A Morte Do Sol

14 O Administrador da Noite


Eu fui até a cozinha bem cedo naquela manhã, o ar frio e cinza ainda dominava o céu, como se o mundo inteiro estivesse envolto numa névoa de silêncio e segredo. Mary estava ali, quieta, mexendo a chaleira no fogão a lenha, preparando alguma bebida quente — provavelmente chá ou infusão, aquela que sempre trazia um pouco de conforto quando o mundo parecia pesado demais.

Era o dia seguinte desde que Julian recebera a visita do Dr. Greaves. Eu podia sentir como se algo tivesse sido desencadeado naquela conversa, algo que não queria ser dito em voz alta, mas que pairava como um peso invisível entre todos nós.

Mary lançou-me um olhar discreto, como se tentasse decifrar o que eu pensava, mas não ousava perguntar. Eu apenas tomei a bebida que ela me ofereceu, deixando o calor subir devagar pelo meu corpo, tentando afastar a inquietação que o diário do meu pai havia deixado.

De repente, ouvi a voz suave de Mary, cortando o silêncio da cozinha:

“Você está bem, senhorita Eliza?”

Eu soube, naquele instante, que ela me perguntava isso por causa da expressão distante que eu carregava no rosto. Não era fácil esconder o turbilhão de pensamentos que se agitava dentro de mim, nem as sombras que aquelas palavras deixavam pairando.

“Estou...” — respondi, tentando disfarçar, mas minha voz falhou um pouco. “Só tenho muita coisa na cabeça.”

Mary assentiu com um sorriso gentil, como quem entende sem precisar de explicações.

“Às vezes, o passado pesa mais do que podemos carregar sozinhos,” — disse ela, pousando a xícara sobre a mesa. “Mas não precisa carregar tudo agora.”

“Mary,” perguntei, tentando controlar a voz, “está tudo bem com Julian? Depois da visita do Dr. Greaves, quero dizer...”

Ela hesitou por um instante, como se escolhesse as palavras certas, e então respondeu:

“Julian está... como sempre, senhorita. Quieto, pensativo. Mas está bem.”

Suspirei, sabendo que aquilo era o mais perto que ela chegaria de uma resposta concreta.

Na verdade, eu não saí do meu quarto ontem. Preferi ficar ali, longe de tudo e de todos, para não levantar suspeitas — nem em Lady Morgana, nem em ninguém. Sabia que qualquer passo em falso poderia despertar perguntas que eu não estava pronta para responder. Era melhor observar de longe, juntar fragmentos, do que me expor sem entender o quadro completo.

Enquanto segurava a xícara, aquecendo as mãos no vapor que subia, tomei fôlego e soltei, tentando soar natural.

“Mary…”, comecei, olhando discretamente para ela. “E… quanto a Lady Morgana?”

Dei uma pausa, respirando fundo, e então acrescentei, sem conseguir conter mais o que me incomodava. “É que… eu não consigo parar de pensar na forma como ela falou comigo ontem... quando o Dr. Greaves estava aqui. Foi... sutil, mas ficou claro, Mary. Ela me olhou de um jeito… como se eu estivesse ultrapassando algum limite, me intrometendo onde não devia.”

Mary apertou um pouco mais a xícara entre as mãos, como se buscasse ali algum conforto antes de falar. “Lady Morgana… sempre foi assim, senhorita. Principalmente quando se trata do senhor Julian… quando ele... quando ele tem essas... crises.” Ela respirou fundo, desviando o olhar para o vapor que subia da chaleira. “Ela sempre fez de tudo pra... aliviar, amenizar... essa perturbação dele. Faz isso desde que ele era só um garoto.”

Houve uma breve pausa, pesada. “Quando ele está... assim... é um tormento pra todos nós na casa. Ela sabe disso melhor do que ninguém. E, bem... quando percebe alguém se aproximando demais... tentando entender... ela não gosta. Nunca gostou.”

“Então... é para ninguém julgar Julian, não é?” perguntei, a voz baixa, quase temerosa.

