite.

Minha mente reluta em aceitar a conclusão que se forma. Será que ele teve alguma relação com eles? Será que ele os enfrentou no passado e sobreviveu de alguma forma? Ou pior… será que ele fez parte disso?

Um gosto amargo sobe pela minha garganta. Eu pensei que começava a entendê-lo. Achei que conhecia ao menos um pouco daquilo que o fazia seguir em frente. Mas a verdade é que eu não sei nada sobre Hannya.

Apenas o vejo lutar. Apenas o vejo sangrar e se mover como se não pertencesse a este mundo. Mas não sei o que o moldou assim.

Meu olhar retorna à máscara. O que há por trás dela? Quem é esse homem que nunca fala sobre si mesmo, que nunca hesita, que ignora dor e morte como se fossem coisas triviais?

A fogueira crepita e meu peito aperta com um incômodo que não consigo afastar talvez a pessoa ao meu lado seja muito mais ligada ao inimigo do que eu imaginava. Talvez eu tenha cometido um erro ao confiar nele, mas se for verdade, se Hannya realmente tiver uma conexão com Norai. Eu precisarei descobrir antes que seja tarde demais.

Meu olhar se volta para ele. Ele está imóvel. A máscara reflete o brilho das brasas da fogueira, criando um brilho espectral sobre sua superfície lisa e fria. Ele realmente está dormindo? Ou apenas finge, mantendo-se alerta, como sempre faz?

Seguro a respiração e estendo a mão, os dedos tocando o cabo da espada com cuidado. O couro que envolve o cabo está desgastado pelo tempo e pelo uso, marcado por incontáveis batalhas. Ela é fria, pesada, e por um instante me pergunto quantas vidas essa lâmina já tomou.

Puxo-a devagar, sentindo seu peso real em minhas mãos. O aço brilha, mesmo sob as manchas secas de sangue, e vejo com mais clareza os detalhes da lâmina. Apesar dos anos, ela ainda está afiada. Perfeita. Como se tivesse sido feita para durar mais do que seu próprio dono.

Fecho os dedos ao redor do cabo e tento imaginar Hannya segurando-a em combate. Ele luta com um controle tão absoluto, com movimentos tão precisos, que às vezes parece que a espada não é uma arma em suas mãos, mas uma extensão dele mesmo. Meus dedos deslizam ao longo do aço, analisando os entalhes na superfície, quando sinto algo diferente.

O ar ao meu redor muda, a pele dos meus braços se arrepia, e um frio repentino roça minha nuca, como se algo invisível tivesse se aproximado. A lâmina parece mais pesada de repente, como se segurá-la fosse mais difícil do que deveria. Minha garganta aperta, e minha mente me alerta que há algo errado.

Essa espada não é apenas um objeto, ela carrega algo dentro de si. Sinto a energia latente, adormecida no aço, como se a lâmina guardasse não apenas a história de um guerreiro, mas um fragmento de algo muito mais sombrio.

Franzo a testa, meus dedos se fechando ao redor da empunhadura. Que tipo de espada é essa?

O silêncio ao meu redor se torna mais denso. O vento, que antes soprava levemente, parece cessar por completo. A fogueira estala, mas o som soa distante, abafado. O peso da lâmina parece diferente, como se algo estivesse se agitando dentro dela.

Minha intuição grita que talvez eu não devesse estar segurando isso, mas então, antes que eu possa soltá-la, um som baixo corta o ar.

— O que você está fazendo?

Minha respiração fica presa na garganta no momento em que sua voz corta o ar, baixa e carregada de um peso que me faz sentir como se tivesse cometido um erro irreparável. O fogo crepita ao nosso lado, mas o calor já não me alcança. O ar ao meu redor está frio.

Ele está me observando.

Hannya ainda não se move, mas sei que ele percebeu tudo. Sei que ele sabe que toquei a espada. Seu corpo permanece rígido como uma lâmina pronta para ser desembainhada, uma fera esperando para atacar.

