A Máscara

14 Capítulo 14 - Sal, limão e tequila.


Notas iniciais
Por amor a uma rosa o jardineiro é espetado por mil espinhos.

Conner olhou em todas as direções e me orientou a pegar todo objeto pontiagudo de madeira que encontrasse.

Mexeu nas prateleiras das estantes e encontrou capas negras, que pareciam ser a proteção contra o frio e a chuva há alguns séculos atrás. Disse que o capuz nos ajudaria a esconder a identidade.

Mostrou-me as pequenas entradas de ar, afinal aquilo não podia ser micro janelas. Analisou-as com cuidado e disse que teríamos mais chance se escolhêssemos passar por uma que desse acesso ao interior da casa e não ao exterior.

Infelizmente, na minha concepção, pareciam altas e estreitas demais.

Conner arrancou sua camisa suja e rasgada sem cerimonia. Jamais tinha visto seu tronco nu e preciso confessar que o rapaz não deixava a desejar. Se ele percebeu meus olhares, não deu pista. Tentei me concentrar no que faríamos, estava sendo indelicada, atrevida e inoportuna, oh Deus! O que havia de errado comigo? Estávamos correndo perigo e eu aqui, me deixando ser guiada por esses malditos hormônios femininos.

Não, nada de errado comigo, era bem difícil não se embasbacar com tanta beleza ao meu redor. Tinha que me entregar a luxuria vez ou outra, afinal eu era humana, diferente deles.

O vampiro arrumou as “estacas” improvisadas no cós da calça, vestiu uma das capas e me estendeu a outra. Coloquei-a, achando grande para meu tamanho. Obviamente não ficou tão bem em mim quanto nele, embora preferisse Conn como antes, sem a capa.

Num salto o rapaz destruiu a tela protetora do duto de ar e se posicionou ali, com a agilidade de um gato, deixando as mãos para me ajudar a subir.

— Arrume algo para fazer de degrau, pule e segure minhas mãos — orientou.

Arrastei com dificuldade um baú de madeira para baixo da pequena entrada. Subi sobre ela e saltei, porém minhas mãos nem chegaram perto das de Conner. Minha queda foi pequena e não me causou dano.

Peguei um caixote e posicionei em cima do baú.

Dessa vez as pontas dos meus dedos triscaram nos dedos dele, mas depois do salto cai sem equilíbrio, tragada pela gravidade e fui ao chão, torcendo meu tornozelo esquerdo. Gritei de dor.

— Conn, mudança de planos. Siga em frente. Me viro com o Bel — disse ressentida.

— Hey! — reclamou em tom baixo. — Onde está aquela garota determinada e corajosa? Não vou sem você. Tente mais uma vez.

— Não dá, não vou conseguir apoiar o pé no chão — minha mão segurava o local da entorse, enquanto meus olhos lacrimejavam com a derrota.

— Venha, Clarice. Confie em mim, dessa vez te pego — era uma promessa.

Encorajada por sua voz segura, subi nos objetos, me apoiando na parede.

— Se eu cair, me deixe e vá — ordenei.

— Tem a minha palavra —Conner projetou seu corpo a frente e se fez muito atento a mim.

Pulei, de olhos fechados e mãos estendidas, senti seus dedos agarrarem meu pulso. Olhei para ele que sorria, feliz por ter conseguido me pegar. Ergueu-me sem esforço para o espaço estreito e me orientou a rastejar atrás dele. Fiz exatamente como disse.

Chegamos a um corredor. Conner arrancou a grade com os pés e pulou para o chão com facilidade. Fez um gesto para que eu me jogasse, me incentivando com as mãos.

— Eu te pego — balbuciou. A dor em meu tornozelo me desencorajava a me arremessar de três metros e meio de altura, não era uma tarefa fácil.

O vampiro parecia impaciente. Entendi que se quisesse segui-lo teria que facilitar as coisas. Fechei os olhos e me atirei de lá. Ele me apanhou sem dificuldade, de modo que caí confortavelmente em seus braços.

Assim que me colocou no chão, puxou meu capuz para esconder minha face. Havia uma movimentação estranha na casa. Conner me arrastou para um canto.

