A Morte de Jonas
1 Manhã
— Você é a próxima.
Todas as vezes que eu havia escutado essa frase antes na vida, ela era seguida de um sentimento de alívio e um não tão silencioso “até que enfim”. Fico me perguntando se era esse o motivo de eu não ter entrado em pânico, como, sei lá, qualquer pessoa teria feito, dada a situação.
Eu definitivamente não estava acostumada a receber tanta gente no meu apartamento. O homem que parecia ser o chefe da turma pediu que eu sentasse porque o que ele tinha pra me dizer era grave e poderia ser um choque para mim. Eu deixei escapar um assobio cético. Eles me olharam um pouco surpresos pela minha reação descontraída, mas não pareciam ofendidos. Pareciam ter somente muito pena de mim. Pedi perdão pela minha impulsividade e sentei na única cadeira que eu tinha na cozinha. Uma das visitas inesperadas colocou sobre a mesa um laptop. Por acaso eu percebi ser um objeto de preço muito além das minhas atuais (e provavelmente eternas) capacidades aquisitivas. Um vídeo começou a passar na tela. Eu olhei para as pessoas na sala e elas estavam claramente esperando que eu prestasse atenção no vídeo, então tentei me concentrar no seu conteúdo.
— Reconhece esse lugar?
O lugar em questão era um restaurante exótico que tinha algum nome, acho que russo, que eu nunca frequentei. Na verdade, eu recentemente havia descoberto que se tratava de um restaurante. Achei por muito tempo que fosse um museu.
Na gravação havia umas cinco pessoas ocupando alguns lugares numa das saletas do restaurante, todas muito bem-vestidas. Embora estivessem estranhamente espaçadas demais, pareciam conversar entre si – a gravação era de baixíssima qualidade e não havia áudio, então não pude dizer ao certo. Fiquei procurando alguma coisa que pudesse ser estranha o suficiente que justificasse tantas pessoas de terno na minha casa. Não demorou muito e na gravação uma mulher surgiu andando de forma desengonçada. Ela segurava umas sacolas, mas as soltou quando chegou perto de uma monumental fonte de água que enfeitava o local. Em seguida ela entrou na dita fonte e começou a esfregar os pés com as mãos. Essa mulher era eu.
— Ah, vocês vão me prender por isso? Eu posso explicar.
— Você se reconhece então como a mulher no vídeo?
Eu abri a boca para responder “não”, mas acho que era tarde demais pra negar, agora que eu já havia falado que explicaria a situação. O chefe ali notou minha inquietação e se prontificou a me acalmar:
— Não estamos aqui para te prender, tampouco te julgar. Somos de uma organização semioculta, formal, que investiga casos especiais que a polícia nos despacha.
— Tá. – Eu coloquei minhas mão sobre as pernas, respirei fundo e me expliquei. – Eu havia acabado de comprar umas coisas desnecessariamente hipercalóricas na conveniência ao lado e a sacola rompeu. Uma dessas coisas caiu sobre o meu pé e ele começou a sangrar e tava doendo pra caralh…
— Não, não precisa nos contar, embora, sinto muito pelo ocorrido. – Ele disse, demonstrando sincera empatia. – Quatro dessas pessoas que estavam nesse lugar nesse momento, foram assassinadas. Imaginamos que a que ainda está viva seja a mandante ou auxiliar do mandante dos crimes, mas está foragida. Descobrimos que nessa reunião houve informações valiosas vazadas e que todos em questão, mesmo quem aparentemente não havia nenhum antecedente criminal, foram assassinados. Suspeitamos que seja você a próxima vítima.
Eu pedi pra ele repetir e ele repetiu. Quando finalmente eu consegui pensar sobre a situação de maneira coerente eu perguntei:
— Tem certeza que eu corro perigo de vida? Eu só entrei no lugar, eu não ouvi nada. Se não houvesse uma gravação eu provavelmente nem lembraria que entrei lá.
