A Máscara

11 Capítulo 11 - Descontrole.


Notas iniciais
E com os que erramFeio e bastanteQue você consigaSer tolerante...

Fiquei esperando por Bel do lado de fora do estabelecimento enquanto ele acertava as contas na padaria. Provavelmente hipnotizaria o caixa, afinal sua carteira possivelmente tinha se perdido no rio ou o dinheiro estava encharcado demais para ser útil no momento.

Andamos sob a luz do sol. Ele parecia cansado e piscava com força. Depois de olhar com mais atenção pude ver leves marcas avermelhadas se formando em sua pele, como se fosse uma espécie de queimadura. Isso explicava seu jeito incomodado.

Quando passamos em frente a um estacionamento avistamos alguns motoristas que deixavam seus carros ali.

O vampiro foi ao encontro de um deles.

Tratava-se de um homem barbado e com a barriga saliente. Usava correntes douradas no pescoço e anéis em todos os dedos.

— Bom dia! — disse Bel, sorrindo para o homem.

— Bom dia — respondeu ele, desconfiado.

Assim que o vampiro conseguiu um bom contato visual, seu tom se tornou sussurrado:

— Você vai me dar à chave do seu carro, sem perrguntas. Agirrá norrmalmente e nóm procurrarrá por ele, nem acionarrá a polícia — depois das orientações o homem piscou algumas vezes e estendeu a chave de seu carro para o príncipe.

Seguimos em direção a um Opala azul, que apesar de ser um automóvel antigo estava bem conservado.

Logo estávamos acomodados no veículo. Bel deu a partida e deixamos o estacionamento.

— Por que esse carro? — perguntei confusa. Havia carros mais modernos no estacionamento e pelo que sabia, Bel gostava de automóveis luxuosos.

— Por dois motivos, os vidrros escurros serrão úteis durrante esse sol do meio dia e adorro esse carro. É um clássico — Bel continuava me surpreendendo.

— Para onde vamos? — perguntei ansiosa

— Mansão de Raleph.

— Ele é o príncipe desse Distrito, seu aliado. Não acha que sua casa é o local mais provável para o ataque dos inimigos? — isso era tão óbvio.

— Sim — respondeu o vampiro. — Mas meu exérrcito está lá. Estóm todos prreparrados parra um confrronto. Se nos atacarrem vóm precissar ser discrretos, pois se a máscarra ficar ameaçada os ancións tomarróm parrtido ao nosso lado, o que serria o fim parra eles. Acrredite em mim, nóm vóm se arriscar.

Não sei quanto tempo levou até chegarmos à mansão do príncipe. Dormi durante o trajeto, estava exausta.

Ainda estava sonolenta quando entramos no salão principal.

A casa estava cercada por vampiros.

Bel e eu subimos as escadas e entramos no escritório de Raleph, que estava ao telefone.

Ele desligou o aparelho prontamente ao nos ver entrar.

— Ora! — disse, caminhando em nossa direção. — Fico feliz que estejam bem, acabei de receber a notícia de que Maxwell e sua tropa já estão em meu território à procura da noiva — havia deboche no tom de Raleph. Ele esteve em minha festa e me viu de noiva. Não sei por que isso o divertia tanto.

— Já sabemos disso — respondeu Belphegor, de mal humor.

— Bem, mas nem todas as notícias de hoje são ruins — completou Raleph, com um olhar malicioso. — Conseguimos capturar aquele seu servo que te traiu. Está à espera da morte, Belphegor. É claro que o guardei para que você mesmo tivesse a honra — meu coração parou por alguns instantes, senti minhas mãos transpirarem.

Bel sorriu, satisfeito.

— Leve-me até ele — usou seu tom autoritário, que nem mesmo um igual, como Raleph, poderia desacatar.

— Siga-me — Raleph se adiantou até a porta.

— ESPERE! — berrei. Os dois olharam para mim espantados.

Não tive tempo de me envergonhar por ter elevado a voz.

— Eu preciso falar com você, Bel — pedi.

Não faço ideia de como estava meu semblante. Acredito que estava pálida e com o olhar aterrorizado. Os vampiros não conseguiam tirar os olhos de mim.

— Ela vai desmaiar — afirmou Raleph.

