A Máscara

7 Capítulo 7 - Gage.


Notas iniciais
Você não me conhece, apenas vê o que quero que veja.

Enfim o jatinho pousou. Um carro estava a nossa espera.

Conn cumprimentou o motorista em italiano.

Quando estávamos confortáveis no automóvel ele me disse:

— Clarice, preciso que você seja educada. Não responda mal, não faça perguntas ou critique nada. Melhor ainda: não fale, a não ser que ele te pergunte alguma coisa. Estou indo me encontrar com um vampiro imprevisível e não quero que nada lhe aconteça. É provável que no final da conversa eu fique inconsciente. Jogue água no meu rosto, me estapeie, faça o que for necessário para eu acordar. Vou precisar da sua ajuda para vir até esse carro, no entanto não tem com o que se preocupar, ficarei bem em algumas horas.

— Estamos indo ao encontro de quem? Por que você vai desmaiar? — meu coração batia descompassado.

— Vai ver. Não quero que se preocupe precipitadamente.

O carro estacionou em frente a um restaurante. Era um lugar simples, embora elegante.

Entramos no estabelecimento e fomos direcionados para uma mesa que se encontrava ao fundo. Um homem nos esperava ali. Levantou-se ao nos ver aproximando. Deu-nos um sorriso simpático.

Sua beleza era vampírica, trajava-se com elegância e diplomacia. Tratava-se de um homem muito bonito, em torno dos 50 anos. Seu cabelo grisalho era distinto, parecia que os fios haviam sido tingidos de prata.

Ele abraçou Conner e depositou um beijo em sua bochecha, no entanto, estava mais interessado em mim. Estendeu sua mão para me cumprimentar. Sua pele era aveludada, quente e agradável.

Nos sentamos a convite dele.

— Quanto tempo, Conner! É um prazer revê-lo — seu tom era amistoso e gentil. — E então, não vai me apresentar formalmente à dama que te acompanha? — intimou.

— Claro que sim — respondeu Conner, sendo educado. — Essa é Clarice, a garota sobre a qual conversamos por telefone — ele voltou a estender a mão em minha direção.

— Estou encantado em conhecê-la, Clarice. Sou Gage — disse o vampiro, antes de beijá-la.

Retirei a mão da dele, suavemente para não parecer grosseria. Segui o conselho de Conner em não falar nada. De uma forma estranha, esse senhor me causava pavor.

— Como está Belphegor? — perguntou, mais por gentileza do que por interesse.

— Está muito abalado por desconfiar ter encontrado seu tótem e por se tratar de um ser humano. É natural que ele esteja confuso. Mas, vamos pular essas formalidades, Gage. Trouxe Clarice para você conhecê-la. Quero saber o motivo de Belphegor e eu estarmos enfeitiçados por ela. Quero te relembrar que você prometeu não fazer mal algum a menina — pediu Conn.

O que estava acontecendo? Conner era o traidor? Por que fazia isso?Por que falava sobre as disconfianças de Belphegor para um inimigo?

— Não farei — afirmou Gage. — Você não pode imaginar o quanto me diverti quando me contou sobre o suposto tótem de Belphegor. Quero assistir a tragédia de camarote. Aquele principezinho prepotente vai ter que engolir cada insulto que me fez ouvir — Gage levantou-se e caminhou até mim. Inclinou-se e me segurou pelo queixo, forçando-me a fitá-lo nos olhos.

A íris do vampiro adquiriram um tom violeta ao me encarar. Senti-me violentada pela forma como ele me olhou.

Após essa análise Gage voltou para seu lugar.

— Impressionante — disse ele.

— O que é impressionante? — perguntou Conner.

— Essa garota jamais teve contato com nenhum ser místico, nem mesmo seres da luz. Esse fascínio e esse encanto que ela exerce sobre vocês é natural, é dela. Clarice não está sob um feitiço, nem foi abençoada ou amaldiçoada. O interessante é que esse dom que ela tem de cativar chegou até mim. Não no momento em que a vi, inclusive ela me pareceu um ser humano bem comum, mas sim no momento em que scaneei sua alma. Não me surpreende que um ser humano assim seja o tótem de alguém — respondeu Gage.

Senti um arrepio percorrer minha espinha.

— Então é só isso? — perguntou Conner.