Mary balançou a cabeça com firmeza. “Não, senhorita. Julian não é alguém que se deva julgar às pressas. E, na verdade, o Dr. Greaves foi o único que realmente se aprofundou no tratamento dele. É alguém muito íntimo da família — Lady Morgana confia plenamente nele.”

Fiquei em silêncio, absorvendo cada palavra. “Íntimo da família”… A frase se repetia em minha mente como um sussurro incômodo. O tipo de intimidade que não se explicava apenas com títulos e cargos. Senti o peso do chá esfriar entre meus dedos, e um frio estranho descer por minha espinha.

Mary levantou-se devagar, enxugando as mãos no avental com um gesto distraído.

“Ah, se a senhorita pretende ir para a sala de leitura...” disse, casualmente, enquanto se virava para o fogão “saiba que tem alguém na biblioteca. Chegou cedo hoje, está lá desde que o sol mal apareceu.”

Levantei o olhar, surpresa.

“Alguém?”

Ela assentiu, como se não fosse nada demais.

“Vem de vez em quando cuidar dos papéis antigos. Costuma revisar os registros da casa.”

Seu tom era neutro, quase prático — mas havia algo ali. Algo que ela não estava dizendo.

Coloquei a xícara sobre a mesa e me levantei.

“Acho que vou até lá” disse, tentando manter um tom leve. “Talvez precise de algo para ler.”

Mary apenas assentiu, mas não disse mais nada. Seu silêncio, no entanto, parecia mais carregado do que qualquer resposta.

Enquanto saía da cozinha e atravessava o corredor em direção à biblioteca, o som dos meus passos ecoava com um peso estranho. Não sei exatamente o que eu esperava encontrar. Mas, por algum motivo, a ideia de encontrar alguém ali — àquela hora da manhã, entre papéis antigos — me provocava um pressentimento difícil de ignorar.

Aproximando-me devagar da porta da biblioteca, percebi que ela estava entreaberta. Um leve rangido do piso sob meus pés quase denunciou minha presença, mas me segurei para não fazer barulho.

Espiei pela fresta e ali estava ele — o homem que Mary mencionara. Sentado, absorto em papéis antigos, seus dedos percorriam com cuidado as páginas amareladas. Seu olhar era firme e quase implacável, atento a cada detalhe.

Fiquei imóvel, como se algo me segurasse ali. O ar ao redor parecia denso, quase espesso, e por um momento não consegui respirar direito. Aquele homem não parecia pertencer ao ritmo moroso da mansão. Havia nele algo… calculado demais. Preciso demais. O tipo de presença que não se mistura ao ambiente — apenas o observa.

Meus olhos percorreram seu rosto. Era um homem mais velho, os traços refinados, os cabelos grisalhos penteados com uma exatidão desconcertante. Havia nele um certo charme — frio, controlado, como um vinco bem feito num papel dobrado demais.

O som de um papel sendo virado me fez estremecer.

Ele parou por um instante, como se tivesse sentido minha presença, e ergueu o rosto vagarosamente.

Afastei-me da porta num reflexo instintivo, o coração disparado. Encostei as costas na parede do corredor, tentando controlar a respiração.

Por que estava me escondendo? Não havia motivo real — e ainda assim, algo em mim dizia que eu não devia ser vista. Não por ele. Não naquele momento.

Tentei me recompor, inspirando fundo, mas o peso no peito não aliviava. Esperei alguns segundos, imóvel, o ouvido atento a qualquer som vindo lá de dentro. Nada além do leve arranhar de páginas sendo viradas e o ranger discreto da cadeira ao menor movimento.

Sem fazer barulho, voltei a me aproximar da porta, como se meus pés se movessem por vontade própria. Inclinei o rosto, espiando outra vez pela fresta. Ele não havia se levantado. Continuava ali, tão concentrado quanto antes, com as sobrancelhas levemente franzidas, como quem busca algo que os outros deixaram passar.