— Nóm vai — Bel caminhou até mim e me forçou a sentar na poltrona. — Depois converrso com você. Vou resolver esse assunto— meus olhos se encheram de lágrimas.

Oh Deus! O que eu tinha que fazer para que Bel não machucasse Conner? Tinha dúvidas sobre o caráter dele, sobre suas reais intenções a meu respeito, mas isso não apagava as coisas boas que ele havia me feito. Estava apavorada com medo de perdê-lo. O que seria de mim se isso acontecesse? Se eu não pudesse mais contar com ele?

Eu não tinha essas repostas, mas sabia que precisava fazer alguma coisa.

Me levantei. Olhei fixamente em seus olhos e fiz com que minha voz parecesse firme e determinada.

— Tenho que falar com você agora. Apenas eu e você — Raleph sorriu, achando graça do meu atrevimento.

— Quem pensa que é? — perguntou Bel, com rispidez. — Falo com você quando julgar necessárrio. Nóm querro te ouvir agorra. Quando nóm tiver nada melhor parra fazer venho ouvir suas bobagens — dessa vez Raleph gargalhou.

Bel virou-se para seguir o outro príncipe.

Não podia permitir que isso acontecesse.

— Se sair por essa porta antes de conversarmos vou me entregar a Maxwell — ameacei seriamente.

Por mais ridícula que pareceu minha atitude, conquistei a atenção dos dois que me olharam surpresos.

— Boa sorrte, ma chérie! — disse Bel, com olhos implacáveis.

Raleph ainda parecia surpreso, não com minha reação e sim com a de Belphegor. Não entendia o motivo do vampiro francês não me atacar e calar minha boca de uma vez por todas.

— Dou um jeito — reafirmei minha promessa. — Já me subestimou antes e fugi da sua fortaleza — os olhos de Bel se estreitaram de fúria.

Raleph entendeu que precisava nos deixar a sós, mesmo sem que nenhuma palavra fosse proferida. Apenas a postura de Belphegor deixava clara essa exigência. O vampiro com a aparência angélica nos deixou.

Estava temerosa pelas consequências de minha ousadia.

O príncipe caminhou até mim com olhos injetados, mãos fechadas em punho. Recuei até ser barrada pela parede atrás de mim.

— Nóm vou perrmitir que sua audácia me embarrace diante dos meus. Nóm ouse me enfrrentar, esmago você antes que tenha tempo de borrar as calças — disse entre os dentes.

A essa altura suas mãos já tinham agarrado meus ombros e os comprimia de modo que os hematomas ficariam evidentes.

— Não faça promessas que não pode cumprir — desafiei-o, ainda na intenção de ganhar tempo.

— O que te faz duvidar? Acha que o amor que sinto por você me impedirria de matá-la? — sorriu com deboche.

— Não— o encarei. — Sei que não me ama, o que te impede é o medo de se transformar num Nosferatu — jamais havia visto o príncipe tão contrariado. Ele estreitou os olhos e sua boca se transformou numa linha fina. Fechei os olhos, arrependida por tê-lo provocado dessa maneira.

Voei através da cômodo onde estávamos. Só fui interrompida pela parede do corredor de fronte a sala. Escorreguei por ela até estar sentada no chão, sem força e tomada por dores.

Muitos vampiros acompanhavam o desenrolar da cena.

Bel me seguiu. Seu olhar ainda me fazia temê-lo.

— Entóm já sabe sobrre isso? Imagino o que mais Conner tenha te contado — estava frente a mim e me olhava de cima com superioridade, sem piedade alguma.

— Vá em frente, majestade — forcei minha voz a se tornar audível, apesar do gosto de sangue que escorria por minha garganta. — Acabe logo comigo. Prove para seus súditos que não depende de mim para nada — o instiguei e vi seu semblante se contorcer de ódio.

Ele se agachou, nivelando nossa altura.

— Me dê licença, chérie, tenho um vampirro parra matar. Depois continuo de onde parramos — acariciou minha face com a ponta dos dedos.

— Vamos lá! — encorajei-o. Todos aqueles imortais a nossa volta encaravam-no, perplexos. — Não falta muito pra acabar comigo — tossi, expelindo sangue pelos lábios. Provavelmente meus pulmões estavam seriamente danificados. Isso explicava minha dificuldade em respirar. — Termine o que começou, depois terá todo o tempo para Conner.