— O que mais queria? Essa é a verdade — concluiu Gage. — Soube que Maxwell está empenhado em por fim a essa bela humana. Por isso aconselho que cuide bem dela, Conner. Maxwell é muito persistente e quando ele quer alguma coisa, move céus e terra para conseguir.

— O conheço bem — disse Conn, com a entonação de quem quer encerrar o assunto. Parecia querer antecipar a despedida.

— Bem, sendo assim, acho que chegou a hora da minha recompensa por ter perdido meu tempo com você e uma mortal. Primeiro ela, depois você — disse Gage.

— Como assim ela? Nada disso, o combinado era pra ser eu — Conner estava surpreso.

— Mudei de ideia. Quero sentir o sabor dessa menina — Gage me olhava com apetite.

— Não a machuque Gage, ela é pequena, tem pouco peso, precisa se controlar — o vampiro veterano gargalhou.

— Acho que aprendi a me controlar na época em que completei 1.400 anos de idade. Bons tempos aqueles da minha juventude.

Gage apontou a palma da mão para o restaurante e as pessoas que estavam no local ficaram paralisadas. Depois, apenas olhou para as portas do estabelecimento e elas se fecharam, bem como as cortinas. Eu estava pasma.

O vampiro se levantou e caminhou até mim. Tocou em minha testa e eu inclinei meu pescoço, ofertando-o para ele, contra minha vontade. Eu tentava me mexer, gritar, mas meu corpo não obedecia.

Gage inclinou-se e cravou seus dentes em minha jugular. Ao contrário do que eu poderia imaginar, não senti dor alguma. No principio senti cócegas, depois não senti mais nada.

Ele deve ter ficado 2 minutos me sugando, quando terminou retirou seus dentes delicadamente de meu pescoço. Continuei paralisada enquanto via Gage se dirigir até Conn.

Ele fez o mesmo com ele. Tocou-o, o deixando paralisado. Gage se inclinou e cravou os dentes no pescoço de Conner. Ficou aproximadamente 10 minutos sorvendo o vampiro. Vi meu amigo fechar os olhos, o vi ficar ainda mais pálido até sua pele ganhar um tom esverdeado. Queria gritar para que esse monstro parasse, mas eu não podia mover um músculo. As únicas coisas que eu controlava era minha respiração e as piscadas dos meus olhos.

Assim que Gage acabou, Conn caiu no chão, desacordado.

Sem se preocupar com nada, pegou um guardanapo na mesa e limpou os lábios, delicadamente.

Gage se aproximou e disse em meu ouvido:

— Que decepção, Clarice. Já senti sabores melhores. Achei que me surpreenderia. Além do mais, senti um pouco do sabor de Belphegor em seu sangue, e isso é nojento.

O vampiro desapareceu. Fiquei por cerca de um minuto paralisada antes de voltar ao normal. Na mesma hora em que meus movimentos voltaram à porta e as cortinas se abriram, as pessoas voltaram a se mover. Agiam como se nada tivesse acontecido.

Eu senti meu pescoço latejar, mas não tinha tempo para dar atenção ao meu ferimento.

Ajoelhei-me ao lado de Conn e balançava seu corpo de um lado para outro:

— CONN! CONNER fala comigo! CONN!

Dois garçons vieram me ajudar a reanimá-lo.

Um deles disse que o coração de Conner não estava batendo. Arrependi-me por ter permitido a ajuda deles. O coração de Conner não batia mesmo, há muito tempo.

Lembrei-me do que ele me disse no carro. Peguei uma taça de vinho sobre a mesa e joguei sobre seu rosto. Após isso o esbofeteei.

Conner abriu os olhos. Eu o abracei.

— Graças a Deus! Você não podia morrer novamente.

Ele sorriu com dificuldade.

O amparei até o carro. Era pesado e alto demais. Estava tendo muita dificuldade, porém não deixei ninguém me ajudar nessa tarefa. Iriam perceber que o coração dele não batia.

Assim que o joguei no banco de trás do automóvel, me juntei a ele e fechei a porta.

— Ahh, você vai me explicar tudo. Tudinho mesmo! — estava furiosa.

O motorista não precisou de comando, arrancou com o veículo direto para a aeronave particular.

Conn sentou-se e inclinou minha cabeça para olhar meu ferimento.