Seguro a tsuguri com mais firmeza. Meu instinto grita que largue a arma e me afaste, que recue enquanto ainda posso. Mas minha mente, tomada pelo turbilhão de dúvidas, se recusa a obedecer.

Eu já sabia que ele escondia algo. Mas isso... isso é muito maior do que imaginei.

— Solte.

A palavra sai de seus lábios como uma lâmina sendo desembainhada no escuro. Não é um pedido. É um aviso.

Minha pele arrepia, mas meus dedos não soltam a espada. Meus pensamentos estão caóticos, se organizando entre acusações e justificativas que não me levarão a lugar algum. Ele não vai me dizer nada se eu apenas esperar.

Então, em vez de hesitar, ataco direto.

— Desde quando Shiragane tem a ver com você?

Hannya se senta devagar, os músculos retesados, e sinto a ameaça pairar no ar entre nós. Ele não gosta da pergunta.

— Não é da sua conta.

— Não é da minha conta? — Minha voz sai afiada, carregada com uma irritação crescente. Eu não sou estúpida. Sei que estamos lidando com algo maior do que apenas caçar a Seita Norai. Sei que cada passo que damos nos afunda mais nesse abismo que ele insiste em ignorar. E agora, descubro que ele pode estar ligado a tudo isso e não é da minha conta?

A maneira como ele inclina a cabeça levemente me dá a sensação de que ele está me estudando. Calculando. Como se estivesse tentando decidir o que fazer comigo agora que sei demais.

— Você não quer essas respostas.

A resposta dele só aumenta o aperto no meu peito.

— Talvez eu queira.

— Não.

O silêncio entre nós pesa mais do que deveria. O fio da lâmina entre meus dedos parece mais afiado do que antes, e meu coração bate rápido, avisando que estou prestes a cruzar uma linha que talvez não devesse. Não estou mais segurando a espada apenas porque quero respostas, estou segurando porque sei que ele pode tentar tomá-la de volta à força e ele percebe. A tensão explode no momento em que ele se move rápido demais.

Antes que eu possa reagir, ele está diante de mim, sua mão avançando para tomar a espada. Meu corpo se move no mesmo instante, recuando, instintivamente assumindo uma postura defensiva. Eu não quero lutar com ele. Mas ele não me dá escolha.

Por um instante, o mundo parece afiado como o fio da lâmina entre nós. O ar pesa e algo muda.

Um calafrio atravessa minha espinha, diferente do frio sutil que senti ao tocar a lâmina. Este é mais profundo, mais denso, mais sufocante. O coração martela contra meu peito quando percebo o que está acontecendo.

A aura dele mudou, é sutil no começo, quase imperceptível, mas logo o ar ao nosso redor se torna denso, pesado, como se algo invisível estivesse drenando o espaço entre nós. Meu corpo responde antes da minha mente, minha pele se arrepiando, minha respiração se tornando mais curta. O medo é instintivo.

Por um instante, não sinto que estou diante de um homem. A pressão invisível cresce, como se o próprio ambiente estivesse sendo arrastado para dentro dele. O calor da fogueira desaparece. O frio se espalha, minha mão aperta ainda mais o cabo da lâmina. Pela primeira vez desde que o conheci, sinto medo de verdade. Mas então, algo quebra essa tensão sufocante.

Um soluço.

A criança acorda com um grito estrangulado, o pequeno corpo se erguendo em sobressalto. Seus olhos estão arregalados, refletindo o brilho fraco do fogo. Ela não apenas acordou, ela sentiu.

O impacto é imediato, Hannya se move antes mesmo de pensar. Sua aura se retrai, sua postura se desfaz, e por um segundo, ele parece estar de volta ao próprio corpo.

Eu solto um suspiro trêmulo, tentando recuperar o fôlego que nem percebi que havia perdido. Meus olhos se voltam para a menina. Seu rosto está pálido, a respiração curta e descompassada, e suas pequenas mãos tremem, mas ela não está olhando para mim. Seus olhos estão fixos em Hannya e no silêncio que se instala, percebo que ela viu algo que não deveria enxergar.