A Máscara
15 Capítulo 15 - Tapas e beijos.
Notas iniciais
Conner não havia notado a presença do caçador. Achei prudente não alertá-lo. A última coisa que eu queria era que o vampiro matasse ou machucasse outra pessoa.
— Podemos ir embora? – parei de dançar e elevei a voz acima do som da música.
— Você está bem? – o vampiro parecia preocupado com minha súbita palidez.
— Sim. – forcei um sorriso. — Só não estou habituada a bebidas.
Conn assentiu e abandonamos o clube.
Assim que tomamos nossos lugares no automóvel, olhei para trás para me certificar que não estávamos sendo seguidos.
— Algum problema? – perguntou Conn, desconfiado.
— Acho que estou ficando paranoica. – menti. O vampiro sorriu divertido e arrancou com o carro.
O bom humor de Conner era contagiante. Falou durante todo o trajeto, sorrindo escancaradamente de suas próprias piadas. Durante algum tempo acompanhei a conversa, mas logo me distraí e me perdi em meus próprios pensamentos.
Imaginei se o caçador sabia do meu paradeiro. Quantos deles estavam no clube? Logo abandonei a ideia. Conner disse que era um lugar muito frequentado por vampiros. De alguma forma eles tinham essa informação, era provável que não sabiam de mim.
Contudo, o que mais me atormentava era a persistente lembrança de Belphegor. Por que eu me sentia uma traidora? Não tínhamos qualquer tipo de relacionamento para que eu me sentisse dessa forma.
— E então, o que acha? – ouvi Conner perguntar.
— Me desculpe. – rendi-me. — Acho sobre o que?
Diferente do que imaginei, ele sorriu, com seu bom humor inalterado.
— Vamos para um hotel, já está mais do que na hora de você dormir numa cama decente.
Afundei no banco, sorrindo. — É uma ótima ideia.
Insisti para que o vampiro trocasse de carro antes de seguirmos para o hotel, ele assim o fez. Ainda estava temerosa que os caçadores pudessem estar nos perseguindo.
Já era quase manhã quando paramos diante de um hotel luxuoso. Fiquei apreciando o lugar bem decorado, enquanto Conner acertava as coisas com o recepcionista uniformizado.
Subimos de elevador até a cobertura onde ficavam nossos quartos. Conn parecia ansioso para me tocar, entretanto me mantive distante e não dei chance para que isso acontecesse.
Paramos diante de uma porta, onde o vampiro me estendeu a chave.
— Esse é o seu quarto. – anunciou.
Tomei cuidado para que nossos dedos não se tocassem ao pegar a chave de sua mão. Nesse momento vi o semblante de Conner se tornar preocupado.
— Quer conversar a respeito do que aconteceu no clube? – sugeriu.
Não respondi, apenas baixei os olhos.
— Me diverti muito. – confidenciou ele. — Ouso dizer que foi uma das melhores noites da minha vida.
Respirei profundamente. Eu também havia me divertido, ainda sentia o gosto dele nos meus lábios e era uma sensação boa. Sim, ele era atraente, mas ainda assim era algo errado, muito errado.
— Também me diverti. – admiti. Antes que eu pudesse fazer alguma coisa, senti os braços do vampiro me envolverem num abraço caloroso.
— Nunca quis tanto algo, em toda a minha existência, como quero você. – sussurrou em meu ouvido.
Não. Isso definitivamente não estava certo. Desvencilhei-me dele e recuei alguns passos.
— Conn! Não podemos fazer isso. – eu olhava para meus pés, não queria encará-lo com as lágrimas nos olhos.
— Por que não? – seu tom mudou, parecia irritado.
— Sabe o motivo. – também não escondi meu descontentamento.
— Quero que diga. – agarrou meus ombros e me olhava nos olhos, com dureza.
O ar me faltou, mas tinha que ser sincera, Conn era um grande amigo. Apesar da confusão, era meu dever, ou ao menos considerei que deveria ser honesta. Talvez ele fosse algo maior do que eu poderia admitir, mas permaneceria uma sombra enquanto Bel estivesse me esperando.
E apesar de ser difícil, ou até impossível, de alguma forma algo realmente masoquista dentro de mim servia apenas para aumentar essas convicções. Enquanto Bel existisse, eu seria dele, o tanto quanto gostaria que ele fosse meu.