— Certeza, não tenho. Mas uma das vítimas foi envenenada e pensamos que talvez pudéssemos fazer uma revista a tempo, com a sua permissão.
Uma revista na minha casa? Deus, não! Eu tinha uma imagem de bem organizada pra zelar. Se abrissem os armários ou os guarda-roupas isso iria por água abaixo.
— Permissão concedida, senhorita? – Ele voltou a perguntar.
Eles estavam muito sérios e já se muniam com luvas e máscaras. Eu balancei a cabeça afirmativamente, derrotada.
Em dois minutos eles voltaram:
— Chefe, encontramos um rato morto.
Pegaram alguns mantimentos e levaram embora. Disseram que voltariam a me contatar ainda aquele dia. O chefe disse antes de sair:
— Recomendamos que não fale com ninguém até voltarmos com mais informações. Até mais.
Assim que ele fechou a porta, corri para o telefone e liguei para minha prima. Contei sobre o ocorrido.
— Eles encontraram o Jonas morto! O Jonas, prima. Eu nunca comprei veneno pra ele, era meu companheiro de apartamento. A minha comida estocada foi envenenada, tenho certeza!
— Ai, prima. Então estão tentando te matar mesmo?
— Parece que sim. Maldita hora que entrei naquele restaurante. Como vou convencer esse assassino que não tenho ideia do que se passava de assunto entre aquelas pessoas?
— A sua memória é tão ruim que você não conseguiria lembrar do que esse povo estava falando nem se genuinamente tivesse tentado prestar atenção. Você nunca se importa com nada que acontece ao seu redor!
— Exatamente! Com sorte o assassino grampeou meu telefone e está te ouvindo agora.
— Com a sua sorte? Eu duvido.
— Não adiantaria de qualquer maneira. Pra eu ficar tranquila, ele teria que me ligar e dizer “oi, sabemos que você não tem nada a ver com isso. Pode voltar a viver sua vida normalmente, beijo”.
— Prima, isso nunca vai acontecer. Não sei se preciso ser óbvia.
— Ai, essa ansiedade tá insuportável, cadê esse cara, por que não me dá um tiro logo?!
— Eu preciso desligar agora. Não faça nada estúpido! Se for sair de casa, ande em zigue-zague na rua. Eu te amo. – E desligou.
Eu não conseguia ficar quieta. Depois de andar pra lá e pra cá, fazer polichinelos na frente da janela por uns minutos enquanto esperava inutilmente que alguma bala de rifle me acertasse, percebi que precisava de uma bebida. Peguei minha bolsa e saí de casa.
Chegando no bar, sentei-me ao balcão e pedi:
— Dê-me o que você tiver de mais forte e mais barato por favor.
Assim que o copo chegou, eu virei. Na hora pensei que fosse vomitar.
— Que desgraça de bebida é essa?!
— É café, senhorita.
— Eu quero um copo de vodca, por favor.
Uma voz falou ao meu lado:
— Pra beber desse jeito às dez horas da manhã, imagino que algo muito grave deve ter te acontecido, senhorita.
Era um senhorzinho de uns setenta anos que havia esquecido a dentadura em casa. Ele pediu um café no balcão e sentou-se ao meu lado. Enquanto eu bebia, ele me encarava e sorria. Eu sorria de volta pra não parecer muito antipática, mas permanecia calada. Tudo que eu não queria agora era um idoso me contando da vida. Alguns quatro copos depois eu já havia contado pra ele tudo que acontecera.
— Mas que grave, minha filha.
— Sim, eu estou muito fodida. – Eu disse, e encarei o horizonte por um tempo. Uma revelação me ocorria. – Eu sinto muito, senhor, mas agora que te contei isso tudo, você provavelmente está correndo perigo de vida.
