A Máscara
8 Capítulo 8 - A proposta.
Notas iniciais
— Hey — dirigi minha atenção a ele. — Esse sol não vai te fazer mal?
— Não aqui dentro do carro. Os vidros bloqueiam os raios prejudiciais. Sabe como é, nossos carros são feitos sob-medida. E já te disse que temos uma tolerância a ele, pequena, porém o suficiente para não desconfiarem de nós, para não comprometer a máscara — explicou Conn.
— Como estou? — perguntei enquanto passava os dedos entre meus cabelos, tentando desembaraça-los e assentá-los. Sempre os usei compridos e ultimamente não tinha dado a eles o cuidado que exigiam. Eram volumosos e deviam estar emaranhados pela falta de um pente. Também estava preocupada com minha magreza. Durante toda a vida estive abaixo do peso, e era provável que tinha perdido alguns quilos depois do rapto. Os carniçais e vampiros se preocupavam com minha alimentação, contudo me serviam comidas das quais não estava habituada. Durante o período em que morei na casa dos meus avós, eles me mimavam, o tempo todo, com meus pratos favoritos e por conta disso meu aspecto era mais saudável, até ter sido atacada por Conner.
Queria ter uma excelente aparência para reencontrar minha família. Não queria preocupá-los, além de toda tristeza que já havia causado a eles.
— Você está ótima! — disse o vampiro, após me analisar de um jeito desconcertante. Sua afirmação parecia honesta, não galanteadora, mas logo estragou tudo, me lançando um sorriso malicioso.
Nunca tinha visto Conner sob a luz do sol. Seus cabelos negros ganharam um brilho perolado, sua pele a textura de um pêssego. Seus olhos escuros conferiam a ele um ar misterioso. Sua beleza era convidativa e perigosa. Tratava-se de um rapaz muito atraente. Me senti envaidecida quando pensei que uma criatura tão encantadora poderia gostar de mim como mulher. Não que isso fizesse sentido.
Minha atenção foi roubada quando entramos na rua onde ficava minha casa.
Era impressionante como tudo era exatamente como eu me lembrava. O lugar onde eu nasci e cresci se mantinha como em minha memória.
Não fazia muito tempo que tinha sido capturada, todavia parecia que anos haviam se passado desde a última vez que estive aqui. Meu coração falhou algumas batidas quando ele parou o carro frente ao portão vermelho com muros baixos.
Minha casa era simples, especialmente se comparada com os lugares pelos quais havia passado recentemente, mas era inegável que essa casinha era o sinônimo de lar, diferente das mansões por onde andei.
Minhas mãos ficaram úmidas. Meu Deus! Estava em casa!
Senti meus olhos lacrimejarem. Cheguei a pensar que jamais voltaria aqui, e se não fosse por Conner, não voltaria mesmo. Me senti em dívida com ele.
Antes de saltar do automóvel posicionei minha mão sobre a dele, que segurava o volante.
— Obrigada! — disse comovida.
— Não tem de quê! — foi à resposta do vampiro, que estava muito atento a minha reação.
Abri a porta do carro e corri até minha casa. Escancarei o portão e logo comecei a berrar:
— Mãe, mãe! Voltei!
Fui recepcionada por Billyshake, nosso labrador negro. Ele pulava em mim inadvertidamente. Sua empolgação virava violência e o cachorro quase me derrubou por duas vezes.
Minha mãe correu de braços abertos para me receber. Parecia perplexa e emocionada. Tive medo que ela tivesse um mal súbito.
— Deus seja louvado, obrigada Senhor, minha menina está bem! — gritava.
Nos abraçamos de modo emocionado.
Descobri naquele abraço que aquele era o lugar ao qual eu pertencia.
