A Morte de Jonas
7 Amanhã
No dia seguinte, quando cheguei à porta do apartamento do senhorzinho, encontrei-a entreaberta. A voz da minha prima vinha clara lá de dentro. Fiquei me perguntando o que raios ela fazia ali. Ouvi meu nome e, com muita força de vontade, me impedi de invadir o local. Escutei furtivamente a conversa dos dois do corredor do prédio:
— Eu venho lhe pedir que a dê suporte por ora, encarecidamente, enquanto o senhor puder, é claro. – Minha prima dizia. – Eu estou me mudando para a África do Sul e acredito que ela ficará muito sozinha.
— Eu ajudarei no que puder, de qualquer forma, eu realmente aprecio a companhia dela, pode ficar tranquila.
— É bom ouvir isso. Eu me sinto culpada de não estar aqui para ajudá-la. – Ela pareceu hesitar no que ia dizer em seguida. – Eu preciso te perguntar uma coisa. Você tem tido maior contato com ela e talvez tenha percebido o que vou dizer…
— Claro, pergunte.
— Eu acho que minha prima esconde alguma coisa. Eu sinto que, de alguma forma, não sei, ela… Ela não quer propositalmente sair dessa situação na qual ela se encontra. Penso que ela saiba até mesmo quem é o…
Mas uma voz estridente impediu que eu continuasse ouvindo a conversação. A vizinha do senhorzinho acabara de sair de seu apartamento e gritara ao me ver:
— VOCÊ! – Ela parecia possessa. – Como é possível? Como você tem coragem?! Como pôde?!
Ela começou a metralhar palavras na minha direção, mas minha mente havia divagado para longe. Como assim minha prima iria embora? O que eu faria agora? E por que ela não me contou isso antes? E que conversa era essa de que eu não queria propositalmente sair da situação? Que absurdo! Meu coração batia rápido, eu estava em choque, olhando aquela louca gritar comigo como se fosse um pano de fundo para um momento de terror.
Minha prima e o senhorzinho saíram pela porta, assustados com a gritaria repentina. Ele tentou acalmar a mulher:
— O que houve? Eu nunca vi você assim, o que aconteceu?
— É essa mulher, ela me tira do sério, eu não consigo mais! – Ela falava rapidamente e gaguejando, dando a impressão de que desabaria em prantos a qualquer momento. – Hoje eu fui à padaria comprar umas coisas e quando fui ao caixa, dei o dinheiro que essa mulher me pagou da sessão. Passei o maior vexame da minha vida! As notas que ela me deu eram falsas!
Demorei a perceber que todos estavam olhando para mim, como se esperassem algum tipo de confirmação.
— Ah, sim. É verdade, as notas eram falsas. – Eu lhes disse enfim, então voltei a tentar digerir a conversa que havia ouvido lá dentro.
— Olha só! Ela não está nem aí! Ela não liga! – A mulher continuou, sua voz cada vez mais aguda. – Ela não se importa com nada a não ser ela mesma! Mas não tem problema, você pode continuar agindo como uma inconsequente amarga, porque isso – Ela pausou e disse, lenta e dramaticamente – só me faz feliz. Eu dou graças aos céus por ser o completo oposto do que você é. Você e eu somos diferentes em tudo. O engraçado é que você se acha a superior! Mas quando eu olho para você eu fico muito contente em ser quem eu sou! Você me traz a certeza de que tomei as decisões certas! Muito obrigada!
Eu estava chorando e não tinha percebido. Ao notar minhas lágrimas a mulher se desarmou e parou de falar. Eu lhes dei as costas e saí do prédio rapidamente.
Minha prima corria para me alcançar pela rua.
— Ei, espere!
Ela me alcançou e se pôs a andar ao meu lado:
— Não se abale por aquelas coisas, ela estava…
— Eu ouvi a conversa! – Eu me sentia inspirada pela cena da mulher charlatã. Estava dramaticamente irada.
— O quê?!
— Você vai embora!
