A Muralha

3 Primeira Noite de muitas outras.


O Frio congelava as mãos de Rafael que tentava se aquecer em uma pequena lareira feita as pressas por ele.

-Não está com frio Avalon?

Perguntou ele entre batidas de dentes, sentia seus lábios racharem e a preocupação das feridas que surgiriam na manhã seguinte não lhe deixaram a cabeça.

-Não.

Respondeu Avalon que se mantinha imóvel olhando da beira da muralha a mata escura.

-Nunca sente frio?

Continuou Rafael que tentava a tempos conseguir uma conversa decente com Avalon, mas só escutava as palavras Não.

-Não.

Respondeu novamente, Rafael irritado seguiu até onde Avalon estava.

-Só sabe dizer não?

Notando que não teria resposta puxou o braço de Avalon que virou brutalmente e socou o rosto de Rafael que caiu no chão perplexo.

-Vamos as regras. Você não encosta em mim, não fala comigo, não me questiona e aposto que assim seremos grandes amigos. Agora limpe esse nariz antes que congele o sangue.

Avalon disse se retirando, a cada movimento significativo da lua ele andava até metade da muralha e voltava algum tempo depois. Rafael acreditava que era um tipo de ronda o que para ele não era necessário pois havia outros patrulheiros cobrindo aquela área, mas estava evitando questionar as atitudes estranhas que Avalon tinha.

-Maldito seja!

Disse Rafael entre dentes enquanto pegava abria as calças para urinar na beirada da muralha.

Já passará metade da noite, não havia tido sinal dos patrulheiros que haviam saído para a caça durante a manhã. Rafael pensava muito em sua família, no cheiro de grama cortada e no sol quente em sua pele, na infância passava horas e horas deitado sob o quintal perto de sua casa sentindo o sol aquecer se corpo, sua mãe sempre levava bolo para comer a tarde. Pensava muito no dia em que a viu morrer, algum monstro havia matado ela, sugado seu sangue e dilacerado o pai dele, o monstro sabia que havia mais alguém na casa, que ele estivera ali e Rafael quando conseguiu fugir jurou não falar seu sobrenome assim jamais o monstro descobriria seu paradeiro. Pensando no monstro que virá lembrou ser parecido com Avalon, com aspectos brancos e olhar feroz, porém Avalon era humano demais para ser aquela criatura. Mas porque seriam parecidos? Era o que se perguntava Rafael até seu raciocínio ser cortado quando Rafael apareceu do nada.

-O que está fazendo?

Disse Avalon olhando para o lado.

-Urinando ué. Não pode também?

Disse Rafael fechando as calças.

-Pode.

Respondeu Avalon ainda olhando em outra direção.

-Por sinal Avalon, você não fez xixi ainda, como agüenta tanto tempo? Devia tentar fazer isso na beirada da muralha, é muito divertido. Parece nunca chegar lá embaixo.

-Claro, deve ser legal.

Disse Avalon seguindo até a lareira e se sentando.

-Tem vergonha? É tão pequeno assim?

Rafael sorria ironicamente, mas Avalon não respondeu.

-Soube que vai ter a cerimônia amanhã, vai se transformar em patrulheiro também Avalon?

-Não, ainda não.

Respondeu Avalon entre dentes.

-Porque não? Você deve ser forte.

Continuou Rafael.

-Porque me enche de perguntas, não tem mais o que fazer?

-Infelizmente não, afinal em vez de descansar da viagem você me fez ficar aqui nesse frio de congelar a espinha olhando para a imensidão garantindo a mim que pode chegar algum monstro que queira ultrapassar a muralha ou aparecer os patrulheiros que saíram em busca de alguém em um vazio morto. Realmente nada demais para fazer. Ah não ser que queira lutar comigo.

Disse Rafael sorrindo e tirando da bainha sua espada velha e enferrujada.

-Não vai querer fazer isso.

Disse Avalon se levantando.

-Claro que vou.

Respondeu Rafael correndo em direção a Avalon com a espada levantada pronta para cortar Avalon de cima.

-Errou.

Disse Avalon quando a espada passou raspando pelo seu lado sem ele ter feito qualquer movimento.

-Como...