Tudo o que eu era, tudo o que havia me tornado estava diretamente ligado à minha família, às minhas raízes. Ali, quase sendo esmagada pelos braços saudosos da minha querida mãe, reencontrei minha identidade, que por pouco não fora esquecida. Eu não era um objeto que continha a alma de um príncipe imortal. Era apenas uma jovem interiorana, cheia de sonhos, cheia de planos, com um sorriso fácil nos lábios. Essa era eu, e esse era o lugar do qual eu nunca deveria ter saído. Era pra ele que eu voltava humildemente. Reconheci que essas pessoas, de carne e osso, mortais, cheias de sentimentos, eram com quem eu queria estar, e que apesar de imperfeitos eram minha família. Eu e mamãe estávamos aos prantos.
— Onde se meteu, Clarice? — perguntou, assim que o choro deu lugar a sua voz. — Quase nos matou! — ela permanecia agarrada a mim.
— Vou te contar tudo, fique tranquila, o importante é que estou bem e estou aqui — tentei confortá-la.
Nesse momento Billyshake latia furioso atrás de nós. Me livrei do abraço e fui até ele.
O cachorro montava guarda frente ao portão, impedindo que Conner passasse. Billy não era um cão de guarda, qualquer pessoa entrava em casa sem dificuldade.
Supus que os animais tivessem algum sentido superior ao nosso que os alertava de um perigo sobrenatural. Billyshake sabia que Conn não era humano. Acredito que o cão estava tentando nos proteger de um perigo que ele sabia existir.
O vampiro estava exposto ao sol, evidentemente incomodado, no entanto não podia enfrentar o cachorro.
Fui até Billy, o acariciei tentando acalmá-lo.
— Está tudo bem, ele é amigo — disse ao animal, como se ele fosse capaz de compreender.
Segurei o cão para que Conner pudesse entrar. O cachorro não aceitava a presença dele, mesmo com minha imposição.
Assim que estávamos protegidos de Billy, dentro de casa, minha mãe voltou sua atenção para meu acompanhante. Parecia enfeitiçada pela aparência dele. Eu imaginava o tipo de impressão que ele estava causando a ela.
— Mas que rapaz bonito! — elogiou, sem tirar os olhos dele.
Billyshake arranhava a porta e latia escandalosamente. Parecia estar possuído.
— Ele nem parece real — completou mamãe, admirada. Lembrei-me da minha própria reação ao ver Belphegor pela primeira vez e ruborizei. Ele deve ter me achado uma idiota.
Conn baixou a cabeça, fingindo timidez.
— Fico grato com o elogio — foi o que disse, com uma humildade forçada.
Incomodada com o barulho do cão, fui até a porta e me descontrolei.
— VÁ DEITAR BILLYSHAKE. ELE É BONZINHO, O DEIXE EM PAZ! — tentava explicar ao animal que embora Conner fosse um vampiro não nos faria mal. Apesar da minha atitude desesperada, o cachorro saiu da porta, como se entendesse minha mensagem subliminar.
Conner abafou o riso fingindo uma tosse.
Minha mãe continuava olhando para o vampiro como se estivesse diante de um anjo.
Pigarriei para que ela se apercebesse de sua atitude ridícula. Eu mesma estava ficando constrangida.
— Venham para a cozinha, acabei de passar o café — disse mamãe, assim que se deu conta de como estava sendo desagradável. — Temos pães, bolacha, geléia e muito que conversar — completou.
Sentamos à mesa.
Assim que estava acomodada me servi. Aquele cheiro de café fresco, de pães recém assados e manteiga eram muito familiar. Coisas simples que eu jamais poderia imaginar a falta que me fariam. Conn estava rígido, parecendo desconfortável.
— Onde estava? — perguntou minha mãe, realmente preocupada.
