A Morte de Jonas
6 Dois
Era duas horas da tarde quando andávamos juntas pelo centro da cidade.
— Tá todo mundo olhando pra gente.
— Mas ainda assim me sinto protegida.
— A palavra “suspeitíssima” foi criada para te definir.
— Você só tá com inveja.
— Você não tá morrendo de calor, não? Porque tá, tipo, quarenta graus e você tá vestida à moda europeia. Aqui nem no inverno as pessoas usam esse sobretudo…
— Trench coat. – Eu a corrigi.
— Que seja. Desde quando você se importa com roupa?
— Eu não me importo, só me importo com a gramática. – Eu disse, arrumando teatral e arrogantemente os óculos de sol no meu rosto.
O fato é que eu realmente estava morrendo de calor por embaixo daquilo, do cachecol, das luvas e do chapéu de lã. Mas não queria dar razão a minha prima. Eu ainda estava com raiva por ela ter me arrastado para aquela investigação que eu sabia que seria puro tempo perdido. Avistamos ao longe uma estranha aglomeração de pessoas.
— Prima, o que é aquilo? – Perguntou. – Vamos lá ver. Venha.
Saímos da nossa rota atravessando a praça até a multidão. As pessoas olhavam para cima e então olhamos também. Um homem estava sobre o parapeito no topo do prédio, ameaçando se jogar.
— É só um lunático suicida. – Constatei. – Vamos embora.
— Não, eu quero ver o que vai acontecer. – Minha prima disse.
— Você quer assistir ele se espatifando no chão? – Perguntei, horrorizada.
— Não é isso.
— Posso voltar pra casa?
— Não.
Bufei, entediada. Tirei o chapéu e cruzei os braços. Pensei que talvez eu pudesse ajudar na situação, então gritei para o cara:
— PULA DE CABEÇA QUE NÃO DÓI!
Uma senhora que estava na nossa frente, que provavelmente foi a única que me escutou naquele rio de gente barulhenta, me fitou, boquiaberta.
— Rendez-vous, mercí. – Eu disse pra ela com um sorriso no rosto.
— Como você sabe disso? – Minha prima me perguntou.
— Não sei, só são palavras aleatórias em francês.
— Não, como você sabe que pular de cabeça não dói?
— Ah… – Eu pensei um pouco se contaria a verdade. Antes de chegar numa conclusão satisfatória, eu contei – Eu pesquisei formas de suicídio indolor na rede quando estava na Inglaterra.
Ela me olhou com um ar de desaprovação.
— Olha, eu também aprendi a dar nó de forca. – Eu disse, orgulhosa da minha nova habilidade. Desenrolei o cachecol do pescoço e mostrei que a peça estava presa ao meu corpo como se fosse uma corda de enforcamento. Eu a entreguei a ponta. – Puxa, funciona.
— Sua doida, você tá andando pela rua com um laço de forca pendurado?! – Ela desfez o nó e tirou o cachecol de mim. – Você pode ser presa, sabia?
Ela enrolou a peça e a guardou em sua bolsa. Voltou então a observar o homem no parapeito.
— Não precisava nem ter descoberto isso. – Comentou para mim. – Se fosse você lá em cima, certamente você mergulharia de cabeça. É isso que você faz em tudo na vida.
— Vamos embora daqui. – Insisti, irritada. – Olha para essas pessoas. Parecem abutres esperando a morte da presa para alimentarem seu sadismo.
— Tenho certeza que a maioria só está esperançosa por um final feliz, onde ele desiste de pular.
— Feliz pra quem?! – Meu tom de voz aumentou sem que eu percebesse. – Aposto que ninguém aqui nem sabe quem esse cara é. Talvez esteja difícil demais pra ele. Por que sempre acham que seguir vivendo é a melhor opção quando a própria pessoa decide que não é?
— Pra quem nem queria estar aqui, você tá bem preocupada com ele.
— É, é por isso que eu quero ir pra longe. Já bastam as minhas preocupações. Eu não posso fazer nada e não quero pensar que posso fazer.
