A Máscara
4 Capítulo 4 - Desatino.
Notas iniciais
Tive a intenção de gritar. Queria convencer o motorista a parar o veículo, no entanto, notei a tempo que ele era um vampiro e que nem ao menos falava meu idioma. Meus berros só serviriam para que Belphegor me fizesse calar a força.
O automóvel passou pelos portões de uma grande mansão.
Na entrada algumas pessoas nos esperavam, tanto vampiros quanto humanos. Presumi que os mortais fossem carniçais.
Todos me olhavam curiosos. Isso era natural, estava descabelada, com a maquiagem borrada, vestido de festa amarrotado e descalça. Deviam estar se perguntando o que essa sujeita fazia escoltada por vampiros.
Conner também estava desleixado, porém esse fato só servia para deixá-lo ainda mais charmoso. Somente Belphegor mantinha aquela pose aristocrática nata. Era como se o mundo pudesse acabar em tornados e redemoinhos, mas sua postura permaneceria inabalavelmente elegante.
Assim que saltamos do carro, Bel ordenou que uma das funcionárias da casa me levasse até meu quarto.
— Talvez não seja necessário que a menina fique presa. Não há como ela fugir — interveio Conner, a meu favor.
O olhar brutal que Bel lançou a ele fez com que o vampiro baixasse a cabeça.
— Nóm ouse dizer o que devo ou nóm fazer. Nóm perrca o juízo — ameaçou o príncipe.
Conner apenas calou-se, covardemente. Não posso negar que as atitudes dele me aborreciam. Gostaria de vê-lo afrontando o prepotente líder.
Já que não podia contar com Conner, decidi que eu mesmo confrontaria Belphegor. Talvez não fosse um plano inteligente, mas ninguém faria isso além de mim.Olhei desafiadoramente para ele antes de dizer:
— Só vou até esse quarto se você me levar pessoalmente — ele sorriu, como se caçoasse de minha condição imposta, entretanto assentiu.
Subimos alguns lances de escadas e passamos por muitos corredores e portas. O quarto preparado para mim, dessa vez, era charmoso, com direito a tapetes vermelhos, cama com dossel, poltronas talhadas em dourado com estofamento aveludado na cor vinho. Qualquer um poderia imaginar que o local fora decorado por um vampiro.
— Esperro que goste das acomodaçóns — disse Bel, se preparando para deixar o cômodo.
Eu não permitiria que isso acontecesse.
— Belphegor, precisamos conversar — cruzei os braços e fiquei esperando sua resposta.
— Nóm tenho nada parra falar com você — usou seu tom rude e deu as costas a mim, ignorando-me de um jeito nada gentil.
— Ah, não? — estava disposta a fazer um pequeno escândalo se dessa vez não obtivesse respostas para minhas perguntas. — Pensa que não percebi que você está me evitando, especialmente depois daquele beijo? Me arrastou da festa, me largou sozinha na aeronave e evitou falar comigo no caminho até aqui. Acha que não notei que tem alguma coisa acontecendo? Estou sob seu poder, sei disso. Não sei o que quer comigo ou por quanto tempo vai me manter presa. Não é justo fazer isso. Só me diga o que estou fazendo aqui? O que há entre nós? Por que você me evita? Por que me mantém presa? Não me diga que é um capricho por que eu não vou acreditar em você. E não me deixe aqui sem resposta ou eu juro que faço da sua vida um inferno. Não vou mais aceitar tudo passivamente — de alguma forma conquistei a atenção do vampiro, que virou-se para me encarar.
— Nóm perrcebe, Clarrice? Você nóm tem carrtas no meu jogo. Nóm pode me ameaçarr, nunca poderrá vencer — afrontou-me.
— Posso sim, eu vou gritar e fazer todos dessa casa entender que você tem uma fraqueza e que essa fraqueza sou eu. Não há como negar. Vai ter que explicar a eles o motivo de me manter aqui. Vai ter que dizer a todos que está apaixonado por mim. – ao ver a reação de Belphegor à minhas palavras me arrependi por tê-las dito. Havia fúria em seus olhos, mas não era só esse sentimento que estava ali, havia também incredulidade e surpresa.
