Hannya

A menina ainda tremia. Suas pequenas mãos agarravam com força o tecido esfarrapado de sua roupa, como se isso pudesse mantê-la presa à realidade. Ela não piscava. Seu olhar fixo na fogueira era vazio, mas eu sabia que ela ainda via as chamas da vila, ainda ouvia os gritos. Ela ainda estava lá.

Ela não disse essas palavras, mas o silêncio dela as carregava. Crianças aprendem rápido quando não têm outra escolha.

A brasa estalou na madeira, e ela finalmente falou.

— Eles levaram minha mãe.

Sua voz saiu fina, engasgada, mas sem lágrimas. Kagome ajeitou-se ao lado dela, os ombros rígidos, o corpo inclinado para frente, pronta para confortá-la. Mas a menina ainda não tinha terminado.

— O homem de olhos de fogo estava com eles.

O ar ficou preso nos pulmões de Kagome. Eu continuei imóvel. Mas algo dentro de mim reagiu. A frase era simples. Mas havia nela um peso que não podia ser ignorado.

Homem de olhos de fogo.

Minhas mãos se contraíram levemente. A madeira seca da fogueira estalou, e a luz bruxuleante desenhou sombras irregulares no rosto da menina.

— Explique.

Minha voz saiu baixa, arrastada. Ela percebeu que eu estava ouvindo de verdade.

Seu olhar desviou da fogueira para mim. Hesitou. Não por medo, foi como se ela tentasse entender se podia confiar naquilo que viu.

— Ele estava lá quando o fogo começou. Eu vi.

O silêncio dela se alongou por um instante.

— Ele olhou para nós e... e então, os outros chegaram.

Seus dedos apertaram ainda mais o tecido, como se a lembrança a esmagasse. Ela não precisava dizer mais nada.

Kagome franziu o cenho, inquieta. Ela não entendeu o que aquilo significava. Mas eu entendi.

Olhos de fogo.

Meus pensamentos se reorganizaram rapidamente, revisando memórias que eu preferia não revisitar. Isso não era uma metáfora. Não um devaneio de uma criança traumatizada. Se ela viu isso, então ele estava lá e se ele estava lá, significa que ele ainda vive.

Minha mandíbula se retesou sob a máscara. Não esperava ouvir esse nome agora, mas ele veio à minha mente como um golpe certeiro.

Senti o peso do olhar da Kagome sobre mim. Ela percebeu que eu reconhecia aquele homem. Mas não perguntei nada. Não reagi.

Porque se ele estava vivo… ele já sabe que eu também estou.

A menina ainda tremia, os olhos arregalados, mas seu silêncio pesava mais do que qualquer choro. Ela tinha visto algo.

Kagome se inclinou para frente, tentando suavizar a tensão em sua postura.

— Você está segura agora. Ninguém vai machucar você.

A menina piscou e seus olhos estavam vacilando entre nós. Então, sua boca se abriu novamente.

— Eles falaram sobre você.

Minha respiração permaneceu estável, mas dentro de mim, tudo parou.

— Quem falou? — Kagome perguntou, preocupada.

A menina desviou o olhar da fogueira para mim. Ela hesitou. Porém não foi medo. Foi como se tentasse entender se podia confiar naquilo que viu.

— Os homens de máscaras.

A Seita Norai.

Ela respirou fundo antes de continuar, o tom da voz instável.

— Eles disseram que ele... — Seus olhos deslizaram para mim, fixando-se na máscara com um receio renovado. Ela não queria repetir as palavras, mas disse mesmo assim.

— Eles disseram que "o herdeiro sombrio voltou".

O fogo estalou, mas o calor não me alcançou mais.

O herdeiro sombrio, um nome enterrado no tempo. Uma verdade esquecida que nunca deveria ter sido lembrada.

Kagome franziu o cenho, claramente sem entender a importância daquelas palavras. Mas eu entendi.

Meu corpo permaneceu imóvel, mas dentro da máscara, minha mente girava em um furacão de memórias desconexas.

O passado nunca se foi. Ele apenas esperou o momento certo para me encontrar novamente.

Kagome desviou o olhar para mim, percebendo o peso invisível que aquelas palavras carregavam. Ela viu a tensão que tentei esconder.

— Você sabe o que isso significa. — Sua voz veio baixa, firme. Uma constatação, não uma pergunta.

Mas eu não respondi.

Porque se a Seita Norai se lembrava do nome que eu mesmo esqueci… Significava que eles nunca pararam de me procurar e agora, sabiam exatamente onde eu estava.