— Sim. Eu ia te contar…
— Quando?! Quer dizer, não me responda, não importa. E você disse que eu, que eu… – Eu não consegui repetir as palavras.
— Olha, eu iria te contar, tá legal? – Ela disse. – Na verdade eu escondi isso de você, sim, me desculpe. Meu marido já fez a nossa mudança já tem algum tempo. Eu resolvi ficar porque não queria te deixar nessa situação sozinha. Mas ele está já tem muitos dias sozinho lá, só esperando que eu me mude também.
Paramos de andar e eu olhei para ela incrédula.
— Você o deixou lá sozinho para ficar aqui comigo?
Ela confirmou com a cabeça.
— Quanto tempo?
— Não importa.
— Quanto tempo? – Eu insisti em saber.
— Desde que você voltou de Londres. Na verdade a sua viagem foi até a inspiração para a gente dar esse passo.
Ficamos em silêncio por um tempo. Percebemos que estávamos no meio da rua e fomos para calçada.
— Tudo bem. – Eu respirei fundo. – Eu preciso pensar. Eu preciso ficar sozinha agora. É bom que já vou acostumando.
— Eu andei pensando… Por que você não vai passar alguns dias na casa da tia? Acho que seria bom pra você.
— Não. – A ideia de ir para casa da minha mãe pareceu assustadora. – Não. Eu te ligo depois, tá? Não consigo conversar racionalmente agora.
— Eu vou esperar. – Ela disse. E seguimos em caminhos separados.
Voltei para o meu apartamento. Deitei sobre a cama e encarei o teto. As palavras da minha prima dançavam na minha frente. Subitamente eu percebi que queria que ela fosse embora logo, que sumisse instantaneamente. Logo pensava que era melhor que eu a perdoasse o mais rápido possível, porque sem ela eu me sentiria totalmente perdida. Mas então vinha o pensamento de que eu não deveria ter que ser tão dependente dela e de ninguém, que eu por si só deveria ser o bastante. E eu era forte, poderia passar pelo que fosse sozinha. Mas a solidão parecia tão assustadora… Mas ela iria embora de qualquer forma, então qual seria a diferença…
Meus devaneios paradoxais continuaram por, pelo menos, duas horas, até que a campainha tocou. Era minha prima, pensei. Eu abriria a porta e brigaria com ela, diria em seguida o quão absurdo era o que ela disse. Ou talvez eu só choraria e imploraria pra ela não me abandonar…
Mas não era a minha prima à porta. Era a mulher estridente do carpe diem. Bati a porta na cara dela assim que a vi e só então percebi que ela havia trazido um bolo. Abri a porta de volta.
— Esse bolo é para mim? – Perguntei.
— Sim. Eu posso entrar?
— Tá bem. – Respondi, pegando o bolo das mãos dela e levando para a mesa da cozinha. – Não está envenenado, não, né?
— Pelas minhas mãos, não. Foi difícil comprá-lo com notas falsas porém.
— É engraçado que você tenha conhecimento da situação que me encontro, posso realmente ser envenenada a qualquer momento. – Eu ri e experimentei o bolo. Estava divino.
— Eu vim pedir desculpas pelo que falei. – Ela falou depois de um momento de silêncio. – Eu não deveria ter dito aquelas coisas. Eu vi como você ficou abalada. O fato é que era mesmo o meu objetivo de ofender com aquilo tudo, mas, sinceramente, não pensava que funcionaria.
— Você não se sentiu bem como achou que se sentiria, certo? Você não é mesmo como eu.
— Não. Você está certa. Eu quero me sentir bem comigo mesma, mas quem não quer? Eu quero que você me desculpe e me permita estar tranquila, como gosto de estar.
O bolo já estava na metade quando a ofereci um pedaço. Ela aceitou.
— Sinto muito mas só tenho essa cadeira. – Eu disse, observando-a comer em pé.
— Tudo bem, cada um oferece a hospitalidade que pode.
