A Morte Do Sol
4 Medo da Noite
“Como você pode ver, é um espaço vasto e repleto de volumes que têm sido cuidadosamente preservados por gerações,” disse Lady Morgana.
Eu ouvi suas palavras, mas estava tão absorta em meus próprios pensamentos que mal registrei o que ela dizia. Minhas respostas eram automáticas, sem realmente absorver o significado. “Sim, parece realmente impressionante,” murmurei, meus olhos vagando pelas estantes, enquanto minha mente ainda estava fixada na escadaria ao fundo da sala.
“Você parece um pouco distraída. Está tudo bem?” Lady Morgana indagou, sua voz revelando uma leve inquietação.
Eu me virei para ela, percebendo que agora estava de pé diretamente à minha frente, bloqueando minha visão das estantes e das sombras que dançavam ao fundo. A presença de Lady Morgana dominava o ambiente, fazendo-me retornar ao momento presente. Mesmo assim, era difícil afastar a lembrança da escada e a sensação inquietante que ela evocava.
“Desculpe,” comecei, tentando manter a compostura. “ Aqui é tão imersivo que é fácil se deixar levar. Estou perfeitamente bem, apenas tentando absorver tudo o que este lugar tem a oferecer.”
Lady Morgana inclinou a cabeça ligeiramente, seus lábios se curvando em um sorriso fechado. O gesto era sutil, quase mecânico, levantando os cantos da boca sem esforço. No entanto, seus olhos permaneciam completamente frios, como se fossem janelas sem alma, incapazes de refletir qualquer emoção ou calor interior.
O sorriso de Lady Morgana, embora contido, transmitia uma sensação perturbadora que parecia se estender para além do mero gesto. Seus olhos, implacáveis e gelados, pareciam penetrar diretamente na minha mente, como se sondassem os mais íntimos recantos do meu ser. A intensidade de seu olhar fazia meu estômago se revirar, e eu me virei rapidamente, alegando a necessidade de examinar as estantes com mais atenção.
O movimento me levou até uma das mesas onde alguns livros estavam espalhados, mas a sensação de ser vigiada persistia. Mesmo enquanto examinava os volumes desordenados, o terror do olhar de Lady Morgana parecia pairar sobre mim como uma sombra. Era como se ela soubesse exatamente como atormentar e inquietar meus pensamentos, deixando-me com a constante sensação de estar sendo observada, e provocando um desespero crescente dentro de mim. A impressão de que sua presença estava sempre ali, mesmo quando eu não a via diretamente, era sufocante e quase insuportável.
Enquanto meus olhos passavam pelas páginas dos livros à minha frente, minha atenção estava completamente focada nos passos de Lady Morgana se movendo por trás de mim. O som dos saltos dela ecoando no piso de madeira enviava ondas de tensão pelo meu corpo, cada passo aumentando a pressão que sentia no peito. A certeza de que ela estava me espiando com aquele mesmo olhar frio e penetrante fazia meu coração bater descompassado.
Os passos de Lady Morgana eram vagarosos e metódicos, cada um evidenciando a presença esmagadora dela. O suspense era insuportável; a cada passo, eu me sentia mais sufocada, como se estivesse sendo lentamente enredada em um pesadelo do qual não podia escapar. Minhas mãos começaram a tremular enquanto tentava manter a fachada de estar absorvida nos livros. A tensão mental atingia seu ápice, e o simples ato de folhear uma página se tornava uma tarefa hercúlea sob o peso de sua vigilância.
A presença de Lady Morgana, implacável e constante, transformava cada momento em um teste de resistência mental. O medo crescente dentro de mim tornava difícil respirar, e a certeza de que ela estava observando cada movimento meu com um olhar gélido e calculista fazia minha pele arrepiar. Mesmo sem olhar diretamente para ela, sentia sua presença dominadora, uma sombra opressiva que se recusava a me deixar em paz.
Percebi Lady Morgana se movendo ao redor da mesa, seus passos lentos e deliberados ecoando em minha mente. Com os braços cruzados atrás das costas, ela segurava o leque de renda em uma das mãos. A atmosfera se tornava cada vez mais opressiva com sua proximidade, cada movimento dela parecia meticulosamente calculado para intensificar minha ansiedade.
“Você sabe,” disse ela com uma voz fria e penetrante, “há segredos nestes volumes que poucos ousaram desvendar. Talvez você encontre respostas... ou talvez apenas mais perguntas.”
