A Máscara
10 Capítulo 10 - Floresta.
Notas iniciais
A expressão de Belphegor era de confusão. Parecia que travava uma luta interna consigo mesmo, enquanto mantinha o corpo rígido e os as mãos fechadas em punho.
Provavelmente estava se decidindo: esperava para encarar Max ou fugia?
Eu ainda não era capaz de ouvir qualquer barulho vindo do andar de baixo.
Bel afastou a persiana que cobria a janela e descobrimos três pickups mal estacionadas do lado de fora da casa.
Sua voz tornou-se quase inaudível:
— Segurre firrme em mim e feche bem os olhos — me orientou, enquanto esquadrinhava a paisagem através da janela.
Eu devia saber que ele não era do tipo que fugiria. Só se decidiu por isso quando percebeu que estava em grande desvantagem numérica. De alguma forma eu sabia que ele não estava preocupado consigo mesmo, e sim comigo. Que chances eu teria contra um punhado de vampiros em busca de guerra? O pensamento aqueceu meu coração, embora ainda me condenasse por me iludir tanto.
Antes que eu pudesse processar seu plano, o vampiro agarrou-me em seus braços. Fechei meus olhos e enlaçei-me a ele.
Senti quando saltou do segundo andar para o chão, quebrando a vidraça.
Aterrissamos com suavidade. Quase não sofri danos, exceto pelos arranhões no antebraço esquerdo.
Ele correu comigo em velocidade sobre humana até seu carro. A essa altura o sol aparecia timidamente no céu, sem causar muitos problemas.
O barulho chamou a atenção dos vampiros que se encontravam dentro da casa da fazenda.
Olhei pelo retrovisor, enquanto Bel arrancava com o automóvel. Nossos inimigos já estavam em nosso encalço.
— Abaixe-se, Clarrice — ordenou.
Obedeci sem questionar. Foi então que comecei a ouvir os tiros disparados contra nós. As balas tinham endereço certo, visto que não podiam prejudicar o príncipe.
O automóvel sacolejava com os pedregulhos e buracos do caminho, afinal ele não era próprio para estrada de terra, o que nos deixava em desvantagem. Não demoraria até que fôssemos alcançados.
Ele pisava no acelerador, se esforçava para desviar das balas mais perigosas, berrava ordenando que eu me mantivesse abaixada.
Em determinado momento uma das pickups ficou lado a lado com nosso carro. O vampiro que a dirigia me procurava dentro do veículo com a arma em punho. Fiquei apavorada!
Bel jogou seu carro em cima da pickup, me fazendo cair a seus pés. O servo de Maxwell perdeu o controle e entrou no canavial, derrubando tudo o que estava em seu caminho.
Isso não foi o suficiente para detê-lo, apenas nos deu tempo.
O vidro de trás do carro estava perfurado pelas balas. Era um milagre não ter sido atingida.
Quando chegamos à avenida pavimentada abrimos um pouco de vantagem em relação aos inimigos.
Bel não permitiu que eu me sentasse na poltrona de passageiro. Continuava espremida entre assoalho e o banco, numa posição desconfortável. Ele mantinha a velocidade, sem desgrudar os olhos do retrovisor, apreensivo.
Os disparos haviam cessado, o que me fez imaginar que finalmente tínhamos nos livrado deles. Foi então que decidiram atirar contra os pneus. Amaldiçoei a pontaria certeira dos vampiros.
Assim que o automóvel pendeu para o lado direito, Bel disse entre os dentes:
— Fils de pute. Merde! — não compreendi, embora imaginasse que ele estivesse praguejando. Eu começava a fazer uma prece silenciosa.
O carro pararia a qualquer momento e eu seria fuzilada. Meus olhos se encheram de lágrimas, era tão injusto morrer dessa forma.
Nesse momento, de total desespero, foi que a ponte se fez visível. Passaríamos por cima de um rio.
O rosto de Belphegor iluminou-se. Meu coração disparou e parecia que saltaria pela boca.
— Pelo amor de Deus, Bel, eu não sei nadar — tinha que haver outra maneira!
O príncipe simplesmente ignorou meu comentário.
Os vampiros voltaram a alvejar o carro, prevendo o que aconteceria. Provavelmente chegaram a cogitar a hipótese de que eu sobreviveria, coisa que eu duvidava.
— Sente-se e coloque o sinto — ordenou à medida que nos aproximávamos da ponte.