— Só mais dois minutos, tá bem?
— Ah, que se dane. – Eu tirei um frasco de lança-perfume da bolsa.
— Prima, por favor, não é hora disso.
— Por favor, me devolva meu cachecol.
Ela o fez sem muitos questionamentos. Atravessei a multidão e subi no prédio. Molhei o cachecol com o lança-perfume, aproximei do suicida por trás, puxei-o para dentro rapidamente, segurando firmemente o tecido contra seu rosto. Ele apagou.
— De onde você tirou aquela ideia?! – Minha prima me perguntava, enquanto olhávamos a ambulância levar embora o homem desmaiado.
— Tirei de um sonho aleatório.
— Ele poderia ter te notado entrando, ter se assustado, se desequilibrado e caído.
— Você deveria estar contente que ele agora tem mais tempo para viver. Pelo menos até ele acordar e tentar se matar de novo.
— No hospital ele vai ter tempo para pensar se é isso mesmo o que ele quer. Se temos tempo, há sempre a chance de mudarmos de ideia.
— Aí está o erro. Não se deve pensar muito. – Mal sabia eu que seria a maior hipócrita do planeta dali alguns minutos no futuro.
A ideia da minha prima era me levar de volta ao restaurante onde tudo começou.
— Tenho certeza que vamos encontrar alguma pista lá. – Ela dizia.
— Eu duvid… – Mas assim que o restaurante, que mais parecia um museu, estava a vista, eu paralisei.
— O que foi? Você tá pálida. Viu alguma coisa?
Eu balancei minha cabeça negativamente.
Um pavor que eu não havia sentido igual se apoderou de mim. Era diferente do tipo de medo que eu estava acostumada. Mas eu não sentia que podia explicar. Eu mesma não tinha certeza do que era.
O mundo parecia girar veloz como um peão e, fazia-o tão rápido, que eu era incapaz de dizer que estava girando.
— Eu não quero entrar lá. – Falei, enfim. – Eu não quero.
Minha prima me observou, séria. Ela parecia olhar para alguém que não tinha mais salvação. Não me questionou. Fomos embora.
No outro dia minha prima havia me convencido a me levar num lugar que me faria bem.
— Não é na clínica psicoterapêutica, certo?
— Não. – Ela prometeu. – Mas seria bom se fosse.
— Eu prometo que um dia vou.
— Você tá prometendo isso tem vinte anos.
Chegamos no prédio do apartamento do senhorzinho.
— Você conhece o senhorzinho?
— Quem?!
Mas não foi diante a porta dele que ela parou para tocar a campainha.
A mulher da tatuagem do Carpe Diem atendeu. Ela nos recebeu com um “oi” desnecessariamente prolongado e nos abraçou.
— Que prazer revê-las! Entrem, entrem! – E deu-nos espaço para passar. Entramos e ela pediu para sentarmos para esperá-la buscar algumas coisas no quarto.
— Que ideia asinina é essa? – Eu perguntei a minha prima. – Desde quando você conhece essa mulher?
— Acalme-se. Ela vai poder te ajudar.
— Vai me ajudar a me matar. Isso não pode ser real, eu não devia nem ter entrado. Vamos embora antes que ela volte?
Mas ela já tinha voltado, segurando um monte de pedras.
— Gente, estes são meus quartzos. – Ela disse, colocando as pedras sobre a mesinha diante do sofá. Sentou-se de frente a nós e ficou tolamente sorrindo nos admirando. – Estou feliz que vieram.
— Eu que estou feliz de nos receber. – Minha prima disse educadamente. – Você realmente pode nos ajudar?
— Sim, sim. – Ela disse, tirando mais bugigangas de dentro das roupas. – Vamos começar pelo tarô com arcanos maiores.
Eu olhei para minha prima incrédula.
A mulher começou a colocar as cartas na mesa e me guiar pela sessão:
— Primeiramente preciso que você discorra um pouco sobre sua situação atual. O que te aflige?
