A Máfia
14 Conquistando o seu espaço.
Notas iniciais
“_Vai me castigar? – perguntei o provocando.
_É o que eu pretendo fazer. “
Uma nota sobre a noite de ontem: Se toda vez que eu for sequestrada, Vitor fazer amor comigo daquele jeito, eu juro que não irei reclamar!
Mas o mais especial de tudo, não foi o lençol sujo de prazer, foram os toques e os beijos dados durante esse processo. Vitor me tratou como sua mulher e me deu prazer como uma amante. As dobras do nosso lençol têm os segredos que a gente divide na cama em silêncio, seus defeitos se anulam com os meus e é como se menos com menos desse mais. Nossos lábios se divertiram um com o outro e nossos suspiros soaram como uma orquestra. Somos como um casal de metrô, não temos medo, não temos vergonha, temos desejo! E se algum dia eu já duvidei do amor que eu sentia por Vitor, eu tive quando acordei e o vi deitado ao meu lado com um sorriso de banda.
Mesmo ele não me amando, o jeito que ele me olha, me toca e cuida de mim já é o suficiente.
**********
Eu estou de “castigo”. Não vou poder sair (de acordo com Vitor) até os mafiosos terem piedade de si mesmo. O que significa que eu vou ter que esquecer por completo a ideia de sair de casa tanto para passear quanto para trabalhar por enquanto. Nem mesmo para o quartel eu vou poder ir. Eu tentei dizer que aquilo era totalmente desnecessário, eu até disse que se ele queria que eu ficasse segura, ele deveria ficar comigo. E ele pareceu levar aqui ao pé da letra, pois ele estava trabalhando em casa hoje, o que me deixou bastante surpresa!
_Não sei por que eu não posso ir para o Quartel, não tem nenhum lugar mais seguro que lá. – resmunguei pelo o que parece ser a milésima vez.
Estávamos no seu escritório do andar de baixo e ele, como sempre, lia e assinava alguns papéis.
_Não já falamos disso, Valentina, por favor. – disse ele concentrado. – Isso só vai durar alguns dias.
O problema é que eu estava entediada. Já era tarde e eu dormi durante toda a manhã, por isso eu descartei a ideia de voltar a dormir. Vitor não me deixa trabalhar com ele, diz que aqueles são os negócios deles, que eu devia trabalhar apenas com a de meu pai. Nem mesmo Lia eu tinha para me fazer companhia, a mesma havia saído para a entrevista de emprego.
_Mas eu estou entediada Vitor, não tem nada para fazer aqui. – falei emburrada.
_E o que você quer fazer, afinal? – perguntou ele ainda concentrado nos papéis a sua frente.
_Algo de útil. – respondi enquanto girava na cadeira giratória do escritório.
_Você está fazendo algo de útil, está me fazendo companhia. Odeio trabalhar sozinho.
Sorrio.
_Você odeia trabalhar com companhia porque elas atrapalham o seu raciocínio. – falei.
_E é por isso que eu vou pedir gentilmente que você cale a boca e pare da fazer barulho com essa cadeira. – disse sem me olhar.
Eu sorrio e começo a observá-lo enquanto trabalha. Ele vestia uma blusa social preta e jeans, o cabelo preto estava um pouco grande o deixando ainda mais bonito e sexy. Os olhos estavam focados no trabalho e seu corpo tenso enquanto o lia. Vitor se dedicava muito a Máfia, disso eu não tinha dúvidas, poderia dizer até mesmo que ele a ama e eu não o julgo, eu também a acho interessante, mas eu não consigo ter o sangue frio de mandar matar gente, mesmo elas sendo más e tudo mais. Eu não conseguiria, pelos é o que eu acho, nunca precisei matar ninguém até hoje e bom, ter vontade de matar alguém todos tem, então.
E ele parecia estar tão concentrado naqueles papéis que eu não resisti, me levantei e fingi estar olhando os livros nas prateleiras e fui andando até chegar atrás dele e sorrateiramente olhei por cima de seus ombros para ler os papéis. Meio infantil, eu sei, mas pelo menos eu estava fazendo algo.