— Não se preocupe, querida, eu corro perigo de vida só de estar de pé! Estes joelhos não aguentam mais nada. Só espero a hora que eles vão falhar, eu cair e quebrar minha cabeça no asfalto.
— Que horrível. O senhor não tem medo de morrer?
— Não, não.
— Eu também não. Por que será que estou tão aflita? Era pra eu estar calma. Pelo menos era como eu pensava que estaria quando me imaginava em situações como esta.
— Eu costumo ficar muito agitado quando alguma coisa atrapalha minha rotina. Eu me levanto, atravesso a rua e venho para o bar. Tomo meu café. Então passo algum tempo na praça, encontro alguns velhos, bem velhos, amigos. Mas tem dias que travo e não consigo andar. Daí não consigo sair da cama, não vou ao bar, não vou à praça. Fico muito agitado. Só não ando freneticamente em círculos pela casa porque, como eu disse, não consigo andar.
— E o que o senhor faz para passar essa agitação?
Quinze minutos depois estávamos no quarto do apartamento do senhorzinho, sentados sobre a cama, fumando a erva que ele cultivava ilicitamente.
— Não sei, eu acho que isso não faz efeito em mim.
— Você está tragando errado, minha filha. – E ele me ensinou como se fazia.
— Não acredito que fumei errado por todos esses anos. – Eu comentei, colocando meu copo sobre o piso. Não tinha percebido que eu lentamente havia deslizado da cama e sentado no carpete. Também não tinha percebido que eu havia trazido o copo de bebida do bar.
— Ó! – Exclamei. – O copo!
E comecei a rir histericamente. O senhorzinho também começou, mas uma crise de tosse nos fez cessar. Quando parei de tossir, comentei:
— Ótimo, agora a polícia vai vir atrás de mim, também. Não sei o que prefiro estar, se morta ou presa. A vida melhora depois ainda? O senhor já tá tão avançado, vai saber me dizer.
— Quantos anos você tem?
— Vinte e cinco.
— Não.
— Ah. – Respondi, desentusiasmada. – Então acho que não faz muita diferença se eu for morta, não é?
— Se você viver, vai poder perder os dentes e aos poucos ver todos seus amigos morrer, como eu.
— Eu quase não tenho amigos, acho que não vou sofrer muito por esse lado. Os dentes eu já perdi todos.
— O quê?!
Coloquei os dedos na boca como quem fosse tirar a dentadura. Sorri:
— É só brincadeira. Eu ainda tenho todos.
O velho bufou e riu:
— Achei que já íamos formar um clube.
— Clube dos banguelas chapados, imagina só?
A campainha tocou. Levantei para atender e lembrei que estava extremamente bêbada. Caminhei até a porta e tropecei em tudo que havia pelo caminho. Abri a porta e uma moça estava do lado de fora. Ao me ver ela se assustou teatralmente. Perguntou então com uma voz aguda e infantil:
— Olá, o senhor Osvaldo está?
— Quem diabos é Osvaldo?
A mulher olhou para a porta procurando o número, como quem quisesse se certificar que havia chamado na porta certa. O senhorzinho apareceu atrás de mim e falou alegremente:
— Olá, jovem! Não fique aí, entre.
A moça entrou e abraçou o senhorzinho.
— Eu ouvi uns barulhos estranhos, pareciam risadas e coisas se quebrando. – Ela disse. – Está tudo certo?
Eu tirei o senhorzinho do abraço dela e passei meu braço sobre seu ombro. Olhei pra ela e respondi por ele:
— Está tudo certo. Estávamos fazendo sexo.
O senhorzinho riu gentilmente, enquanto a mulher ficou pasma.
— Você é uma figura! – Ele disse em meio a risadas. Então me apresentou a recém-chegada. – Esta é minha vizinha de apartamento. Como moro sozinho, ela sempre me ajuda no que eu preciso. Um verdadeiro anjo. Sentem-se, eu vou trazer umas rosquinhas pra gente.
Fale com o autor