A Máscara
3 Capítulo 3 - Seus lábios.
Notas iniciais
Continuação do capítulo 1
Quando acordei vi Conner sentado no canto do quarto com outro livro em mãos.
— Você não dorme? — perguntei, coçando os olhos e bocejando.
— Bom dia pra você também, Clarice — estava magoado. — Durmo sim, mas não durante a noite e não todos os dias — respondeu a contra gosto.
— Conn, o sol te queima? — iria recomeçar com meu interrogatório.
— Não. Ele faz mal aos meus olhos. Impede que eu enxergue bem. Se ficar exposto por muito tempo me desidrato e surgem bolhas doloridas em meu corpo.
— Muito tempo é quanto?
— De uma hora a duas, em alguns vampiros mais, outros menos — explicou, ainda impaciente. — Tudo depende de quão bem nutrido está.
— E por que você e Bel são quentes?
— Podemos simular a temperatura humana. Só precisamos estar bem alimentados, digo, bem alimentados mesmo! Simular temperatura gasta muita energia de nosso corpo.
— Onde Bel fica? — perguntei por fim. Desde o início queria saber mais a respeito dele.
Conner se levantou. Andou em minha direção, dizendo:
— Bel, Bel, Bel e Bel. Sabia que o assunto tomaria esse rumo — parecia ressentido. — Ele está hospedado na casa de Raleph. Lembra que eu disse que ele é uma espécie de governador? O chamamos de príncipe. Nós vampiros temos nosso próprio mapa. Dividimos os territórios por distritos. Foram designados príncipes para cada um deles.
— O que os príncipes fazem?
— A principal função é proteger a máscara, mas eles cuidam de outros assuntos também, como o controle de natalidade. O príncipe determina quantos servos e carniçais um vampiro pode ter. Determina até o número de mortes permitidas por vampiro, tudo isso para que a máscara fique segura. O território de Belphegor abrange a Europa, basicamente. Raleph controla os territórios onde fica o Brasil e outros países da América do Sul, e assim por diante. Outra particularidade dos príncipes é que eles escolhem o seu próprio nome. É um título para que sejam reconhecidos por seu cargo.
— Agora entendo o porquê desse nome estranho: “Belphegor" — continuei com as perguntas. — Então Bel é a maior autoridade entre vocês? O que capacita um vampiro a se tornar um príncipe?
— Ele não é a maior autoridade, todos os príncipes têm a mesma importância, independente do território em que atue e todos eles devem prestar contas aos anciãos. Esses sim são a maior autoridade entre nós. São eles que nomeiam os príncipes — esclareceu Conner.
— É um cargo disputado?
— Você não faz idéia, Clarice. A vida de um vampiro é muito monótona. Às vezes focar um objetivo como esse é um projeto que pode fazer com que a vida eterna tenha mais cor. O problema é que os príncipes vivem em constante guerra. Muitos vampiros querem matá-los para tomar seu lugar. Eles fazem gangues para expor a máscara no território em que desejam o poder. Se o príncipe não conseguir resolver todos os problemas da região é demitido do cargo e passa ser um vampiro humilhado. Belphegor enfrenta muitos problemas para permanecer como príncipe. Eles têm inimigos poderosos.
— Não há punição para um de vocês que matar um vampiro?
— Só há punição para quem expõe a máscara. Todo o resto é permitido.
— O que é um servo, Conn? Você me disse que é servo de Belphegor, o que significa?
— Que ele me transformou no que sou. Chamamos esse ato de: “O abraço”. O Abraço se dá quando...
Antes que Conner pudesse terminar a frase a porta se abriu.
Ele estava em pé ali. Odiei meu contentamento ao vê-lo.
— Bonjour! — disse Belphegor, com um sorriso no rosto.
Conner balançou a cabeça em cumprimento a Bel.
Eu não respondi. Permaneci sentada na cama e pela primeira vez desde que acordei nesse quarto me preocupei com minha aparência e me senti mal por me importar com isso. Para que queria estar arrumada? Para que Bel me achasse bonita? Quanta estupidez!