_Eu sei o que está fazendo, Valentina. – disse Vitor tampando as folhas com os braços.
_Eu estou vendo os livros, só isso. – me defendi. – Tá legal, Vitor, por favor, me deixe trabalhar com você. Eu juro que não vou opinar em suas decisões.
Vitor vira para trás e ri do meu apelo, estende o braço para que eu me sentasse em seu colo e eu, claro, me sentei de lado e com um de meus braços o abracei e com o outro me apoiei na mesa e comecei a ler alguns dos papéis. E conforme ia lendo, percebi que eles se tratavam de possível “guerra” contra a Costa Nostra.
_Vitor? – o chamei. – Isso é sério? Tem mesmo alguém querendo começar uma guerra contra a Costa Nostra? – perguntei confusa.
_É, é possível.
_E quem é o mandante disso tudo? – perguntei.
Vitor ficou em silêncio e apertou a minha cintura. Ele coçou o queixo e sua barba por fazer e me olhou sério. Depois de alguns segundos tudo pareceu fazer sentindo. O mandante é Valentin.
_Oh não. Isso é sério? Quer dizer, ele tem chances de conseguir o que quer?
_É isso que estamos tentando descobrir. Temos muitos aliados fora da Costa Nostra, porém todos querem a chance de nos derrubar, se eles se juntarem com Valentin eles podem começar algo.
_Você já vez uma reunião geral? Com todos os membros da Costa Nostra? — perguntei.
Ele respira fundo em sinal de cansaço e passa a mãos no cabelo.
_Ainda não. Eu estava esperando fatos concretos para convocar todos.
_Vitor, isso é sério. Os outros têm que saber da gravidade disso tudo. Sem falar que uma guerra entre Máfias pode ser bem perigoso para os civis também. – falei folheando algumas folhas, depois olho para Vitor e ele tem um sorriso sacana nos lábios. – O que foi? Por que está sorrindo assim?
_Você fica muito sexy falando sobre negócios. – disse ele puxando gentilmente meu rosto para perto do dele e me beijando.
Vitor foi aprofundando mais os beijos e eu me ajeitei em seu colo a fim de ficar de frente para ele. Suas mãos foram parar por debaixo da minha blusa me causando um arrepio terrível, arqueio as costas com seu toque e Vitor sorri.
_Você é tão sensível. Adoro isso. – sussurrou em italiano em meu ouvido.
Claro que eu me derreti ao ouvi-lo falar assim, sorri para ele e logo voltei a beijá-lo, com mais força e mais vontade. Os beijos foram correspondidos e não faltou muito para ele começar a tirar a minha blusa e eu a dele. Pelo jeito, iríamos “batizar” outro escritório da casa.
_Senhor Chiacchio, o senhor tem uma visita... Ah, meu Deus! Desculpem-me!
Dominique entrou no escritório e logo que nos viu, tapou os olhos com as mãos com vergonha. Eu me levantei rapidamente e casei a minha blusa pelos cantos da sala e a vesti, também um pouco envergonhada. Vitor se levantou na maior tranquilidade e se vestiu do mesmo jeito, como se aquilo fosse normal, o que deixou Dominique mais vermelha ao vê-lo sem camisa e com o zíper da calça aberta, (mas isso não quer dizer que ela não tenha gostado) me fazendo rir da ruiva.
_Está tudo bem, Nique. Quem é que está aqui? – Vitor perguntou terminando de vestir a camiseta.
_São os senhores Baltimore e a pequena Julie. Eles estão esperando na sala de estar.
Baltimore é o sobrenome de John, marido de Sarah, e como Dominique é sempre tão educada ela os anunciou formalmente.
_Já estamos indo. – disse Vitor.
Dominique acenou ainda vermelha e saiu da sala, Vitor olhou para mim e eu não aguentei e acabei rindo. Ele também sorriu, mas foi apenas isso. Um simples sorriso. Mas eu me contento com ele, afinal o sorriso dele é lindo.