Agora tinha que colocar nosso plano em prática. — Bem, eu fui a uma boate com algumas amigas da faculdade. Chegando lá, bebi um pouco, afinal queria me divertir. Depois de alguns drinks conheci Conner — parei para analisar a expressão dela. Mamãe apenas prestava atenção, tentando digerir o assusto. — Ele também havia bebido e acabou que eu não resisti a tanta beleza e nos beijamos. Depois disso, acreditei estar apaixonada, afinal nunca tinha visto um rapaz tão bonito. Conn me disse que estava no Brasil a negócios e que voltaria pela manhã a seu país. Fiquei desesperada. Jamais o veria novamente. Foi então que fui convidada a ir para a Suíça com ele. Eu sei que não deveria ter ido. Sei que deveria ter consultado vocês, mas estava fora de mim, apaixonada e bêbada. Agi inconseqüentemente. Dei-me conta de que vocês poderiam estar preocupados e convenci Conner a me trazer de volta — eu esperava que ela caísse nessa conversa, mesmo sabendo que as chances de isso acontecer eram remotas.
Mamãe voltou a encarar o vampiro. Conner não sustentava o olhar dela, a princípio.
— Clarice, você nunca agiu impensadamente, nem mesmo quando era mais nova. Depois de alguns beijinhos já estava apaixonada? Tão apaixonada a ponto de desaparecer do mapa sem pensar em nada? Não posso acreditar no tamanho dessa infantilidade. Seus avós quase tiveram um piripaque. Queria ser a responsável pela morte deles? Seu irmão está fazendo acompanhamento com psicólogos. Seu pai caiu em depressão, quase perde o emprego. A polícia ainda está investigando seu desaparecimento. Visitei necrotérios, fui reconhecer dezenas de cadáveres. Sabe o que é isso para uma mãe? Como pode ser tão irresponsável? Só por que viu um rapaz bonito? Não me decepcione, não criei você com valores tão baixos — ela não tinha engolido minha história. Imaginei que seria difícil.
— Mãe. Ouça-me... — fui interrompida por Conner.
— Dona Leda, eu assumo a responsabilidade. Quando Clarice decidiu me acompanhar na viagem estava embriagada. Depois que o pileque passou ela queria voltar. Deus é testemunha do quanto ela queria, mas a convenci ficar. Me apaixonei por sua filha, nunca havia me apegado a ninguém dessa forma. A irresponsabilidade foi minha. Não tenho pais, dona Leda, não tenho família. Eu não podia imaginar que um mês e meio fosse causar tanto sofrimento. Ninguém se importa tanto assim comigo. Mas, eu estou arrependido, espero que a senhora me perdoe por agir dessa maneira. Não voltará a acontecer — Conner parecia falar a verdade. Meu discurso foi inseguro, não encarei minha mãe uma única vez. O discurso de Conn foi impecável. Ele tinha o dom para a mentira.
— Escute aqui mocinho... — antes que mamãe pudesse dar uma lição de moral em Conner, ele inclinou-se sobre a mesa e encarou-a, dizendo em tom baixo:
— Você vai me perdoar. Não vai ficar remoendo essa história e vai amenizar o que aconteceu para todos que lhe perguntarem — se recostou a cadeira e mamãe balançou a cabeça em concordância. Olhei inquisidoramente para ele. Sabia o que tinha feito. Essa hipnose não me agradou. O vampiro deu de ombros. Tive vontade de arremessar a faca que eu segurava contra ele.
— Eu te perdoo, Conner, é jovem e está apaixonado. Mas nunca mais faça isso, entendeu? Nunca mais — Conn balançou a cabeça positivamente.
O olhar de minha mãe se voltou para mim.
— O que é essa mancha arroxeada em seu pescoço, Clarice? — inconscientemente levei minha mão até a mordida de Gage. Eu realmente não sabia o que dizer.
— Er... É... Que...
— Marcas da paixão — respondeu Conner cinicamente, me salvando, ou melhor, me encrencando. — Quando nos empolgamos no calor do momento, perdemos o limite de nossa própria força e nos marcamos mutuamente — voltei a olhar furiosa para ele.
— Ai meu Deus! — disse minha mãe. — Você não é mais virgem?
Queria me afundar na cadeira. Senti minhas bochechas formigarem. A temperatura do meu corpo se elevou. Minha mãe me olhava de forma reprovadora e Conner tinha um sorrisinho odioso no rosto.
