Os Blackwood jantavam cedo porque tinham medo da noite. Era a única explicação que consegui pensar durante a noite passada e silenciosa. A refeição deixada no meu quarto, tampada e esperando por mim, fazia ainda mais sentido à luz desse pensamento. Parecia que a família evitava estar fora dos seus aposentos após o anoitecer, como se as sombras que se aprofundavam trouxessem consigo algum perigo oculto.

Por que alguém me traria o jantar no quarto, em vez de convidar-me para a sala de jantar? Havia uma preocupação genuína ou algo mais sinistro por trás desse gesto? O comportamento enigmático da família parecia esconder camadas de segredos que eu apenas começava a desvendar.

Com essas questões em mente, observei mais atentamente o ambiente na manhã seguinte. Mary, que meu pai mencionara várias vezes em seu diário, era a governanta da mansão. Embora eu já soubesse quem ela era por ter lido sobre ela no diário do meu pai, ver sua figura solitária na vastidão da mansão me fez perceber o quanto eu a havia esquecido. Talvez fosse sua natureza discreta ou o fato de ela ser a única pessoa visível na casa. Agora, com mais clareza de quem Mary era, sua autoridade era evidente em cada detalhe. Pelo que pude perceber, ela cuidava de todos os aspectos da mansão sozinha. Foi ela quem veio ao meu quarto recolher a bandeja, e sua presença meticulosa e constante em todos os cantos da casa revelava a extensão de suas responsabilidades.

O pouco que andei pelos corredores não me revelou nenhum sinal de Lady Morgana. Talvez ainda fosse muito cedo para ela aparecer. A mansão, envolta em um silêncio opressivo, parecia um labirinto deserto onde o eco dos meus passos ressoava de forma inquietante. A presença onipresente de Mary, a única figura visível, apenas intensificava a sensação de que a casa estava mergulhada em um vazio profundo e quase palpável. A ausência de outros moradores era um lembrete constante de que eu estava imersa em um espaço inabitado, onde cada canto parecia esconder segredos e cada sombra podia esconder uma presença invisível. Esse isolamento quase tangível fazia com que a mansão se transformasse em um enigma desconfortável, alimentando uma sensação crescente de solidão e desassossego.

Decidi então que a biblioteca poderia ser um refúgio ideal para minha mente inquieta. Caminhei até lá, a sensação de solidão ainda pesando sobre mim. Quando entrei, a penumbra da manhã parecia ter tomado conta do lugar, mas a familiaridade dos livros e das estantes trouxe um certo alívio.

Sentei-me em uma das mesas, apoiando a cabeça nas mãos enquanto tentava organizar meus pensamentos. O silêncio ao meu redor era profundo, interrompido apenas pelo som ocasional dos meus próprios movimentos.

Foi então que um barulho peculiar me chamou a atenção. Um leve estalo veio de uma das estantes, um som quase imperceptível, mas suficientemente distinto para fazer meu coração acelerar. Parecia como se algo tivesse se deslocado ou caído de seu lugar. O som, embora não alto, era intrigante e carregava uma tensão que fazia o ar parecer ainda mais pesado. Olhei ao redor, mas a biblioteca continuava silenciosa, e a sensação de desconforto persistia, como se algo estivesse fora de lugar, esperando para ser descoberto.

Levantei-me da cadeira com um misto de curiosidade e apreensão e caminhei em direção à estante de onde o barulho parecia ter vindo. A biblioteca estava silenciosa, exceto pelo som suave dos meus passos ecoando no chão de madeira. Quando cheguei à estante, a cena diante de mim surpreendeu-me.

Um homem estava ali, com cabelos escuros e uma expressão que refletia uma leve surpresa e constrangimento. Ele segurava alguns livros contra o peito e estava colocando um deles cuidadosamente de volta na estante. Sua presença inesperada e a maneira como se movia entre as sombras da biblioteca pareciam quase etéreas.

“Desculpe-me,” ele disse, com um tom suave. “Não esperava encontrar ninguém aqui.”