— Se eu me pren-der eu morro afoga-da, não te-rei chance de me sol-soltar — minha voz estava trêmula, como o resto de meu corpo.
— Eu nóm deixarrei que se afogue — respondeu impaciente. — Vamos Clarrice, me obedeça, AGORRA! — berrou.
Fiz o que me mandou.
O tremor em minhas mãos e o nervosismo fazia a tarefa de me prender ao cinto impossível. Ele me ajudou, irritado. Assim que ouvimos o “click”, embicou o carro para a lateral da ponte. Atravessaríamos a barra de proteção em segundos.
— É uma queda de uns 15 metrros. Tape o narriz e a boca. Nóm se debata e deixe o resto por minha conta. Prrecisa prrender a respiraçóm pelo maior tempo possível.
O carro voou por cima da ponte. Tapei o nariz com as duas mãos. Tive tempo de ver Belphegor pular para meu lado, abraçando-me, provavelmente para amortecer a queda.
Pedi a Deus para que guardasse minha vida ou que me poupasse do sofrimento, caso minha hora estivesse chegado, fazendo com que eu morresse rapidamente.
Não demorou até que o carro atingisse a água.
A colisão fez com que eu fosse projetada pra frente, com agressividade. O cinto me recolocou no lugar.
A parte frontal do automóvel inclinou-se e começou a submergir. Logo todo o carro foi encoberto pela água e afundava gradativamente.
Vi as bolhas de ar subir do meu nariz. Não sabia quanto tempo conseguiria manter a respiração presa. Meu pavor provavelmente me atrapalharia nessa missão. O barulho abafado dos tiros podiam ser ouvido.
Não via Belphegor a meu lado. Não podia ver nada, a água barrenta impedia a visibilidade.
A parte boa é que a água escura dificultaria que nossos inimigos nos localizassem. A ruim é que o pânico se alastrava mais eficazmente sem visão.
Senti Bel arrancar a porta do meu lado, bem como meu cinto. Puxou-me para fora do veículo sem grande dificuldade.
Acredito que ele nadava contra a correnteza, possivelmente acima da velocidade humana.
Não posso precisar o tempo que passei prendendo a respiração, nem mesmo a profundidade do rio, só sei que aquele momento se arrastava e parecia não ter fim.
Quando o vampiro emergiu comigo até a superfície, eu estava quase perdendo os sentidos pela falta de oxigênio.
Pude ver a preocupação estampada em seu rosto.
— Respirre fundo — me sacolejou. Presumo que estava arroxeada. — Foi atingida? Está ferrida?
Puxei o ar com força para os pulmões. Sorri ao me sentir viva. Não podia responder a ele. Precisava respirar. Recuperar o fôlego.
Belphegor nadou comigo até a margem. Já não era possível ver a ponte de onde despencamos e nem os vampiros que nos perseguiam.
Deitei-me assim que estava em terra firme. Enfeitei o vestido de noiva e meus cabelos com barro e folhagem seca.
Estava ofegante, tentando voltar a mim depois do susto que passei.
Bel se sentou ao meu lado, ainda atento a cada reação minha. Seus toques eram para analisar meu estado. Ele parecia satisfeito, o que me tranquilizou, provavelmente não havia nenhum ferimento fatal em mim.
Sentia-me anestesiada. Nem mesmo as mãos dele, que sempre me perturbavam, causou qualquer efeito. Fiquei alguns minutos assim, tentando me recuperar.
Depois de me recompor me sentei ao seu lado. A respiração já estava estável, mesmo tendo as mãos trêmulas. Todo o medo e tensão se transformavam em ódio.
— Está contente por ter transformado minha vida num inferno? — ataquei.
— Você deverria se enverrgonhar, mocinha! Acabo de salvar sua vida pela milésima vez e você só sabe se queixar — me lançou um olhar seco.
— Porque diabo teve que me beijar naquela festa? Ser uma prisioneira perpétua já era ruim o bastante, não havia necessidade de me transformar no principal alvo de vampiros psicopatas — disparei.
— Óhhh, pobrre coitada! — estava irônico.
Segurei-me para não estapeá-lo, ele adoraria se eu tivesse um ataque de infantilidade.
— E aí? Vai ser sempre assim? Vou passar minha vida toda fugindo? Me recuso a passar por isso — abracei meus joelhos, meu tom foi mais mimado do que eu gostaria.