— Tudo bem se não falarmos sobre esse assunto? Não me sinto à vontade em expor minha vida sexual dessa maneira — disse bronqueada.
Conner continuava com aquele risinho e minha mãe não estava satisfeita com a resposta, e nem com a reação do rapaz;Quando ela percebeu que eu não tocaria mais no assunto, se virou para Conner.
— Acha isso certo?
— Minhas intenções são as melhores, Dona Leda. Acho natural para um casal apaixonado — os olhos de minha mãe passaram dele para mim.
— Parece que não te conheço. Quem é você e o que fez com minha filha? — apenas desviei o olhar. Sabia que intuitivamente ela tinha razão. Ultimamente não reconhecia a garota que via no espelho. Meus princípios e convicções eram tão frágeis que pareciam argila nas mãos desses monstros. Eu me permitia ser moldada por eles, pouco a pouco.
— Não vai comer? — perguntou mamãe para Conner, ainda contristada com as notícias.
— Não — respondeu secamente.
Isso parece ter sido o ponto alto da má impressão que ele causou a ela.
— Crianças, — disse mamãe, evidentemente contrariada e confusa com a história — dêem-me licença, vou ligar pra todo mundo e dizer que Clarice está a salvo.
— Têm toda — respondeu Conn, levantando-se da cadeira a espera de que mamãe se retirasse, daquele modo cavalheiro de séculos atrás.
Tapei o rosto, inconformada. Minha mãe o sondou curiosa. Não sei o que se passava na cabeça dela, suponho que no mínimo tenha achado sua atitude estranha. Torci para que se convencesse de que esse gesto fosse comum no país dele.
Provavelmente Conner não socializava com humanos a algum tempo, e conservava seus hábitos antigos.
Assim que mamãe não estava mais presente, Conner se aproximou de mim.
— Ficou com vergonha em dizer para mamãe que não é mais virgem? — ele tinha um olhar provocativo.
— Descobriu que não sou mais virgem na sua pesquisa? Não sei como isso pode ser do seu interesse — mantínhamos o tom baixo.
— Na verdade não tinha como saber exatamente. Sempre achei que fosse virgem, até que você apareceu no meu apartamento vestindo apenas a camisa de Bel. Ficaram sozinhos num hotel e você estava bêbada, imagino o que houve por lá — especulou o rapaz. — E tudo que diz respeito a você me interessa — completou.
— Quer saber? Não lhe devo satisfações — respondi aborrecida ao me lembrar de como foi frustrante aquela noite no hotel.
Nesse momento o transporte escolar estacionou frente a casa. Ouvi passinhos correndo pelos corredores. Era ele, Danilo! Levantei-me num salto e fui apressada ao seu encontro.
O menino parou bem em minha frente. Olhava-me com incredulidade. Finalmente seu rosto iluminou-se e ele me presenteou com um sorriso banguelo.
— Clari? — disse ele, ainda surpreso com minha presença.
Correu até mim e se jogou em meus braços. Tive dificuldade em sustentá-lo. Danilo tinha apenas seis anos, ainda estava perdendo os dentes de leite, todavia, estava pesado demais.
— Onde você estava? — questionou, enquanto eu o recolocava no chão, atrapalhadamente.
— Fui viajar, Dan, mas já estou de volta — minha intenção era que ele parasse com as perguntas, mas foi inútil.
— Você foi viajar sem avisar a mamãe e nossos avós? Merecia umas palmadas.
Eu ri da situação. Estava levando bronca do meu irmão pirralho.
— Quero que conheça uma pessoa — Conner levantou-se e veio ao encontro de Danilo. Estendeu a mão para ele e deu um sorriso amistoso:
— Olá meu jovem, sou Conner. É um prazer conhecê-lo — Danilo recuou. Seus olhos estavam arregalados.