— Os vampiros estão tomando seus postos. – disse silenciosamente. — Isso significa que Belphegor está a caminho ou já está aqui. Você não pode mancar. – puxou seu próprio capuz.

— Não dá. – me rendi. Mordi os lábios, tentando reprimir o choro. Teria que enfrentar a fera, por pior que fosse. Conn parecia penalizado com meu gesto.

No principio vi piedade e depois confusão em seus olhos escuros.

— Preciso que seja sincera. – senti o tom de sua voz ganhar seriedade. — Se quiser vir comigo, vou fazer o que for preciso para te tirar daqui, mas se quiser o Bel, não correrei riscos desnecessários. – ele me encarava com os olhos mais intensos do que os de Gage quando sondou minha alma. Queria ver minha real intenção. Eu não queria ter hesitado, mas foi o que fiz. Pensei por alguns segundos. Não era fácil me separar de Belphegor deliberadamente. Os olhos de Conner tornaram-se suplicantes.

— Vou com você. – me forcei a dizer.

Ele fechou os olhos e suspirou aliviado, em seguida me deu um beijo gentil e inocente na testa, como se me agradecesse.

— Me fez muito feliz por me escolher. Sei a força do meu adversário. – sorriu antes de morder seu pulso e colocar o ferimento na minha boca. Nem pude pensar, quando dei por mim sentia um gosto forte e doce escorrer por minha garganta. Empurrei-o, indignada.

— O que pensa que está fazendo? – o repreendi em voz baixa.

— Estou curando você.

— Está me fazendo sua carniçal! — acusei-o.

— Não estou. — suspirou. — Confie em mim. – seu pedido me pareceu tristonho e não ofendido. Quase que instantaneamente parei de sentir dor no tornozelo, da mesma forma que meu pescoço parou de latejar.

Conner entrelaçou seus dedos aos meus e se apressava na caminhada, me arrastando. Pude acompanhá-lo, sem mancar. Nossa pressa não diferia dos demais vampiros que retornavam aos seus postos, por isso não chamamos atenção.

Não demorou até chegarmos ao jardim, onde fui surpreendida mais cedo.

Ouvi uma voz feminina, atrás de nós, perguntando aonde iríamos. Conner parou abruptamente e seus dedos escorregaram para uma das estacas em sua cintura. Ele apertou minha mão, não sei se estava consciente disso.

— Perguntei onde... – a frase foi interrompida assim que a madeira atravessou seu peito. Nem pude ver o exato momento em que ele a arremessou. A mesma vampira que havia me agarrado momentos antes estava paralisada, com os olhos estatelados.

Ainda analisava a expressão dela quando Conner jogou outra estaca num vampiro que apareceu a minha esquerda, afastado e escondido entre a folhagem. Também atingiu o alvo.

Tudo aconteceu rápido demais, e no segundo seguinte, sem saber o exato momento, estava nos braços dele que corria em direção ao portão dos fundos. Conner arrebentou a fechadura com uma das mãos e me colocou no chão. Assim que estávamos do lado de fora ele cruzou os braços em cima da cabeça com punhos fechados, formando um x.

Não entendi o porquê fez isso, entretanto pediu que eu fizesse o mesmo gesto, assim o fiz.

Andamos de vagar, com a cabeça baixa, o capuz e a escuridão da madrugada se encarregavam de manter nossos rostos ocultos, sempre com o x no alto da cabeça.

Atravessamos a estrada e entramos na mata.

Caminhamos em silêncio. Conner tinha pressa, talvez estivesse com medo de estarmos sendo seguidos ou só precisava encontrar abrigo contra o sol, que nasceria a qualquer momento.

Minha fragilidade humana começou a dar sinal de vida quando fiquei cansada e ofegante. Não trocamos nenhuma palavra até então. Alguma coisa aborrecia ou incomodava o vampiro, o conhecia o suficiente perceber. Tive medo que minha companhia estivesse deixando-o desconfortável. Cheguei a pensar que ele gostaria que eu tivesse ficado na casa de Raleph. Talvez só tivesse concordado em me trazer por achar que adquiriu uma dívida, agora que o tinha salvo.

— Precisa descansar? – perguntou preocupado o bastante para fazer com que a confusão em minha mente se ampliasse.

— Não. – menti. Apenas tinha medo de que os servos de Bel estivessem me perseguindo, e era quase certo que estavam.