Ele sorriu com sarcasmo.
— É bonitinho vê-la querrendo decidir a prrópria vida, mas sou eu quem decido — ele adorava me provocar, tinha certeza disso.
— Sou a garota mais azarada do mundo. Você poderia ter escolhido outra qualquer — me queixei, desviando meu olhar do dele.
— Infelizmente tenho um péssimo gosto. Adorro porcarrias. Isso vai de uma lata de cerrveja a você — senti-me ultrajada, indignada.
Para piorar a situação ele se parecia com um anjo molhado, com a gravata do smoking torta e sua camisa encardida pela água escura do rio. Seu cabelo claro estava colado na testa e as gotas de água passeavam pelas linhas perfeitas de seu rosto, mas isso não me distrairia.
Levantei-me torcendo a barra do vestido e depois os cabelos, para me livrar de tanta água.
Não iria responder a essa grosseria.
Ele me encarava, observando atentamente meus movimentos.
O que tanto olhava? O odiei por isso. Enquanto ele parecia saído de um sonho eu deveria estar um pesadelo em pessoa. Queria ordenar que parasse de olhar, mas isso só o faria dizer que manda em mim e não o contrário e blá, blá, blá...
— E então, qual é o plano? — perguntei sem humor.
— Nóm tenho um plano. Gerralmente tenho quem planeje por mim — levantou-se e tirava a lama da calça.
Tinha me esquecido que essa era a função de Conn. Tive a infelicidade de me lembrar de Conner agora. Oh Deus! O que teria acontecido com ele?
Bel caminhou em direção à mata que rodeava a margem do rio. Sem alternativas, o segui, enquanto trançava meus cabelos molhados.
Não olhei para o chão e escorreguei em uma poça de água, caindo sentada. O barulho chamou a atenção do vampiro, que olhou em minha direção.
Uma mecha de cabelo cobriu meu rosto com a queda. Isso era bom, afinal estava ruborizada e essa cor se intensificava com as gargalhadas que ele não fazia questão alguma de esconder. Poxa vida, ele não aliviava!
Assim que coloquei essa mecha atrás da orelha vi que Belphegor me olhava sério e fixamente. O que havia acontecido com seu humor?
Notei que seus olhos haviam escorregado para minha roupa.
Só nesse instante percebi que o vestido molhado havia aderido ao meu corpo, revelando cada curva, cada saliência dele.
O que de pior poderia acontecer?
Bel me olhava de uma forma estranha. Aproximou-se, fazendo um barulho engraçado com o sapato encharcado. Estendeu a mão em minha direção. Pela primeira vez o rapaz estava sendo gentil. É claro que havia interesse por trás disso.
Recusei sua ajuda.
Coloquei-me em pé, com certa dificuldade e arrumei o vestido molhado.
Estávamos próximos demais e isso definitivamente não era bom. Quase podia sentir o calor que emanava de sua pele.
A camisa molhada estava colada em seus ombros largos, deixava expostos seus braços fortes.
Era inacreditável a maneira como ele me perturbava. Não era apenas físico, todo o jeito dele era desconcertante e atraente.
Queria distância desse ser repugnante quase que na mesma intensidade que eu gostaria de me colar a ele.
Tentei sustentar seu olhar, mas eles estavam tão intensos que não fui capaz.
Bel diminuiu a pequena distância que havia entre nós e me puxou, encostando-se a mim. Pude sentir o quanto ele me queria. Isso era enlouquecedor.
— Vamos acabar logo com isso, Clarrice, nóm estou mais aguentando essa situaçóm — sua voz adquiriu o tom de súplica.
Odiei a maneira como ele ficava sedutor molhado. Bel era felinamente sensual e o pior é que se dava conta disso. Sabia o poder que tinha. Sabia que não era fácil para uma mulher dizer não aos seus desejos. Ele me desejava, não sei se na mesma proporção em que eu o queria, talvez isso fosse impossível. Mas, estava determinada a não ser apenas mais uma garotinha boba e encantada com a sensualidade, beleza e perigo que um vampiro proporcionava. Afastei-me dele, decidida.
Ele continuou a me olhar intensamente, todavia havia incredulidade em seu semblante. Com certeza não entendia como eu podia dizer não a um pedido dele.
Quando percebeu que eu não cederia seu rosto esperançoso se transformou numa carranca.