_Estranho Julie ter vindo junto com eles e não ter as anunciado por conta própria. Ela está sempre fazendo barulho e gritando por aí. – comentei ajeitando meus cabelos que por causa de Vitor, estava todo desgrenhado.
_Ela ficou muito assustada ontem. Sarah levou horas para fazê-la parar de chorar, foi terrível.
_E por que ela ficou assim? Valentin me disse que nem tocou nela! – exclamei. – Ela se machucou?
_Sim, mas ela ficou nervosa com a situação toda. Quando ela voltou do banheiro um dos seguranças da Máfia logo a acharam e a trouxeram para cá e aqui tinha muita gente, até meus pais estavam aqui. Ela ficou sabendo do seu sequestro e se sentiu culpada, chorou como nunca.
Senti um peso enorme ao ouvir isso, ela deve ter ficado muito nervosa e com medo. Se eu tivesse procurado melhor ela não teria passado por isso.
_Ei, ela está bem. Não precisa se sentir culpada. – Vitor depositou um beijo no topo da minha cabeça e instantes depois estávamos na sala de estar.
_Valentina, que bom que você está bem. Ficamos tão preocupados com você ontem. – disse Sarah me abraçando.
_Me desculpem por ter deixado a filha de vocês sozinha, me ligaram dizendo que ela tinha sido sequestrada e eu fique louca, devia a ter procurado mais. – falei de imediato.
_Você fez o que achava ser certo. Você arriscou a sua vida achando estar salvando a da minha filha, isso já basta! – disse John abraçando a esposa.
Eu sorri agradecida e olhei do lado deles, onde Julie estava. Ela estava sentada no sofá branco e parecia estar triste, mexia nos cabelos da boneca loira com delicadeza e eu me aproximei, me agachando na frente dela.
_Oi, sobrinha. – disse sorrindo. – Não vai me dar um abraço?
Seus olhinhos estavam tristes e brilhavam denunciando lágrimas. Vê-la assim acaba comigo.
_Eu desobedeci e você quase morreu. Eu fui má. – falou ela pausadamente.
_Você não foi má, nada do que aconteceu foi culpa sua, está bem? Não tinha como saber que isso ia acontecer. E olha, não aconteceu nada comigo, nem mesmo um arranhão! – falei na tentativa de animá-la.
_A tia não está brava comigo? – perguntou esperançosa.
Sorri de orelha a orelha e respondi que não. Ela pulou do sofá e me abraçou, caímos sentadas no tapete da sala sorrindo. Depois disso, John disse que precisava conversar com Vitor sobre assuntos da Máfia e ele voltou para o escritório, assim eu, Julie e Sarah fomos para a cozinha comer algo. Enquanto Julie comia um pedaço de torta e brincava com Dominique, contei a Sarah sobre Valentin e o porque eu levei a ameaça dele tão a sério, contando também sobre o meu irmão. Ela disse entender o meu lado e que em momento algum me culpou por ter deixado a sua filha sozinha, além do mais, eu fui tentar salvá-la e podia ter morrido. Ela me agradeceu por diversas vezes me deixando cada vez mais sem graça, aproveitei o momento e pedi para que ela trouxesse Julie amanhã para passar a tarde comigo, ela aceitou de bom agrado e bom, Julie adorou a ideia.Algum tempo depois, John voltou e eles foram embora. Vitor continuou no escritório e eu achei melhor ir tomar um banho.
Depois do banho, coloquei uma calça de flanela cinza e uma regata preta justa no corpo. Pus também um par de meias, pois o tempo continuava ruim e estava chovendo desde manhã. Passei no quarto de Lia para ver se ela havia chegado, mas nenhum sinal dela. Peguei meu celular e mandei algumas mensagens que logo foram respondidas por ela, avisando que por conta da chuva forte, ela não conseguiu voltar, mas estava com uma ótima companhia e que me contaria tudo mais tarde. Na mensagem ela também mandou o nosso código, que são os números 769 me deixando tranquila, pois com ele eu sabia que ela era quem estava mandando as mensagens. O código foi uma ideia minha quando ainda éramos adolescentes,e funciona mais ou menos assim: sempre que a gente “sumir” e mandar mensagens dizendo que estava tudo bem, mandávamos no final da mensagem o número 769, e se caso esse número não estivesse na mensagem, isso significaria que não estava nada bem e que provavelmente foi outra pessoa que estava mandando a mensagem. Parece ser complicado, mas é bem simples e prestativo, acreditem.
