A Morte Do Sol
6 A Voz Silenciosa

Saí da biblioteca com cuidado, sem querer interromper Julian. A maneira como ele lidava com os livros, quase como se estivesse em um ritual sagrado, me fazia sentir que qualquer interrupção seria uma profanação. Aquele era o seu santuário, e eu não queria perturbar a paz que ele encontrava ali, mesmo que fosse uma paz frágil e inquietante.
Enquanto caminhava pelos corredores da mansão, a sensação de isolamento voltou a me envolver. O silêncio absoluto, quebrado apenas pelo ocasional rangido do assoalho antigo, parecia ecoar meus próprios pensamentos. Este lugar, carregado de segredos e mistérios, pulsava com uma energia quase palpável.
Ao chegar à sala de estar onde fui recebida quando cheguei à mansão, fechei a porta suavemente e me encostei nela, fechando os olhos por um momento para processar tudo o que havia acontecido. Julian Blackwood, com sua aura de mistério e melancolia, havia despertado algo dentro de mim. Havia mais naquele homem e na história da família do que eu imaginava.
Fui até uma das enormes janelas e olhei para fora, tentando acalmar minha mente. A mansão tinha um jardim principal, mas as salas mais distantes da entrada, como essa, ofereciam uma vista para o exterior da casa e o restante do jardim ao redor. Esse jardim, longe de ser bonito, tinha uma beleza sombria que parecia espelhar os segredos enterrados na mansão. Árvores retorcidas e sombras profundas criavam uma paisagem quase lúgubre, que mais sugeria mistérios do que oferecia consolo. O que mais me esperava naquele lugar? E quais outros segredos os Blackwood escondiam?
Determinada a encontrar respostas, respirei fundo e me afastei da janela. Tinha que manter a calma e a clareza de pensamento. Se queria desvendar os mistérios daquela mansão e da família, precisava ser paciente e observadora. E, acima de tudo, precisava ganhar a confiança de Julian.
Com isso em mente, comecei a planejar minha próxima movimentação. Decidi que tentaria me aproximar de Mary; talvez ela pudesse fornecer algumas pistas valiosas. Afinal, a governanta parecia ser a chave para entender a dinâmica da mansão. Eu precisava evitar cometer o mesmo descuido que tive anteriormente, ao me esquecer da importância de Mary e não perceber seu papel fundamental na estrutura da família. Aproximar-me dela não apenas me ajudaria a obter informações cruciais, mas também garantiria que eu não perdesse detalhes importantes sobre o que se passava ao meu redor.
Endireitei os ombros, determinada. Havia um longo caminho pela frente, mas eu estava pronta para enfrentá-lo. Os segredos dos Blackwood não permaneceriam ocultos por muito tempo.
Pelo que eu sabia, ninguém havia chegado onde eu estava. Nunca ouvi falar de outro historiador que tivesse passado algum tempo com a família Blackwood. Sempre eram pesquisas rápidas e frequentes, visitas curtas e supervisionadas. Nem meu pai, que dedicou anos à pesquisa da história dessa família, se hospedou na mansão. Ele vinha durante o dia e retornava ao entardecer, como se temesse o que a noite pudesse trazer.
Eu era a primeira a me atrever a viver entre os Blackwood. Essa constatação me deu uma sensação agridoce de orgulho e apreensão. Orgulho, por ter a coragem de fazer o que ninguém havia feito antes. Apreensão, porque isso significava que estava em um território completamente desconhecido, sem precedentes para guiar minhas ações.
Aceitei esse desafio de me hospedar na mansão porque queria descobrir mais do que meu pai havia descoberto. Eu ansiava por ir além, por desenterrar verdades ocultas que ele não teve a chance de revelar. Além disso, havia a questão não resolvida da morte dele, um mistério que eu sentia estar intimamente ligado aos segredos da mansão. Sentia que todas as respostas que eu procurava, tanto sobre os segredos da família Blackwood quanto sobre o verdadeiro motivo da morte do meu pai, estavam escondidas ali.
Quando troquei cartas com Lady Morgana, mencionei que morava em uma cidade distante. Talvez isso tenha ajudado a convencer a família de que eu era apenas uma curiosa inofensiva, alguém de fora que não representava uma ameaça. No entanto, minha determinação era muito maior do que eles poderiam imaginar. Estava disposta a ir aonde ninguém havia ido, a arriscar o que fosse necessário para trazer à luz o que estava enterrado nas sombras desta mansão.
