A Máscara de Hannya

5 A maldição da máscara


Hannya

O fogo consumia tudo. O cheiro de carne queimada e madeira enegrecida impregnava o ar, espesso e sufocante, se agarrando à pele, ao fundo da garganta e aos pulmões. A vila ardia em tons de laranja e vermelho, as sombras das chamas dançando nas ruínas enquanto a fumaça ocultava o céu. Eu caminhava entre os destroços, mas cada passo parecia afundar mais no chão de cinzas, como se a própria terra quisesse me engolir.

Eu já havia sonhado com isso antes. Já havia visto esse cenário inúmeras vezes, sempre o mesmo desespero, o mesmo horror. Mas desta vez, algo estava errado. Tudo parecia mais lento, mais nítido. Os gritos eram mais próximos, as vozes mais reconhecíveis. Eu podia sentir o calor sufocante das chamas, o ardor do sangue seco na minha pele.

Meu corpo estava rígido, pesado e incapaz de reagir. Eu tentava me mover, correr e impedir o que estava por vir, mas não conseguia controlar meus próprios movimentos. Era como assistir à minha própria desgraça através dos olhos de outra pessoa.

As sombras se arrastavam pelo chão como serpentes famintas, contornando os corpos espalhados ao redor. Eu os vi. Homens, mulheres, crianças, caídos de formas grotescas, congelados no horror de seus últimos momentos. Meu clã. Eles não tiveram chance. Seus olhos estavam vazios, suas bocas abertas em gritos que nunca foram ouvidos por quem poderia salvá-los.

Eu queria falar. Chamar alguém, qualquer um. Mas minha voz não saía.

O silêncio foi rompido pelo som de passos suaves.

Lá estava ele.

Uma figura encapuzada caminhava entre os corpos, as vestes longas deslizando sobre a poeira ensanguentada. Seu andar era lento, sem pressa, como se apreciasse a destruição à sua volta. A sombra rastejava a seus pés, uma escuridão viva que parecia devorar tudo o que tocava. Ele parou a alguns metros de mim, e então, ergueu a cabeça.

O capuz recuou apenas o suficiente para revelar os olhos dourados, brilhando como brasas vivas. Havia algo cruel ali, algo que não era apenas humano.

— Foi você.

A voz dele não era alta, mas cada palavra reverberou como um trovão, se infiltrando em cada fibra do meu ser. Meu corpo tremeu, os dedos tremendo involuntariamente. Foi nesse momento que senti a máscara.

Não a que uso agora.

A outra.

Minha mão se ergueu, e eu a vi. Sangue cobria minha palma, escorrendo pelos meus dedos, quente e pegajoso. Meu peito apertou, e minha respiração falhou. Não era o sangue deles. Era o meu.

A sombra ao redor da figura se expandiu, deslizando pelo chão como uma onda que engolia tudo em seu caminho. Eu tentei recuar, mas meus pés estavam presos. O encapuzado inclinou levemente a cabeça, como se me estudasse.

— Você os entregou.

Uma dor cortante atravessou meu peito.

Meu corpo arqueou, e um grito irrompeu da minha garganta.

Desta vez, o som veio.

A escuridão me envolveu como uma onda sufocante, afogando cada resquício de luz. O chão de cinzas sob meus pés desapareceu, e por um instante, eu não estava em lugar nenhum. Apenas existia.

Então, vieram as sombras.

Elas se moviam como espectros sem forma, deslizando pelo vazio ao meu redor. Seus contornos se torciam e se desfaziam, como se tentassem assumir um rosto, mas fossem incapazes de sustentar qualquer identidade. Algumas eram altas e esguias, outras se arrastavam pelo chão como animais moribundos.

Elas sussurravam.

Palavras incompreensíveis, sílabas corrompidas que me arranhavam os ouvidos. O som se intensificava, um coro disforme de vozes quebradas, repetindo o mesmo murmúrio sem sentido.

Então, veio o riso. Baixo, grave, cortando os sussurros como uma lâmina afiada, fazendo a máscara pesar mais.

O riso se arrastava, preguiçoso e intoxicante, como se cada sílaba fosse tingida pelo prazer da destruição. Era um som que não pertencia a este mundo, algo que se infiltra pelos ossos e se enraizou no fundo da mente.

Eu já tinha ouvido esse riso antes.

Shōjō.

O nome do oni pulsou em minha cabeça como um gongo distante. O riso dele não vinha de fora, mas de dentro. Dentro da máscara. Dentro de mim.

O calor crescia sob a pele. Não era o fogo do passado, não era a lembrança da vila em chamas. Era algo mais profundo, um incêndio que queimava de dentro para fora.

A máscara pulsou contra o meu rosto, apertando mais, se fundindo. As sombras ao meu redor riam junto com ele.

Eu tentei arrancá-la, mas meus dedos não obedeceram.

Shōjō continuava rindo e então, ele falou.