Chegamos à outra estrada, pouco movimentada.

Os olhos do vampiro seguia um Honda Civic, que a qualquer momento passaria por nós. Ele planejava alguma coisa, notei. Quando o carro estava perto o bastante, Conn se jogou em sua frente, simulando um atropelamento.

A senhora, que tinha idade para ser minha mãe, desceu do carro assustada e preocupada.

Oh Deus, faça com que ela volte para o carro e siga caminho. – Pensei.

Aproximou-se dele, que estava deitado no asfalto. Parecia espantada. Pude ouvi-la:

— Cristo! É tão jovem. – se abaixou para tocá-lo. Foi nesse momento que ele a atacou.

Ouvi seu grito baixo, enquanto o vampiro se estendia sobre seu corpo. Não pude desviar os olhos, embora sua capa negra impedisse que eu visualizasse os detalhes.

Fiquei enojada de repente. Meu estômago revirou. Sabia que isso não tinha nada a ver com Conner e suas presas, e sim comigo. Por que não gritei? Por que não impedi essa morte?

Isso parecia explicar minha questão de há pouco. De que lado eu estava? Não era dos humanos. Dois vampiros me afastavam pouco a pouco de quem eu realmente era. Não me reconhecia mais e não sei se podia culpá-los por isso.

Conner se levantou e acenou para que eu me juntasse a ele no carro. Foi exatamente o que fiz.

Prendi-me ao cinto de segurança e desliguei o rádio. Definitivamente não queria ouvir música evangélica no momento.

Ele limpou a boca suja de sangue com a costa da mão. Olhei pela janela do veículo enquanto ele dava a partida. Conner me analisava e mantinha a velocidade permitida. Não demorou até que rompesse a quietude.

— Você está diferente. – observou. Olhei para ele, curiosa. Do que estava falando? — Não digo sua aparência, mas algo em você mudou. – corrigiu-se. — O que aconteceu? – sabia que tinha razão, embora não soubesse como responder a isso. Dei de ombros.

Não sei se ele era tão atencioso a ponto de perceber minha mudança, mas era esperto o suficiente para tentar descobrir como Belphegor havia me machucado. Talvez julgou minha expressão e achou sensato chegar ao assunto fazendo uma observação como essa.

— Não precisa me contar, mas não deixe que os acontecimentos ou as circunstâncias te endureçam. – aconselhou. Ainda estava atento a mim, todavia permaneci calada. — Você não pode permitir que nada altere sua essência. – insistiu.

Afundei no banco, sem humor ou disposição para discutir questões existenciais ou para ouvir sermões. Ele entendeu meu gesto, se obrigando a ficar quieto por um tempo. Não demorou muito para encontrar outro assunto.

— Está sentindo a sintonia? – perguntou aleatoriamente. Olhei em sua direção, confusa. — Entre nós, Clarice. O seu sangue está em mim, o meu em você. Isso é tão íntimo, não acha? Seu sangue me ressuscita e o meu te cura. Não há nada mais pessoal do que isso, nem mesmo sexo. – divagou.

Considerei o que ele disse e sua mudança repentina de assunto. Era sagaz para tentar amenizar o clima com esse tipo de comentário. Tenho que confessar que funcionou. Sorri. Era bom estar aqui, vendo Conner ser ele mesmo. O amei por desanuviar meus pensamentos. Então refleti no que havia dito e voltei a sorrir. Apesar de absurdo, fazia algum sentido.

— Estou sentindo. – concordei, por fim.

Conn sorriu, parecendo muito satisfeito com minha resposta.

— Não é a primeira vez que sinto o sabor do seu sangue. Quando te beijei, na boate, no dia em que nos conhecemos, mordi seu lábio inferior e senti seu gosto. Estou pensando em sabores de alimentos humanos para comparar. Não que me lembre do gosto, não exatamente, mas a única coisa que me vem em mente é calda de cereja. – gargalhei, não tive como evitar.

— Tenho gosto de calda de cereja? – disse entre riso. — E você gostava de cereja?

— Oh Clarice! Com certeza era minha fruta favorita. – fez uma pausa, se divertindo com minhas risadas. — E que gosto tenho? – perguntou despretensiosamente.