Suas palavras pairavam no ar, carregadas de intenções veladas, enquanto ela continuava a circular a mesa como um predador observando sua presa.
Lady Morgana fez uma pausa e inclinou ligeiramente a cabeça. “Boa sorte em seu trabalho aqui. Espero que você esteja preparada para o que pode encontrar.” Sua voz era um sussurro gelado, que parecia se enroscar em torno de mim, deixando um rastro de desconforto enquanto ela se afastava lentamente.
Tentei focar novamente nos livros diante de mim, mas minhas mãos ainda tremiam. A presença dela, mesmo ausente, parecia ter impregnado o ambiente com uma sensação de vigilância incessante.
Tentando recuperar algum senso de controle, peguei um dos volumes mais próximos. Minhas mãos estavam frias, e a textura do couro antigo parecia áspera sob meus dedos. Enquanto folheava as páginas amareladas, as palavras de Lady Morgana ecoavam na minha mente, aumentando a sensação de que a biblioteca escondia segredos terríveis.
A cada página virada, a sensação de ser observada não diminuía. O silêncio da biblioteca, anteriormente reconfortante, agora era opressor. A qualquer momento, eu esperava ouvir novamente o sussurro gélido de Lady Morgana ou sentir seus olhos implacáveis fixos em mim.
De repente, um som abafado ecoou na sala, fazendo meu coração disparar. Virei-me rapidamente, mas não vi ninguém. Apenas as sombras se movendo suavemente ao ritmo da luz oscilante. Voltei minha atenção para o livro, tentando me convencer de que era apenas minha imaginação.
Mas no fundo, eu sabia que a presença de Lady Morgana e os segredos da mansão Blackwood fariam de tudo para me atormentar, testando minha sanidade a cada momento que passasse naquele lugar.
Tentando afastar a sensação de inquietação, voltei minha atenção para os livros e papéis espalhados pela mesa. A primeira coisa que notei foi um grande tomo encadernado em couro, sua capa desgastada pelo tempo e marcada com símbolos que não reconhecia de imediato. Ao abri-lo, fui recebida por um cheiro forte de papel envelhecido e tinta desbotada. As páginas estavam preenchidas com uma caligrafia elegante, porém quase ilegível, misturando anotações em latim com diagramas intrincados.
Ao lado do tomo, havia um conjunto de papéis soltos, amarelados e frágeis ao toque. Alguns estavam cobertos de rascunhos e desenhos detalhados, enquanto outros pareciam ser cartas antigas, suas bordas desfiadas e a tinta desbotada sugerindo que tinham sido manuseadas muitas vezes ao longo dos anos. Tentei decifrar o conteúdo, mas as palavras, escritas em uma antiga forma de inglês, dificultavam a compreensão.
Outro livro na mesa chamou minha atenção. Sua capa era de um veludo escuro, incrustado com pequenas pedras preciosas que formavam um padrão complexo. Abri cuidadosamente, revelando uma coleção de poemas e contos, todos abordando temas de mistério e sobrenatural. As ilustrações que acompanhavam os textos eram perturbadoramente vívidas, quase saltando das páginas para a realidade.
Conforme folheava os volumes e examinava os papéis, uma carta em particular chamou minha atenção. Estava dobrada de maneira meticulosa e selada com um lacre de cera, ainda intacto. O selo, um símbolo que parecia uma serpente entrelaçada com uma rosa, era desconhecido para mim, mas despertava uma sensação de familiaridade inquietante. Hesitante, quebrei o lacre e desdobrei a carta. A caligrafia era nítida, porém antiquada:
“Para quem encontrar esta missiva, saiba que os segredos aqui contidos são perigosos. Apenas aqueles com coragem e discernimento devem continuar. A verdade é uma faca de dois gumes – ela pode libertar, mas também destruir.”
O aviso fez meu coração acelerar. Olhei ao redor, como se esperasse que Lady Morgana surgisse das sombras para impedir minha leitura. Mas a sala estava vazia, exceto pela presença palpável de segredos antigos que pareciam sussurrar ao meu redor.
Respirei fundo, tentando acalmar meus nervos. Se havia algo a ser descoberto, algo que poderia lançar luz sobre o mistério da morte do meu pai, eu precisava continuar. Mesmo com o crescente desconforto, minha determinação se firmou. Voltei aos livros e papéis, sabendo que cada página poderia trazer tanto revelações quanto novos enigmas.
