A Morte Do Sol
13 Mapeando os Segredos de Greaves
A chuva fina caía incessante sobre Ravenwood, um manto prateado que fazia a cidade parecer ainda mais melancólica do que de costume. O som das gotas contra as pedras antigas ecoava pelas ruas desertas, interrompido apenas pelo farfalhar ocasional das trepadeiras que se balançavam ao vento. Arthur apertava o casaco contra o corpo enquanto caminhava pelas vielas estreitas, tentando ignorar o cheiro de musgo e decadência que parecia impregnar tudo ao redor.
Havia dias que Julian estava... diferente. Não era incomum vê-lo retraído, mas aquele silêncio era outro. Ele mal falava na biblioteca, onde Arthur às vezes o encontrava perdido em livros que não parecia realmente ler. Era como se a própria presença dele fosse uma sombra, algo que pairava sem interagir, sem se envolver. Arthur não conseguia evitar a sensação de que algo estava profundamente errado.
Foi por isso que ele seguiu até Ravenwood naquela tarde. Precisava saber mais sobre o Dr. Greaves. Algo naquele homem nunca lhe parecera completamente transparente, e se ele estava diretamente envolvido com Julian, então Arthur precisava entender quem ele era, de onde vinha, o que o motivava.
Chegou à entrada de uma taberna modesta, escondida no canto de uma das praças menores da cidade. Era o tipo de lugar onde os murmúrios pareciam esconder histórias, e Arthur esperava encontrar algum fio de informação útil. O interior era quente e mal iluminado, com uma lareira pequena lutando contra o frio úmido que parecia infiltrar até os ossos.
O nome de Greaves era conhecido, mas apenas em sussurros. Quando Arthur o mencionou ao taverneiro, o homem estreitou os olhos como se ele tivesse dito algo proibido.
“Ele é... médico” — disse o taverneiro, num tom quase relutante. — “Mas nem todos os que vêm até ele estão doentes. Ou, pelo menos, não da forma que se espera.”
Aquela frase acendeu imediatamente a inquietação em Arthur. Ele insistiu, perguntando o que exatamente o homem queria dizer, mas o taverneiro apenas balançou a cabeça, como se já tivesse dito demais. Mencionou, no entanto, que Arthur deveria procurar uma mulher que poderia lhe dar mais informações. Segundo ele, ela era conhecida na cidade por suas histórias e... peculiaridades.
Arthur encontrou a loja de quinquilharias que o homem havia descrito — um lugar apertado, abarrotado de objetos antigos que pareciam ter sido esquecidos pelo tempo. Atrás do balcão, uma mulher de rosto enrugado e olhar atento organizava pequenos itens, sem pressa.
Quando ele mencionou o nome de Greaves, ela parou o que fazia e riu baixinho, um som que reverberou no ar como um aviso.
“Você não é o primeiro a procurar por ele” — disse ela, ajustando um pingente em forma de corvo no pescoço. “E duvido que será o último. O Dr. Greaves tem uma reputação... peculiar. Ele ajuda aqueles que estão à beira do abismo. Mas nem todos voltam inteiros. Às vezes, ele empurra em vez de puxar.”
As palavras dela deixaram Arthur inquieto, mas ele precisava entender mais.
“O que quer dizer com “empurrar”?” — questionou.
Ela hesitou por um momento, como se ponderasse se deveria ou não responder. Por fim, suspirou e respondeu:
“Ele busca o que está oculto. Não o que cura, mas o que fere. Dizem que já esteve envolvido em experimentos, coisas que desafiam os limites da mente humana. Ele não é apenas um médico. É um explorador... mas não do tipo que carrega mapas.”
Arthur sentiu um frio subir pela espinha, e não era só por causa da umidade que impregnava Ravenwood. As palavras da mulher pesavam no ar, como se tivessem um peso próprio. Ele apertou as mãos nos bolsos do casaco, tentando disfarçar a tensão que começava a tomar conta de seus músculos.
“E... onde eu posso encontrar esse Dr. Greaves?” — perguntou, tentando manter a voz firme, embora ela soasse um pouco mais baixa, quase arrastada, como se receasse realmente obter uma resposta.
A mulher deslizou os dedos finos e ossudos sobre uma caixa de madeira, olhando para ele por cima dos óculos tortos. Por um instante, pareceu medir Arthur, como se quisesse saber se ele realmente entendia o que estava perguntando — ou se simplesmente era tolo o bastante para querer saber.
“Ninguém encontra o Dr. Greaves...” — respondeu lentamente, como quem escolhe bem as palavras. — “A não ser que ele queira ser encontrado.” — Ela sorriu de lado, quase divertida com a própria resposta.
Arthur franziu o cenho.
“Isso não me ajuda muito.”
Ela soltou uma risada curta, seca.
“Não costuma ajudar mesmo.” — E então, como quem se rende a um capricho repentino, se inclinou ligeiramente sobre o balcão. — “Mas... às vezes, ele aparece na velha estufa, nos fundos do jardim botânico.” — Seus olhos brilharam com algo que parecia uma mistura de sarcasmo e cautela. — “Quase ninguém vai lá hoje em dia. Dizem que, à noite, é possível ouvir... vozes.”
Arthur apertou ainda mais o casaco contra o corpo, sentindo o coração acelerar.
“E ele costuma aparecer... quando?”
A mulher deu de ombros, mexendo distraidamente num maço de cartas antigas sobre o balcão.