— Por que lutar contra isso?

A voz reverberou dentro do meu crânio, baixa e viciante. Algo na forma como ele pronunciava cada palavra me fazia hesitar, como se houvesse uma verdade que eu não queria admitir.

As sombras ao redor se curvaram sobre mim, como se esperassem uma resposta.

Eu não dei nenhuma.

O calor aumentou, queimando minha pele.

— Você já sabe o que precisa fazer — ele continuou. — E sabe que eu posso dar o que você quer.

Meus punhos se fecharam. O riso voltou, mais próximo agora, tão íntimo quanto um sussurro ao pé do ouvido.

— Venha.

As sombras se partiram, e eu caí. O vazio me engoliu e Shōjō continuou rindo.

A primeira coisa que senti foi o peso da lâmina contra meu peito.

O fio da espada pressionava a pele, frio como um cadáver recém-morto. O ar à minha volta estava denso, pesado, como se eu ainda estivesse preso no vazio do pesadelo. Meus músculos estavam rígidos, e a máscara latejava em meu rosto, como se quisesse se fundir à carne.

Minha respiração veio curta, entrecortada. Levei alguns segundos para me dar conta de que estava acordado.

O quarto estava mergulhado na penumbra, iluminado apenas pelo bruxulear fraco das velas que mal sobreviveram à noite. O cheiro de óleo queimado se misturava ao aroma amadeirado do tatame abaixo de mim. Meus dedos apertavam o cabo da espada com força, como se, em algum ponto entre o sonho e a vigília, eu tivesse pensado em usá-la contra mim mesmo.

Lentamente, soltei o ar pelos dentes e afastei a lâmina, apoiando-a ao meu lado.

Shōjō. O nome ainda pulsava dentro do meu crânio, como um tambor abafado ao longe. O oni estava ficando mais forte. Eu podia sentir.

Passei os dedos pela máscara, sentindo a textura fria do metal. Ela estava ali desde o momento em que renasci naquela noite. Desde que tudo foi reduzido a cinzas. Desde que o verdadeiro eu desapareceu.

Quanto tempo ainda restava antes que não houvesse mais nada para salvar?

Fechei os olhos por um instante, ouvindo o silêncio do quarto. A resposta nunca vinha, mas a pergunta nunca ia embora.

A cada vez que usava os poderes de Shōjō, sentia algo se desgastando dentro de mim. No início, era apenas um incômodo, um eco distante. Agora, era um buraco que crescia devagar, devorando tudo ao redor.

No fim, o que sobraria?

Meus punhos se fecharam. Eu me recusava a pensar como Kagome. Ela ainda acreditava que era possível separar um homem do monstro, mas eu já sabia a verdade. A linha entre os dois era tênue, quase inexistente.

E um dia, quando ela percebesse, já seria tarde demais.

A luz fraca das velas tremulou. Um vento frio atravessou o quarto, fazendo as sombras dançarem nas paredes. Nada mudou. O mundo seguiu em frente, indiferente ao que estava acontecendo comigo.

Respirei fundo e agarrei o cabo da espada. A lâmina deslizou levemente quando a levantei, refletindo meu próprio rosto na curva prateada. Mas a imagem estava errada.

Os olhos que me encaravam não eram meus.

Eles eram os olhos de alguém que já não pertencia a este mundo.

E a verdade era que eu não sabia se ainda queria impedir isso.

O ar frio da madrugada me recebeu assim que deixei o quarto. O vento carregava o cheiro de madeira velha e terra úmida, misturado ao leve aroma de cinzas que nunca parecia desaparecer completamente da vila. O sonho ainda impregnava minha mente, como uma sombra persistente que se recusava a se dissipar. Shōjō continuava lá, em algum lugar dentro de mim, rindo.

Meus passos eram silenciosos sobre o solo de terra batida, minha respiração firme, controlada. A missão. Eu precisava manter o foco. Qualquer outra coisa era irrelevante.

O ar noturno estava frio, mas minha pele queimava. A máscara parecia mais pesada, como se estivesse se fundindo ao meu rosto, apertando contra os ossos. Cada passo exigia mais controle do que eu estava disposto a admitir.

Eu já havia sentido isso antes. Sempre começava assim. O calor resquício do poder do oni ainda corria dentro de mim, como brasas adormecidas, esperando para serem sopradas pelo vento certo.

Não podia permitir que Kagome percebesse.

Minhas mãos estavam firmes, meus movimentos calculados. O peso da espada na minha cintura era um lembrete de que ainda estava no controle. Ainda era eu.

Mas então, meus passos hesitaram por um breve instante.

O tempo suficiente para sentir o olhar dela.

Kagome não disse nada, mas eu sabia que estava me observando. Seu silêncio era mais incisivo do que qualquer pergunta. Ela havia percebido.

Controlei minha respiração e voltei ao ritmo normal, ignorando o incômodo na carne, a queimação nos músculos. Seus olhos ainda estavam em mim.