Hesitei por um momento, observando-o enquanto ele terminava de organizar os livros. A tensão que eu sentia antes parecia se intensificar, como se a presença daquele homem e o som que ouvi estivessem de alguma forma conectados. A biblioteca, com seu ar pesado e silencioso, parecia envolver-nos em um mistério ainda mais profundo.

“Você deve ser a Srta. Eliza Bennett,” ele disse, com um tom baixo e controlado. “Minha mãe mencionou que uma historiadora viria para a mansão. Eu sou Julian Blackwood. Posso ajudá-la com algo em particular?”

Senti um frio na espinha ao ouvir meu nome em seus lábios. “Eu estava apenas explorando a biblioteca. É realmente impressionante. Eu vim em busca de... informações sobre a história da família.”

Julian deu um leve sorriso, mas seus olhos permaneceram sérios. “A história da nossa família é cheia de segredos e sombras, Srta. Eliza. Apenas tenha cuidado, algumas coisas são melhor deixadas no passado.”

Ele então se afastou da estante e foi em direção a outra parte da biblioteca, desaparecendo entre as sombras das prateleiras. Eu o segui com o olhar, sentindo uma curiosidade crescente. Quando ele se afastou, aproveitei para examinar mais de perto a estante que ele estava organizando.

O que vi me deixou profundamente impressionada. Os livros estavam dispostos com uma precisão quase obsessiva. Cada volume estava perfeitamente alinhado, suas lombadas formavam uma linha contínua e impecável. Mas não era apenas a ordem que me surpreendeu – era a organização meticulosa por tons e texturas. As capas eram agrupadas de maneira que os diferentes matizes de cores criavam um padrão quase artístico. Parecia que cada livro tinha um lugar específico, cada um contribuindo para um esquema maior e deliberado.

Senti uma vontade irresistível de tocar nos livros, de passar os dedos pelas capas e sentir a textura dos volumes. No entanto, a ideia de desarrumar algo, de perturbar a ordem meticulosa que Julian havia estabelecido, me deixou receosa. Um leve arrepio percorreu minha espinha ao imaginar o trabalho que daria reorganizar aquela disposição perfeita. A percepção de que qualquer erro poderia ser notado e corrigido com um olhar atento fez com que hesitasse. Acabei por deixar minhas mãos no ar, apenas admirando a organização do trabalho dele sem tocá-lo, temendo perturbar a harmonia que ele havia cuidadosamente construído.

Decidida a entender melhor a organização que Julian mantinha com tanto zelo, segui seus passos discretamente. Ele estava agora em outra estante, envolvido em um processo que parecia quase meditativo. Me posicionei a uma distância segura, escondida entre as sombras das estantes próximas, observando-o com curiosidade crescente.

Julian estava imerso em seu trabalho. Ele retirava os livros da estante com uma delicadeza quase reverencial, segurando-os contra o peito antes de reorganizá-los. Cada movimento era meticuloso, quase como se estivesse manuseando objetos sagrados. Quando um livro parecia fora de lugar, ele o retirava e ajustava a posição com uma precisão quase obsessiva, até que tudo estivesse alinhado à perfeição. O foco em seus olhos, a concentração em seu rosto, mostravam um comprometimento quase intenso com a ordem e a harmonia.

Era evidente que Julian não apenas organizava os livros, mas parecia buscar uma forma de equilíbrio e beleza em cada gesto. A forma como ele persistia em corrigir qualquer pequeno desalinhamento, como se cada erro fosse um desequilíbrio na ordem do universo, refletia um profundo desejo de controle e perfeição. Fiquei ali, observando-o em silêncio, imersa na complexidade do seu ritual, sentindo uma mistura de fascínio e respeito pela sua dedicação.

Notas finais
A ilustração no início deste capítulo representa Julian Blackwood, cuja presença e complexidade emocional se desdobram ao longo da narrativa. Espero que a imagem tenha ajudado a visualizar melhor o personagem enquanto você avançava na leitura. Eu mesma criei a ilustração utilizando ferramentas avançadas, tentando deixá-la o mais próximo possível do personagem que visualizei na mente.