Pensei sobre isso por um momento. Não se parecia com nada, mas ele estava ansioso por uma reposta. Negro, quente, doce...

— Café. – Conn ficou pensativo. Parecia que tentava recordar o sabor. Encarou-me inseguro.

— Gosta de café, Clarice? – a intensidade de suas palavras me deu pista de que minha reposta era importante.

— É. Gosto. – seu rosto se iluminou. Balancei a cabeça negativamente. Não por sua reação, mas por estar comparando sabores de sangue com um vampiro. — Inclusive, — continuei. — adoraria uma xícara de café, precisamente agora.

Ele estendeu seu pulso em minha direção, num gesto generoso. Empurrei seu braço.

— Agradeço, mas sempre preferi na xícara. — ele franziu o cenho, parecendo muito magoado.

— Não negaria se me permitisse comprovar seu sabor. Queria ter certeza se calda de cereja faz jus a você.

— Controle-se, Sr. Ventrue. A gula é um dos pecados capitais. Tenho certeza que não incorre em culpa nos outros seis. – ele gargalhou.

Claro que ele havia cometido todos os pecados que existia. Isso não ajudava na missão de encontrar razões que explicassem como eu poderia gostar tanto de alguém tão corrompido, aviltado e iníquo.

— Tem razão, Senhora Ventrue. Tenho evitado excessos. A última coisa que quero é cometer essas atrocidades. Deus me livre!– fez o sinal da cruz.

Apeguei-me no “Senhora Ventrue”, nunca me acostumaria com isso.

Continuamos conversando sobre banalidades e isso preencheu o tempo e roubou meus pensamentos autodestrutivos.

O que mais me fascinava nele era o dom que tinha de ser o que eu precisava que fosse. Sempre disposto a se transformar conforme minha necessidade. Tanta complacência, embora cativante, era motivo para desconfiança.

Por quê? Porque ser tão legal assim?

Paramos em uma lanchonete. Conner me orientou a permanecer com o capuz. O sol se firmava no céu, desfazendo o cinza numa claridade pálida.

Me encontrava faminta. Comi dois pedaços de bolo de laranja e um pão de batatas. Tomei chá, embora ele tivesse insistido para que eu tomasse café.

Continuamos conversando animadamente. A essa altura lembro-me de ter dito a ele que os humanos tinham uma vasta qualidade de alimentos, com sabores tão peculiares. Já os vampiros só tinha sangue e isso era pior do que ser alimentado com ração de cachorro, por toda a vida. Isso nos levou a conversar sobre Billyshake e como meu labrador havia o odiado. Conn salientou o péssimo gosto da minha família para nomes de animais domésticos. Era muito fácil falar com ele. Tínhamos talento para falar besteiras.

Acabamos por decidir ligar para os meus pais e dizer como a lua de mel estava maravilhosa. Meu pai estava completamente transtornado por não termos dado notícia alguma desde o casamento, e acabei concordando que Conn o hipnotizasse, para que papai não sofresse um ataque cardíaco.

Continuamos a viagem de carro. Parávamos para nos alimentar, ou para qualquer necessidade que eu tivesse. A pior parte era tomar banho naqueles banheiros de beira de estrada. Quando estava cansada, cochilava no banco traseiro.

Conn trocou de automóvel algumas vezes, disse que precisávamos ser cautelosos e sei que estava certo.

Eu estava adorando viajar sem destino, era muito libertador, além de que a companhia era agradabilíssima.

Numa tarde fria, quando estávamos há quase três dias na estrada, ele olhou indiscretamente para minhas pernas expostas naquela saia curta de couro.

— Você não devia provocar os homens dessa maneira. – queixou-se, com apenas uma sugestão de sorriso nos lábios rubros.

— Cale a boca! – o repreendi. — As roupas que uso foram escolhidas para mim e não por mim. Não tive a intenção de parecer desejável, embora pareça. Tente se controlar, sim? – esnobei-o.

Conner ficou pensativo com minha resposta.

—Ouça-me, – disse depois de refletir por algum tempo. — o que diria se eu te convidasse para sair?

— Sair? – quase achei graça do seu convite.

— Você é uma bela garota, não deveria se espantar em ser convidada para um encontro.

Dessa vez gargalhei sem cerimônias.