Bel fechou a porta, talvez para nos dar alguma privacidade e caminhou em minha direção com os punhos cerrados. Intuitivamente recuei alguns passos.
— O que disse? Disse que é minha frraqueza? Disse que estou apaixonado por você? De onde tem tirrado ideias tóm patéticas? DE ONDE? — continuei recuando e me esforçando em encará-lo sem deixar transparecer meu arrependimento.
— Isso tudo me parece muito óbvio — disse com voz baixa. Não comprometeria Conner de maneira alguma. Não diria a ele sobre nossa conversa na aeronave.
— Escute aqui, garrota insolente, você pode imaginar o que quiser nessa sua mente fantasiosa. Pode achar que eu te raptei por algum tipo de sentimento nobrre ou superrior que eu eventualmente tenha cultivado da minha existência como humano. Nóm imporrta o que acha, isso nóm muda o fato de que eu nóm tenho sentimentos humanos, nenhum deles. É clarro que há interresse da minha parrte ou nóm estarria viva, mas não tente descobrrir o motivo de estarr a salvo, falharrá miserravelmente. Saiba que posso muito bem viver sem você. Fiz isso por muitos anos. Nóm pense que faz alguma diferrença ou que é diferrente de outrras morrtais — disse com os olhos vidrados nos meus. Eu estava com medo da reação dele, mas eu precisava tentar escapar. Elevei a voz ao dizer:
— Pode viver sem mim? Pode mesmo? Não é o que parece. Acho que o grande príncipe Belphegor caiu rendido frente ao sentimento do amor. Não quer admitir isso a ninguém, pois seria confessar uma “fraqueza” e não quer ter “fraquezas”. Se eu estiver enganada, se você não precisa mesmo de mim, prove isso por me deixar ir — procurei manter o semblante calmo sem demonstrar meu pavor.
Bel andou até mim evidentemente bravo, na verdade enfurecido. Ele ficou bem próximo, gritou a centímetros de minha face me fazendo fechar os olhos:
— Acha que vai me CONVENCER a te liberrar com um arrgumento tóm frraco? Admirro sua tentativa, emborra sua ingenuidade me cause náuseas. Vampirros NÓM se APAIXONAM e mesmo que isso acontecesse acha que você terria alguma chance de ser a prrívilegiada? EU apaixonado POR VOCÊ? Logo você, uma adolescente brrasileirra? Prroveniente daquele chiqueirro imundo, cheio de pessoas com espírrito de porrco? Acha que me interressarria por alguém tóm sem grraça, que adorra se passar por coitada? Você nada mais é que uma típica garrota que busca como entrretenimento se agarrar com algum macho pelos cantos. Olhe parra você! Chega a me dar pena! Nóm é tóm bonita como acha e nem tóm esperrta. Está envaidecida por achar, errôneamente, que um ser eterrno e poderroso está rendido aos seus prredicados. Tolinha! Nóm gosto de você. Te desprrezo. Nóm serrve nem ao menos parra ser minha carrniçal. Nem parra ser minha escrrava te querro.
Baixei a cabeça, tentando esconder dele minha indignação. Não deveria estar surpresa, o que eu poderia esperar de Belphegor? Mas o fato é que as palavras dele me machucaram e tive que fazer grande esforço para não deixá-lo me ver chorar.
Respirei profundamente, dolorida com as coisas que ele havia dito. Depois de pensar por um momento em suas palavras ácidas decidi que não seria mais a vítima. Se ele estava tão furioso, alguma coisa que eu disse o atingiu. Se o tocou, era porque fazia sentido. Eu não me calaria. A raiva dentro de mim cresceu e isso me deu forças para continuar. Não gritei, não queria parecer descontrolada como ele:
— Mas, foi você quem me raptou e não o contrário. É você quem arruma pretextos para me tocar todo o tempo. Foi você quem me beijou, embora negue. É obvio que eu não desejo sua presença, você me força a tolerá-la. Quem precisa de mim é você e por esse motivo tem que me forçar a ficar em sua companhia. Eu não preciso de você para nada. Confesso que às vezes sua beleza me confunde, mas isso não significa que eu goste de seus toques e seus beijos. Você deve usar algum tipo de manipulação sobre mim. O fato é que todos sabem que essa pobre mortalzinha brasileira precisa ser forçada a estar na companhia do príncipe eterno, por que ela o repulsa e ele a idolatra! — depois de dizer isso, fiz uma prece silenciosa para que ele não me machucasse.