Sempre me encarei como uma pessoa incomum. Vivia me vangloriando por dar mais valor ao caráter do que a aparência. Diferente das meninas da minha idade, os garotos que me chamavam a atenção não pertenciam ao grupo dos atletas e sim dos intelectuais. Agora eu me via encantada por um assassino, por um seqüestrador covarde, um monstro que havia roubado minha liberdade e me tratava com desprezo, que não respeitava meus sentimentos, um calhorda que não se preocupava com nada além de si mesmo e sua maldita máscara.
Forcei-me a encará-lo e o odiei por ser dono de uma beleza estonteante. Até mesmo eu que não era uma amante da beleza me via rendida aos seus encantos.
Isso me deixava frustrada. Não podia acreditar que era tão fraca e superficial por me deixar levar por sua aparência, seu cheiro, seu sotaque e seu jeito bandido. Meu lado emocional estava abalado por Belphegor, no entanto, meu lado racional não se conformava com esse fato deplorável. Ele era um parasita maldito que sustentava sua vida tirando a de outros. Eu sabia que essa beleza era um disfarce, apenas uma máscara que escondia a deformidade de sua aparência real.
Bel olhou demoradamente para mim e Conner.
— Nóm posso comprreendê-la, Clarrice. Você é capaz de perrdoar aquele que tentou matá-la, mas é incapaz de dar uma chance parra quem lhe salvou — Conn e eu nos entreolhamos. Tenho que admitir que não havia pensado sob esse ponto de vista.
— Posso ser muito misericordiosa, Bel. Se me libertar, lhe perdôo! — respondi sorrindo.
— Mas, nóm lhe pedi perdóm — disse soberbo. — Só disse que nóm entendo — concluiu.
Senti o sangue ferver em minhas veias. Belphegor tinha o incrível dom de me aborrecer com uma única frase.
Conner caminhou até a porta. — Vou deixá-los a sós — antes que pudesse sair, Bel disse a ele:
— Arrume suas coisas, Conner, voltarremos parra casa.
Assim que seu servo não estava mais presente, Bel parou próximo a cama.
— Terrei uma festa de despedida hoje. Querro que seja minha acompanhante — informou. Ignorei seu pedido.
— Para onde você e Conner vão?
— Você virrá conosco — respondeu.
— Eu não quero ir, Bel, me liberte, eu te imploro! Leve Beth com você — seu olhar era impaciente.
— Quando entenderrá que não imporrta o que você quer? Está decidido. Agorra levante-se — ordenou.
Alguma coisa em seu olhar me fez obedecê-lo.
Sempre fui insubordinável e acatar ordens não fazia parte das minhas virtudes, não sei por que, mas ele me deixava diferente do que eu costumava ser. Obedeci sem discussões.
Bel caminhou a meu redor, me analisando dos pés a cabeça. Eu quase podia sentir o toque de seus olhares queimando minha pele por baixo do pijama.
Após a análise minuciosa, parou atrás de mim.
Senti suas mãos em meus quadris deslizando lentamente até minha cintura. Eu tentava manter a calma, mas era impossível ignorar seu toque em meu corpo.
— Você não me resiste, não é mesmo? Não consegue manter distância.
Ele me puxou para perto dele, encaixando seu corpo ao meu. Seus braços estavam em torno de meu abdômen. Inclinou-se e disse em meu ouvido como se me contasse um segredo:
— Como se atrreve? Se você não fosse tóm ridícula, serria cômica.
Quase desfaleci. Sua ofensa não teve a menor importância, foi facilmente ignorada depois de sentir o corpo dele tão próximo e sua voz sussurrada ao pé do meu ouvido. O resto não passava de detalhes.
A minha respiração ficou pesada.
Belphegor fazia com que eu me sentisse feminina, mulher, mesmo estando descabelada e de pijama.
Subitamente ele se afastou.
— Querria saberr suas medidas para lhe mandarr uma roupa aprroprriada. Você é só uma mortalzinha deprrimente, saiba disso.