O tempo foi passando enquanto eu me perdia nos livros e papéis espalhados pela mesa. A imersão no conteúdo antigo e enigmático era tão profunda que perdi a noção das horas. As páginas repletas de segredos, histórias e símbolos me atraíam como um ímã, e cada novo fragmento de informação parecia intensificar minha curiosidade e determinação.
Estava tão absorta que o som de batidas suaves na porta da biblioteca me fez sobressaltar. Levantei a cabeça, tentando me situar. A porta se abriu lentamente, revelando Mary, que entrou com um sorriso acolhedor.
”Você gostaria de jantar?” perguntou ela, com a voz gentil e um tanto preocupada.
Eu pisquei, tentando ajustar minha mente da pesquisa intensa para a realidade. “Que horas são?” perguntei, notando que a biblioteca estava envolta em penumbra. Não entrava muita luz pelas janelas, mas pela pouca claridade que havia, suspeitei que ainda era o final da tarde.
”São quase quatro horas,” respondeu Mary.
“Obrigada, Mary. Mas acho que vou continuar aqui por mais um tempo. Estou no meio de algo importante e prefiro jantar mais tarde,” respondi, tentando manter a compostura.
Mary me olhou com preocupação, mas assentiu compreensivamente. “Claro. Vou deixar algo preparado para você. ”
“Não se preocupe, eu farei uma pausa em breve,” garanti, enquanto Mary saía da biblioteca.
Voltei minha atenção para os livros, mas algo não estava certo. Quase quatro horas e Mary já falava sobre jantar? Percebi que não tinha notado isso no início, mas agora me intrigava. Talvez fosse um costume da família, jantar tão cedo. A ideia de se ajustar a novos hábitos e horários apenas aumentava minha sensação de desconforto. Contudo, resolvi deixar essa curiosidade de lado por enquanto e mergulhei novamente nas páginas antigas, tentando ignorar a crescente inquietação dentro de mim.
Conforme eu mergulhava novamente nos livros e papéis espalhados pela mesa, comecei a perceber passos suaves e constantes do outro lado da porta. Não havia dúvida em minha mente de que eram os passos de Mary, movendo-se discretamente, talvez preocupada comigo. Sua presença era quase reconfortante, um lembrete de que eu não estava sozinha naquele vasto e inquietante lugar.
Os passos continuaram por um tempo, até que, de repente, cessaram. Uma tranquilidade quase pesada tomou conta da biblioteca, e eu me perdi mais uma vez nos textos antigos. Horas se passaram sem que eu percebesse, absorvida pelas descobertas que faziam minha mente fervilhar.
Quando finalmente terminei de revisar os documentos, ergui os olhos e percebi que a escuridão havia envolvido completamente a biblioteca. As velas, que antes eram apenas sombras sutis, agora eram a única fonte de luz, lançando um brilho trêmulo e criando sombras dançantes nas paredes.
Levantei-me, sentindo os músculos tensos de tanto tempo sentada, e comecei a arrumar os livros e papéis na mesa. A atmosfera tinha mudado, o silêncio parecia mais profundo e a escuridão mais densa.
Decidi que era hora de sair da biblioteca. Ao abrir a porta, fui recebida pela luz suave das velas nos corredores, e um suspiro de alívio escapou dos meus lábios. A mansão estava mergulhada em uma calma noturna, e eu me perguntei o que mais a noite poderia revelar.
Enquanto caminhava pelos corredores, o silêncio era absoluto. Não havia sinais de vida; apenas a luz das velas lançava sombras nas paredes antigas e na tapeçaria esmaecida. A familiaridade do ambiente ajudava a tranquilizar minha mente, uma vantagem da minha habilidade de me lembrar com facilidade dos caminhos e dos detalhes da mansão. Eu passava pelas mesmas decorações e móveis que já conhecia, a sensação de ter certeza de onde estava me dava um certo conforto.
No entanto, enquanto me aproximava da escada, uma sensação de tensão se instalou em meu peito. A mansão parecia demasiado silenciosa, e o desconforto do dia parecia estar se manifestando de novo. A cada passo que dava, o eco dos meus próprios movimentos se tornava mais perturbador, amplificando o silêncio ao meu redor.