— Clari! — chamou meu irmão — Esse cara é um vampiro — o tom dele era assustado. Conn e eu nos entreolhamos.
— Ficou louco, Danilo? Anda jogando muito videogame! — respondi irritada.
— Ele é sim, Clari, eu sei que ele é. Foi por isso que você sumiu, não foi? O vampiro te levou — Danilo continuava se afastando.
— Que imaginação tem as crianças de hoje! Fico admirado — observou Conner, sem se importar com a situação.
Eu não sabia o que fazer. Disse, depois de ponderar:
— Mamãe me contou que você está se tratando com psicólogos. Sabe o motivo? É por inventar histórias. Pare de gracinha Danilo, cumprimente Conner.
— Não. Tenho medo de vampiros — estava relutante.
— Por que diabos você acha que ele é um vampiro? — apesar de Conn não se importar eu estava preocupada.
— Pouco tempo depois que você sumiu, eu vi vampiros — explicou Dan. – Eles perguntaram por você. Contei para mamãe, mas ela disse que eu estava abalado com seu desaparecimento. É por isso que estou fazendo terapia — depois de sua explicação, até Conn mudou a fisionomia, de completa indiferença para interesse genuíno.
— Bem, vampiros de fato não existem — se adiantou Conner. — Mas, essas pessoas que te assustaram podem estar envolvidas no desaparecimento de Clarice. Conte-me exatamente o que aconteceu.
— Era fim de tarde — relembrou Danilo. — Estava andando de bicicleta em frente de casa. Um carro preto parou perto de mim. Havia dois homens nele que aparentavam estar doentes, eram muito pálidos, assim como você — apontou para Conner, como uma acusação. — Também tinham a cor dos olhos destacada, parecendo bolas de gude. Um deles tinha os olhos verdes, muito, muito brilhantes mesmo, o outro tinha os olhos castanhos, com um brilho dourado. Perguntaram-me se eu era seu irmão — Conn e eu estávamos atentos. — Não disse que era — continuou Danilo. — Disse apenas que não tinha permissão para falar com estranhos. Antes que eu pudesse me retirar, um deles me agarrou pelo braço e me mostrou as presas. De repente ele ficou monstruoso. O brilho em seu olhar sumiu, seus olhos ficaram opacos. A beleza de antes não mais existia. Era como uma máscara que escondia um demônio. Eu gritei, estava apavorado. Ele me soltou e arrancaram com o carro. Larguei a bicicleta na rua e vim contar para mamãe, mas ela não acreditou em mim.
Não sei dizer como ficou minha fisionomia ao ouvir meu irmão contar sobre seu contato com os vampiros, estava revoltada. Como podiam assustar uma criança? Em seguida senti medo. Os vampiros estavam rondando minha casa, minha família corria risco. Eu não sabia o que dizer. Talvez Conner tenha percebido minha reação e por essa razão tenha decidido tomar as rédeas da situação.
— Eu acredito em você — disse, ajoelhando-se diante de Danilo. — Não acredito que vampiros existam, mas acredito que isso aconteceu. Existem truques mágicos que nos fazem acreditar numa ilusão como se fosse realidade. Esses imbecis resolveram usar um truque com você, para te assustar, afinal você não respondeu a pergunta deles.
— Mas eles se pareciam com você — retrucou Dan.
— Talvez eles tenham a mesma nacionalidade que a minha. Nasci no Canadá e somos bem parecidos por lá — Conn falava de uma maneira fria, quase sincera. Se eu não soubesse a verdade acreditaria nele.
— E como fala tão bem meu idioma? — Danilo estava desconfiado.
— Por que eu morei aqui durante alguns anos — ponderou Conn. — Além disso, tenho facilidade em perder o sotaque, talvez pelo fato de ter morado em muitos países diferentes — pela fisionomia de meu irmão acredito que não tenha aceitado as explicações de Conner, nem ao menos chegou a considerá-las.