Bel parecia uma fera enjaulada, andava de um lado pro outro com os braços cruzados nas costas. Olhava-me com uma raiva letal. Sustentei seu olhar com a cabeça erguida, mesmo estando com um nó na garganta que me sufocava. Ele não iria mais pisar em mim, estava decidida, se tivesse que morrer que fosse com dignidade.
O príncipe se aproximou e segurou em meu queixo obrigando-me a encará-lo. Tive medo. Não sei se deixei transparecer.
Belphegor disse, com a voz rouca, evidentemente emocionado:
— Pense como quiser, crriança! Devaneie que sou louco por você e incapaz de viver sem tê-la sob meu poder. Talvez nunca em toda sua vidinha miserrável odiarrá alguém com tamanha devoçón como eu a odeio. Prrovavelmente nunca detestarrá alguém com tanta intensidade. O pior momento de toda minha eterrnidade foi quando ouvi sua voz pela prrimeirra vez. Desde entón soube que desgrraçarria minha vida e quanto mais a conheço mais anseio que desaparreça. Se eu pudesse voltar no tempo nóm permetirria que tivesse nascido — ele fez uma pausa. Foi o suficiente para que eu percebesse que ele não diria mais nada.
Bel me soltou. Caminhou mais um pouco pelo quarto, estava muito alterado, puxava o ar com força para seus pulmões apodrecidos e o soltava pesarosamente. Havia sinceridade em suas palavras. Seus olhos confirmavam isso. Ele me odiava.
O vampiro saiu pouco tempo depois, batendo a porta.
Sentei-me na cama, confusa. Tentava entender o que havia acontecido.
Não conseguia compreender. Se ele me odiava de forma tão profunda por que se torturava com minha presença? Por que não me matava? O que estava acontecendo?
Não achei uma resposta que me convencesse. Foi então que tentei achar uma escapatória de minha nova prisão.
A porta era reforçada e estava muito bem trancada pelo lado de fora. Havia grade em todas as janelas. Meus gritos ecoavam pelo quarto enorme e a impressão que me dava é que eu era a única capaz de ouví-los.
Depois de algum tempo simplesmente desisti. Procurei me ocupar de outra forma.
Mexi nos armários que estavam abarrotados de roupas, todas do meu tamanho. Havia todo o tipo de cosméticos de beleza e produtos de higiene pessoal no banheiro. Pelo visto, Belphegor pretendia me manter aqui por um longo período de tempo.
Os dias seguintes à discussão foram terríveis. A cada momento entrava no meu quarto um vampiro ou um carniçal diferente, nenhum trocava nem ao menos uma palavra comigo.
Comecei a me sentir só e consequentemente deprimida. Passei um dia inteiro e uma noite completa esmurrando a porta e gritando por Conner, mas ele não apareceu. Já não agüentava mais navegar em um oceano de tédio. Não sabia o que fazer para que as horas passassem mais depressa. Não sei dizer por quanto tempo fiquei abandonada e tendo como única companhia a solidão.
Cheguei a desejar que Belphegor me visitasse, sem me importar na possível discussão que teríamos e posterior humilhação que ele me causaria. Arrependi-me por tê-lo desafiado.
Em uma determinada noite, porem, fui acordada por alguém. Ainda sonolenta percebi, mesmo envolta na escuridão, que se tratava de Conner. Abracei-me a ele, apertando-o com força. Ouvi seu riso enquanto encostava minha cabeça em seu peito. Estava muito feliz por tê-lo aqui.
Era desesperador ficar sozinha, não ter ninguém para contar meus problemas. Belphegor estava tentando me tirar à sanidade, uma das poucas coisas que me restavam. Um misto de contentamento e tristeza me arrancou lágrimas dos olhos. Solucei abraçada a Conn, que afagava meus cabelos.
— Sshhhhhh! — disse ele em meu ouvido num tom baixo de voz. — Tudo bem! Estou aqui agora — completou.
Era reconfortante sentí-lo tão próximo a mim.
