A Morte de Jonas
2 Tarde
Sentamos no sofá da sala, enquanto o senhorzinho se deslocou para a cozinha. A mulher trazia consigo uma bolsa de crochê enorme e sorria imbecilmente para o nada, claramente evitando me olhar. Percebi que ela possuía uma tatuagem escrita Carpe Diem no antebraço. Quando ele voltou com as rosquinhas numa vasilha, ela comentou:
— Senhor Osvaldo, eu trouxe aquelas coisinhas que te falei! – A mulher falou, demonstrando uma excitação fora do comum.
— Que coisinhas, minha filha? – Ele perguntou, honestamente esquecido.
E então ela enfiou a mão na bolsa que trazia e retirou duas caixinhas de incenso.
— É pra disfarçar o cheiro de maconha no apartamento? – Eu perguntei. Ela corou.
— Não, não. Eu e o senhor Osvaldo somos pessoas muito espirituais. Compartilhamos do mesmo gosto por rituais que acreditamos elevar a energia do ambiente e expulsar, sabe, as coisas ruins em geral.
— É mesmo? – Perguntei, olhando para o senhorzinho. Ele só acenou a cabeça educadamente enquanto enchia a boca de rosquinhas.
— Ah, eu também trouxe um livro para o senhor, quando li eu amei, acho que suavizará sua alma.
E retirou o tal livro de dentro da bolsa.
— Muito obrigado, minha filha. – Ele disse, estendendo o braço para pegar o livro, mas eu o peguei primeiro. Olhei para a capa que trazia um título em letras garrafais “O segredo espiritual para uma vida plena” no meio de algumas ilustrações fantasmagóricas.
— Eu estava pensando em passar na feira de livros em breve. – Comentei. – Se o senhor quiser posso trocar isto por alguma coisa que não seja extremamente tediosa.
O senhorzinho riu e retirou o livro da minha mão:
— Que figura você é, menina! – Virou-se para a outra. – Muito obrigado, querida.
A mulher retirou os incensos de suas respectivas caixas, levantou-se e perguntou se poderia acendê-los com o fogo do forno na cozinha. O senhorzinho balançou a cabeça afirmativamente e ela saltitou para fora da sala.
— O que achou dela? – Ele me perguntou.
— Eu a detesto.
— Ela é uma pessoa boa. Sempre agradecida e feliz com a vida. – O senhorzinho disse rindo.
— Eu não sei o porquê. – Comentei. – Mas tenho vontade de irritar essa mulher e não consigo me controlar.
— Tudo bem. Acredito que ela não é uma pessoa capaz de demonstrar irritação, você não vai conseguir abalá-la.
— É isso! Eu a detestei no momento que vi e estava aqui pensando se existia uma explicação. Acho que quero irritá-la porque deixá-la irritada parece ser mesmo um desafio.
O senhorzinho guardou o livro na estante.
— Você não vai mesmo ler isso, vai? – Perguntei.
— Eu acredito que não tenho mais tempo para correr atrás de uma vida plena. Acho que me seria mais útil um guia para uma morte tranquila.
— Eu espero que minha morte seja por um tiro na cabeça. – Comecei a refletir. – Já que vou ser assassinada, acho que é a forma mais rápida. Imagina se eu tivesse ingerido o veneno que plantaram no meu apartamento? Morrer envenenada deve ser excruciante.
— Tentaram te envenenar? – A mulher voltou e perguntou chocada. – Que horror. Uma vez tentaram me envenenar também. Eu vomitei tudo a tempo. Tomei um coquetel batizado e já estava plena alguns minutos depois. É importante sempre estar preparada para estas situações. Posso te passar a receita do coquetel se quiser.
Deus, eu detestava aquela mulher.
Percebi que o controle do meu corpo estava voltando, eu estava ficando sóbria ou talvez paranoica pelo consumo excessivo de erva. Algumas preocupações começaram a ressurgir. Será que aqueles caras da tal organização semioculta já estavam me procurando de novo no meu apartamento? O cheiro insuportável que exalava dos incensos e também da mulher ao meu lado estava me impedindo de pensar claramente.
— Eu acho que eu deveria voltar para casa.
— Tem certeza que é seguro? – A mulher perguntou. – Não estão tentando te envenenar? Eles sabem onde você mora, é melhor manter distância de casa, não?