Me sentei em uma das cadeiras do salão, sendo envolvida pela atmosfera sombria e melancólica do ambiente. A luz fraca que penetrava pelas janelas cobria o salão com um brilho opaco, projetando sombras dançantes nas paredes adornadas com tapeçarias antigas e pesadas. Inicialmente, eu não havia reparado muito nos detalhes dos móveis ao meu redor. Agora, enquanto começava a observar com mais atenção, percebia que o mobiliário, embora elegante, carregava uma sensação de desgaste, como se o tempo tivesse deixado suas marcas em cada peça. As cadeiras e mesas eram de madeira escura, e as cortinas pesadas, em tons profundos de verde e dourado, pareciam absorver a luz e a vida ao redor. A lareira, ainda acesa apesar da hora matutina, lançava um brilho tremeluzente que adicionava uma camada de calor ao ambiente, mas também acentuava as sombras que se alongavam pelos cantos da sala.
Enquanto me acomodava, perdida em meus pensamentos, o som suave da porta se abrindo me fez levantar o olhar. A entrada de Mary foi discreta, mas imediatamente percebi sua presença. Ela entrou com o mesmo ar reservado de sempre, seus passos eram silenciosos, e o olhar atento que ela lançou ao redor do salão indicava que estava cumprindo com seu dever.
Mary observava as coisas ao redor, e meus olhos foram atraídos por seus trajes. Ela vestia um vestido de linho cinza claro, com detalhes em prata que reluziam suavemente à luz da lareira. O corte simples se ajustava bem ao seu corpo. Sobre o vestido, ela usava um avental longo, em tom de cinza mais escuro, que pendia até os pés e estava bordado com delicados padrões florais.
O cabelo castanho de Mary estava preso em um coque baixo e cuidadosamente arrumado, um estilo que parecia adequado para alguém com aproximadamente 45 anos. Seu penteado apresentava ondas suaves que emolduravam seu rosto, adicionando um toque de elegância ao seu semblante sereno, que, mesmo assim, ainda tinha sutilezas de traços dóceis.
“Está sempre tão movimentada por aqui?” perguntei, tentando iniciar uma conversa enquanto observava Mary se mover pelo salão.
Mary virou o olhar e me deu um sorriso breve, mas cordial. “Sim, há sempre algo a ser feito. A mansão exige muita atenção.”
Eu hesitei por um momento antes de continuar. “Você parece saber tudo o que acontece por aqui. Há quanto tempo está com a família Blackwood?”
“Há muitos anos,” respondeu ela, com uma nota de orgulho na voz. “Já vi muitas coisas acontecerem aqui.”
”Imagino que deve conhecer muitos dos segredos desta casa,” observei, tentando soar casual. “Estou certa?”
Mary me olhou com uma expressão cautelosa. “A história é realmente complexa, Srta. Eliza. Nem tudo é fácil de entender ou de explicar. Mas, se estiver disposta a ouvir, posso compartilhar o que sei.”
“Eu ficaria muito grata,” disse, sentindo uma onda de excitação misturada com um leve temor.
Mary assentiu, parecendo ponderar sobre por onde começar. “Bem, para entender os Blackwood, é preciso começar pelos próprios fundamentos da mansão e os rumores que cercam suas origens...”
Ela fez uma pausa, como se estivesse escolhendo cuidadosamente as palavras. “Há quem diga que a mansão foi construída sobre um antigo cemitério, e que os espíritos dos mortos nunca encontraram paz. Outros falam de rituais antigos realizados aqui, que deixaram marcas permanentes.”
Enquanto Mary falava, eu observava suas expressões, tentando decifrar o que ela estava pensando. “Isso é fascinante,” respondi, tentando parecer neutra, apesar da minha curiosidade crescente. “E você, acredita nessas lendas?”
Mary deu de ombros, desviando o olhar. “São apenas histórias, Srta. Eliza. Cada família antiga tem seus mitos e segredos.”
Percebi que Mary estava começando a se incomodar com minhas perguntas. Tentando mudar o rumo da conversa, disse: “Entendo. Talvez seja melhor deixar o passado descansar. A propósito, eu vi Julian na biblioteca. Ele parece... diferente. Como ele é?”
Mary me lançou um olhar com uma expressão neutra. “O senhor Julian é um homem reservado. Passa a maior parte do tempo sozinho, imerso em seus estudos e cuidando de seus próprios assuntos.”
“Ele parece ser uma pessoa muito interessante,” continuei, tentando manter o tom casual. “Gostaria de conhecê-lo melhor, se houver oportunidade.”
Mary apenas assentiu novamente. “Tenho certeza de que ele estará disponível se desejar conversar com ele. Agora, se me dá licença, há outras tarefas que preciso atender.”
Enquanto Mary se retirava, fiquei pensando no que ela havia dito. Seus comentários sobre os segredos e lendas da mansão, assim como sobre Julian, deixaram-me mais intrigada do que nunca. A voz silenciosa de Mary parecia esconder muito mais do que ela deixava transparecer. Eu sabia que precisava descobrir mais sobre essas pessoas e os segredos que guardavam, principalmente onde estaria Lady Morgana e quem era realmente a enigmática menina Flora.
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