“Quando quer. Ou... quando percebe que alguém quer demais.” — Ela parou, olhando fixamente para Arthur.
O jardim botânico de Ravenwood não era como qualquer outro. Esquecido há décadas, parecia ter sido engolido pelo próprio abandono. O portão de ferro enferrujado rangia de forma aguda ao ser empurrado, quebrando o silêncio pesado que pairava no ar, como se a própria cidade quisesse esquecer que aquele lugar existia.
Caminhar por entre os caminhos de pedra, agora rachados e tomados pelo musgo, era como atravessar um cemitério verde. As plantas cresciam sem controle, retorcidas, agarrando-se umas às outras em formas que pareciam quase humanas — ou pelo menos, pareciam desejar ser. Havia árvores com troncos ocos que pareciam bocas abertas em um grito mudo, e arbustos cujos galhos secos pareciam dedos esqueléticos estendidos para quem ousasse passar.
No fundo, isolada do resto, erguia-se a velha estufa. O vidro, outrora translúcido, estava agora opaco, manchado por décadas de limo, sujeira e rachaduras que se espalhavam como teias de aranha. Algumas vidraças estavam quebradas, deixando o vento passar e produzir assobios finos, que mais pareciam sussurros desconexos.
Mesmo durante o dia, o lugar parecia se recusar a aceitar luz. As nuvens se fechavam sempre que alguém se aproximava, como se o próprio céu conspirasse para manter aquele lugar envolto em sombras. O cheiro era uma mistura sufocante de podridão, terra molhada e algo mais... algo metálico, como ferrugem — ou sangue envelhecido.
No interior, a visão era ainda pior. As plantas ali não pareciam simplesmente abandonadas. Elas pareciam... deformadas. Vinhas negras e espessas se entrelaçavam pelo teto e desciam como cordas, algumas delas se movendo lentamente, como se respirassem. Havia flores que se abriam em movimentos abruptos, revelando interiores escuros, pulsantes, quase orgânicos. Outras se fechavam rapidamente, como se tivessem percebido sua presença.
No centro, uma mesa de pedra lascada, coberta por marcas antigas — símbolos, cortes, talvez inscrições — que pareciam ter sido feitas por alguém que não estava mais em posse da própria sanidade. Ao redor dela, frascos, instrumentos enferrujados, livros rasgados e velas derretidas, algumas ainda recém apagadas, deixando no ar um cheiro de fumaça e sebo.
Era impossível não sentir. Aquele lugar estava... vivo. Mas não de um jeito natural. Era uma vida distorcida, moldada por mãos que não deveriam ter tocado certos limites.
Cada passo de Arthur sobre o chão de pedra úmida soava como um estalo seco, abafado por camadas de musgo e folhas mortas. E, no entanto, cada som parecia se multiplicar naquele silêncio opressor, ecoando nas paredes de vidro rachado da estufa como se o próprio lugar estivesse reagindo à sua presença.
O rangido de um vidro solto, balançando ao vento, soava como um gemido agudo, prolongado, que fazia seus ossos vibrarem. Mais à frente, o som úmido de algo... escorrendo. Pingos ritmados, ploc... ploc... ploc... caindo de algum lugar acima, mas quando olhou, não viu goteiras — apenas uma mancha negra que se arrastava pelo vidro, como se algo vivo se movesse lentamente do lado de dentro da própria estrutura.
O cheiro era insuportável. Era como carne deixada ao sol misturada a terra encharcada. Arthur segurou o casaco contra o nariz, mas parecia inútil — aquele cheiro não era apenas físico; ele se agarrava à mente, invadia os pensamentos, parecia entrar pelos olhos, pelos ouvidos.
Ele caminhava devagar, cada passo seguido de estalos baixos, como se galhos quebrassem debaixo de seus pés — mas não havia galhos. O chão parecia... se mover levemente, como se respirasse. As pedras afundavam milímetros, como carne cedendo sob um peso.
As plantas... Deus. Nenhuma delas parecia correta.
Havia uma fileira de flores negras, com pétalas longas e finas, que vibravam sem vento algum, produzindo um som estranho, como o tilintar abafado de sinos quebrados. Mais à frente, um arbusto torcido parecia uma massa de braços magros, encolhidos sobre si, e entre os galhos, algo se mexeu — ele jurava ter visto algo se retrair, como olhos se fechando depressa.
Uma trepadeira pendia do teto, grossa, escura, coberta de espinhos. Seus espinhos pingavam um líquido espesso e avermelhado, que caía no chão com aquele mesmo som úmido e pegajoso — ploc... ploc... — e, onde caía, o musgo parecia morrer, ficando amarelado, corroído, quase queimado.
Arthur sentiu um tremor no peito. O ar era denso, pesado, difícil de puxar. Tinha a sensação sufocante de que a própria estufa o apertava, se fechando lentamente, como se quisesse engoli-lo. Seus olhos percorriam cada canto, e a sensação constante era de que algo — ou várias coisas — o observavam. Não com olhos comuns, mas com presenças que se arrastavam nas sombras, nas frestas, nas rachaduras do vidro.
E ele se pegou questionando, com um nó na garganta, com os pensamentos tremendo dentro da cabeça:
“Por que... por que diabos alguém como o Dr. Greaves escolheria... este lugar? Que tipo de mente... que tipo de criatura... vê isso aqui como refúgio?”
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