— Conn está certo, Dan — apoiei o vampiro. — Ele é uma pessoa maravilhosa, não precisa ter medo dele — disse enfim. — Posso te afirmar que se eu estou aqui hoje é graças a ele. E é melhor você parar com essas histórias, não seria educado falar para as pessoas que supõe que Conner seja um vampiro — talvez isso funcionasse.
— Eu sei que ele é um vampiro, mas não vou contar a ninguém. Além de não acreditarem, achariam que estou louco, como a mamãe e meu psicólogo — Danilo estava magoado.
— E está mesmo — afirmou Conner.
Meu irmão nos deu as costas. Parecia ofendido por subestimarmos sua inteligência.
— Ele teve a quem puxar — confidenciou Conner. — Incrédulo e teimoso — infelizmente não concordei com o vampiro. Danilo demonstrava convicção e personalidade, qualidades que me faltavam.
Ficamos calados por um tempo. Eu imaginava que talvez tivesse cometido um erro por ter aceitado voltar para casa.
O celular de Conner me trouxe de volta a realidade com suas chamadas insistentes. Tive um sobressalto, sabia quem estava do outro lado da linha. Minha empolgação deu lugar à decepção quando percebi que o vampiro não pretendia atender a ligação.
— Você não pode simplesmente ignorar Belphegor — disse cochichado, sem esconder minha infelicidade.
— E o que queria que eu fizesse? Que eu atendesse e dissesse que estou em sua casa? Ele viria para cá imediatamente, te arrancaria daqui a força e acabaria comigo. Nem sei o que aconteceria com sua família — seu tom imitava o meu.
Apesar de sua resposta razoável eu sabia que estava mentindo. Conner sentia prazer em estar no comando, tomando as decisões. Talvez se julgasse mais inteligente e mais preparado do que o príncipe e tivesse poucas oportunidades para provar isso. Temi pela segurança da minha família. Essa não era a prioridade de Conner, compreendi. Ele só queria liderar alguma coisa, independente do que fosse.
— Só o fato de ter ignorado a chamada dá motivo suficiente para que Belphegor venha averiguar o que houve. Se há alguma chance de eu ser o tótem do príncipe presumo que toda vigilância seja pouca. Acho que essa imprudência pode ter condenado minha família.
— Você não pode me culpar — Conner parecia indignado. — Foi Belphegor quem te beijou com empolgação na mansão de Raleph. Foi ele quem colocou você e seus entes queridos nessa situação — percebi o rancor intenso nas palavras de Conner. Ele já havia me dito que não gostava de Belphegor, todavia, dessa vez me pareceu que era bem pior que isso.
— O caso é que talvez termos vindo para cá tenha sido uma péssima ideia e Belphegor não tem culpa alguma disso, pelo contrário, imagino o que faria se soubesse o que confabulamos em suas costas — refutei seu argumento.
— Não tem com o que se preocupar. Os servos de Raleph farão a proteção de todos aqui. Todos estão em segurança —discordou Conn.
— Sim, mas só durante o tempo em que você estiver aqui. Eles não estão protegendo minha família, estão dando cobertura a você. Esse foi o acordo — cruzei os braços em baixo dos seios. Não pude evitar um pensamento que me deixou furiosa: Conner pouco se importava com a segurança da minha família. Talvez tivesse proposto me trazer aqui apenas para desafiar a autoridade do príncipe. O que lhe daria mais satisfação do que isso? Ele se aproveitava de minha ingenuidade, caçoando de mim e brincando com todos a minha volta.
— Entenda Clarice, os vampiros não querem nada com sua família. Eles não querem atingir você. A única coisa que os interessa é Belphegor. Só estão querendo te matar por desconfiarem que você seja o tótem dele. Sua família não faria diferença alguma — seu tom de voz começou a se elevar.