O silêncio pesou entre nós, mas não de maneira vazia. Foi um silêncio carregado, espesso como o cheiro de cinzas que ainda pairava no ar.

Eu não respondi.

A fogueira continuava crepitando, mas o calor já não fazia diferença. Aquele nome… aquele título… As palavras da menina ainda ressoavam na minha mente como um gongo distante, algo que eu deveria reconhecer, mas que estava enterrado sob camadas de tempo e sangue.

Kagome percebeu.

Seu olhar perfurava a máscara que eu usava, tentando decifrar o que estava acontecendo dentro de mim.

— O herdeiro sombrio. — Ela repetiu, como se saboreasse as palavras, tentando encontrar sentido nelas. — É assim que a Seita Norai se refere a você?

Permaneci calado.

Eu podia sentir a frustração crescer nela, um calor diferente do fogo à nossa frente.

— Você sabe o que isso significa, não sabe? — Seu tom era tenso, mas não impaciente. Era a voz de alguém que já esperava que eu escondesse a verdade. — E também sabe o que isso tem a ver com Shiragane.

A menção ao clã foi o bastante para algo se partir dentro da minha mente.

O cheiro veio primeiro. O cheiro forte de ferro e carne dilacerada, pesado, como se ainda estivesse impregnando minhas roupas. Em seguida, vieram os gritos de horror, de dor, de perda.

Pisquei, mas não vi a fogueira, vi o chão manchado de vermelho, corpos caídos um sobre o outro, membros retorcidos em ângulos errados. Vi o reflexo de espadas brilhando sob a luz da lua, lâminas que cortavam sem hesitação. Ouvi o impacto seco de carne sendo rasgada, ossos sendo quebrados.

Eu vi as chamas. Não as da vila que queimamos hoje, mas as de uma vila que não existe mais.

Kagome continuava falando, mas sua voz se tornou um eco distante, soterrada sob os sons do passado.

Os olhos aterrorizados das crianças. Os rostos manchados de lágrimas, o medo estampado em cada expressão.

E então, o frio do aço em minhas mãos. O peso da espada que eu segurei naquela noite. Os dedos ao redor do cabo, rígidos, sujos de sangue que não era meu. O sangue dos outros. O sangue dos meus.

Pisquei novamente. O fogo voltou. O mundo voltou. O presente me puxou de volta para longe daquele pesadelo enterrado, mas o gosto de sangue ainda estava na minha boca.

Kagome continuava me encarando e esperando por uma resposta que eu nunca daria. Porque agora eu lembrava e havia coisas que ela jamais deveria saber.

O silêncio após as palavras da menina ainda pairava no ar, denso como a fumaça das casas carbonizadas. O passado já tinha me alcançado, mas eu não podia permitir que me prendesse ali.

Kagome respirou fundo, desviando os olhos de mim para se concentrar na criança. Ela ainda tremia, os pequenos dedos cravados no tecido rasgado de sua roupa. O medo continuava estampado em cada linha de seu rosto, mas havia algo mais.

Ela estava hesitante. A dúvida estava lá.

Kagome se ajoelhou ao lado da menina, os movimentos cuidadosos, calculados para não assustá-la ainda mais. Sua voz foi gentil, mas carregava firmeza.

— Se você vier conosco, podemos protegê-la.

A menina ergueu o olhar. Não para Kagome, mas para mim. Seu corpo se encolheu no mesmo instante, os olhos dela ficaram ainda mais arregalados, como se apenas agora estivesse enxergando o que estava à sua frente. Não um salvador. Não alguém que a tivesse tirado das chamas. Ela não viu um guerreiro. Ela viu um monstro.

Ela se afastou de Kagome, os movimentos curtos e trêmulos, como se quisesse fugir, mas não soubesse para onde.

Kagome percebeu.

— Não precisa ter medo. Ele não vai te machucar.

Os olhos da menina continuaram grudados em mim. Eu não precisava ouvir as palavras dela para entender o que ela via.

O fogo refletindo na máscara. A espada ainda estava manchada de sangue. O olhar frio e imóvel de alguém que não se encaixava mais entre os vivos.

A Seita Norai queimou sua vila. Mas era de mim que ela tinha medo.

Seus pés se moveram antes que Kagome pudesse dizer qualquer outra coisa. O medo tomou o controle.

Ela se virou e correu.

Os passos pequenos foram rápidos, desesperados. Ela desapareceu entre as ruínas sem olhar para trás.

Kagome se ergueu de súbito, como se quisesse ir atrás dela.