— Eu lhe devo mesmo explicações — disse, ao ver o estrago em meu pescoço.

Só então senti dor no local e uma leve tontura.

— Bem, Gage é um ancião — explicou Conner. — Existem 13 anciãos no total. Eles são os mais velhos entre nós. Possuem muito poder, são capazes de nos hipnotizar. Alimentam-se de humanos e vampiros. Por serem experientes, têm respostas à quase todas as perguntas. Procurei Gage para saber o motivo de eu me sentir atraído por você. Acredite em mim, Clarice, seres humanos não possuem esse poder sobre nós. Eu achava que você estava sob encantamento. Mas como você viu, ele disse que não está.

— Ele não gosta de Belphegor, por quê?

— São os anciãos que designam os príncipes. Na época em que Belphegor era um candidato, 12 dos anciãos votaram a favor de Bel, pelo fato de ele ter quase 400 anos e não possuir um tótem, ou seja, ele não tinha fraquezas. No entanto, Gage votou contra ele. Alegou que o fato de Bel não ter um tótem faria com que ele ficasse muito fragilizado quando o encontrasse. Na opinião de Gage, o vampiro que demora a encontrar seu tótem vira escravo dele. Os outros anciãos debocharam de sua teoria. Belphegor foi coroado e em seu discurso de posse fez piada com a teoria de Gage. Por esse motivo Gage não tem simpatia por Bel.

— Ele me disse que meu sangue tem o gosto do Belphegor. Por que disse isso?

— Ele já sentiu o gosto de Belphegor, é claro. E ele disse isso por que você ainda tem o sangue do Bel em suas veias.

— Como assim?

— Ora, Clarice! — disse Conn, como se fosse obvio. — Eu te arremessei contra uma parede. Você teve traumatismo craniano, fraturas expostas, comprometimento do baço e um corte na testa que levaria uns 30 pontos. Como acha que sarou tão rápido? Bel lhe ofertou uma porção de seu sangue para que você ficasse boa e sem cicatrizes. Gage sentiu o gosto do sangue dele, pois esse ainda está em seu organismo.

Deve ser por isso que o ferimento em minha testa parecia ser apenas um arranhão e achei aquele curativo desnecessário. — Pensei.

— Todos os anciãos têm aparência de senhores distintos?

— Não. Como te disse, eles são poderosos. Podem ter a imagem que quiser. Normalmente estão como senhores, mas podem aparentar mulher ou criança. O que quiserem na verdade.

Chegamos ao jatinho.

Conner estava melhor, caminhou sozinho até sua poltrona.

Sentei-me ao seu lado ainda apreensiva com seu estado de saúde.

— Mike, para o Brasil — orientou ao piloto.

— Como quiser, senhor Ventrue! — respondeu Mike.

Notei que o sobrenome de Belphegor e Conner eram iguais, contudo não perguntei a respeito, mas eu sabia que não eram irmãos.

— Clarice, o que acha de irmos visitar seus pais? — perguntou a mim, como se a resposta não fosse óbvia.

Eu o abracei, cautelosa, para não machucá-lo ainda mais.

— Certo! — disse Conner — Mas precisamos combinar alguns detalhes.

Conn me contou seu plano.

***

Ele dormiu durante praticamente todo o voo, sua cor ainda não tinha se restabelecido, estava fraco.

Será que Conner havia contado a Max sobre a mansão de Belphegor em Genebra? Como aquele grupo de vampiros sabiam que eu era a garota do beijo na casa de Raleph? Havia mesmo um traidor? Se fosse Conner, qual era seu nível de interesse em mim, visto que não estava preocupado com minha segurança? Será que o plano de me levar para casa era uma emboscada? Ele daria minha família e a mim em troca de se vingar de Belphegor? Motivos ele tinha para isso. Se vingaria de anos sendo tratado como um escravo imprestável. O que Bel faria a ele se soubesse que o escravo me apresentou a um ancião que o odeia? Gage poderia ter me matado, só não fez isso por achar divertida a situação do príncipe. Se todas as minhas teorias fossem mesmo reais, Conner fingia e era ótimo nisso.

Repensei no plano que ele havia bolado para que eu pudesse rever meus pais. Decidi que o manteria, afinal eu não poderia desperdiçar essa chance. Talvez fosse a única que eu tivesse.