Ele deixou o quarto. Fiquei estagnada e perturbada, como de costume.
Algumas horas depois disso, Elisabete me trouxe um longo vestido de cetim preto. Nunca havia visto uma roupa tão fina.
Ele ficou perfeito em meu corpo. No principio, fiquei desconfortável com seu decote revelador, mas me convenci de que estava mais sensual do que vulgar. Um broche com muitos cristais adornavam o vestido. Seriam diamantes? Provavelmente. Não conseguia imaginar Belphegor comprando algo barato.
Elisabete escovou meus cabelos e me maquiou com habilidade. Fiquei surpresa quando me vi no espelho. Os olhos bem maquiados e o brilho labial deram a mim uma aparência de mulher. Eu poderia me acostumar com esse visual — pensei.
Agradeci a Elisabete.
— Não fiz por você — respondeu de mal humor.
Conner veio me pegar no quarto. Estava muito elegante. Vestia smoking tradicional, estava perfumado e com os cabelos arrumados com gel.
Ele ficou parado me encarando. Cheguei a ficar constrangida.
— Você está ótima — Disse por fim, ainda me medindo de cima a baixo.
— Eu sei — brinquei. — Você também não está nada mal! — confessei.
Conn sorriu com o elogio.
Me ofereceu seu braço e descemos as escadas de madeira sorrindo e fazendo poses como se estivéssemos na cena de um filme glamouroso. Foi divertido.
Fui conduzida até um carro que estava no estacionamento.
Bel estava defronte a ele com os braços cruzados. Seus olhos azuis eram acentuados pelo brilho prateado da lua. Achei que fosse um pecado piscar e perder um milésimo de segundo frente à tamanha beleza.
Ele me olhou de uma maneira diferente. Parecia estar diante de um quadro original e exclusivo de Monet. Percebi o momento em que seus olhos fitaram meu decote. Meu coração falhou algumas batidas e minha garganta secou. Senti como se estivesse nua e corei. De alguma forma ele percebeu meu nervosismo e abriu um sorriso de vitória. Quis morrer nesse momento.
Ele abriu a porta do carro para mim, num gesto gentil. Acomodei-me no banco de passageiro.
Assim que Belphegor deu a partida, me orientou:
— Clarrice, é imporrtante que você finja estar loucamente apaixonada por mim durrante a festa. Prreciso que pensem que você é minha carrniçal.
— Por que tenho que fazer isso?
— Você nóm é capaz de cumprirr uma simples orrdem sem me questionarr? Haverrá muitos vampirros por lá. Nóm vóm se importarr se tiverr humanos, desde que sejam carrniçais. Eles nóm criaróm caso se você estiver sob meu domínio. É imporrtante que faça isso, oui?
— Está bem. Mas entenda que não tenho vocação para atriz.
— Vai conseguir — garantiu-me, como se estar apaixonada por ele fosse o lógico.
A viagem foi longa. Percebi que estava afastada da civilização naquele hotel. Havia apenas fazendas ao redor. Belphegor me isolou do mundo, notei.
Chegamos a um bairro com casas luxuosas.
Ele apresentou um convite dourado na entrada de uma delas e entramos na mansão.
Vi muitos carros importados no estacionamento. Nunca estivera num lugar tão suntuoso antes. Bel abriu a porta do automóvel para mim e me estendeu seu braço. Entramos no salão principal assim, de braços dados.
Eu me sentia como na cena de um filme.
Todas as pessoas que já estavam no local olharam para nós. Belphegor parecia não se incomodar com os olhares. Eu fazia uma prece silenciosa para conseguir manter o equilíbrio naquele salto.
Quando reparei melhor nos convidados percebi que a maioria ali eram vampiros. Mulheres e homens elegantes desfilavam com roupas de grife e com sua beleza arrebatadora.
Muitos deles viam cumprimentar Bel. Nem se quer olhavam para mim.
Percebi que ele era muito popular.
Achei estranho o fato de não me apresentar a ninguém, era como se eu nem estivesse ali.