Adorei tê-lo magoado. Quantas mulheres já haviam se negado para ele? Eu sabia a resposta.
—Infelizmente, — comecei — sou muito diferente de você. Não adoro porcarias — meu orgulho venceu meu desejo.
Não tive coragem de encará-lo. Sabia que estava furioso pela maneira como sua respiração ficou pesada.
Virei-me e continuei a caminhar em sua frente. Procurei manter os passos lentos e despreocupados. Não demorou para que me alcançasse.
Senti suas mãos me apertarem a cintura.
Não sei dizer como, mas em um instante eu estava deitada no chão e Bel estava sobre mim. Seu olhar era maquiavélico. Ele mordeu seus lábios avermelhados e esse gesto fez minhas mãos transpirarem de ansiedade.
— Nóm me prrovoque, garrota — suas mãos deslizaram pela minha perna e encontraram o elástico da minha calcinha.
Bel deixava um rastro por onde tocava em minha pele, que ardia como brasa.
Senti que minha vontade não era importante. Eu ficava impotente perante sua força, se ele quisesse poderia rasgar minha calcinha como papel e penetrar em mim sem que eu pudesse protestar.
Fiquei sem ar com esse pensamento. Nem me reconhecia quando estava com esse homem.
— Se você me quer, me mereça — disse em tom abafado. — Não é me maltratando que vai conseguir. Eu sou uma mulher e exijo ser tratada com o mínimo de respeito — tentei parecer séria. Acho que não consegui alcançar meu objetivo. Bel gargalhou, divertindo-se.
Senti seu hálito em meu rosto. Sentia todo seu peso sobre mim, nada poderia ser mais excitante. Ninguém poderia ser tão... Tão insuportavelmente detestável e extraordinariamente adorável.
— Você é uma manhosa, Clarrice. Te trato tóm bem. Melhor do que qualquer outrra garrota — seu tom era baixo, parecia contar um segredo. Esfregou carinhosamente a ponta de seu nariz com o meu. Ele tinha um brilho misterioso no olhar. Suspirei rendida diante de sua beleza. Apenas com esse único gesto ele me fez entregue a ele.
Não pensei direito ao fazer isso. Não sei dizer se fui sincera ou precipitada. Escorreguei meus dedos em seu rosto e confessei, em tom baixo: — Estou apaixonada por você.
Belphegor sorriu ao ouvir minha declaração.
Eu sei que estava envergonhada, provavelmente corada. Arrependi-me de ter feito isso. Afinal, o que deu em mim?
Agora ele se tornaria ainda mais convencido, se é que isso era possível.
Tive dificuldade de interpretar seu sorriso. Não sei dizer se estava satisfeito, debochado ou metido.
Fosse como fosse, não importava o que estava pensando, fui sincera. Sentia-me uma idiota por gostar dele assim, mas era a verdade. Eu mal podia esconder isso de mim mesma.
Ninguém poderia me julgar, sei que estava sendo fraca, mas era difícil resistir a ele e eu lutei bravamente.
As pessoas não se apaixonam por sequestradores, assassinos e monstros sem escrúpulos. Sentia-me mal por não ser como a maioria, no entanto eu não podia mandar em meu coração. Estava mortalmente atraída por ele, desde a primeira vez que o vi.
Todos poderiam pensar que eu só estava encantada com sua beleza sobrenatural, mas também não era uma verdade absoluta. Aprovava até seus defeitos, que não eram poucos, por mais que me doa admitir.
Esses joguinhos para me irritar, nossa eterna guerra para preservar o que restava de nosso orgulho ferido, seu jeito autoritário e prepotente... Vivíamos testando nossos limites mentais e físicos e eu adorava a forma como ele me provocava. Às vezes o odiava irreversivelmente e às vezes o amava com selvageria.
Sempre fui tratada com educação e respeito por todos. As pessoas cuidavam de mim como se eu fosse um objeto quebrável, evitando me magoar e agindo superficialmente. Mas não Belphegor, não, ele não. Ele fazia questão de me irritar, me tirar do sério em todos os sentidos. Não era cuidadoso comigo e me afrontar se tornou um divertimento para ele.
De alguma forma, esse jeito sádico me atraia tanto quanto essa beleza hipnótica. Sempre queria saber o que estava pensando, pois ele se fez interessante para mim.