— Nesse momento? Acho que a vontade quase irrefreável de pegar essas pedras e assassinar vocês duas com elas.
Ela ignorou a ameaça de morte e me olhou paciente, como quem quisesse ouvir mais. Eventualmente, porém, ela puxou as pedras para mais perto dela, longe do meu alcance.
— Sério, a última coisa que eu preciso é da polícia me procurando de novo. – Eu virei para a minha prima – acredita que eles me fizeram uma visita ontem a noite? Quiseram saber como eu apaguei aquele cara que queria se matar. Felizmente não deu em nada, mas achei um absurdo. Eles deviam é ter me levado medalhas e me condecorado como heroína da cidade.
— Uma vez eu passei por uma situação assim. – A mulher do carpe diem comentou. – Queriam me prender de qualquer forma, só porque eu…
— É pra eu falar ou é pra você falar? – Eu a interrompi. Ela ignorou a pergunta, mas não continuou sua crônica.
Ela começou a virar cartas. Observei tal ato de maneira esnobe. Eu não fazia ideia do que aquelas cartas supostamente deveriam representar.
— Vejo que você se sente extremamente injustiçada.
— Sim. Isso é verdade. – Olhei brava para a minha prima.
— Qual o problema que te faz procurar ajuda? – Ela perguntou dramaticamente.
— Minha prima é o problema. – Ela riu do meu lado.
— Você acha que sua vida seria melhor sem ela?
Eu a olhei letalmente. Então eu disse:
— Será que suas cartas podem me dizer porque você é tão sem noção?
— Não, mas elas me dizem, – ela continuou, inabalada – que você guarda um sofrimento tão grande que precisa o tempo todo mascará-lo com escárnio.
— Uh. – Minha prima deixou escapar. – Isso é verdade, hein.
Tirei meu cachecol da bolsa e meu frasco de lança-perfume. Joguei um pouco da droga sobre o tecido, mas minha prima me impediu de usá-los contra a mulher. Eu disse então:
— Não estou mascarando nada. Mas eu guardo sim umas dúvidas que me fazem sofrer.
— Quais? – A mulher perguntou.
— Uma delas é: por que você tatuou essa frase no braço?
Ela olhou para a tatuagem como se tivesse esquecido que a fez.
— Ah, carpe diem? Para me lembrar de viver sempre o agora, ter sempre a noção de cada pequeno momento da vida. Desse jeito posso aproveitar ao máximo cada segundo.
O celular da minha prima tocou e ela o atendeu rapidamente, dizendo para a pessoa que chegaria em casa em breve. Então ela me explicou:
— Meu marido acabou de voltar da África do Sul, onde esteve a negócios há algumas semanas. Seu voo pousou agora. Ele disse que chegará em casa em breve e estará me esperando.
— Que legal! – A mulher comentou. – Se quiser tenho uns coquetéis ótimos para ebola e malária.
Ignoramo-la.
— Que bom, prima. Vai finalmente sair da seca.
A mulher pareceu se sentir desconfortável com meu comentário sexual. Eu a perguntei, maliciosamente:
— Você é virgem?
— Oi? Ah, s-sim. – Senti que consegui abalá-la pela primeira vez. Aquilo me deu um prazer enorme.
— Como alguém virgem aos trinta pode estar aproveitando a vida?!
— Sexo não é tudo. Na verdade é algo que escurece os caminhos. Foi uma decisão minha abdicar disso. – Ela se retesou, como se quisesse se recompor. Então, fechou os olhos, colocou as palmas das mãos sobre as pernas e começou a recitar um mantra.
— O quê…? – Eu comecei a rir.
Ela de repente voltou a si, olhou para o relógio de pulso e disse com um sorriso no rosto:
— Infelizmente o horário da sessão terminou. Mas eu a espero para a próxima. Foi um prazer.
Minha prima começou a retirar dinheiro de sua bolsa, mas eu a impedi:
— Pode deixar, eu pago. – E entreguei algumas cédulas para a mulher. – Eu a-mei, eu vou voltar, sim.