— Matá-la agorra serria bondade de minha parrte. Gosto que minhas vítimas agonizem e sintam a dor da morte destrruir o raciocínio. Gosto que grritem, que se contorrçam. Nóm terrei miserricórrdia. Nem adianta me pedir por isso — os vampiros que nos observavam pareciam condescendentes a ele.

Levantou-se, muito atento a mim. — Você é a pessoa mais idiota que eu tive o desprrazer de conhecer — completou, antes de me dar as costas.

Permaneci onde estava. A dor era agonizante. Não era capaz de me levantar.

Os vampiros me velaram por um tempo, fascinados pelo sangue que saia dos meus ferimentos. Entretanto, nenhum deles se aproximou.

Quando pensei que me deixariam para morrer ali, um grupo de carniçais veio ao meu socorro. Aplicaram alguma coisa em minha veia. A dor sumiu antes que eu apagasse.

Acordei confortavelmente numa cama macia. Um homem com jaleco branco me examinava. Confortou-me, dizendo que eu ficaria bem. Seu sotaque quase tornou sua frase incompreensível.

Ele me deixou aos cuidados de uma jovem ruiva, muito atraente. Assim que estávamos sozinhas ela se aproximou.

— Olá, Clarice! É uma honra conhecê-la. Meu nome é Suzanne — não respondi. Tentava mexer meus braços e pernas, preocupada com meu estado físico, achando possível que estivesse paraplégica.

— Vai ficar bem — garantiu a ruiva, como se pudesse ler meus pensamentos.

— Quanto tempo eu... — a moça me interrompeu.

— Ficou desacordada por dois dias. Está no Brasil, ainda na casa de Raleph — depois de algum tempo em silêncio completou: — Belphegor vai ficar feliz ao saber que já acordou — o nome dele provocou embrulho em meu estômago. Ainda não conseguia compreender direito o que havia acontecido. A essa altura já tinha matado Conner. Não seria capaz de perdoá-lo por isso.

— Quer assistir TV? — insistia Suzanne. — Comer alguma coisa?

— Gostaria de ficar sozinha — meu pedido entristeceu a carniçal.

— Como quiser — disse, retirando-se.

O quarto em que me encontrava era grande e luxuoso. Eu usava uma camisola hospitalar. Não sentia dor alguma, provavelmente por administrarem analgésicos em mim. Meus membros se moviam dolorosamente aos meus comandos, mas isso era o bastante para saber que eu não perdera os movimentos.

Não demorou até que o príncipe do terceiro Distrito viesse me fazer companhia.

A ruiva devia ter dito a ele que eu estava acordada. Era difícil encará-lo. Nem sei o porquê de minha reação. Não sei o por que tanta mágoa. O que eu esperava dele? Rosas e declarações? Ele só fez o que eu sabia que faria. Era tão previsível como trajeto de elevador.

Aproximou-se sentando ao meu lado. Não o encarei.

— Sinto muito — foi como começou seu discurso. Eu sabia que mentia. — Você concorrdou em nóm me prrovocar — agora se parecia mais com ele, colocando a culpa em mim. Não respondi. — Bem, já sabe sobre o tótem, sabe que ficarremos na vida um do outrro por muito tempo. Querro fazer com que isso seja o mais cômodo e agrradável possível parra nós dois. Nóm dificulte as coisas, oui?

— Matar meus amigos sem a menor consideração torna difícil a tarefa de me manter agradável — ele me olhava surpreso.

— Se estivesse zangada por eu ter te ferrido, comprreenderia, mas está aborrecida por Conner? Clarrice, ele nóm é seu amigo. Nunca foi.

— Vindo de alguém que não sabe o significado dessa palavra, desconsidero o comentário — Bel se levantou. Caminhou pelo quarto.

— Por que torna tudo tóm difícil? Estou me esforrçando.

— Não se desgaste. Não está conseguindo mesmo — disparei. Ele me lançou um olhar piedoso. Talvez por me ver semi-inválida sobre a cama. Não demorou para que sua expressão voltasse a adquirir aqueles ares de “pouco me importa”.