Já devia ter ouvido milhares de declarações, acredito que isso o envaidecia, afinal ele é do tipo que usa as pessoas como troféus, só para se sentir importante. Sua vaidade devia estar inflada nesse momento.
Posso dizer que talvez tenha me precipitado em dizer isso a ele, mas posso afirmar que fui honesta.
Depois que o conheci minha vida mudou.
Entendam, não estou dizendo que foi bom, se eu pudesse escolher, não estaria passando por nada disso, mas temos que aproveitar os limões que a vida nos dá e fazer uma bela limonada, não é esse o ditado? Pois bem, não iria choramingar por estar envolta numa trama cheia de vampiros, ao contrário, tiraria proveito disso. E a melhor parte estava em cima de mim agora, sorrindo de uma forma que fazia meu coração parar.
Estava ansiosa para que ele dissesse alguma coisa e não ficasse me olhando com esse sorrisinho indecifrável.
Não sei dizer quanto tempo ficamos nos olhando depois que disse isso. Não podia aguentar mais tanta ansiedade e segurei o rosto de Bel entre minhas mãos, seus olhos azuis exibiam um brilho diferente, talvez eu estivesse vendo o reflexo dos meus próprios olhos naquele espelho azul. Finalmente voltei a aproximar meus lábios do dele. Seus olhos se fecharam, não aguentando a perigosa proximidade na qual nos encontrávamos, fiquei triste por ele ter escondido seus olhos de mim.
O torturei com o roçar de minha boca na sua, sem concretizar o beijo. Bel soltou o ar pesadamente contra meu rosto. Fez-me sorrir quando passou a língua sobre meus lábios num claro sinal de impaciência. Encostei meu nariz na ponta do seu, deslizando-o lentamente por sua face, escorregando até seu pescoço, arrancando um gemido baixo e delicioso da garganta dele.
— Clarrice... — grunhiu, totalmente entregue a mim, e a falta de som na sua voz provocou arrepios por todo meu corpo.
Venci a mínima distância que nos separava de um beijo, colando meus lábios nos dele, sentindo a maciez deles aguçarem meus sentidos. Tracei-os com minha língua, pedindo a Bel permissão, a qual foi facilmente cedida, para aprofundar nosso beijo.
Esse seu beijo regado de paixão e desejo me fez amolecer em baixo dele. Aos poucos, talvez percebendo meu despreparo diante dessa situação, ele tornou o beijo mais lento até que o finalizou. Às vezes meu corpo pedia pelo dele de uma forma tão intensa que eu chegava a me sentir dolorida. Nossos rostos estavam próximos quando ele abriu os olhos, que eram mais cristalinos do que qualquer pedra preciosa. Vislumbrar esse olhar me tirou o ar dos pulmões. E foi então que um sorriso cheio de escárnio apareceu em seus lábios perfeitos.
— Entóm está apaixonada por mim? — havia um tom provocativo ali, a voz de Bel estava tão rouca e abafada que quase não a reconheci. — Bem, mas disso nós já sabíamos — completou orgulhoso.
Meus lábios se abriram como se eu fosse ofendê-lo, mas me calei. Não havia nada para ser dito. Era provável que eu nunca mais tocasse nesse assunto.
— Clarrice... — seu tom estava voltando ao habitual. — Vamos fazer um acorrdo, oui? Nóm me provoque, lhe peço. Autocontrrole é uma qualidade que nóm possuo. Nóm posso garrantir amabilidade a você, tem tido sorrte.
Tinha uma leve idéia do gênio impaciente dele, mas não entendi exatamente a que se referia. Queria fazer perguntas, mas não falei nada. Apenas assenti com a cabeça.
Bel me ajudou a ficar em pé.
O sol começava a ganhar força no céu. No momento, ele estava protegido pela folhagem da mata, mas logo a criatura das sombras teria que enfrentar a luz do sol.
Continuamos andando por um bom tempo. Ali eu estaria protegida dos vampiros hostis e Bel da luz solar.
Por fim chegamos a um vilarejo. Havia algumas casinhas ao redor da floresta, barulho de crianças na rua, andando de bicicleta ou então soltando pipas.
Os olhos de Bel se fixaram em uma casa em especial.
— O que tem ali? — perguntei, seguindo seu olhar.
— Roupas secas no varral — gargalhei alto. Belphegor me olhou com reprovação.
— Desculpe-me — disse prontamente. — É que é difícil imaginá-lo como um assaltante de varal. Logo você que só veste roupas de grife.