Mas eu segurei seu pulso antes que ela desse o primeiro passo.

— Não.

Ela olhou para mim, furiosa.

— Ela está sozinha! Precisamos ajudá-la!

Minha voz permaneceu firme, sem hesitação.

— Ela já escolheu.

O aperto dos dedos de Kagome ao redor da própria roupa demonstrou sua frustração, mas ela não discutiu. Ela sabia que eu estava certo.

A menina sobreviveu a um massacre. Ela aprendeu rápido demais que, no final, ninguém realmente protege ninguém.

Eu soltei o pulso de Kagome e comecei a andar.

Ela permaneceu parada por um instante. Mas logo ouvi seus passos atrás de mim, pesados, carregados com o tipo de raiva que ela ainda não sabia para quem direcionar, mas não era para mim, ela estava com raiva porque, dessa vez, não havia nada que pudéssemos fazer e eu já sabia isso antes mesmo de tentar.

Meus pés se moveram antes que minha mente tomasse a decisão consciente. Foi o instinto que me levou até ela.

A vila estava morta. O cheiro de madeira queimada e cinzas ainda pairava no ar, mas o som das chamas já não rugia ao redor. O silêncio era absoluto. Nenhum grito, nenhum choro — apenas o vento carregando a poeira do que restava.

E então, ouvi. Baixo, abafado, quase sufocado pela própria fragilidade. Soluços contidos.

Parei ao lado de uma carroça tombada, os eixos quebrados, a madeira carbonizada em algumas partes. Ela estava ali. Agachada, os braços finos envolvendo os próprios joelhos, o rosto enterrado na dobra dos cotovelos. Ela ainda tremia, não era apenas o fogo que a assustava. Era eu.

Ajoelhei-me lentamente, sentindo o peso de cada movimento, medindo cada detalhe antes de falar. Qualquer erro a faria fugir outra vez.

— Não voltarei a tocar em você.

Minha voz saiu baixa, controlada. Sem ameaças, sem intenções ocultas. Apenas um aviso direto, sem espaço para dúvidas.

A garota encolheu-se ainda mais, os pequenos ombros estremecendo. Mas ela não correu.

— Não há nada a temer agora.

Um silêncio espesso se instalou entre nós. Eu não esperava que ela acreditasse.

Ela hesitou, espiando por entre os braços magros, como um animal ferido que avalia se o caçador ainda está por perto. Seus olhos estavam manchados de fuligem e medo.

Ela piscou, respirou fundo e então perguntou:

— Você… você é como ele?

O ar pareceu se tornar mais denso ao meu redor. Não perguntei de quem ela falava. Eu já sabia, o homem de olhos de fogo.

Não respondi. Porque, no fundo, eu também não sabia.

Minha mão deslizou até a faixa de tecido que envolvia parte do meu antebraço. Estava suja de sangue seco e poeira, mas ainda era firme. Rasguei um pedaço, sentindo a textura áspera contra os dedos.

A garota permaneceu imóvel, os olhos ainda brilhando com a incerteza do que eu faria.

Apenas deixei a pequena tira de tecido ao lado dela. Um gesto silencioso de proteção.

Sem palavras, sem promessas vazias. Apenas algo que ela pudesse carregar, caso precisasse.

Então, levantei-me e fui embora. Se ela me chamou, eu não ouvi. Se ela me viu como um monstro ou como algo diferente, eu não me importei em descobrir.

Eu senti o olhar de Kagome antes mesmo de vê-la, ela não disse nada. Não precisava.

Seus olhos estavam em mim, queimando com aquela insistência irritante que ela carregava desde o dia em que nos conhecemos. Sempre querendo entender, sempre buscando significado onde não havia nada para ser compreendido.

Continuei andando, sentindo o peso da máscara prender-se mais ao meu rosto. A noite estava fria, mas o calor da vila em chamas ainda estava dentro de mim. Ainda podia sentir o cheiro da madeira carbonizada, do sangue misturado às cinzas. Mas não era isso que me incomodava.

O que me incomodava eram os olhos da garota, o brilho de medo preso no fundo da sua expressão. Mas não era o mesmo medo que senti em tantas outras. Não era medo da morte, não era o medo da seita Norai, era medo de mim e então, como eu já sabia que aconteceria, Kagome finalmente falou.

— Por que fez isso?

Não parei de andar.

— Não fiz nada.

Ela soltou um suspiro curto, um sopro de frustração que não me surpreendia. Ela sempre se irritava quando eu não dava as respostas que queria.