— Nóm falo isso por mim. Serria melhor parra você. Parra mim é indiferrente se gosta de mim ou nóm. Eu só prreciso tê-la sobrre meu poder, independente de como se sinta, ambos sabemos que já tenho isso. Você é minha e nada pode mudar esse fato. Se nóm quiser torrnar às coisas mais fáceis, esperro que aguente — não respondi. Ele deixou o quarto quando percebeu que sua presença me aborrecia.

Durante minha enfermidade continuei sob os cuidados de Suzanne.

Ela era amigável e parecia que simpatizava comigo. O doutor sempre me visitava, a carniçal ruiva me ajudava a tomar todos os medicamentos na hora certa.

Um dia, enquanto Suzanne me servia o chá da tarde, puxei assunto com ela.

— Então quer dizer que você é uma das carniçais de Raleph?

— Exato.

— Interessante — observei. — É comum que ele tenha belas carniçais? Por se tratar de um vampiro homossexual imaginei que só queria rapazes como seus escravos, para poder se divertir sexualmente com eles.

— Muito bem observado — respondeu a mulher, que passava geleia de frutas numa torrada.

— E então, qual sua história? — perguntei curiosa.

— Fui feita carniçal por vingança — respondeu-me a ruiva.

— Como assim?

— Acredito que você já tenha ouvido falar da “Aliança”, certo?

— Na verdade, não sei do que se trata — Suzanne achou graça por eu desconhecer essa palavra.

— “A aliança” é um grupo de humanos que caçam vampiros. Quando deixei de fazer parte deles eram 885 membros espalhados pelo mundo. Existem muitos grupos organizados para esse fim, no entanto “a aliança” ou “the alliance” é o mais conhecido por todos e o mais temido pelos vampiros. Esse sinal nos identifica — mostrou-me uma tatuagem em sua nuca, que parecia a letra “A” numa grafia glamurosa.

— Conte-me mais sobre vocês — havia muitas coisas das quais eu não tinha conhecimento, me dei conta.

— Enfim... — disse ela. — Nosso líder é um brasileiro, chamado Murilo Dantas. O precursor dessa caça aos vampiros foi o bisavô dele, Arthur Dantas. Arthur descobriu sobre os seres das trevas depois de ser atacado por um. Na tentativa de se salvar, pegou um galho pontiagudo de uma árvore e cravou no peito da criatura com presas afiadas e pele esverdeada, o dêmonio ficou paralisado. Ele fez desse vampiro seu refém e descobriu muito sobre essas criaturas noturnas. Arthur foi o primeiro a saber sobre os tótens, passou a caçá-los e destruí-los. Ensinou seus filhos a fazer o mesmo. Essa missão foi passada de geração a geração. Hoje Murilo é o líder da Aliança.

— Nossa! — estava admirada! — E o que houve com você?

— Fui o grande amor da vida de Murilo. Nos apaixonamos perdidamente e eu lhe daria um filho, era a união perfeita. No entanto, Murilo sempre foi vidrado em sua função de caçador e estava no encalço do príncipe desse distrito. Ele não esperou nem que nosso filho nascesse. Lembro-me de sua animação quando descobriu onde estava o tótem do príncipe Caleb. Murilo destruiu o castiçal de prata e Caleb se transformou num Nosferatu. Depois disso foi fácil acabar com ele. Pois bem, os anciãos precisavam nomear um novo príncipe para essa região, então lançaram o desafio: aquele que se vingasse de Murilo seria coroado. Raleph nos encontrou em nosso esconderijo e decidiu que não faria nada a Murilo, mas me fez sua carniçal. Perdi o bebê quando bebi seu sangue e meu amor por Murilo acabou. Nada existia para mim além de Raleph. Os anciãos adoraram o que ele fez e o nomearam príncipe. Pediram para que um príncipe de outro distrito, já experiente, viesse ensinar Raleph a comandar seus vampiros. Belphegor foi designado para essa função. Acho que foi aí que vocês se conheceram. Presumo que os anciãos escolheram Belphegor pelo fato de ele não ter um tótem. Por esse motivo ele sempre foi o preferido dos anciãos. Engraçada a vida, não? — ela sorriu, divertida.