— Eu nunca serei sua. – falei baixo. Conner me soltou imediatamente, com um ar de tristeza que partiu meu coração em mil pedaços.
— Isso é por causa dele? – parecia incrédulo.
Abri a boca na intenção de negar, mas nenhum som saiu.
Conner balançou a cabeça de um lado a outro, decepcionado com minha reação.
O vampiro apenas me deu as costas e se dirigiu para seu quarto com a cabeça baixa.
Derrotada, usei a chave para entrar no meu quarto. O local bem decorado, a cama convidativa, nada disso serviu para me distrair, nem fazia com que me sentisse melhor. Sabia que tinha o magoado e isso doía em mim.
Aproveitei a banheira para tomar um banho digno, minha pele pedia esse cuidado. Ensaboei-me com sabonete líquido de morangos, nos cabelos shampoo de menta. Fiquei dentro da água até meus dedos estarem enrugados como ameixa seca. Passei uma generosa camada de hidrante corporal de macadâmia.
Apesar da sensação agradável do banho, ainda me sentia péssima por Conn.
Os vampiros não podiam ser tão sentimentais. Era isso que eles faziam questão de frisar.
Tentei me convencer de que Conner estava encenando, mas a dor em seus olhos era tão real que não fui capaz de acreditar nisso.
Sequei meus cabelos com o secador, tomando o cuidado de desembaraça-los com o pente. Descartei minhas roupas sujas e molhadas, me envolvendo com um felpudo e macio roupão de banho cor de rosa.
Assim que me deitei sobre a maciez do colchão, senti minhas costas protestarem. Estavam doloridas pelo maltrato de dormir encolhida nos carros. Enfiei-me embaixo dos cobertores, logo senti minhas pálpebras pesarem. Meu último pensamento antes de apagar completamente foi para o Conn.
Quando despertei o sol já estava firme no céu. Não podia dizer por quanto tempo tinha dormido.
Bocejei e me espreguicei antes de me dar conta que não estava só. Conner estava sentado na poltrona próxima à cama.
— Bom dia, flor do dia! – brincou.
Sorri feliz ao ver que ele tinha superado minha rejeição.
O vampiro estava belíssimo usando uma camisa preta, que não conseguia ser tão escura quanto seus cabelos.
Sentei-me sobre a cama esfregando os olhos.
—E então, já pensou para onde vamos hoje? – perguntei ansiosa.
— Devia saber, Clarice, eu sempre tenho um plano. – sorriu, exibindo seus dentes perfeitos.
— Sim, sim... – dei de ombros.
Conn me trouxe uma bandeja repleta de alimentos.
— Experimente o suco de melancia. – sugeriu.
Peguei o copo e olhei desconfiada em sua direção. Ele revirou os olhos.
— Precisa se hidratar. – explicou.
Virei o liquido, tomando até o último gole. De inicio não senti nada além do sabor da fruta, mas assim que finalizei o suco, notei um gosto amargo que estava camuflado pela quantidade de açúcar. Ignorei o fato e comi uma fatia de mamão.
Conversamos animadamente, porem, evitamos falar sobre a pegação no clube G.W.
Passado alguns minutos, comecei a me sentir terrivelmente cansada. Arrumei os travesseiros e me recostei. O vampiro se aproximou e sentou próximo a mim.
— Não está se sentindo bem? – perguntou inocente.
Meu raciocínio estava ainda mais lento do que de costume. As palavras dele vagueavam na minha mente, quase sem sentido.
A essa altura o quarto inteiro girava e minhas mãos tremiam ao mesmo tempo em que transpiravam. Respirar se tornou uma tarefa difícil. Quanto mais puxava o ar com força para os pulmões, mais sentia falta de ar.
Conner livrou a bandeja dos alimentos e passou a me ventilar. Vendo que quase não surtiu efeito, correu até as janelas e as abriu, se esquivando da luz solar que preenchia o quarto.
— Era para tomar apenas alguns goles do suco. – disse para si mesmo, quando voltou para meu lado.
— Você... — eu tentava coordenar os pensamentos, lutando bravamente com o sono. — Me... Drogou?