Um garçom passou por mim, uniformizado e carregando uma bandeja com taças de cristal preenchidas por um liquido vermelho vivo. Olhei em outra direção, não poderia ser o que eu estava imaginando. Na verdade, só poderia ser.
Rodamos o salão e eu tive que presenciar dezenas de vampiros trocar algumas palavras com Belphegor e me ignorar completamente.
Quando estávamos sozinhos, eu disse, procurando falar baixo:
— Sou invisível? — ele sorriu abertamente.
— Clarro que sim — esnobou-me.
Um belo rapaz de cabelos cacheados subiu ao palco, tirando minha atenção do insulto de Belphegor. Sua beleza o denunciava como um vampiro. Seus cabelos de tão claros pareciam esbranquiçados. Lembrou-me a imagem de um anjo.
Ele disse com sua voz quase infantil ao microfone:
— Estamos reunidos aqui hoje para nos despedirmos do príncipe Belphegor, que veio nos prestar uma valiosa ajuda. Como sabem, fui recentemente nomeado príncipe desse Distrito e precisava de alguém mais experiente para me auxiliar. Aprendi com Belphegor a tratar aqueles que desprezam nossa máscara com pulso firme e severidade. Não quero ser lembrado por ter sido um bom príncipe e sim por ter sido implacável com meus inimigos.
Aplausos tomaram conta do local.
— Além disso, — continuou o jovem príncipe — sinto-me privilegiado por ter conhecido Belphegor: “o príncipe sem fraquezas”.
Mais uma vez ouviu-se aplausos. Vampiros com a taça nas mãos olhavam em nossa direção, sorridentes. Bel não parecia estar emocionado, pelo contrário, me pareceu chateado, contrariado.
Fiquei em pé por mais 40 minutos ao lado de Belphegor ouvindo agradecimentos de inúmeros vampiros. Alguns com belezas excepcionais, entretanto nenhum tão lindo quanto ele.
Fui salva por Conner que me puxou pelas mãos e me levou para a pista de dança. A música era chata, mas ele sabia como dançá-la. Deu-me algumas instruções e o segui.
Conn me conduzia muito bem, por isso não foi difícil acompanhá-lo. Até que enfim eu estava me divertindo por aqui! Não demorou até que Bel viesse a minha procura. Assim que ele parou ao nosso lado, Conn cessou a dança, abandonando a pista. Ele não deveria ter feito isso, Conner só me decepcionava.
Belphegor falou em tom baixo e com o semblante fechado:
— Nom erra parra me deixarr só — abaixei a cabeça para não encará-lo.
— Desculpe-me — disse no mesmo tom que o dele.
Bel aproximou-se e me puxou contra seu corpo, posicionando-se para dançar comigo.
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Senti uma eletricidade estranha entre nós dois. Levantei o rosto para encará-lo. “Santo Deus, como é lindo!”– Pensei.
Nos mexemos ao ritmo da música. Não conseguia desviar meus olhos dos dele.
Belphegor se aproximou até que nossas testas estivassem coladas. Aqueles olhos azuis dividiam o céu em dois. Suas mãos deslizaram pos minhas costas e se alojaram próximas demais de meus quadriz. Eu não podia desviar meus olhos do dele. Senti seu hálito em minha face, o vi umedecendo seus lábios com a língua. Mal podia respirar. Bel me puxou colando nossos corpos ainda mais.
Inclinou a cabeça e tocou seus lábios com os meus. Senti a textura deles, desconcertantemente quentes e molhados. Nada podia ser comparado à sensação que senti.
Bel movia seus lábios com delicadeza, mantendo o ritmo lento. Eu sentia cada centímetro deles. O gosto de Belphegor me invadiu, era o gosto mais delicioso que poderia existir.
Minha mão alcançou sua nuca, enrosquei meus dedos em seus cabelos dourados e o puxei para mim, demonstrando o quanto o desejava. Esse gesto fez com que ele aumentasse o ritmo do beijo. Enrosquei meus braços ao redor de seu pescoço e senti sua língua invadir minha boca.