— Ah, não? Então porque estiveram aqui? Por qual motivo assustaram meu irmão? Não pode negar que está nos jogando na jaula dos leões por um capricho pessoal — também elevei meu tom. — Só não pense que eu vou permitir que você transforme minha casa num circo. Sendo ou não tótem de Bel, vou começar a usufruir a posição que me deram. No momento não sou dispensável, mas e quanto a você? Posso convencer o príncipe a te descartar como lixo. Se ele souber como tem se comportado longe dele esse será seu fim — o vampiro me encarava com ar de espanto. Parecia não acreditar nas palavras que acabara de ouvir.
— Agora entendo o laço invisível que te une a ele. Vocês são iguais — acusou-me. Se Conner tivesse algum sentimento eu acabava de feri-lo. Será que realmente ele estava se arriscando para me ajudar?
Senti meu coração se contrair. Pensei em pedir desculpas, mas isso soaria como hipocrisia. Apenas afastei meus olhos dos dele e fitei lugar algum.
Minha mãe estava organizando um grande evento em família para comemorar minha volta. Estava pendurada ao telefone contando sobre como apareci em casa e convidando todos para o jantar.
— O que mais me impressiona é como o defende. Como fica ao lado dele, mesmo sendo mal tratada e humilhada o tempo todo — o que? Eu disse que persuadiria Belphegor a matá-lo e foi a esse ponto da conversa a que ele se ateve?
— Por favor, Conner — disse sorrindo. — Ele não te trata muito melhor do que a mim e mesmo assim você lambe o chão em que ele pisa. Não sabe como isso me aborrece.
— É diferente — defendeu-se. — Ele é meu Senhor, meu Mestre. Tenho uma dívida para com ele. Vampiros costumam honrar “favores”. Minha servidão é um dever. Sua submissão é patética — só não respondi a essa injúria, pois minha mãe, de repente, pareceu atenta demais a nós dois.
Forcei um sorriso e segurei a mão dele, entrelaçando nossos dedos. Estava difícil representar uma paixão avassaladora devido às circunstâncias, mas já que estávamos na chuva, teríamos que nos molhar.
Fosse qual fosse a intenção de Conner, já estávamos aqui e minha família já corria riscos.
Não demorou muito até que meus familiares chegassem. Nem preciso dizer que foi uma chateação. Tias e tios dando-me beijos molhados.
Eu tendo que contar a mesma história diversas vezes. Minhas primas paquerando Conner descaradamente, enfim...
A boa notícia é que ninguém fez muitas perguntas sobre meu sumiço. Aceitaram bem a história de fugir com o namorado, provavelmente por verem de quem se tratava.
A má notícia é que eu seria o assunto da família durante algum tempo, até uma prima menor de idade engravidar, um primo assumir sua homossexualidade ou algum tio ser internado para se livrar de um vicio.
Meu pai chegou quando alguns parentes já haviam se retirado. Deu-me um abraço apertado que me levantou do chão. Até esse momento nunca o tinha visto chorar, isso de fato me emocionou.
Ele fez as mesmas perguntas que mamãe, embora não parecesse tão interessado em mim quanto em Conner. As perguntas eram dirigidas a ele, na maioria das vezes. Como sempre ele parecia seguro e confiante. Seus argumentos pareciam irrefutáveis. Meu pai o encarava de uma forma estranha. Depois da conversa disse:
— Escute garoto, gostaria de beber alguma coisa?
— Com certeza — respondeu Conn.
Os dois dirigiram-se até a sala e continuaram a conversa longe de nossa curiosidade. Fui até a cozinha ajudar mamãe na arrumação e limpeza.
— O que será que papai quer com Conner? — procurei manter o tom casual, enquanto guardava os pratos.
— Ora Clarice, você desaparece e reaparece com esse sujeito. Seu pai acredita que ele seja o principal suspeito por seu rapto — ela enfeitava a mesa com um vaso de flores artificiais.
— Mas eu já disse que fui por vontade própria. Não acredito que duvidem que eu não possa ser uma adolescente rebelde, como qualquer outra — estava magoada.