— Ela fugiu de você. Mas mesmo assim, você foi atrás.

Dessa vez, parei. Apenas o suficiente para que ela quase esbarrasse em mim. Virei a cabeça levemente para o lado, sentindo a luz da fogueira refletida na superfície da máscara.

— E?

Kagome cruzou os braços, e pela primeira vez, percebi que ela não parecia irritada. Parecia convicta.

— Você podia tê-la deixado ir. Mas se deu ao trabalho de encontrá-la.

Fiquei em silêncio. Ela esperou, mas quando percebeu que eu não responderia, fez isso por mim.

— Porque você se importa.

Ri. Não porque fosse engraçado, mas porque era patético.

— Acredita nisso?

— Se não acreditasse, não estaria aqui falando com você.

Meus dedos roçaram o cabo da espada. Ela me irritava. Não porque suas palavras eram ofensivas, mas porque seu olhar dizia que ela acreditava no que estava dizendo.

Mas não era sobre o que ela acreditava, era sobre o que eu sabia. Eu sabia que compaixão não significava nada. Sabia que a esperança não protegia ninguém. Sabia que, no final, ninguém salva ninguém e mesmo assim, eu fui atrás da garota.

Kagome percebeu e eu odiei que ela tivesse percebido.

Não respondi. Apenas segui andando e ela não insistiu, mas antes que o silêncio pudesse se estabelecer entre nós, ela disse algo que me fez parar de novo.

— Talvez você ainda não esteja completamente perdido.

Não a encarei porque, no fundo, não tinha certeza se ela estava errada.

O silêncio da noite era denso, pesado como o cheiro de fumaça e sangue seco que ainda impregnava o ar. O vento não trazia frescor, apenas arrastava consigo as cinzas do que restou da vila, soprando-as sobre a terra morta. A fogueira queimava fraca, seu brilho laranja oscilando contra as ruínas e projetando sombras distorcidas ao meu redor. O calor do fogo não me alcançava. Eu nunca sentia calor.

O cansaço pesava sobre meus músculos, mas não era algo que me incomodava. Era um cansaço conhecido, um estado de vigília onde meu corpo descansava, mas minha mente permanecia desperta. Sempre alerta. Sempre pronto. Nunca realmente dormindo. Mas, dessa vez, algo diferente aconteceu.

Não ouvi o som da floresta ao redor. Não senti a presença de Kagome, nem o corpo pequeno da criança adormecida a poucos metros de distância. O que veio até mim não era algo físico. Veio de dentro.

O sussurro rastejou pela minha mente, deslizando por entre as fendas da minha consciência como algo antigo, há muito tempo esquecido. O som não ecoava no ar, mas sim dentro do meu crânio, reverberando entre meus ossos como um tambor abafado. Eu o reconhecia, mas não sabia de onde. Era um chamado e estava chamando por mim.

Um nome se formou no meio do nada, emergindo de uma névoa espessa, tentando atravessar a barreira invisível que me separava do que um dia fui. Meu nome. Meu verdadeiro nome.

O tempo desacelerou. O vento parou. O fogo deixou de existir.

Minha respiração ficou suspensa, como se meu corpo estivesse tentando se lembrar de como funcionar. O nome continuava lá, à minha frente, próximo o suficiente para que eu o sentisse, mas distante demais para que eu pudesse tocá-lo. Eu tentei agarrá-lo, puxá-lo para fora da escuridão, mas quanto mais tentava, mais ele se desfazia, fragmentando-se como vidro quebrado, dissolvendo-se como sangue na água.

Era meu. Sempre foi meu. Mas não consegui lembrar.

A máscara pressionou contra minha pele, e por um momento, pareceu mais apertada do que antes. O metal pulsou, fundindo-se ao meu rosto como uma segunda pele, um lembrete sufocante de que a barreira entre mim e aquele nome não poderia ser atravessada. Porque a máscara não deixaria.

A voz sussurrou mais uma vez, insistente, como se estivesse tentando me puxar de volta para algo que eu já havia esquecido. Meu nome ecoou dentro de mim, sem forma, sem som, mas eu sabia que estava lá, enterrado sob camadas de tempo e sangue derramado.

A pressão na minha cabeça aumentou, um latejar cortante que se espalhou pela base do meu crânio. Meu corpo reagiu antes que minha mente processasse o que estava acontecendo. Meus dentes cerraram com força, afundando na carne macia da parte interna da minha bochecha.

O gosto de ferro e sangue se espalhou pela minha boca.