O ar me faltava. Mordi o lábio inferior de Bel puxando-o para mim sem gentileza. Ele gemeu.
Agíamos como se não houvesse mais ninguém ali. Como dois adolescentes apaixonados.
Assim que nossos lábios se descolaram, nos encarávamos sem entender o que havia acontecido. Não posso dizer quanto tempo nos olhamos, mas em algum momento descobrimos que tínhamos companhia.
Havia muitos olhares em nossa direção.
Meu corpo sentia os efeitos daquele beijo. Sentia-me fraca e ofegante. Belphegor me olhava com os olhos dardejantes de desejo.
Eu queria sentir novamente seus lábios junto aos meus, mas ele desviou o olhar, parecendo derrotado.
Disse em alta voz:
— Agrradeço a hospitalidade de vocês. Deixo meus votos parra que o prríncipe Raleph exerrça sua autorridade com sabedorria e que prroteja a máscarra com sua vida, se assim for prreciso.
Depois do pequeno discurso, segurou minha mão e me arrastou do salão até o carro.
Tive dificuldade para acompanhar seus passos. Ele estava evidentemente contrariado.
Entramos no automóvel e ele arrancou dali fazendo os pneus cantarem.
Não tive coragem de puxar assunto. Tive medo de suas respostas ácidas. Ele parecia muito zangado e eu temia pela minha integridade física.
— Foi apenas um beijo, Bel — disse tentando amenizar o clima.
— Tenho inimigos que esperram há centenas de anos parra descobrrir uma pequena falha minha e me tirrar o principado. Só esperro nóm tê-los presentedo com esse “beijo” — só a palavra parecia ofendê-lo.
Eu sabia que talvez não fosse a hora certa para tocar nesse assunto, mas não podia deixar a oportunidade escapar:
— Por que me beijou? — tentei.
— O que? Foi você quem me beijou, estúpida! — garantiu o vampiro. Eu sabia que ele estava equivocado. — E nóm me aborreça ainda mais, se prreza por sua vidinha medíocre é melhor que se cale — decidi parar de provocá-lo, embora soubesse que o beijo tinha sido recíproco e correspondido.
Belphegor parou o carro em um descampado, só vi o jatinho que nos esperava quando aumentou o farol do automóvel.
Me agarrei ao cinto de segurança determinada a não deixar o veículo.
Bel teve que me tirar do veículo a força. Eu esperneava e tentava dificultar as coisas para ele.
— Por favor, eu te imploro, não me leve do meu país, Bel, por favor, meus amigos, minha família, todos estão aqui — as lágrimas escorriam por minha face. Toda força que eu empregava contra ele era em vão. Belphegor me levava para aeronave sem esforço, independente da minha luta e súplicas.
Já lá dentro, me sentou numa poltrona.
— Nóm estou com paciência parra seus drramas. Nóm grrite e engula esse chorro — tapei meu rosto com as mãos e tentava parar de chorar. Eu não podia me conformar que iria embora do Brasil. Que chances eu teria de voltar a ver minha família?
O piloto do jatinho, vendo a movimentação disse:
— Quer que eu decole, senhor Ventrue?
Antes que Bel pudesse responder eu gritei.
— NÃO.
Belphegor olhou-me enraivecido.
— Não podemos partir sem Conner — expliquei, com a voz abafada por meus suspiros.
— Depois ele comprra uma passagem de avión — disse Bel, entre os dentes.
— Não podemos deixá-lo aqui— insisti, chorosa. — Não podemos!
Belphegor pegou o aparelho celular e discou para o vampiro.
— Estamos no jatinho, partirremos em 15 minutos, esperro que chegue a tempo ou irremos sem você — avisou, contrariado.
Eu acompanhava os segundos no relógio de pulso que Belphegor deixou comigo. Iria completar 16 minutos quando ele pediu para decolar.
Nesse momento vi Conner correndo no descampado e fiz com que o piloto abortasse a decolagem.