Fiz um barulho de peido com a boca e me levantei. Despedi do senhorzinho. Já fora do apartamento, parei para pensar e cheguei a conclusão que aquela mulher talvez estivesse certa. Era melhor eu não voltar para casa. Se envenenaram mesmo minhas coisas, eles deveriam ter acesso fácil ao meu apartamento. Aqueles caras investigadores provavelmente tinham meu número de celular. Se me procurassem e não me achassem em casa, provavelmente tentariam me ligar. Alcancei meu aparelho na bolsa e olhei para a tela. Não havia telefonemas perdidos. Procurei por contatos na minha lista. A maioria agora eu sabia que estaria indisponível para uma visita, exceto…
Toquei a campainha e esperei. Demorou uns dez minutos, mas finalmente fui atendida.
— Olá! Posso entrar? – Perguntei.
O homem na minha frente, meu ex-namorado, me olhou um pouco incrédulo. Esperou alguns segundos e disse que sim de forma pouco gentil.
— Você tá bêbada? – Ele perguntou.
— A gente pode ir pro seu quarto? – Perguntei de maneira insinuosa.
— Não, você tá bêbada, é antiético.
— Você é muito certinho. – Sentei-me no sofá da sala. – Eu só queria transar antes de morrer.
— Como assim? – Ele perguntou, assustado. Peguei sua mão e a coloquei sobre meu seio. Ele me fitou sério por alguns momentos. – Você tá com câncer?
— Não. – Respondi. Ele se desvencilhou. – Não sei se eu deveria te dizer o que está acontecendo.
— Isso é papo furado, né?
— Estão tentando me matar. É sério. Se não fosse grave eu não viria bater aqui na sua porta.
— Não entendi.
Eu suspirei.
— Você sabe que ainda gosto de você, não sabe?
— Sei. – Ele falou. – Por isso acho que não deveria estar aqui.
— Como você é cruel. – Eu disse de forma dramática. – Mas você está certo. É que provavelmente vou ser assassinada em breve. Queria aproveitar bem o pouco tempo que me resta.
— Transando?
— E existe melhor maneira de se passar o tempo?
Ele sentou ao meu lado no sofá. Pediu para que eu explicasse com detalhes o que estava acontecendo e eu contei sobre o restaurante e o veneno na minha casa.
— Entendeu? Podemos ir pro quarto agora? A gente pode fazer aqui mesmo também, se quiser…
— Você tá agindo desesperadamente. Você precisa primeiramente ficar sóbria, daí eu posso te ajudar a pensar num jeito de resolver esse problema.
— Nãaaao… – Eu reclamei chorosa, tentando abraçá-lo, mas ele rapidamente se levantou, esquivando-se. – Por favor, é meu último desejo.
— Você não sabe se vai morrer.
— Claro que sei. – Eu falei, cruzando os braços e fechando a cara. – …Todo mundo vai morrer.
— Você não sabe se vai morrer agora. Está na hora de trabalhar para garantir que não.
— Não tem o que fazer! É questão de vida e morte. Penso que não temos realmente controle sobre isso…
— Temos controle sobre algumas coisas, sim. Até que não temos mais, mas por um momento temos.
O que ele dizia fazia sentido e eu o detestava por isso. Seria pedir demais que ele se rendesse ao meu desejo sem me fazer preocupar se eu estava certa ou errada?
— Eu não preciso e não quero a sua ajuda. – Levantei-me. Eu sabia que estava sendo estúpida, mas era incapaz de agir com sensatez. Sentia-me (novamente) rejeitada e não queria dar a ele o prazer de ter razão em nada.
Dirigi-me até a porta e pedi pra que ele abrisse. Esperei que ele fosse me impedir de sair, mas não impediu, apenas disse um “se cuida”. Na rua, sentei-me no meio-fio. Que humilhação. Agora o plano era fazer exatamente o que ele disse – tentar retomar o controle, mas ele não participaria de nada disso.
— Ei!
Olhei para cima e vi que meu ex chamava da janela de seu apartamento. Meu coração se amornou.
— Sim? – Perguntei, tentando soar o mais complacente possível.
— Será que dá para não ficar sentada aqui em frente, por favor?
Eu estava de volta em casa. Eu me mudara da casa dos meus pais havia sete anos e nunca por um momento tivera medo de estar sozinha. A cada passo que eu dava eu esperava que alguma coisa fosse pular de trás de alguma parede e voar no meu pescoço.
— Se tem alguém aí, – Falei para ninguém. – por favor, não me assuste! Pode sair e me matar eu prometo que não vou gritar ou lutar!