— Meu Deus! — exclamei. — Além de eu ser perseguida por vampiros, vou ser perseguida por humanos? Esse Murilo faria de tudo para me matar, não faria? Eu sou o tótem de um príncipe.

— Sem dúvida. Murilo não é assassino, acredito que nem saiba da possibilidade de um humano ser tótem. Isso só acontece com objetos. Mas conhecendo-o como conheço, ele mataria uma pessoa pelo bem da maioria. Vampiros são seres desgraçados, só sabem bagunçar nossas vidas, nos usam, só pensam em alimentarem-se e divertirem-se a nossas custas. Os príncipes são ainda piores, o poder que possuem os fazem pensar que são Deuses aqui na terra. Príncipes são os principais alvos de Murilo. Ele já matou cinco príncipes em 11 anos, no entanto, Belphegor seria o maior dos troféus. Murilo não se conformava com o fato dele não ter um tótem. Para ele, Belphegor é o pior de todos.

— Estou mais encrencada do que imaginava — falei comigo mesma.

Ficamos em silêncio enquanto eu me alimentava.

Meditava a respeito do que ela havia me dito, só que algumas coisas não faziam sentido.

— Escute-me, Suzanne — disse, enquanto dava um gole no suco de frutas. — Estive com um dos anciãos. Sei o tamanho do poder que possuem. Por que não acabam com esses grupos que caçam vampiros? Eles poderiam fazer isso sem muito esforço. – conclui.

— Tem razão — concordou a ruiva. — Se eles quisessem, não existiriam esses caçadores. Contudo, eles não se opõem, ao contrário, até incentivam esses grupos — não pude acreditar. Pausei a torrada que levava até a boca.

— Como assim?

— É simples — explicou-me a carniçal. — Os anciãos gostam do trabalho dos caçadores de vampiros. Acreditam que ajudam a refinar a raça. Na opinião deles, os grupos de caça exterminam os mais fracos e os que sobram são os mais espertos e preparados. A única coisa que os caçadores precisam fazer é não expor a máscara. Se numa caçada a máscara ficar ameaçada, aí sim os anciãos entram em ação e matam os caçadores. Caso contrário, eles não se manifestam. – eu estava impressionada.

— Então... — tentava organizar meu raciocínio em voz alta. — Os anciãos não vão intervir no caso de Bel. Eles não vão tomar partido na briga de Max, Bel e os caçadores. Deixarão que os mais fracos sejam eliminados.

— Exato — confirmou Suzanne. — Eles nunca interferem em assuntos como esse, a menos que a máscara esteja preste a cair. Acho até que os anciãos divertem-se com essas confusões. É uma forma de amenizar a monotonia de suas vidas eternas.

Era muita informação, perdi o apetite subitamente. Recoloquei a torrada e o copo com suco na bandeja.

— É chato comer sozinha, não é? — disse a ruiva. Observando meu gesto.

— É sim — confirmei.

— Eu também não gosto — confessou Suzanne. — São poucos os que se alimentam como nós aqui nessa casa. A maioria se alimenta de sangue.

— Então por que não faz suas refeições comigo? Seria bom para nós duas — pisquei para ela.

— Não é má ideia, Clarice — disse a bela mulher, levantando-se e apanhando a bandeja.

Suzanne se foi e fiquei absorvida em meus pensamentos. Talvez, além de a casa estar sendo vigiada pelos servos de Maxwell, estava sendo cercada por caçadores.

Passadas algumas horas, ela voltou ao quarto. Havia alimento para nós duas na bandeja. Trazia também uma grande sacola consigo.

A carniçal colocou a bandeja sobre a cômoda e me entregou a sacola.

Sorri ao ver roupas ali, essa camisola horrível que eu usava nos últimos dias acabava com minha vaidade feminina. Retirei as roupas de lá, uma a uma, observando as peças.

Suzanne sorria ao ver minha fisionomia. Não estava acostumada a usar roupas como aquelas. Tratavam-se de peças provocativas. Que revelariam todo meu corpo.

— Acho bom você usar roupas assim — disse a ruiva entre risos.

— Acha é? — perguntei, enquanto me olhava no espelho, segurando um vestido vermelho contra meu corpo.

— Claro! Belphegor vai adorar. É hora de provocá-lo — havia um risinho perverso em seus lábios.