Conner entrou na aeronave ofegante. Seu cabelo estava despenteado, encontrava-se sem o casaco do smoking e sua gravata estava torta, não que esses detalhes tenham prejudicado sua aparência. Tive a impressão que ele veio correndo e era uma distancia relativamente grande, contudo isso não era importante. Agradeci a Deus por ele estar aqui. De uma forma estranha eu sentia que se Conner estivesse por perto às coisas não ficariam tão ruins.
Ele sentou-se em uma poltrona, respirava profundamente para recuperar o fôlego. Juntei-me a ele.
Depois de alguns instantes, Conn havia voltado ao normal. Ele me encarou e então começou a gargalhar.
— Qual a graça? — perguntei de mau humor.
— Sua maquiagem está borrada. Você está parecendo um urso panda — continuava sorrindo.
— Olha quem fala! Também está desalinhado — acusei-o. — Mas pelo menos sirvo para divertir você — disse amargurada.
— Desculpe-me — retratou-se Conn, parando de sorrir. — Por que estava chorando? — perguntou por fim.
— Bel está me raptando. Levando-me nem sei pra onde — confessei.
— Raptada você já está há quase um mês — informou-me, ainda com um sorriso odioso no rosto. — Onde ele está? — perguntou Conner, olhando ao redor.
— Na cabine com o piloto — informei.
— Diga-me uma coisa, Clarice: O que houve na festa?
— Por que a pergunta? — rebati.
— Assim que saíram começaram os comentários. Alguns dos convidados ficaram escandalizados com uma cena entre um vampiro e sua carniçal. Não me diga que você e Belphegor...
— O que? — perguntei aborrecida. — Nós o que?
— Me diga você — disse o vampiro, desafiando-me com o olhar.
— Sabe bem o que houve — cruzei os braços e me afundei no banco. Senti minhas bochechas avermelharem-se.
— Não sei. Suponho que discutiram. Isso seria um erro tremendo. Perceberiam que você não era uma carniçal.
— Se é o que acha se enganou.
Conner me sondava com olhos curiosos. — Nos beijamos — confessei sem rodeios.
— Vocês O QUÊ? — a expressão inicial dele foi de completo espanto.
Encarei a janela, sem nada ver através dela. — Ouviu muito bem — foi minha confirmação.
A gargalhada de Conner me aborreceu e fiquei carrancuda.
— Me desculpe por isso — retratou-se , passando seu braço ao meu redor num abraço arrependido, ignorando meu protesto. — Você é a melhor coisa que me aconteceu nesse século — confidenciou Conner.
Não compreendi, mas pouco me importava. Livrei-me de seus braços pegajosos.
Depois de algum tempo em silêncio me perguntou:
— Me conte como foi. Diga-me como aconteceu — mesmo aborrecida decidi me abrir. Eu precisava desabafar e de todas as pessoas que eu estava convivendo ultimamente ele era a melhor opção.
— Depois que você saiu, Bel me tirou para dançar. Não sei se foi à música, o fato de eu olhá-lo com muita admiração ou então por estarmos tão próximo um do outro. Não consigo achar uma explicação, só sei que nos beijamos. Foi muito intenso e muito bom. Eu o senti completamente envolvido comigo, entregue. Ele correspondia a cada toque e cada gesto meu de uma maneira profunda. Foi um misto de carinho e desejo ardente. Não dá pra explicar, mas eu sei que ele sentiu o mesmo que eu senti. Foi surreal — contei sobre o beijo para Conner como contaria para uma amiga.
Ele ficou calado, dando-me toda a atenção. Notei um brilho de ansiedade reluzir em seus olhos, no entanto ele disfarçou isso mantendo seu semblante sereno. Disse por fim:
— Você está apaixonada por ele?
Antes de responder eu refleti. Pensei muito, mas não tinha certeza sobre a minha resposta:
— Ele mexe comigo. Mexe de uma forma que nem sei te explicar — foi o que respondi.