— Nós vampirros aprrendemos a valorrizar o que é de boa qualidade e de bom gosto com o decorrer do tempo. Esse é um dos motivos parra eu odiar esse seu país. Veja, as pessoas lavam suas roupas em casa, as estendem parra secar no varral. É degrradante. Por isso andam enfiados em trrapos. A aparrência já não é boa, as roupas os torrnam ainda mais desprrezíveis — me ofendi com o comentário desse playboyzinho. Falaria algumas verdades.
— Nem todo mundo pode hipnotizar os outros para conseguir o montante de dinheiro que quiser. As pessoas aqui trabalham duro por seu sustento. Não tem todo o conforto que mereciam, mas pelo menos conquistaram tudo aquilo que têm honestamente. Você já deve ter se esquecido da satisfação que se obtém por se trabalhar por suas coisas — cruzei os braços, indignada.
— Dispenso essa satisfaçóm. Nóm me faz falta alguma — ele retirou a gravata borboleta e jogou num canto, fez o mesmo com as meias e sapatos. — Prefirro me deleitar com o que há de melhor no mundo. Gosto de fazer bom prroveito de minha condiçóm prrivilegiada — revirei os olhos. Como podia ser tão insensível?
— Você é um parasita — disparei. — Não apenas por se alimentar do que nos mantém vivos, mas também por usar de hipnose e fazer das pessoas brinquedos. Entendo que isso faça parte de seu instinto, mas seria admirável se isso te incomodasse, pelo menos um pouco.
— Só se eu fosse idiota me chatearria com isso — ele desabotoava a camisa e eu fazia um grande esforço para prestar mais atenção no que ele me dizia do que em seu corpo. — Clarrice, o ser humano é tóm deprrimente! Vivem uma vidinha limitada, presos em seu corrpo frrágil, suscetíveis a tantos males. Passam a infância dependendo de adultos, passam a adolescência com acnes no rosto e escrravos de seus malditos horrmônios. Se torrnam adultos e procurram por trrabalho e pelo sexo oposto. Passarrão o resto da vida vivendo em funçóm do trrabalho e da família. Os filhos crrescem e vóm emborra, fazer exatamente o que os pais fizerram. Os pais, já idosos, se aposentarrão e com o salário de fome que receberróm mal poderróm comprar todos os remédios da velhice. A essa altura estarróm doentes e limitados. Um dos dois vai morrerr logo, o outrro estarrá quase surrdo, quase cego, quase inválido, sem demorra começarrá a depender dos outros novamente, para se alimentar, tomar banho, se vestirr, trrocar suas frraldas. Acha que querria isso para mim? Acha mesmo? Quando tirro a vida de um infeliz como esse, lhe fiz um favorr, lhe aliviei muito sofrrimento. Nóm me sinto penalizado. A vida de vocês é uma sucessóm de frracassos. É humilhante!
— Que maneira horrível de pensar! — disse como que para mim mesma. Odiei a forma como ele pintou os mortais, como se não houvesse propósito algum para nossa existência.
— Nóm se prreocupe com isso. Nóm acontecerrá com você — me ofertou um sorriso simpático.
Belphegor desapareceu um segundo depois, como que por mágica. Reapareceu logo. Gargalhei ao vê-lo e isso o aborreceu.
Usava camisa social com mangas curtas, estampada com cerejas vermelhas. Não trocou a calça que já usava, mas calçava um tênis amarronzado com manchas de tinta. Era hilário vê-lo com esse traje.
Estendeu-me algumas roupas. Um vestido de viscose com estampas psicodélicas. Caberiam duas de mim ali dentro. Um agasalho de moletom com zíper e capuz, na cor cinza escuro. Pertencia provavelmente a um rapaz que tinha quase o dobro da minha altura. E para finalizar, um tamanco de madeira número 39, eu calçava 34.
Não me queixei, precisava me livrar das roupas molhadas.
— Dê a volta e feche os olhos — pedi, para poder ter privacidade ao trocar de roupa.
Livrei-me das roupas e lingerie molhadas.
Vesti o vestido roubado no varal, que ficou enorme em mim, consequentemente ridículo. Calcei o tamanco que a qualquer momento abandonaria meus pés e coloquei a blusa. Apesar de tudo foi agradável a sensação macia do moletom sobre minha pele. Ficaria aquecida agora.