Larguei o vestido sobre a sacola e sentei-me a cama, abraçando uma almofada. Fiquei melancólica ao ouvir o nome dele.

— Você é mesmo tótem dele, não? — perguntou, sentando-se a meu lado.

— Não sei. Acho que nem ele tem certeza — expliquei.

Ficamos em silêncio por um tempo.

— Clarice, você tem Belphegor em suas mãos. Eu vi como ele se descontrolou aquele dia em que te arremessou da sala de Raleph. O vampiro estava transtornado, como nunca vi algum. Ele não sabia o que fazer com toda sua força e raiva. Apesar de ser mais forte, você estava o contendo, como se fosse sua coleira. Sabe como isso é fantástico? Aquele vampiro pretensioso sempre se achou o melhor dos melhores. A vida tratou de colocar essa criatura em seu lugar — Suzanne sorriu, divertindo-se. — Os vampiros devem estar em êxtase com essa notícia, de que Belphegor tem um tótem humano — concluiu.

— Acho que ele não está feliz por ter encontrado o tótem dele — havia amargura em minha voz.

— Claro que não está — afirmou Suzanne — Deve estar revoltado com isso. Ele tem que estar perto de você. Têm que ficar próximo daquela que ele deve odiar. Quase chego a sentir pena — a carniçal sorriu. — Quase — reafirmou.

Eu não estava gostando da conversa.

— Você não gosta de Belphegor? — era isso que entendi pelo comportamento da moça.

— E quem gosta? Sujeitinho seboso. Desfila para lá e para cá com um perfume envolvente, com suas roupas bem escolhidas e sua beleza artificial. Sempre de nariz empinado, dando ordens, gritando e soltando seu veneno nas pessoas e vampiros. Acha-se o dono absoluto da razão e não há ninguém capaz de abaixar seu topete. Nunca suportei esse sanguessuga maldito. Adoro vê-lo lutando contra o que ele sente a seu respeito.

— Acha que ele sente alguma coisa? — provavelmente minha fisionomia foi de esperança.

— Ah meu Deus! — disse Suzanne, olhando fixamente para mim. — Não me diga que se apaixonou por ele.

— É difícil saber. Às vezes o odeio.

— Claro que se apaixonou — afirmou ela, balançando a cabeça em reprovação. — Era de se esperar, lindo do jeito como ele é. É sem dúvida o mais bonito vampiro que já vi. Tenho a impressão que quanto pior o vampiro, mais bonita é sua aparência. Não se preocupe que não vou julgá-la por isso.

— Obrigada! — eu estava com a expressão carrancuda. — Você nem pode me julgar, Suzanne, está apaixonada por Raleph.

— Não, não estou — ela ficou indignada. — É muito diferente no meu caso. Não sou do tipo de garota que se apaixonaria voluntariamente por um vampiro. Eu desprezo essa espécie. Fui induzida a sentir o que sinto por Raleph. Não é um sentimento puro, que me preenche. Sentia-me assim quando estava com Murilo. O que sinto por Raleph é uma necessidade incontrolável de satisfazê-lo. Mas, entenda, não é um sentimento meu. É uma maldição, uma coisa que implantaram em mim — seu olhar tornou-se distante, percebi o quanto ela havia sido castigada depois de se tornar uma carniçal. Isso ia de encontro com suas convicções. — Bem, mas isso não é importante agora. Vamos deixar Belphegor subindo nas paredes por você. – ela sorriu animada.

— Isso é impossível. Tentei atiçá-lo da última vez e veja o que aconteceu comigo — disse pesarosa.

— Pelo amor de Deus, mulher! Você é o tótem dele. Bel está com as mãos atadas, não pode fazer nada contra você. Por favor, Clarice, use esse poder que tem sobre ele, deixe esse vampiro orgulhoso de joelhos, humilhado. Ele deve ter uma forte atração sexual por você. Use isso. Use todas as armas que tiver. – Suzanne gargalhou.

***

Notas finais
Agradeço a minha leitora [ID #269703] L O V E F E V E R pela linda capa que me fez.Valewwww gatinha!E por favor meninas, comentem sobre a atitude de Belphegor e se entenderam sobre "a aliança". Beijos.