Assim que o avião pousou em terras brasileiras, acordei Conner.

— Hey! Chegamos — dizia enquanto o balançava.

Conn se espreguiçou.

— Clarice, você vai me fazer um favor — disse, ainda sonolento. — Preciso me alimentar, aquele desgraçado do Gage roubou toda minha energia. Você vai ficar quietinha aqui. Vou pedir ao Mike para ficar de olho em você. Assim que eu voltar começamos a colocar nosso plano em prática. Alguma objeção? — ele calçava o tênis para sair.

— Sim — respondi. — Por favor, Conner, me diga que você não vai matar ninguém — ele sorriu divertido.

— Preciso que você preste atenção no que vou dizer — Conn recostou-se na poltrona e olhava firme em meus olhos. — Entendo que esteja confusa. Acho que em sua cabeça Bel é um cara malvado e eu o perfeitinho. É natural que você pense assim, pela maneira como te tratamos. Eu não sou estúpido com você, nunca serei. Preocupo-me com seu bem estar, só que isso não faz de mim um cara bonzinho. Ajo dessa maneira por que eu gosto de você, e acredite em mim, nunca gostei de ninguém dessa forma. Você falou que sou um anjo em sua vida, isso me preocupou, de anjo eu não tenho nada. Mato para me alimentar, sempre procurei meus próprios interesses, é por isso que sou o braço direito de Bel, não é por que gosto dele. Para ser sincero eu não gosto. Eu sou um vampiro, Clarice. Posso não ser um vampiro pra você, mas sou para todo o resto, então não fique me idealizando ou pintando uma imagem na sua cabeça sobre mim, por que eu não sou um cara perfeito. Estou longe de ser, e acredite, não me sinto envergonhado por isso. Esse fato nem pesa na minha consciência.

— Eu, hein! — disse emburrada.

Cruzei os braços e me afundei na poltrona. Conn tinha razão, eu o coloquei em um pedestal e me esqueci que vampiros não são bonzinhos.

Talvez por isso não tivesse desconfiado dele até o momento, todavia ele estava contra Belphegor. Nem sabia se o que ele dizia sentir por mim era verdade.

Ele sorriu. Pôs-se em pé. Inclinou-se e tocou seus lábios gelados em minha bochecha.

Disse com o rosto bem próximo do meu:

— Adoro você! Não se preocupe, sempre me comportarei como um Lorde em sua presença. Só não me peça pra ser gentil com os outros, ou para não matar ninguém. Tem coisas que nem mesmo você pode conseguir de mim.

Ele se foi e me deixou presa na aeronave.

Não demorou muito para que retornasse. Era aproximadamente meia noite quando voltou.

Conner estava com as bochechas rosadas, seus lábios voltaram a ter aquela cor avermelhada. Estava bem alimentado agora. Sorte a dele e azar de alguém.

Nos dirigimos até seu o carro.

— Bem — disse ele, arrancando com o veículo — Vamos procurar Raleph agora. De manhã vamos para a casa de seus pais.

— Tudo bem — foi o que respondi, ainda atormentada pelos meus pensamentos.

Entramos naquela mansão onde houve a festa de despedida para Belphegor.

Estar novamente naquele lugar me fez relembrar a sensação do beijo. Lamentei por Bel não estar aqui.

Uma mulher elegante veio a nosso encontro.

— Em que posso ajudá-lo, meu jovem? — disse ela, dirigindo-se a Conner. Eu estava acostumada a ser ignorada por eles.

— Preciso falar com o príncipe — respondeu.

— Receio que ele esteja muito ocupado no momento. Pode me adiantar o assunto? Anotarei seu telefone e assim que ele estiver disponível entrará em contato — orientou a moça, educadamente.

— É um assunto de suma importância — insistiu Conner. — Diga a Raleph que o mensageiro do Príncipe do Distrito 3 está aqui e precisa falar com ele sobre um assunto de seu interesse.

— Dê-me um minuto — a garota subiu as escadas, parecendo se aperceber da seriedade do assunto.

— Não preciso entrar lá com você, certo? Perguntei ansiosa.

— Precisa — foi sua resposta.

A moça disse do topo da escada:

— Raleph os verá agora. Podem me acompanhar — ela nos direcionou a uma sala suntuosa.