— Você dificulta bastante em me fazer querer te ver bem, sabia?
Ela ficou calada.
— Não vai falar nada?
— Temos uma coisa em comum, apesar de tudo. – Ela disse então. – Não percebemos o quão ofensivas somos. Nem você, nem eu. O que falamos vem do coração, é sincero. É nosso puro reflexo, então parece certo dizer seja lá o que temos pra dizer. Mas não compreendemos o poder de destruição por trás das coisas que expressamos. Eu percebi isso, talvez você tenha percebido também.
Eu quis, por um momento, admirá-la pelo discurso, mas não consegui. Disse em seguida:
— Está tudo bem, você pode ficar tranquila. Eu não estava chorando por causa das coisas que você falou. Na verdade eu nem me lembro o que era o que você dizia.
— Não? – Ela perguntou desentendida. – Por que chorava, então?
— Eu não sei se consigo dizer.
— Você estava chorando pelo que eu disse, sim. – Ela provocou.
— Certo. – Eu me retesei e respirei fundo. – Antes de você aparecer gritando como uma completa lunática eu estava sorrateiramente escutando a conversa entre minha prima e o senhorzinho. Ela vai embora para a África do Sul e não me contou.
— Ah. Eu entendo. A partida de entes queridos é sempre muito difícil.
— Não é como se ela fosse morrer, também. – Eu disse.
— Ela não ter te contado foi o que te fez chorar?
— Na verdade, não. Foi outra coisa que ela disse. Ela disse para o senhorzinho que acha que eu… – Aquilo era absurdo.
Ela me olhava esperando que eu terminasse. Por uns vinte segundos ficou me encarando. Comi o resto do bolo e, por fim, falei:
— Ela acha que eu estou na situação que eu estou porque quero. Que se eu quisesse sair dela, eu já tinha saído. Que de alguma forma insana eu estou sendo uma escrota que está abusando da boa vontade dela.
— Situação? Tipo, estado mental ou aquilo de você estar em risco de vida?
— Não sei bem, acho que os dois. Não consegui falar com ela sobre isso. E antes que eu pudesse ouvir mais do que ela tinha para dizer você apareceu gritando.
— Sinto muito mesmo por isso. Mas, por que ela veria as coisas dessa forma? Quando ela falou de você para mim ela não me transpareceu ter essa ideia sobre você. Aconteceu algo recentemente que a fez pensar assim?
Parei para refletir. Respondi por fim:
— Ela queria investigar quem era o assassino. Ela quis me levar até onde tudo começou e eu não quis ir. Mas eu tentei. Não foi uma questão só de “não querer”.
— O que te impediu de ir?
— Não sei! – Eu estava irritada e minhas palavras soavam ríspidas – Medo, talvez?
— Medo de resolver a situação?
— Entrar naquele restaurante não resolveria situação nenhuma! Será que é tão difícil entender isso? Só pioraria. Só me deixaria mais perturbada. Ela não enxerga isso.
— Eu estou com um esse colar especial hoje. – Ela começou a dizer enquanto me mostrava um colar horrível.
— E daí? – Perguntei, sem saber o que isso tinha a ver.
— Ele é um talismã espiritual capaz de iluminar os ambientes de forma positiva.
Eu a olhei incrédula.
— Quando eu achei que poderia ter uma conversação racional com você, você vai e joga tudo pelo ralo.
— Não! Vamos. Tenha um pouco de fé, só por agora. Depois você volta a não ter, pode ser? Vamos.
— Vamos aonde?!
— A esse tal restaurante. Eu protegerei você. Se eu falhar, você vai provar que sua prima está errada. Não é isso que você quer? Ter razão? Ser a racional? Se nada acontecer, você talvez ache a solução para o caso. O que tem a perder? Vamos. Eu te desafio a vir.
Eu pensei por um momento.
— Se não funcionar eu te enforco com esse colar.
Ela saltitou alegre e saiu pela porta. Seguimos juntas até o restaurante onde tudo começou.
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