— O que queria que eu fizesse? Hein? Disse que queria vir comigo, mas queria ter ficado com ele. Se for ele quem quer, é ele que terá.
Como? Tentei encarar o vampiro, mas minhas pálpebras não me obedeciam.
— Conn... Não! – balbuciei.
Conner devia estar preocupado, pois arrumava os travesseiros e almofadas para que eu ficasse mais confortável.
Que merda ele tinha feito? Me mataria? Entregar-me-ia a Belphegor? Eu jamais o perdoaria se ele me largasse dopada nesse hotel.
Infelizmente não vi os acontecimentos seguintes, pois afundei na inconsciência.
Acordei com a trepidação do veículo. Estava, mais uma vez, no banco traseiro de uma SUV. Ainda sentia os efeitos da droga que Conner colocou na bebida, minha cabeça doía, sentia vertigens e azia. Só de lembrar o que o desgraçado tinha feito, sentia a dor da traição, e isso era mais incomodo do que qualquer desconforto físico. Eu jamais o perdoaria.
Sentei-me. Ainda usava o roupão de banho. Estava escuro lá fora e chovia torrencialmente. Estava sozinha com o motorista, que era um vampiro, sem sombras de dúvida, mas eu não o conhecia.
O homem, assim que me viu pelo espelho retrovisor, acionou o rádio.
— A humana despertou, Majestade. – disse respeitosamente.
Notei que viajávamos em comboio, carros iguais seguiam em fila para o mesmo destino. Conner tinha me entregado a Belphegor, aquele miserável, eu o odiava!
Minhas mãos tremiam e comecei a me sentir enjoada.
— Preciso ir ao banheiro. – disse ao vampiro. — Agora.
Ele voltou a pedir autorização para o príncipe via rádio.
— Tudo bem. – ouvi a voz sonora de Bel e meu estômago deu uma volta inteira de ansiedade. — Acompanhe-a na prróxima parrada.
Demorou quase meia hora até que o carro parasse num posto de abastecimento.
Assim que o vampiro destravou a porta, desci do automóvel e nem me incomodei em me esconder da chuva. Andei com passos despreocupados até o banheiro.
Quando abri a porta, todas as mulheres que se encontravam ali olharam curiosas em minha direção. Eu estava molhada, descalça e vestia apenas um roupão atoalhado cor de rosa. Devem ter se convencido de que eu era alguma louca fugida do hospício.
Encarei-me no espelho, a respiração ainda não estava regular. Quando liguei a torneira vi que minhas mãos ainda tremiam. Fui acometida por uma vontade incontrolável de chorar. Respirei fundo e lavei o rosto. Não queria fazer uma cena, só minha presença nesse banheiro já era o suficiente para que todos os olhares se voltassem para mim.
Eu ainda tentava me recompor quando a porta se abriu e eu o vi entrando no banheiro feminino.
Os protestos por haver um homem no banheiro já haviam começado.
— Saiam daqui! – ordenou o príncipe. — Todas vocês.
Elas obedeceram, mas seguiram resmungando até a saída.
Logo estávamos a sós. Segurei minhas mãos para que ele não percebesse como tremiam.
Conforme Belphegor caminhava em minha direção, eu recuava.
O barulho da chuva contra o telhado e a torneira que deixei aberta se misturava com o “chep-chep” de seu sapato molhado.
Bel estava deslumbrante, o que não era novidade alguma, porem, se encontrava desalinhado, o que não era de seu feitio. Parecia ter saído de uma briga.
A camisa cor de areia estava com os primeiros botões abertos e por fora da calça cáqui. A gravata listrada, num tom de chá, tinha sido afrouxada e a manga havia sido dobrada na altura dos cotovelos. A chuva despenteou seu cabelo, que normalmente encontrava-se impecavelmente arrumado, agora fios dourados cobriam parcialmente seu olhar celestial, tornando incrivelmente e incomparavelmente lindo.
Parei de recuar quando fui barrada pela parede branca, fria e azulejada. Bel ainda caminhava em minha direção, com os olhos compenetrados, as sobrancelhas juntas e postura ameaçadora. Eu sabia que pagaria caro pelos meus últimos pecados.
— Bel... – as palavras estavam enganchadas no fundo da minha garganta. Eu estava apavorada. — Sinto muito. Eu...