Raleph estava sentado em uma poltrona aveludada, saboreava o liquido vermelho em uma taça de cristal. Tive ânsia de vômito ao ver o prazer dele ao saborear a bebida.

O príncipe fez um gesto para que nos aproximássemos.

Raleph era um vampiro singular. Sua aparência era angelical. Diferente dos outros, sua beleza era quase infantil.

Tinha traços delicados, cabelos cacheados num tom tão claro que pareciam brancos. Seus olhos tinham um brilho azul celeste, incandescente. Uma figura muito bela.

— Me lembro de você, bonitão, só não me recordo de onde — disse Raleph com sua voz fina e anasalada.

— Sou Conner Ventrue. Estive aqui com meu Senhor, príncipe Belphegor Ventrue, há pouco tempo atrás — explicou-se.

— Ahhh, claro. Não poderia me esquecer daquele rosto tão lindo e daquela postura tão bruta. Ofereceria meu império em troca daquele corpo — ele gargalhou com sua própria piada.

Conner não mudou sua fisionomia. Não acompanhou o divertimento do príncipe, o que pareceu embaraçá-lo.

— Pois bem — disse Conner. — Belphegor lhe ajudou com assuntos administrativos e me mandou até aqui para pedir sua ajuda. Precisamos de um grupo para segurança pessoal e aliança para uma guerra que é eminente — Raleph levantou-se. Era um pouco mais baixo do que eu, bem mais baixo que Conner.

— Preciso de detalhes, garotão — falou o príncipe, que estava muito atento a Conner.

— O príncipe Belphegor não é conhecido pela maneira cordial como trata seus assuntos. Por esse motivo, no decorrer dos anos adquiriu muitos inimigos. Soubemos que esses inimigos têm se juntado para por fim ao reinado de meu Senhor. Tenho plena convicção de que príncipes e impérios estão se organizando para uma batalha sem precedentes. É o tipo de conflito onde se você não estiver com eles, estará contra eles e seu reino correrá sérios riscos de ser subjugado. Não tomar uma posição não é uma opção — prosseguiu Conner. — Você conhece bem Belphegor, majestade. Nesse momento está treinando e equipando seu exército. Está se preparando para matar ou morrer. Não entregará a coroa sem lutar. Sabemos que você tem um bom grupo de súditos e servos. Estou aqui para lhe auxiliar a prepará-los para a guerra. É importante que você convoque uma reunião com os príncipes que são seus aliados e passe a eles essa mesma informação. Quanto mais irmãos do nosso lado, mais chances de que as coisas permaneçam como estão: Você e Belphegor príncipes renomados. Lembrando apenas que é importante a discrição. Expor a máscara seria correr risco desnecessário. Não queremos que os anciãos saibam dessa batalha — Conner falou de uma maneira que engoli minha saliva, preocupada com os acontecimentos futuros.

Raleph também ficou nervoso, dava gritinhos enquanto Conner falava.

O príncipe segurou as mãos de Conn e disse demonstrando seu temor:

— Vou precisar muito de sua ajuda, Sr. Ventrue. Sou um príncipe recém empossado, nunca estive frente a uma batalha. Vou fazer exatamente o que me disse, pode contar com minha ajuda e discrição. Vou reunir meus homens e faremos essa reunião. Preciso que esteja presente — solicitou o príncipe.

— Estarei, pode contar com minha ajuda — Conner usou um tom que não parecia bajulação.

— E quanto à proteção particular? Seria para você? — perguntou Raleph.

— Exatamente. Provavelmente fui seguido e se o senhor precisa de minha ajuda, precisa também me manter a salvo. Belphegor deu ordens a essa carniçal para me hospedar na casa dela. Ficarei lá até segunda ordem. Preciso que mande alguns irmãos para que a casa dela fique segura — Conner dava inicio a nosso plano.

— Tudo bem — concordou Raleph. — Hey, espere um momento — continuou o príncipe. — Essa não é a carniçal que Belphegor beijou em minha festa? — Conn e eu nos entreolhamos.

— Ela mesma — admitiu Conner.

— Ouvi rumores de que essa garota seria o tótem do príncipe do Distrito 3 — Disse Raleph, com os olhos voltados em minha direção.

— Exatamente — concordou o vampiro. — São apenas boatos. Estão difamando Belphegor para denegrir sua imagem. É uma estratégia de guerra — justificou-se.