— Imaginei que estivéssemos em fuga. Lembre-se que nossa cabeça está a prêmio. Não estamos aqui para flertarmos ou nos divertirmos, Romeu.

O vampiro estava contrariado, sua fisionomia não escondia o fato.

— Você bem que podia ser mais agradável! Já despistamos nossos inimigos. Merecemos um momento para relaxar. Temos muito que comemorar, afinal você se livrou de sua prisão perpétua e eu não fui aniquilado.

Pensei sobre o assunto e acabei por concordar. Estava passando por momentos traumáticos, que me exauriam física e emocionalmente. Talvez devesse descontrair, eu só tinha 19 anos e ultimamente não podia me dar o luxo de me divertir.

— Eu saio com você. – disse sorridente, demonstrando mais empolgação do que deveria. — Para onde vamos?

Conner olhou ao redor, como se tentasse reconhecer o local.

— Acho que estamos perto de um lugar perfeito. – me lançou uma piscadela marota.

Ele dirigiu por mais algumas horas até chegarmos a um subúrbio. As ruas estavam desertas.
Era o lugar perfeito para ladrões, estupradores, prostitutas, traficantes e viciados frequentarem. Um local deveras assustador, mal iluminado, com muros pichados, com o lixo se acumulando pelos cantos. Os ratos sentiam-se livres para passear despreocupadamente de um bueiro a outro.
Estacionou o automóvel frente a um clube noturno, com a fachada mal conservada.
As iniciais “G.W” piscavam em um letreiro defeituoso.

Uma porta espelhada e estreita estava sendo guardada por um rapaz negro, com mais de dois metros de altura e uma cicatriz que descia da pálpebra esquerda até seu queixo, deixando-o amedrontador.
Encaminhamo-nos até ele.
O homem barrou a entrada com seu corpo, fazendo questão de deixar sua pistola à mostra, sob a jaqueta velha de couro marrom.
Conner presenteou o segurança com um sorriso provocativo. Recuei dois passos e me escondi atrás do vampiro, observando o desenrolar da cena pelo canto dos olhos.

O gigante anuviou o semblante e seus dedos longos seguraram o cabo da arma.

— Onde pensa que vai, playboy? Errou o caminho para o shopping? – sorriu sarcástico, exibindo seus dentes amarelados. — Dê meia volta e leve essa bunda branca pra longe daqui. Esse clube é privativo, não é qualquer um que entra, mas pode deixar à gostosinha comigo, cuidarei bem dela. – lançou-me um sorriso depravado. Não sustentei seu olhar, pelo contrário, me encolhi atrás de Conner. Eu não deveria ter concordado em tirar a noite para nos divertirmos. Devia saber, por experiência própria, que as ideias do vampiro não davam certo. Primeiro nossa visita ao Gage, depois o casamento, agora isso.

A postura de Conner mudou imediatamente. Antes, parecia brincalhão, debochado, agora estava ameaçador. O homem percebeu a mudança no humor dele e, de repente ficou na defensiva, preocupado.

Pousei delicadamente minha mão sobre o braço do vampiro e puxei a manga de sua capa com suavidade, tentando aliviar o clima.

— Vamos, Conn? Deve haver lugares melhores por aí. – tive a esperança de que deixasse as coisas como estavam. Decepcionei-me no momento em que o vampiro puxou seu braço, evitando meu contato e agarrou o gigante pela garganta.

O segurança estava imobilizado. Suas frágeis tentativas de afastar as mãos do vampiro foram humilhantes. Não demorou até que os olhos do homem ficassem vermelhos e ele perdesse toda a cor do rosto. Não teve nem chance de usar a pistola.

— Vai pedir desculpas à minha garota, não admito esse desrespeito com ela! – continuava estrangulando-o.

Sacudi Conner sem gentilezas, com os olhos marejados, implorando que não fizesse mal ao rapaz. Apesar de sua relutância, acabou por soltar o homem, que ainda estava consciente.

O segurança desabou no chão, resfolegando, quase desfalecendo. Compadeci-me com a cena. Um homem tão forte e intimidador era facilmente humilhado por um vampiro.

— Vamos embora! – insisti, com voz quase inaudível, me sentindo responsável por ele.