— Por que você me deixou? Por que desapareceu? — questionei chorosa.
— Fale baixo, não tenho permissão para estar aqui — aconselhou-me. — Bel está muito zangado com você. Ele me proibiu de te ver. É uma espécie de punição — completou sussurrante.
Libertei Conner do meu abraço. Disse no mesmo tom que o dele:
— Eu blefei. Disse a ele que sabia o motivo de estar presa aqui. Bel ficou enraivecido, por isso me castiga.
— Blefou? — o tom de Conner era surpreso. — O que disse a ele, afinal?
— Disse que ele está apaixonado por mim. Que isso explicaria o motivo de eu estar presa — pude ouvir um sorriso abafado de Conner.
— O que foi? — perguntei, ainda falando baixo. — Foi tão ruim assim?
— Sim— disse ele. — Péssimo!
— Então me diga, por favor, ponha fim à esse mistério — supliquei.
— Não tenho permissão para te falar — a submissão do vampiro me frustrava. Já começava a perder a paciência.
— Sabe de uma coisa, Conn? — iria usar todas minhas armas para fazê-lo falar. — Estou orgulhosa de você hoje. Embora não tivesse permissão para vir até aqui, arrumou um jeito de não obedecê-lo. Isso prova que você não é tão subordinado assim. Pode confiar em mim, ele jamais saberá que você me contou — joguei as cartas.
— Eu não saberia como explicar, Clarice. É muito complexo. Não sei como fazê-la entender.
— Tente — insisti.
— Certo — concordou Conner. Eu sorri aliviada.
— Bem, você deve saber que vampiros são seres amaldiçoados. Ganhamos vida eterna e força, porém somos escravos de uma sede que consome tudo o que há de bom em nós. Tornamos-nos monstros sem alma e sem nenhum sentimento bom. Tudo que fora virtude outrora é substituída por essa sede — particularmente discordava de Conner. Apesar de ter sido atacada por ele não conseguia enxergá-lo como uma criatura perversa. — Embora o nosso lado sombrio aflore nos primeiros anos depois do “Abraço” nos foi dada uma válvula de escape para nossa própria maldade. Trata-se de um amuleto que contém a essência pura de nosso ser. É como se nossa alma estivesse aprisionada dentro desse objeto. O chamamos de “o tótem”. Para ganharmos a eternidade precisamos perder a vida. O tótem contem nossa alma. É lá que fica a vida que foi trocada pela imortalidade.
Pisquei confusa.
— Deixa-me ver se entendi: quando vocês são transformados em vampiros, morrem como humanos e a vida eterna só é dada em troca da alma que é aprisionada em um objeto. É isso que está me dizendo.
— Por aí.
— Que objeto é esse? — não pude aguentar minha curiosidade.
— Não há um objeto em especial. Cada vampiro encontrará seu tótem dos primeiros anos de seu Abraço até, mais tardar, 80 anos após a transformação. É um objeto muito pessoal, cada vampiro descobrirá o seu apenas por vê-lo. Vi meu tótem após três anos do “Abraço”. É um camafeu, o guardo em um lugar muito seguro.
— Todos vocês estão predestinados a encontrar o objeto que possuí a alma que perderam ao se tornarem vampiros?
— Sim.
— Esse tal de tótem é a sua fraqueza? — perguntei curiosa.
— Meu tótem é a recordação de tudo que eu fui antes de me tornar uma fera animalesca. Como se o melhor de mim estivesse preservado. Mesmo não podendo restituir essa parte humana, ela ainda me pertence e me mantém são. Se eu perder meu tótem, perco o juízo e o bom senso, digamos assim.
— Espere um minuto, eu sou o tótem de Belphegor? — perguntei confusa.
— Bem, é aí que mora um grande mistério. Não há relatos de um vampiro que tem um ser humano como tótem. Isso jamais aconteceu. Outra particularidade é que Belphegor era o único vampiro de sua idade, aproximadamente 800 anos, a não ter um tótem. Isso era o motivo de seu orgulho. Foi devido ao fato de Bel não ter fraquezas que foi lhe concedida à função de príncipe. Ele é conhecido até hoje por ser o “Inominável sem fraqueza”.