Ela estava parada ao lado de uma das construções, os braços cruzados, a postura rígida. Ela não parecia estar ali por acaso. Seus olhos se voltaram para mim assim que me viu, analisando cada detalhe, como se tentasse encontrar algo que não estava visível.

Parei por um instante, mas não disse nada. Ela também permaneceu em silêncio por alguns segundos antes de se aproximar.

— Você não dormiu.

Sua voz era baixa, mas sem hesitação. Não era uma pergunta. Era uma constatação.

Continuei andando.

Ela me seguiu.

— Você pode fingir que está bem, mas eu vi o jeito que saiu daquele quarto. Vi o jeito que segurava sua espada.

Meus dedos se apertaram ao redor do cabo da lâmina.

— Você se preocupa demais com coisas que não entende.

Ela franziu o cenho.

— Então me faça entender.

O peso da máscara em meu rosto pareceu aumentar. Mas essa não era uma conversa que eu estava disposto a ter.

— Não há nada para entender.

Eu me virei para continuar andando, mas Kagome agarrou meu braço, me forçando a parar. Havia algo desafiador em seu olhar, uma urgência que ela mesma talvez não compreendesse completamente.

— Você não pode continuar assim — disse ela. — Fingindo que não está acontecendo nada.

Soltei meu braço de seu aperto, com menos força do que poderia ter usado.

— Eu não finjo nada. Você só não vê porque não sabe o que procurar.

Ela permaneceu onde estava, seu olhar ainda cravado em mim. Eu podia sentir a dúvida nela, a tentativa de entender algo que eu nunca deixei visível. Ela não sabia. Não ainda.

E eu não ia ser o responsável por abrir seus olhos para isso.

— A missão continua — finalizei. — O resto não importa.

Dei as costas e continuei andando, sentindo seu olhar ainda fixo em minhas costas. Ela não insistiu, mas eu sabia que aquela conversa não havia acabado.

Não ainda.

O silêncio na vila era denso. Não o silêncio natural da madrugada, mas algo calculado, sufocante. Um vazio onde o som deveria existir, mas não existia. Nenhum aldeão caminhando, nenhuma conversa sussurrada entre portas entreabertas. Apenas o vento cortando o ar, carregando um cheiro sutil de algo que eu não conseguia identificar de imediato.

Continuei andando, os olhos atentos a cada detalhe. Era discreto, mas estava ali.

Marcas nas paredes.

Os sulcos eram finos, feitos à faca, como símbolos desenhados apressadamente e depois riscados, como se alguém tivesse tentado escondê-los. Mas nem todo vestígio podia ser apagado. Os traços ainda eram reconhecíveis para quem sabia o que procurar.

Pegadas.

O solo de terra batida guardava marcas recentes. Os aldeões costumavam seguir rotas fixas, seus passos gastos sempre no mesmo caminho. Mas essas pegadas estavam erradas. Muito espaçadas. Muito organizadas.

Parei por um instante, ajoelhando-me para analisar o formato. Botas reforçadas. Nenhum camponês usaria algo assim.

Seita Norai.

Eles passaram por aqui.

Levantei-me, sentindo o olhar de Kagome sobre mim. Ela não precisava perguntar nada—ela viu a mesma coisa que eu. A diferença era que ela ainda não sabia o que significava.

Se eles ainda estavam por perto, não estavam tentando se esconder completamente. Não estavam fugindo.

Isso significava que tinham deixado algo para trás.

Ou que estavam esperando por nós.

O vento soprou forte, levantando poeira do chão seco da vila. O silêncio ainda pairava como um peso invisível sobre nós, a ausência de sons comuns tornando tudo mais opressor. As pegadas, os símbolos apagados… era impossível ignorar.

Olhei para Kagome e vi a mesma tensão nela. Ela ainda não entendia a extensão do que havíamos encontrado, mas sabia que aquilo não era normal.

— Vamos. — Minha voz saiu firme, sem hesitação.

Não havia motivo para ficar mais tempo. As respostas que precisávamos não estavam ali.

A estrada diante de nós se desenhava entre colinas escuras e vegetação rarefeita. A próxima vila estava a poucas horas de distância, e a Seita Norai poderia estar operando lá. Se as marcas que encontramos eram recentes, havia uma chance de que estivéssemos próximos demais deles.

Kagome não questionou. Apenas se ajustou ao meu ritmo, os olhos ainda vasculhando o entorno, como se esperasse que algo surgisse da penumbra.

Caminhamos em silêncio por um longo tempo, apenas o som de nossas passadas cortando a imobilidade da noite. Mas eu sabia que ela estava inquieta. E, se eu fosse honesto, eu também estava.

A estrada parecia se alongar mais do que deveria. Como se estivéssemos sendo observados.

Talvez porque, no fundo, sabíamos que não estávamos sozinhos.