— De maneira alguma! – respondeu-me. — Viemos desestressar e é isso que faremos.

— Não vou conseguir me divertir depois disto. – apontei para o segurança do clube, que inflava o peito em busca de ar, fazendo um barulho ensurdecedor.

— Se você quiser podemos ir embora, mas serei obrigado a terminar o que comecei. – entendi a chantagem, ou entrava nesse maldito lugar com Conner ou ele matava o moço.

Lancei um olhar indignado ao vampiro e entrei pela porta espelhada, que revelava como eu estava precisando de cuidados. Minha regata branca estava encardida pelo excesso de uso, meus cabelos estavam assanhados, meu rosto pálido pedia por maquiagem. Conn me seguiu.

Atravessamos algumas cortinas de tiras plásticas. O barulho alto da música eletrônica parecia chacoalhar meu cérebro.

O interior do ressinto era escuro, precisei de um momento até meus olhos se adaptarem a pouca luz.
Homens e mulheres dançavam seminus e molhados em cima de plataformas.
A decoração era feita por luminárias fluorescentes e sofás infláveis multicoloridos, espalhados por todo clube.
Garçonetes, fantasiadas de rainhas burlescas, serviam as bebidas.
Conn e eu escolhemos um sofá vazio, ao fundo, que nos garantia uma boa visão do que acontecia ali.

As pessoas se engalfinhavam sobre os sofás, acariciando-se intimamente, sem qualquer pudor. Enrubesci imediatamente.

Frente a nós, um grupo composto por quatro jovens trocava de par a cada minuto. Era comum ver pessoas do mesmo sexo se atracando, sem timidez.

Conner passou o braço ao redor dos meus ombros, como para me proteger. Eu não conseguia tirar os olhos da atitude desavergonhada das pessoas ali.

— Por que me trouxe aqui? – estava chocada.
— É um lugar bem popular entre os vampiros, só quero compartilhar nossos segredos com você. – confessou. — Já estive aqui algumas vezes. — sorriu, como se alguma lembrança o divertisse. — É um local tão camuflado que não há evidências de que exista. As pessoas que frequentam esse clube pagam pequenas fortunas para serem invisíveis. Aconteça o que acontecer, ninguém nunca esteve aqui, afinal “aqui” nem existe. Entende o motivo de ser popular entre os vampiros? Se elas morrerem ou desaparecerem, ninguém saberia o que aconteceu, onde estavam ou o que faziam. – ele voltou a sorrir, adorando a privacidade do lugar.

— Entendi. – ainda olhava para a “pegação”. — Tem muitos vampiros aqui? -
Conner gargalhou.

Apontou-me um dos sofás, na outra extremidade da boate.
Uma garçonete jogava o conteúdo de uma garrafa de vodca diretamente na boca de seis rapazes, que já esperavam pela bebida com a cabeça jogada para trás e a boca aberta. O liquido escorria por suas faces, deixando a roupa dos garotos ensopada.
Outras garçonetes lambiam a bebida, indo do pescoço até os lábios dos meninos. Repetiam o processo, até que eles ficassem bastante ousados e se livrassem das roupas molhadas.

Depois de prestar muita atenção, entendi que as moças não beijavam os rapazes e sim os sugavam. Elas não lambiam a bebida que escorria por eles, sorviam seu sangue.
Olhei horrorizada para Conner, que parecia fascinado com as vampiras.

— Bem, é hora de nos divertirmos. – disse, com um sorriso malicioso.

Ele chamou uma garçonete, que veio até nós segurando uma bandeja.
Pegou uma garrafa de tequila, o saleiro e metades de limão.
— Esse é seu plano? – sorri. — Quer me embriagar?

O vampiro sorriu.

— Não vou te obrigar a nada. – me passou a garrafa, já aberta.

Pegou o saleiro de metal e salpicou o sal entre seu dedo indicador e o polegar, levou a mão até a boca fez uma careta engraçada ao sentir o gosto salgado. Eu sorri.
Conn curvou a cabeça para trás e abriu a boca. Despejei o liquido da garrafa na garganta nele, sem economia. O vampiro engasgou e a bebida voou em minha direção, molhando minha regata encardida. Gargalhamos juntos. Ele, na tentativa de me secar com as mãos, escorregou os dedos sobre meu seio direito.