— Talvez acreditássemos, se você tivesse 14/15 anos, mas você não é uma criança, nunca foi irresponsável. E o pior de tudo é o exemplo que você deu a seu irmão. Como se fosse normal sumir sem dar notícia, voltar e trazer um namorado a tira colo. Você nunca trouxe um garoto aqui. Soube apenas do Rafael, mas você nem nos deixou conhecê-lo. Não acha que exagerou? — ela estava chateada.
— Desculpe-me. Não faria novamente se pudesse voltar atrás. E quanto ao Conner, simplesmente aconteceu — justifiquei-me.
Terminamos de arrumar tudo em silêncio. Meu pai e o vampiro estavam demorando a juntarem-se a nós.
Quando se aproximaram nos flagraram assistindo telenovela.
Olhei curiosa para Conner, ele me parecia contente. Meu pai também estava com um semblante satisfeito. Não aguentei minha curiosidade.
— O que tanto falavam?
— Bem — disse meu pai. — Tenho que confessar que me enganei a respeito desse jovem rapaz — fiz uma careta, estava certa que Conn o havia hipnotizado.
— Conner tem um excelente emprego, é religioso — quase ri com o religioso. — E o melhor de tudo: têm boas intenções com nossa menina. Acabou de me pedir sua mão em casamento e eu concedi.
Fiquei boquiaberta. Bem que Belphegor me avisou que Conner iria se aproveitar de alguma forma. Esse vampiro se aproveitou da situação: chegamos em casa dizendo que estávamos apaixonados, como eu iria negar um pedido de casamento?
Minha mãe pulou em mim, quase me esmagando no sofá.
— Espera aí mãe — tentei me livrar de seus braços. — Papai, veja bem, eu sou muito jovem. É um passo muito importante. Todos nós estamos com os ânimos exaltados, não quero tomar uma decisão precipitada...
— Decisão precipitada? — disse papai, elevando a voz. — Fugir com um rapaz para o estrangeiro, alguém que acabou de conhecer, não é uma decisão precipitada? Ficar sem dar notícias e deixar a família maluca é permitido, mas se casar não é? Por favor, Clarice, não me decepcione ainda mais. Não vou obrigá-la a se casar, entretanto se não fizer isso te proíbo de sair dessa casa com esse garoto — ele falava sério.
— Mas pai, eu preciso ir. Conner e eu temos que viajar...
— Ele me disse — interrompeu papai. – E eu falei que daqui você só sai casada.
— Seu pai está certo, Clarice, o casamento vai significar segurança para você. Visto que temos que viajar o mais rápido possível, providenciarei tudo o quanto antes. Essa cerimônia só vai confirmar o amor que sentimos um pelo outro — Conn estava adorando a situação. O risinho em seu rosto era provocativo.
— Papai, não conhecemos esse sujeito — defendeu-me Danilo. — Não podemos obrigar Clarice a se casar. Ele pode ser perigoso. Minha irmã pode ser infeliz para sempre — nada tirava da cabeça desse menino que Conner era um vampiro.
— Estou convencido de que Conner é um bom rapaz. Ele entende que ficaremos mais tranquilos se ela sair daqui casada. Você tem duas opções, Clarice: ou se casa ou o deixa partir sozinho — uma raiva veemente se apossou de mim. Conn estava exagerando. Nos casarmos? Bel nos mataria.
Será que essa foi uma sugestão de papai ou apenas manipulação de Conner? Não importava, isso significaria o fim.
— Se vocês nos derem licença, preciso falar a sós com Conner — disse, pondo-me em pé.
— Não temos o que conversar, querida — falou o rapaz. — Te fiz uma proposta. Só preciso de uma reposta. Sim ou não? — todos olhavam para mim, esperando que eu dissesse alguma coisa.
Odiei Conner. Que opção eu tinha? Dizer não e voltar a desaparecer, levando meus pais à loucura? Ou dizer sim e ir embora com a bênção deles?
Conner tinha planejado tudo desde o início, e provavelmente só para afrontar Belphegor.
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