Deixamos o apartamento.
— Por favor, não faça isso nunca mais. – Eu disse.
— Eu achei que ia te fazer bem.
— Você sabe que não acredito em nada disso. E que eu odeio essa mulher.
— Mas você ama odiá-la, confessa?
— Não sei, agora me sinto um pouco culpada. – Eu realmente me sentia. – Talvez eu devesse me controlar mais.
— Não era bem esse meu plano, mas acho que era isso que eu desejava ouvir de você. – Minha prima disse, se sentindo vitoriosa.
— Mas nesse momento, sinto que preciso perder de vez o controle. Venha.
Puxei-a pelo braço e atravessamos o corredor até o apartamento do senhorzinho. Ele nos atendeu e pediu que entrássemos. Logo estávamos os três bêbados e exalando fumaça. Minha prima nos acompanhou por um bom tempo e pareceu se conectar bem com o senhorzinho. Eventualmente ela se levantou e foi embora, dizendo que precisava ir ver o marido.
Quando ela nos deixou o assunto de vida de casal perdurou.
— Você foi casado, senhorzinho?
— Sim, algumas vezes.
— Eu já namorei algumas vezes, mas nunca cheguei a morar com nenhum dos caras. Já morei com um casal, porém. Dividimos apartamento. Achei a relação meio caótica. Descobri através deles que toda vez que um casal compartilha algum tipo de declaração sobre o outro nas redes sociais é porque algum dos dois vacilou feio.
Ele riu, mas me contrariou:
— Não acredito que esta seja a regra. Nunca foi o meu caso, mas penso que alguns casais funcionem realmente bem.
— É. Será que gosto de pensar negativamente sobre isso porque não tive realmente a chance de passar por tal coisa?
— É possível.
Fumamos em silêncio por um tempo. Então, perguntei:
— Você acha que mascaro meu sofrimento com escárnio?
— Alguém te acusou disso? – Ele perguntou inteligentemente.
— Sim.
— Cruel. – Ele constatou. – É uma questão de perspectiva, eu acredito.
— Como assim?
— Você é o que você é. É o sofrimento, é o escárnio. Um pode ou não ter relação com o outro. Os dois podem ser necessários por estar em falta e os dois podem ser excessivos por estarem em abundância.
— Como essas coisas podem ser necessárias? Principalmente o sofrimento?
— Eu poderia te dizer, mas acho que a vida vai te encarregar de responder essa questão. – Ele riu.
— Você adivinha o futuro agora também? – Eu disse, sarcástica.
— Se a vida não o fizer, vai ser trabalhoso que alguém te convença.
— Você é muito sábio para um velho drogado.
— Muitas trips nos levam a muito conhecimento.
— Sério?
— Na verdade eu tenho doutorado em psicologia.
— Não!
— É verdade. Aquela galera que esteve aqui eram, em sua maioria, atuais ou ex-alunos da faculdade onde leciono.
— Não acredito que eu estive fazendo terapia esse tempo inteiro.
— Não esteve, – Ele disse, divertido – não estive te analisando profissionalmente. O que eu te digo é meramente minha opinião.
— Estou receosa de te contar as coisas agora.
— Não se preocupe, eu não atuo como analista. Minha vida profissional foi quase totalmente acadêmica.
— Incrível como não sei nada sobre você. Acha que sou deseducadamente desinteressada?
Ele riu e balançou a cabeça:
— Você é ótima.
— Obrigada. Você é um amor, pena que é virilmente incapacitado. – Eu disse, me levantando e me despedindo. Ele gargalhou e me acompanhou até a porta.
Quando eu estava a meio caminho de casa, senti frio e busquei meu cachecol na bolsa. Ele não estava lá. Se eu tivesse o esquecido na casa daquela mulher eu simplesmente o abandonaria por lá, pensei. Resolvi que voltaria amanhã à casa do senhorzinho para perguntá-lo se a peça estava no apartamento dele.
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