Retirei sua mão dali, com o olhar reprovador:
— Jogue uma quantia que eu seja capaz de engolir, Clarice. – orientou, enquanto repetia o ritual com o sal.
Voltou a jogar a cabeça para trás. Derramei um pouco do liquido âmbar da garrafa .
Assim que ele fechou a boca, segurei suas bochechas com firmeza e a sacudi de um lado para o outro. Conn engoliu a mistura com uma careta que me fez rir. Levou o limão até a boca, travou a fruta em suas presas e dilacerou o limão em seus dentes, cuspindo tudo logo em seguida, reclamando do sabor.
Fui acometida por uma crise de risos e o semblante do vampiro declarou que ele não gostou nada de minha alegria.

— Mais uma vez. – repetiu o processo com o sal. Assim que ele jogou a cabeça para trás, me ajoelhei ao seu lado, para ter mais segurança da quantidade de tequila que despejaria nele.

Assim que engoliu lhe passei o limão, que foi sugado até a última gota, imediatamente. Gostei da maneira com seus olhos brilhavam ao me olhar. A bebida já causava algum efeito sobre ele.

— Outra vez? — preparei a garrafa.

— Acho que agora é você quem quer me embriagar para se aproveitar de minha inocência. – sorriu debilmente, já apresentando alguma afetação pelo álcool. Sorri com ele.

Posicionei-me em cima dele, um joelho de cada lado do seu corpo, porem sem tocá-lo. Adorei a forma como ele pareceu surpreso e perdido com minha atitude, não sabia o que fazer com as mãos.

Segurei seu queixo e o empurrei para trás, obrigando-o a inclinar a cabeça. Peguei o saleiro e salpiquei em sua boca, que já estava aberta, em seguida joguei a bebida.

Conn agarrou meus punhos, me imobilizando, para que pudesse sacolejar a cabeça, sozinho, antes de engolir a tequila. Quando abriu os olhos, tinha a íris ainda mais negra, como se isso fosse possível.

Alguma coisa no seu modo de olhar, me fez temê-lo. Movimentei-me, tencionando sair de cima dele, contudo o vampiro segurou firme em minha cintura, me impedindo.

Sentou-me em seus joelhos e me arrastou por suas coxas, fazendo com que eu deslizasse, nos aproximando ainda mais. Esse gesto me fez esquecer como respirar e senti um formigamento incomum em meu corpo.
A música era alta e muitas pessoas estavam no mesmo ambiente, no entanto, era como se só houvéssemos nós dois ali.
— Eu quero mais. – adiantou-se ao ver meu semblante.

Refizemos o mesmo processo. A diferença, dessa vez, foi que ao inclinar a cabeça, ele apoiou as mãos em minha coxa desnuda, fazendo-me hesitar por um instante. Senti a maciez de suas mãos quentes. Eu estava molhada pela tequila, isso permitiu que os dedos de Conner deslizassem sob minha perna com mais facilidade, proporcionando-me maior sensibilidade ao seu toque.
Despejei o líquido nele e dessa vez, desastrada pelas sensações que sentia, molhei seu rosto e a capa que vestia. O vampiro pareceu não se importar com minha falta de coordenação, não se incomodou com a bebida que lhe lavava o corpo. Ajudei-o na tarefa de sacolejar a cabeça.
Assim que Conner engoliu a tequila misturada com o sal, espremi o limão em sua boca.

A quantidade exagerada fez o vampiro tossir, me molhando com o suco da fruta.

Sorrimos juntos.

Tentei torcer a barra da minha regata, empapada de tequila, limão e suor. Quando me dei conta, Conn me encarava seriamente. Perdi-me por alguns segundos na escuridão de seu olhar misterioso.

Com um único movimento, sem eu ser capaz de impedi-lo, o vampiro me deitou sobre o sofá e se posicionou sobre mim, imobilizando-me.

Podia sentir sua respiração quente contra meu rosto.

Ele me lançava um olhar matador, com um brilho bêbado, entorpecido.

Conn desenhou meus lábios com seu indicador. Acho que ignorou o pânico que devia estar presente em meus olhos.

— Sabe? – disse em tom cochichado. — Tenho me refreado, mas quero isso há tanto tempo...