Minha garganta queimou com o sabor metálico, quente e denso, um choque que me trouxe de volta ao presente. O silêncio da floresta retornou, o calor da fogueira ressurge lentamente. O peso do meu próprio corpo voltou a me pertencer.

Respirei fundo, sentindo a dor pulsante dentro da boca, os músculos do maxilar ainda tensos pelo aperto. Passei a língua pelo ferimento, sentindo a textura irregular do corte aberto por minhas próprias presas. O sangue continuava escorrendo, misturando-se à saliva, mas não me incomodei. Isso já tinha acontecido antes.

Levantei a mão e toquei a máscara, os dedos deslizando sobre o metal frio. Ela ainda estava lá. Sempre esteve. Sempre estaria.

A primeira coisa que senti ao despertar foi a ausência. Ausência de calor, de som, de vida.

Minha respiração voltou de súbito, como se tivesse sido arrancada à força de um lugar que não deveria estar. Meu corpo reagiu antes que minha mente acompanhasse, os músculos se contraíram, minha mão deslizou para a empunhadura da espada e meus pulmões buscaram o ar frio da noite. Mas algo estava errado. A noite não estava como antes.

A fogueira havia se apagado. O ar era denso, imóvel, como se até o vento tivesse sido engolido por um silêncio absoluto. A terra sob meus dedos estava seca, morta, diferente do que eu lembrava antes de perder a consciência. Foi então que vi Kagome.

Ela estava ajoelhada diante de mim, a respiração instável, as mãos ainda pousadas sobre o solo onde um círculo de símbolos fora traçado. Os traços eram irregulares, feitos apressadamente, mas carregados de uma energia que ainda pulsava no ar ao nosso redor. Suas mãos tremiam levemente, as pontas dos dedos manchadas de terra e algo mais. Sangue?

Minhas sobrancelhas se franzem sob a máscara. Meu corpo estava inteiro, mas algo dentro de mim estava deslocado, como se um fragmento de mim não tivesse retornado completamente. Quanto tempo eu fiquei assim?

— O que você fez? — Minha voz soou mais áspera do que o normal, um som baixo, carregado com o peso da incerteza que eu ainda tentava processar.

Kagome ergueu o olhar, ainda ofegante, mas não demonstrava arrependimento. Seus olhos estavam firmes, cheios de algo que eu ainda não sabia nomear.

— Você não acordava.

Minhas costas se retesaram ao ouvir aquilo. Algo não fazia sentido. Eu me lembrava do sussurro. Da voz chamando um nome que deveria ser meu. Da sensação de tentar agarrar algo que sempre escapava. Mas a dor, o peso do esquecimento, tudo aquilo deveria ter sido suficiente para me fazer despertar sozinho.

Kagome afastou as mãos do chão, e mesmo que tentasse esconder, vi seus dedos tremerem levemente, como se a energia que canalizou ainda estivesse presa dentro dela. O círculo ao seu redor parecia seco, queimado por dentro, como se tivesse sugado algo do próprio solo para cumprir sua função.

— Você estava… preso.

As palavras ficaram suspensas no ar. Preso onde? No sono? Na máscara? No nome que tentei lembrar e falhei?

Minha mente trabalhou rápido, mas as respostas não vieram. Eu ainda sentia o gosto de sangue na boca, o vestígio metálico impregnado na língua, como se tivesse mordido a própria carne sem perceber. Mas aquilo não era o suficiente para justificar o que sentia agora. Eu não estava apenas dormindo.

Com um movimento lento, passei os dedos pelo chão ressecado, sentindo a textura endurecida, como se o ritual tivesse drenado tudo ao redor. O cheiro do ambiente era diferente. A vida que antes existia ali havia sido sugada, trocada por algo que eu não conseguia identificar.

A sensação de deslocamento me incomodava. Se não tivesse despertado, teria voltado por conta própria? Ou teria ficado preso ali para sempre?

— Nunca mais faça isso. — Minhas palavras saíram cortantes, mais afiadas que minha lâmina.

Kagome não recuou. Seu cenho franziu-se e um traço de irritação surgiu em sua expressão.

— Se eu não tivesse feito, talvez você não tivesse acordado.

Minhas mãos se fecharam ao redor da terra morta. O peso da máscara sobre minha pele parecia ainda maior, pressionando como se tentasse me lembrar de algo que eu ainda não compreendia.

— E talvez eu devesse ter ficado lá.

O silêncio que se seguiu foi tão denso quanto o ar ao nosso redor. O vento retornou, soprando levemente, deslocando parte dos símbolos traçados no solo. Mas a sensação incômoda permaneceu.