Talvez eu não estivesse preparada para saber de tudo isso. Senti subitamente um aperto no peito. Se o que Conner dizia fosse verdade eu não teria qualquer chance de sair desse quarto.
— Santo Deus, Conn! — disse aturdida. — Bel vai me dar o “Abraço” para que eu seja eternamente dele, como se eu fosse seu objeto? Como se a vida que ele perdeu para ser imortal estivesse em mim? — Conner segurou minhas mãos, entrelaçando seus dedos aos meus, como uma forma de me confortar.
— Belphegor está tão assustado quanto você — me garantiu. — Não havia bondade nele, nada para ele era relevante. Seus inimigos não o assustavam, afinal, não podiam ameaçá-lo. Agora ele está preso a um ser humano de uma forma bizarra. Ele teme ser descoberto. Aquele beijo na festa pode causar especulações.Um vampiro não se sente atraído por um humano, apenas nos alimentamos de vocês e às vezes os usamos para nossa diversão, como por exemplo, para fins sexuais. São apenas brinquedos em nossas mãos. Não beijamos seres humanos com paixão ou descontrole. Quanto a “Abraçá-la” é um assunto muito delicado. É um risco que ele não está disposto a correr no momento, temendo que ao modificá-la dessa forma ele perca seu “possível” tótem. Até que tenha certeza, será preservada humana.
— O que acontece ao vampiro que perde seu tótem? — estava me dando conta de que o problema era maior do que eu supunha.
— Tornam-se “Nosferatus”. Esses vampiros habitam os esgotos das cidades. Não se preocupam com nada, não temem nada. É como se a vida tivesse sido roubada deles pela segunda vez. Os príncipes enfrentam muitos problemas com os Nosferatus. Eles não se esforçam para manter a máscara. Nem mesmo a morte definitiva assusta essa classe de vampiros, pelo contrário, eles a desejam como alívio para seu desespero. Por isso Bel está transtornado, ele acha que seus dias de príncipe estão contados. Quando você morrer, o que de fato acontecerá um dia, ele será um Nosferatu, um ser que ele despreza, que perseguiu durante centenas de anos. Eu entendo a tensão que Belphegor vive agora — desabafou Conn. — Passar do mais invejado príncipe a um Nosferatu é de enlouquecer qualquer um.
Muitas coisas passavam em minha cabeça no momento. Estava preocupada com meu futuro e entendia os problemas que Bel enfrentava. Tudo era muito pior do que eu poderia imaginar. Depois de refletir no que Conner acabara de me dizer, perguntei:
— Você gosta de mim, Conn? Você é um vampiro e deve me ver apenas como uma fonte de alimento — conclui entristecida.
Conner sorriu escancaradamente. Depois se arrependeu por ter feito tanto barulho. Respondeu-me em voz baixa:
— Sou seu inimigo natural, somos como o cão e o gato. Você devia me odiar, no entanto recebi um abraço seu que me fez sentir vivo novamente, quase pude sentir meu coração voltar a pulsar. Depois que passei a conviver com você, Clarice, comecei a repensar nossos tratos com os humanos. Pode parecer estranho, mas me afeiçoei a você de tal maneira que chego a sentir ciúmes de seu relacionamento com Belphegor. Eu posso compreender por que ele encontrou seu tótem em você. Jamais conheci uma mortal que pudesse despertar alguma coisa fraterna em mim. Nunca senti vontade de “Abraçar” ninguém, como sinto de “Abraçá-la” e tornar sua companhia perpétua — havia franqueza em suas palavras. Também gostava de Conner e esse sentimento aumentava a cada dia. Os únicos momentos em que eu me divertia eram quando estávamos juntos. Era o único que me explicava o que estava acontecendo e seu jeito, de alguma forma, me acalmava. Emocionei-me com suas palavras, e voltei a abraçá-lo. Ficamos assim por um momento. Por fim ele disse:
— Preciso ir.
— Não me abandone — pedi enquanto o apertava contra mim. Foi um apelo sincero.
— Nunca vou te abandonar — sua afirmação tinha um tom de promessa.
Da mesma maneira que veio, se foi. Fiquei sentada no escuro atormentada pelos meus fantasmas pessoais.
***
Fale com o autor