Conner coçou a cabeça ao ouvir minha resposta. Não comentou mais sobre isso, apenas disse:
— Ele deve estar se odiando agora — havia alguma coisa em seu tom, o que seria? Prazer?
— Sim — concordei. — Está tendo um ataque de nervos. Veio praguejando durante todo o trajeto pra cá. Falou que tem inimigos que procuram uma falha nele, que não deveria ter feito isso. O que ele quer dizer? — Conn ficou pensativo e quase satisfeito. Tentou me explicar:
— Por mais forte que uma pessoa pareça ser, ela sempre tem um ponto fraco. Isso é um fato incontestável. Serve para heróis e vilões. É muito inteligente de nossa parte esconder essa fraqueza. Se alguém souber dela, pode usá-la contra nós e nos derrotar facilmente. Por exemplo: Se Lex Luthor não soubesse da kryptonita, a vida de Superman seria muito mais confortável. Compreende?
— Entendo — respondi. — Isso significa que Belphegor tem uma fraqueza por garotas humanas? — Conner sorriu, divertindo-se. Tentou me explicar mais uma vez:
— Não é isso. Eu quero dizer que todos os alienígenas vindos do planeta de Superman teriam a mesma fraqueza que ele. É uma coisa relativa à espécie. Enfim, é muito complicado, Clarice. Belphegor sabe que comentou um erro. Talvez por ser um erro tão bizarro passe despercebido. Temos que torcer para isso — Conner falava mais para si mesmo do que para mim.
— Você sugou alguma pessoa drogada por aí? — debochei. — Não estou entendendo o que você quer dizer. A fraqueza de Belphegor é a fraqueza de todos os vampiros? Isso se resumiria a todas as garotas humanas ou a mim especificamente? — não me importava em parecer ridícula com minhas suposições, só precisava entender.
Conn sorriu maliciosamente e deu um soco de leve em meu ombro. Enquanto dizia:
— Você consegue ser tão prepotente quanto ele.
— Responda-me, Conner — estava ficando nervosa por não conseguir entender.
— Sim e não — explicou. — Sim, nós todos temos a mesma fraqueza, embora isso seja relativo. E não tem haver com você ou com seres humanos.
— Santo Deus, Conner! Que dom incrível para complicar as coisas. Não estou entendendo. A fraqueza do Bel é um beijo? É sangue? Essa não é a fraqueza de todos vocês? — tentei não deixar transparecer todo minha irritabilidade, mas fracassei.
Antes que ele voltasse a dar explicações nebulosas, Belphegor abriu a porta da cabine. Era visível sua irritação.
Ele lançou apenas um olhar em nossa direção e disse com o tom imperativo:
— Prreciso falar com você, Conner.
O vampiro foi até a cabine e se trancaram lá dentro.
Fiquei chateada por ele ter sido arrancado de mim. Conner me fazia sentir confortável. Ele era quase um Oasis nesse deserto em que eu me encontrava. Me recostei em meu banco.
Esse seqüestro, esses mistérios, descobrir que eu era refém de vampiros, beijos alucinantes, toda essa história maluca estava me cansando. Cansando de tal forma que minhas pálpebras ficaram pesadas e eu adormeci.
Acordei num carro em movimento. Estava com a cabeça no colo de Conner no banco de passageiros.
Belphegor estava no banco da frente conversando com o motorista, em francês. Me sentei, sonolenta.
— Bom dia, Clarice! — cumprimentou-me Conner, animadíssimo.
Não respondi, estava tão atormentada por não estar em meu país que a primeira coisa que fiz foi olhar pela janela e tentar descobrir onde eu estava.
Vi em uma placa: Genève.
Genève? Genebra — Pensei.
— Ai meu Deus! Estou na Suíça. Jurava que me levariam para França. – falei em voz alta, sem intenção.
Bel olhou em minha direção e disse:
— Acho melhor mantê-la aqui. Por horra, é mais segurro.
Segura de que, ou de quem, se já estou sob o poder de vampiros? — Pensei comigo, sem verbalizar minha curiosidade.
***
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