De repente, uma presença emergiu do canto de meu campo de visão. Um susto gelado percorreu meu corpo quando Mary apareceu repentinamente na minha frente, como uma sombra surgindo das profundezas do corredor. Seu rosto estava iluminado apenas pela luz das velas, e seu olhar, uma mistura de preocupação e surpresa, fez meu coração disparar.
O choque me paralisou por um momento, uma onda de pânico subindo até minha garganta. O ambiente ao meu redor parecia girar, e a sensação de estar sendo observada, como antes na biblioteca, retornou com uma intensidade perturbadora. Mary, aparentemente inconsciente do impacto de sua aparição, olhou para mim com uma expressão que tentava ser calma, mas que só intensificou a sensação de terror que ainda me assolava.
“Desculpe, não quis te assustar,” disse Mary com um tom preocupado, como se sua própria presença fosse uma intrusão indesejada.
“Eu... eu não esperava te ver aqui,” consegui dizer, minha voz um pouco trêmula enquanto tentava recobrar a compostura. O susto ainda me deixava ofegante, e a sensação de pânico começava a diminuir lentamente, substituída por uma inquietude profunda que eu não conseguia afastar.
Mary me olhou com uma expressão de preocupação que parecia ter se intensificado após o meu susto. “Você já está indo para o seu quarto?” perguntou ela, a suavidade em sua voz um contraste com o medo que ainda sentia.
“Sim, acho que vou me recolher agora,” respondi, tentando parecer mais calma do que realmente estava. A sensação de pânico havia diminuído, mas a inquietação ainda estava presente.
Mary acenou com a cabeça, como se compreendesse meu desejo de retirar-me do ambiente que agora parecia estar cheio de sombras e ecos do dia. Ela começou a me acompanhar pelos corredores, seu passo firme ao meu lado. A luz das velas projetava sombras dançantes nas paredes, e o ambiente ainda parecia mais tenso do que o normal.
Enquanto caminhávamos, me lembrei do convite para o jantar e da conversa que tive com Mary na biblioteca. Curiosa, perguntei: “Onde está Lady Morgana?”
Mary hesitou por um momento, como se considerasse a melhor forma de responder. “Ela já se recolheu,” disse finalmente, com um tom neutro. “Foi para os aposentos dela mais cedo. A senhorita já deve ter visto que a mansão tem suas próprias rotinas.”
Sua resposta trouxe um leve alívio, mas também fez com que me perguntasse sobre a rotina e os hábitos dos moradores da mansão. Havia algo de diferente na forma como tudo parecia estar tão silencioso e calmo, como se a casa mesma estivesse se preparando para uma noite de mistério e introspecção.
Ao chegarmos à porta do meu quarto, Mary me deu um último olhar preocupado. “Se precisar de algo, não hesite em me chamar,” disse ela, sua voz ainda carregada de um calor reconfortante.
“Obrigada, Mary. Eu farei isso,” respondi, tentando sorrir para aliviar a tensão. Assim que a porta se fechou atrás de mim, o silêncio do quarto envolveu-me completamente, e a sensação de estar sozinha na mansão tomou conta de mim mais uma vez.
Ao entrar no quarto, meu olhar imediatamente se fixou no baú aos pés da cama. Em cima dele, havia uma refeição tampada, coberta por uma toalha branca. O fato de a comida estar ali, no quarto, era totalmente inesperado e me fez questionar: por que alguém teria deixado a refeição ali? E por que Mary não mencionou nada sobre isso?
Decidi que precisava entender o motivo por trás daquela situação. Abri a porta do quarto e olhei para o corredor, esperando encontrar Mary ou algum sinal dela. No entanto, o corredor estava vazio e mergulhado em uma escuridão densa. Mary havia desaparecido como um fantasma, e o corredor estava apenas vazio e silencioso.
Fechei a porta com um leve estalo e voltei para o quarto, sentindo meu coração acelerar com a sensação de desconforto crescente. A estranheza daquela situação me levou a pensar mais sobre a família Blackwood. Havia algo peculiar naquela casa, algo que não fazia sentido, especialmente com o comportamento estranho durante a noite.
Comecei a me perguntar sobre os segredos da família, se havia algum medo oculto da noite que influenciava o comportamento dos moradores. O silêncio da mansão e a maneira como tudo parecia conspirar para criar uma atmosfera de mistério alimentavam minhas preocupações. Sentia que havia algo profundo e oculto que ainda não tinha sido revelado.
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