— Pronto — anunciei.
Ele ficou frente a mim e pareceu não achar graça de eu estar tão horrorosa.
— Ótimo, entóm vamos — o segui, confesso que estava tendo dificuldades em andar com aquele tamanco.
O vampiro teve paciência e manteve os passos lentos. Quando atravessamos a avenida, suponho que fosse 9/10 horas da manhã. Bel tentava proteger os olhos com as mãos. Estava incomodado com os raios solares, mas não teve nenhuma alteração física visível.
Por fim entramos em um estabelecimento comercial. Ali ele parecia mais confortável.
Tratava-se de uma padaria. O lugar estava apinhado de gente.
Apenas três funcionarias trabalhavam no momento e pareciam bastante atarefadas. Nos sentamos nos banquinhos defronte ao balcão.
Uma das atendentes, a que estava lavando os copos, veio em nossa direção. Acreditei que seríamos atendidos, porém a garota congelou ao olhar para Belphegor. Seus olhos estavam esbugalhados.
Ela colocou os cotovelos sobre o balcão e pousou seu queixo sobre as mãos, parecia estar drogada.
O sorriso era imenso, chegava de uma orelha a outra.
— Em que... — suspirou — posso ajudá-lo? — suspirou. Disse a balconista.
Também olhei pra ele. Não havia como negar que sua aparência era fantástica, porém, já havia estava em melhores condições antes. Sua roupa era uma piada e seu cabelo precisava de um pente tanto quanto o meu.
O príncipe parecia nem se importar com os coraçõezinhos que estavam saindo daquele olhar. Eu podia vê-los perfeitamente. Irritei-me com a falta de discrição dela.
Enciumada, entrelacei meu braço ao dele. Essa garota precisava dar-se conta de que ele estava acompanhado. Que falta de vergonha!
Bel me encarou quando me agarrei a ele. Seu olhar era surpreso. Depois de alguns instantes me olhando, um sorriso iluminou seu rosto. Imagino que tenha entendido o motivo do meu gesto possessivo.
O rapaz soltou seu braço do meu e inclinou-se sobre o balcão, deixando seu rosto próximo ao da atendente. Senti meu sangue ferver nas veias.
Não se contentando com essa ação que quase fez a garota desfalecer, ainda tocou a mão dela com seus dedos longos.
Ela olhou para a mão dele e seguiu o olhar pelos seus braços, até que seus olhos encontraram os olhos azuis do vampiro. O sorriso abobalhado dela era constrangedor. Fiquei envergonhada por ela.
Belphegor lhe ofertou um sorriso arrebatador de corações e disse num tom rouco, aveludado e apelativo:
— Olá milady! Comment vas tu? — a pobre coitada abriu os lábios, na intenção de responder, entretanto ela não encontrou as palavras e apenas voltou a suspirar.
Estava revoltada com o jeito dele. Provocava a balconista para me irritar.
Eu não gostava de me sentir dessa maneira, mas minha vontade era pular o balcão e dar umas bofetadas nessa oferecida.
Sabia que ela não tinha culpa alguma, os vampiros eram naturalmente lindos e sensuais, de uma forma perturbadora, mas nem isso me confortava.
Puxei Bel pelos ombros, obrigando-o a se sentar civilizadamente.
Limpei a garganta para que a moça prestasse atenção em mim. O barulho foi em vão, os olhos dela estavam pregados nele, que sorria, se divertindo.
— Por favor, pode ANOTAR MEU PEDIDO? — tive que elevar a voz até um grito, pois a garota não percebia minha presença ali.
Bel controlava-se para não gargalhar. Estava adorando minha afetação.
Relutantemente a garota olhou em minha direção.
— Pois bem — minha voz denunciava que eu estava contrariada. — Quero uma fatia de bolo de chocolate, suco de laranja e dois alfajores — a atendente começou a anotar meu pedido num bloquinho de papel, contudo não demorou a voltar os olhos para Bel.
Isso era mais do que eu poderia aguentar.
Cerrei os punhos e os bati repetidas vezes sobre o balcão, para chamar a atenção; Toc, toc, toc.
Quando a garota voltou sua atenção para mim, estalei os dedos e repeti:
— Agilidade, agilidade!
Só então me sentei e procurei manter a calma enquanto ela foi providenciar meu pedido.
Descobri-me faminta e não demorei a devorar meu café da manhã.
***
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