Silêncio. Com alguma coragem fui para o banheiro e me preparei um banho. Enquanto me lavava ficava me imaginando na mente do assassino: ele entrando lentamente pela porta do banheiro enquanto eu esfregava meu corpo com sabão e cantarolava. “Eu não queria morrer dessa forma”, pensei, “é muito clichê”. Uma mão tocou meu ombro e achei que meu coração ia sair pela minha boca. Virei-me, gritando como nunca achei que seria capaz na vida.
— Calma, sou eu! – Minha prima gritou por cima dos meus gritos, divertida.
Eu sentei no chão do banheiro com a mão sobre o peito:
— Sua louca, por que você fez isso?!
— Eu não ia desperdiçar a única chance de te assustar nessa vida! Você jamais estaria em alerta caso não estivesse nessa situação.
— Eu poderia usar um pouco de empatia, sabia? – Reclamei, ofegante.
— Calma, prima, estou aqui pra te ajudar. – Ela me ajudou a me levantar. – Pedi que me dispensassem do serviço mais cedo.
— Como você entrou aqui em casa, doida?!
— Seu apartamento estava destrancado.
Percebi que havia esquecido mesmo de trancar a casa.
— Como isso é possível?! – Eu estava sinceramente pasma. – Será que estou tão preocupada em me proteger que esqueço de fazer o que penso em fazer para me proteger…?
— Eu já desisti de tentar desvendar como você funciona, prima. Termina seu banho, eu trouxe almoço pra gente já que as coisas na sua casa foram levadas.
— Ai, você é mesmo um anjo! Acredita que nem lembrei que eu não poderia comer as coisas aqui em casa? Não comprei nada.
— Acredito. – Ela disse, retirando-se do banheiro.
Desliguei o chuveiro e me enrolei com toalhas. Fui até a cozinha onde minha prima preparava o almoço.
— Acho que estou sóbria agora. Não tenho mais desculpa para agir de forma irresponsável. – Peguei um vinho no fundo da geladeira e servi. Sentei-me na única cadeira da cozinha e contei a minha prima sobre minha visita ao meu ex.
— Ele disse que eu estava agindo desesperadamente. Ele esperava que eu agisse como? – Dei o primeiro gole no vinho. Percebi que algo nele estava estranho. – Esse vinho é bem ruinzinho, não vou comprar dele mais não.
— Ele é um otário, prima. Esquece ele.
— Ai, ele é tão inteligente e charmoso.
— Você tá com raiva dele ou não?
— Estou. Mas eu sou realista. Eu queria que as pessoas fossem mais realistas. Hoje conheci uma mulher odiosa que possuía uma tatuagem de carpe diem no antebraço. Achei irônico.
— Como assim? – Minha prima perguntou, enquanto colocava os talheres sobre a mesa.
Levantei-me da cadeira e a empurrei para a minha prima. Havia um caixote que eu deixava no canto da cozinha para que substituísse os assentos faltantes, arrastei-o para perto da mesa e sentei sobre ele.
— Carpe diem, sabe? Aquela coisa de curtir o momento, aproveitar o dia como se fosse o último ou algo assim. Vou te dizer: as pessoas definitivamente não aproveitam o dia como se fossem o último. Elas não sabem o que é esse sentimento. Eu sei.
— Verdade, prima. Acho que você lida até muito bem com, sabe, o desespero.
— Muita experiência. Eu sei e sempre soube. Essa situação só me mostrou o quanto eu sempre estive vivendo ao máximo. Tenho muita noção de realidade. Eu, sim, vivo como quem vai morrer amanhã.
Minha prima ficou em silêncio enquanto comia. Parecia refletir a situação. Também fiquei pensando nas minhas próprias palavras. Na verdade, eu não considerava minha vida realmente um grande exemplo de vida. Ainda havia inúmeras coisas que eu queria fazer antes de morrer. E eu queria fazer as coisas que eu já tinha feito (e gostado) pelo menos mais um milhão de vezes, enquanto eu fosse capaz de fazê-las. Viver o dia como se fosse o último, em questão de satisfação, era impossível. Não havia tempo o suficiente pra ter uma vida plena em um dia. Não havia tempo suficiente para ter uma vida plena no tempo de uma vida!
— Eu não estou me suportando sóbria. – Tomei mais uns goles de vinho. Percebi que meus olhos estavam se marejando. – Parece que baixou meu ex no meu corpo. Talvez eu devesse ter pego alguns incensos daquela mulher.
— Fica tranquila. – Minha prima segurou minha mão através da mesa. – Eu tô aqui. Quando isso tudo terminar tenho certeza que você vai se sentir maravilhosa.
— Espero que não demore muito.
A campainha tocou. Minha prima e eu nos entreolhamos receosas.
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