— Hmmmmmm... — respondeu o príncipe, ainda me observando de forma desconcertante. — Tudo bem, terá a proteção solicitada. E ela será de muita ajuda, pois essa garota é um alvo e tanto no momento — concluiu Raleph.

Conner apertou a mão do príncipe e disse encerrando a conversa:

— Belphegor ficará satisfeito por poder contar com sua ajuda. Defenderemos sua coroa como se fosse nosso próprio Distrito.

— É uma honra poder ajudar e ser ajudado por um amigo — respondeu o príncipe, com um sorriso preocupado no rosto.

Saímos de lá e fomos direto para o carro. Conn deu a partida e dirigiu com calma. Até sua maneira de guiar era diferente da de Belphegor.

— E então, acha que o príncipe desconfiou? — perguntei temerosa.

— Acho que não — respondeu-me. — Está tudo sob controle, Clarice. Consegui fazer a aliança com Raleph e ainda consegui proteção para sua família, o que possibilitará que você volte a vê-los. E pouco me interessa o que esse principezinho boiola pensa.

— Ele é homossexual? Deu pra perceber — respondi.

— Clarice, já é tarde, pule para o banco de trás e procure descansar, vai ser uma longa viagem até sua cidade — acatei a orientação de Conner. Perguntei, depois de me aconchegar no banco:

— Como vai saber onde eu moro? — ele gargalhou.

— Você é o tótem do meu príncipe. Assim que ele resolveu te aprisionar me pediu para investigar sua vida. Fiz o levantamento completo. Sei seu endereço, suas notas no jardim da infância, seus romances, até o nome do seu cachorro.

— Que romances? — perguntei evidentemente nervosa. Nem podia considerar meus casinhos como “romance”.

— Seu primeiro beijo aconteceu com seu vizinho zarolho, naquela brincadeira “beijo, abraço...” — eu estava ruborizada. Conner se divertia. — Você tinha 13 anos — continuou. — Depois disso teve um amor platônico por um rapaz esquisito do colégio, o nome dele era Pablo. Ele nunca soube seu nome. E aos 15 você conheceu Rafael, um aspirante a poeta. Ficou encantada e tiveram um namorinho relâmpago. Desde então você não voltou a namorar, nem se apaixonou pra valer até ser raptada por Belphegor — fiquei chateada por ele saber tanto.

— Cale a boca, Conner! Eu quero dormir — me remexi no banco de trás, demonstrando minha insatisfação.

— Isso me deixa chateado com você — disse Conn. — Beijou seu vizinho feio só por que não queria ser a única de suas amigas que nunca tinha beijado um garoto. Gostou de Pablo por que era diferente dos outros caras, da mesma forma que sempre se sentiu diferente das outras garotas. Se encantou por Rafael, pois ele escrevia bem e era admirado. Você sempre levou muito em conta o que os outros diriam, o que os outros pensariam. Agora está toda embasbacada por Belphegor, afinal ele é autoritário e tem um lugar de destaque entre os vampiros. Você sabe que ele não se preocupa com você. Sabe que ele só está com você por egoísmo, só por que ele precisa. Mesmo assim insiste em gostar de uma pessoa cheia de si — ele fez uma pausa curta, depois de suspirar. — Sabe por que te perdôo? Você é muito nova, só tem 19 aninhos, um bebê. Vai amadurecer e nesse dia, vai se lembrar que tem um cara que gosta mesmo de você, que se sacrifica por sua causa, que se importa, que luta contra o correto, contra o obvio só pra você notá-lo. Vou ser paciente. Tenho a eternidade a meu favor — ele falava casualmente, eu estava desconfortável com esse assunto.

— Conn, não se iluda — disse a fim de encerrar esse assunto. — Não me leve a mal, eu gosto de você, mas não alimente sonhos românticos com minha pessoa — não quis ser rude ou prepotente, só queria tirar essa ideia da cabeça dele.

Conner sorriu.

— Tem muita coisa para acontecer ainda — garantiu-me.

Adormeci e quando acordei já era dia. Saltei para o banco da frente, coçando os olhos e bocejando.

— Bom dia! — disse Conner.

— Bom dia, Conn — respondi.

Um sorriso apareceu em meu rosto quando vi minha cidade.

***