-Minha vez.

Interrompeu Avalon, chutando o rosto de Rafael diversas vezes até Rafael perder o equilíbrio e quase cair no precipício se não fosse Avalon parar de chutá-lo e segurar ele pelo colarinho.

-Não precisava tudo isso.

Disse Rafael tentando buscar o chão com seus pés.

Avalon o jogou para o outro lado com um dos braços.

-Entenda que subestimar as pessoas é o mesmo que pedir pela morte. Largue sua fralda e pode vir tentar novamente me vencer. Tentar é claro.

Rafael ficou vermelho e evitou olhar para Avalon enquanto ele falava. Mas seus olhos foram capturados por uma forte luz atrás de Avalon. Estava nascendo o sol e Avalon parecia um Deus ao invés de um simples mortal, não era o olhar que Rafael estava acostumado, Avalon olhava o sol com adoração e gentileza, um olhar que lembrava o de sua mãe. Era tão lindo, tão divino como um Deus e incrivelmente feminino.

Rafael balançava a cabeça para tirar esses pensamentos.

“Avalon é homem e eu também. Gosto de mulher claro, gosto sim.”

Pensou Rafael.

-Terminou a vigia, você pode ir dormir se quiser.

Disse Avalon, seguindo até as escadas.

-Sim, é melhor eu dormir mesmo, estou delirando eu acho.

Disse Rafael tão baixinho como se falasse para si mesmo. Avalon não voltou a olhar para trás, seguiu até seus aposentos deixando Rafael sozinho.

O sol estava se pondo quando Rafael acordou com as trombetas, ele havia esquecido que teriam o juramento hoje então correu para seu armário de pinho, tirou algumas roupas pretas, pois era o que tinha e correu em direção as escadas.

Lá estavam todos reunidos bem no centro do jardim do castelo negro. Rafael pode ver finalmente com atenção as varias e varias torres que cercavam o castelo, cada uma servia de dormitório para um grupo de patrulheiros, mas havia em especial uma torre que era proibido a entrada de qualquer um, era lá que Avalon dormia. A torre pertencia a ele e mais ninguém.

-Senhores, silencio e atenção.

Começou a falar Sor Bartolomeu que se posicionava apoiado em sua espada na frente de todos, os mestres patrulheiros atrás deles e mais ao longe, distante o suficiente para não chamar atenção estava Avalon a mexer na ponta de sua adaga.

-Levantem–se meus jovens, ao por do sol você irão jurar fidelidade a escuridão, abandonaram a todos os seus desejos pessoas e toda a sua honra com a família. A partir de hoje serão patrulheiros sem qualquer laço com o passado, mas sim com o futuro. Agora, jurem.

-O sol desaparece entre as montanhas, minha sombra começa a surgir, cada passo na escuridão é observado por mim. Sou a arma da noite, a morte dos desavisados e o escudo dos que dormem. Não terei mulheres, não lembrarei de minha famílias e nem terei sangue do meu sangue. A partir de agora e para todo o resto de minha vida seguirei a escuridão.

-Vocês chegaram para mim como crianças, mas hoje me orgulho em dizer que são homens. Homens da patrulha da noite. Não esqueçam, a união é o que nos faz forte. Estão dispensados.

Foram minutos breve de juramento, mas a festa estava por vir. Todos os patrulheiros inclusive os novatos foram convidados de seguir até um bordel a sul do castelo, um divertimento para os que não terão ninguém nas noites frias para se aquecer.

Rafael seguiu até onde Avalon estava, todos corriam e se abraçavam, pulando um no outro.

-Não sentiu vontade de fazer o juramento?

Perguntou Rafael. Avalon o olhou por segundos até voltar a mexer na sua adaga.

-Não.

Resposta esperada por Rafael que decidiu continua as perguntas recíprocas.

-Vai junto no bordel?

Perguntou Rafael todo animado.

-Ah, claro que sim. Estou muito ansioso.

Respondeu Avalon ainda olhando para sua adaga.

-Serio? Mesmo?

-Não.

-Mas o que vai fazer então?

Avalon o olhou de relance e suspirou.

-Fazer o que patrulheiros deviam fazer. Proteger a muralha.