Depois de me certificar que ela estava bem, desci novamente indo para o escritório de Vitor, onde ele trabalha ainda mais concentrado.
_Você trabalha demais. – comentei me sentando na cadeira giratória mais uma vez.
_É o que eu faço. – respondeu.
Me levanto da cadeira fazendo um barulho irritante e Vitor dá uma rápida olhada para mim, meio que me advertindo. Peço desculpas baixinho e começo a observar os livros nas estantes, mas dessa vez com interesses para com eles. Alguns deles são livros de advocacia e outros são literaturas, pego um de poemas e o folheio rapidamente, parando apenas para ler um que chamou bastante a minha atenção.
“Quantas vezes, por José Geraldo da Silva
Quantas vezes me vejo pensando em ti,
Amando-te em silêncio, um segredo extremo que tenho comigo...
Quantas vezes tocaste já o meu
Coração... como uma suave melodia, uma brisa e o
Fizeste disparar como um raio...
Quantas vezes dormi, e te vi em meu sonho, e desejei nunca mais despertar somente para estar contigo...
Quantas vezes...”
Olho rapidamente para Vitor, quase que instantaneamente. Continuo a olhar o livro, que é uma coletânea de poemas de diversos poetas e vou me encantando com cada verso que leio. Poesia costumava ser algo que eu adorava quando mais jovem, eu tinha algumas coletâneas que ocupavam a maior parte da minha prateleira. E conforme o tempo foi passando, elas ficaram esquecidas em cima delas, e eu me esqueci como elas são maravilhosas.
_O que está lendo? – a voz de Vitor parece me tirar de um transe.
_Ah, poesias. – digo.
_Leia uma para mim. –pede ele.
O olho e ele parecia estar falando sério, sendo assim, escolho uma de Fernando de Rojas e começo a me aproximar dele.
_”O amor é um fogo escondido, uma agradável chaga, uma doce amargura, um alegre tormento...”
Olho para Vitor e ele parece estar me analisando, ele tem os cotovelos apoiados na mesa e a cabeça sobre as mãos. Com um gesto ele pede para me aproximar e eu vou até ele. Ele pega meu braço e me senta em seu colo como antes. Ele pega o livro de minhas mãos e também o folheia.
_Eu gosto deste aqui. – diz, então ele fingi tossir me fazendo rir e se prepara para ler a poesia. – “Para que tu me ouças minhas palavras se adelgaçam às vezes como as pegadas das gaivotas nas praias. Agora quero que digam o que quero dizer-te, para que tu me ouças como quero que me ouças. Ame-me, companheira. Não me abandones. Segue-me. Mas se vão tingindo com teu amor minhas palavras. Tudo ocupas, tu, — disse olhando para mim, dentro de meus olhos. – tudo ocupas.”.
Meu coração batia tão forte e é capaz dele rasgar meu peito. Vitor leu aquele poema com tanta paixão e quando ele olhou para mim e disse aquilo foi como se eu tivesse achado o pote de ouro no final do arco-íris. E o sorriso que eu dei, foi um sorriso apaixonado, aquele sorriso bobo de adolescente apaixonada que ganha algo inesperado do namorado. Pois eu ganhei algo, ganhei um lugar na vida de Vitor e ele queria que continuasse sendo meu, eu não era mais apenas uma peça de um jogo para ele, agora eu sou algo para ele. Eu sou dele.
Não me dói em saber que ele ainda não me ama, pois nosso desejo é a chama que nos reacende para algo próximo a isso. E que proximidade...
É como diz Camões: “Amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói, e não se sente.”.
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