Sua mão, agarrada com firmeza em minha cintura, desprendeu-se e passou a acariciar a lateral do meu corpo. Ele sorriu ao perceber que as batidas do meu coração ficaram irregulares.

— Acho que a bebida dificulta que eu mantenha o controle. – sussurrou a centímetros dos meus lábios.

Suspirei, amedrontada e ansiosa.

Não demorou até que colasse nossos lábios num beijo intenso, apaixonado e com gosto de saliva e tequila.

Eu tentei ser racional e a principio fui muito relutante, não sei em que exato momento baixei a guarda, mas me entreguei aquele beijo, dando permissão que me invadisse com a língua.

Assim que Conn notou minha permissão, tornou nosso beijo ainda mais urgente. Soltou seu corpo, para que eu sentisse seu peso, sua anatomia e sua ereção.

Não diferíamos das outras pessoas que se agarravam por ali.

Virei meu rosto em busca de ar. Conn aproveitou o momento para deslizar seus lábios até meu queixo, mordendo-o de leve. Logo beijava meu pescoço com devoção.

Agarrei seus cabelos negros e macios, numa súplica muda para que ele me mordesse. Desejei sentir novamente seus caninos perfurando minha jugular, talvez o momento mais erótico da minha vida, até então.

O vampiro descobriu meu decote e deslizou até lá, me lambendo e sugando de uma forma que além de dolorosa me deixaria marcas.

Realmente, Conn não estava sendo moderado nas suas demonstrações de afeto. Eu sentia que ele queria me possuir, ali mesmo. Não vou mentir e dizer que não estava gostando, eu simplesmente não achava certo o que fazíamos, esse foi o motivo de tê-lo feito parar.

— Me desculpe. – se apressou em dizer. —Eu posso “pegar leve”. — me ajudou a sentar ao seu lado.

Conner tinha os olhos brilhantes e um sorriso bobo nos lábios, pela primeira vez, desde que o conheci, parecia humano.

—Tudo bem? Machuquei você?– insistiu.

Poderia começar uma discussão, acusando-o de ter me levado aquele lugar só para me agarrar, mas a verdade é que eu era a única sóbria aqui e não podia culpá-lo por minhas atitudes. Francamente achei que seria maldade da minha parte, visto que o rapaz estava radiante.

— Eu estou bem. – menti. — Só acho que preciso beber um pouco. Se é que você fez a bondade de deixar um pouco pra mim.- acusei-o.

Suspirei ao jogar minha cabeça para trás.

Conn se apressou em localizar o saleiro, a garrafa e os limões.

Senti o gosto do sal em minha língua, em seguida o líquido dourado escorreu por minha garganta, me incendiando por dentro. Assim que engoli até a última gota, percebi que precisava do sabor do limão para amenizar aquela ardência. Conn espremeu o suco do limão em sua própria boca e gesticulou que eu bebesse diretamente da boca dele. Não hesitei.

Assim que nossos lábios se tocaram ele despejou o caldo da fruta. De alguma forma o sabor azedo aliviava as chamas. O vampiro demorou até separar seus lábios dos meus.

Essa tal de tequila era mesmo forte. Bastou uma dose para que o salão rodopiasse. Permiti-me tomar mais uma, e como num passe de mágica, me vi mais feliz. De repente a música ficou mais agradável e senti uma vontade irresistível de dançar.

Conner sorriu ao perceber como eu me remexia ao som conhecido e se ofereceu para me acompanhar.

Quando chegamos à pista, joguei os braços para cima. Me soltei ao cantar junto com Rihanna:

… I just can't refuse it

Like the way you do this

Keep on rocking to it

Please don't stop the

Please don't stop the

Please don't stop the music…

Não demorou até que ele se juntasse a mim, com seus passos graciosos, me fazendo parecer desengonçada. Nem me importei e prossegui me entregando à música.

Estávamos nos divertindo, até que notei o cachecol marrom, de um rapaz que dançava conosco, cair e revelar sua tatuagem na nuca. Ele pertencia a Aliança.

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Notas finais
Desculpem-me pela demora. Tive uns probleminhas durante a semana. Para recompensá-las vou postar o próximo capítulo antes de sábado.Por favor, se leu comente, estou ansiosa pelos comentários.Abraços - Judy