Kagome não respondeu. Talvez soubesse que não tinha sentido discutir isso agora. Mas uma coisa era certa. O ritual não havia apenas me trazido de volta. Algo mudou e eu sentia que não havia voltado sozinho.

A noite parecia mais fria do que antes. Não pelo vento, mas pelo que se espalhava no ar ao meu redor, pelo que se estendia da terra morta até a pele sob a máscara. Eu ainda sentia os resquícios do ritual, o eco de algo que não deveria ter sido despertado. Mas o que mais incomodava não era isso.

Era o olhar de Kagome, ela não desviava. Presa ali, entre a dúvida e a certeza. Sua respiração ainda estava irregular, não mais pelo esforço de conjurar o ritual, mas pela verdade que começava a tomar forma diante dela.

— Você não percebe, não é?

A tensão na sua voz carregava mais do que irritação. Havia um peso naquelas palavras. Algo que nem ela parecia querer nomear.

Me mantive imóvel, mas meus músculos estavam retesados sob as roupas. Ela viu. Não sabia exatamente o quê, mas viu.

— O que quer dizer?

Ela deu um passo à frente, os ombros rígidos, a expressão carregada de algo próximo à frustração. Não era apenas comigo. Era com o que ela havia sentido.

— A morte.

O ar pareceu ficar ainda mais denso entre nós.

— Você estava matando tudo ao seu redor.

Minha cabeça se inclinou levemente para o lado. Não por confusão, mas porque queria que ela continuasse.

— Explique.

— Eu não precisei tentar te encontrar. — Sua voz era firme, mas havia uma hesitação ali, um receio nas palavras que vinham a seguir. Ela temia o que havia visto. — Você estava irradiando isso. Uma aura de morte.

Meus olhos deslizaram para o solo ao redor do círculo que havia me despertado. O chão estava seco, morto, como se tivesse sido drenado de dentro para fora. Eu vi as folhas que antes cobriam o chão, agora reduzidas a nada mais do que pó. A grama ao redor estava queimada, não pelo fogo, mas por algo mais profundo.

Eu não respondi.

— Eu achei que fosse o ritual que estivesse drenando o ambiente, mas não era. — Seus olhos estavam cravados nos meus, uma intensidade diferente do normal. — Foi você.

As palavras dela não foram uma acusação. Foram um fato.

O vento soprou de leve, deslocando a poeira entre os símbolos que haviam sido traçados no chão. Ela não precisou explicar mais. O próprio ambiente respondia por ela.

— Eu vi.

A respiração dela se prendeu por um instante antes que continuasse.

— Eu vi o que você estava vendo.

Minha atenção voltou completamente para ela.

— Não sei explicar direito. Foi como flashes, pedaços de algo que não consegui compreender. Sangue. Gritos. Cinzas. — Ela passou a língua pelos lábios, como se tentasse se livrar de um gosto amargo. — Era como se eu estivesse dentro da sua mente, mas sem conseguir entender completamente.

Minha mandíbula enrijeceu sob a máscara. O ritual.

Não apenas havia me despertado, mas havia conectado algo entre nós. Ela não estava apenas sentindo os resquícios do que eu havia feito. Ela estava vendo.

Mas o que mais importava não era o que ela havia visto, era o que viria a seguir. Ela ergueu o queixo, e por um instante, eu soube que a pergunta viria antes mesmo que ela falasse.

— Qual é o seu nome?

O silêncio caiu entre nós. Não desviei o olhar, mas não respondi.

Kagome esperou. Esperou tempo o suficiente para perceber a verdade antes mesmo que eu pudesse negar.

Vi quando a compreensão se formou em seu rosto, quando ela ligou os pontos que talvez nem ela soubesse que já estavam ali. Vi quando seus lábios se entreabriram, como se tivesse descoberto algo que não queria aceitar.

— Você não lembra, não é?

Minha respiração não mudou. Meus ombros não se moveram. Mas ela já sabia, não precisava que eu confirmasse. O silêncio falou por mim.

— É por isso que está atrás da Seita Norai.

Seu tom não era acusatório, mas carregava o peso de alguém que acabou de entender algo que nunca deveria ter sido descoberto.

O mundo parecia menor ao nosso redor. O vento soprou de novo, mas não dissipou o frio que se instalou entre nós.

Ela finalmente compreendeu. Eu não buscava vingança, não buscava redenção. Eu buscava a mim mesmo e agora, ela sabia.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.