— CALE SUA BOCA! – berrou, socando a beirada de mármore da pia, fazendo-a em pedaços.
Sua atitude me deixava nervosa, senti as lágrimas passearem pelo meu rosto sem minha permissão.
Bel me agarrou pelos cotovelos, mantendo meus braços presos frente a mim. Fechei os olhos, incapaz de sustentar seu olhar severo.
— GOSTA DE ME FAZER DE PALHAÇO? — exigiu.
Neguei com a cabeça, contudo recebi uma bofetada como resposta.
Sei que o príncipe conteve sua força. Embora doesse, e muito, ele não tinha dividido meu crânio em dois e nem deslocado meu maxilar. Quando abri os olhos, vi que estava triste.
— Tem ideia do quanto tem torrnado minha vida miserrável? – perguntou.
Eu ainda estava presa pelas mãos dele, encostada à parede. Seus olhos azuis, como o céu matutino, fitaram meus lábios, parecia enfeitiçado por eles.
— Você tem me feito arrder no inferrno, maldita! Veja o que está fazendo comigo, está me enlouquecendo. – Bel deslizou seu polegar pelo meu lábio inferior, hipnotizado. Eu mal conseguia respirar.
— Desculpe-me, ma petite poupée, nóm querro machucá-la. Sou tóm patético!
Aos poucos ele diminuía o espaço entre nós, encarando meus lábios. Não! Eu não permitiria que me beijasse.
Tentei me soltar para empurrá-lo, virei à cabeça para dificultar que seus lábios se encontrassem com os meus, tentei me esquivar, e até protestar, mas ele me calou, colando sua boca na minha.
A principio não correspondi ao beijo, lutei para escapar de suas mãos e me livrar de sua boca. Meus esforços de nada adiantavam e tive a impressão que quanto mais esperneava, mais ele gostava.
Não sei explicar, era mais do que intensa a forma como ele me beijava, podia ser comparada a violência, e embora fosse doloroso, era extasiante sentir a maneira doentia com que me desejava.
Quando por fim me rendi ao beijo, permitindo que me invadisse com a língua e agarrando o cabelo de sua nuca, ouvi um gemido rouco escapar de sua garganta. Era como se ele adorasse me obrigar a beijá-lo e adorasse igualmente quando eu dava permissão.
Por fim decidiu se afastar, talvez por estar satisfeito, ou talvez por ver que eu sufocava sem ar. Um sorriso enviesado e assustador apareceu em seu rosto. Sua feição podia ser comparada a de um dependente químico que acaba de receber uma dose da droga em que é viciado. Eu odiei gostar disso.
Ainda não sabia o que tinha me deixado nesse estado de torpor, se o remédio de Conner, a bofetada ou o beijo, o fato é que estava paralisada, tremendo da cabeça aos pés.
— Venha, Clarrice, você prrecisa se aquecer. – estendeu a mão em minha direção.
Forcei um sorriso, feliz por ele interpretar meus tremores erroneamente. Dei um passo em sua direção e segurei sua mão estendida.
O humor do príncipe havia mudado notavelmente, não estava irritado aponto de explodir como há pouco, parecia exultante.
Assim que atravessamos a porta do banheiro, vi os cães de guarda de Belphegor espalhados por todo o recinto. No momento em que saímos para a chuva, um deles correu até nós com o guarda chuva aberto, para nos escoltar até o veículo. Sorri, me sentindo na cena de um filme.
Dessa vez, me guiaram até o automóvel de Belphegor. Ele sentou-se ao meu lado e logo partimos em comboio.
— Não quer que eu viaje no carro do seu capanga? – provoquei. Só ousei a brincadeira pois a expressão do vampiro era serena.
— Nóm. Prreciso me assegurrar que você nóm fugirrá e só há uma forrma de eu ter cerrteza, se estiver semprre comigo. – sorriu, empenhando todo seu charme no gesto.
***
Notas finais
Gosto muito desse capítulo e adoraria saber a opinião de vocês, por isso peço que comentem.
Quero agradecer especialmente pela recomendação da BM [ID #141741], fiquei muito feliz, pois nem conhecia a leitora. Valew girl, pelo incentivo. Boa leitura.
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