Havia algo em seus gestos que me hipnotizava. A maneira como tocava os papéis, com cuidado, mas sem hesitação. Como se cada documento fosse uma peça importante de um quebra-cabeça só dele. Um ritual. Preciso, metódico. Seus olhos analisavam cada linha como quem decifra segredos antigos.

Ele murmurava algo baixinho para si mesmo — ou para os papéis — palavras que não consegui entender. Meu coração batia forte de novo, mas não era exatamente medo. Era como se eu estivesse presenciando algo que não era para ser visto.

Inclinei um pouco mais o corpo. Ele usava um terno escuro, bem ajustado ao corpo. Os ombros retos, a postura impecável. Tudo nele parecia ter sido cuidadosamente calculado: desde o corte do cabelo até a posição dos objetos ao seu redor. A mesa estava meticulosamente organizada, com pilhas de documentos separadas por algum critério invisível a qualquer um, exceto ele.

Minhas mãos estavam geladas.

“Quem é esse homem?”, pensei.

Inclinei-me um pouco mais, tentando ver melhor o que ele manuseava. Os dedos dele — longos, precisos — deslizavam pelas páginas antigas com uma lentidão quase ritualística. Havia algo hipnótico naquela cena, algo que fazia meu peito apertar sem explicação lógica.

Foi então que o som cessou.

Nada.

Nem o farfalhar do papel, nem o ranger da cadeira, nem a respiração dele.

Meu corpo enrijeceu de imediato. Um arrepio cortou minha nuca e desceu pela espinha. Ele havia percebido?

Recuei ligeiramente, tentando não fazer barulho, mas parecia que o próprio ar havia se tornado pesado demais para respirar.

O silêncio que se formou não era apenas físico — era quase opressor. Aquele tipo de silêncio que antecede algo inevitável.

A maçaneta se moveu.

Devagar.

Tão devagar que cada segundo soou como um estalo dentro da minha cabeça. Prendi a respiração, o coração disparado no peito. Por um breve momento, desejei não estar ali. O medo me paralisava, mas a curiosidade me mantinha imóvel.

A porta rangeu.

Um som longo, seco, como o arranhar de unhas num espelho.

E então eu o vi.

Ele surgiu do outro lado, silencioso, como se já esperasse por mim. Alto, imponente, envolto numa sombra tênue que a luz fraca da biblioteca não conseguia dissipar. Os olhos dele eram escuros, fundos, como abismos — e, por um segundo, jurei que ele não piscava.

Fiquei petrificada. Não havia nada de familiar naquele homem. Não era o Dr. Greaves. Não era ninguém que eu reconhecesse.

E, ainda assim, ele parecia saber exatamente quem eu era.

“Senhorita” disse, com uma voz baixa e controlada, quase macia, mas que arrepiava como o toque do vento em madrugada fria.

A forma como ele pronunciou o cumprimento me fez estremecer. Não era uma saudação. Era quase uma acusação.

Engoli em seco.

“Eu…” comecei, mas minha voz falhou.

Ele deu um passo à frente, com um leve movimento da cabeça, analisando-me. A luz projetava sombras marcadas em seu rosto — a linha do maxilar, a rigidez dos ombros, a frieza meticulosa no modo como me observava.

“Perdoe-me se a assustei” disse ele, por fim, com um leve sorriso que não alcançou os olhos. “Eu apenas notei… algo na porta.”

Algo.

Não alguém.

A forma como ele disse isso fez meu estômago se contrair.

Eu quis falar. Quis perguntar quem ele era, o que fazia ali, mas minha mente se embaraçava com o olhar dele. Tudo em mim gritava que eu deveria ir embora — e tudo em mim queria saber mais.

“Eu…” hesitei, sentindo o calor subir pelas bochechas. “Mary comentou que… havia alguém na biblioteca.”

Ele deu um leve sorriso — quase imperceptível — e se afastou da porta, cedendo passagem.

“Entre. A biblioteca é toda sua. Quando não está, sou apenas um hóspede entre papéis antigos.”

Não consegui responder de imediato. Apenas o encarei por mais um instante, tentando entender o que havia naquele homem que fazia o ar parecer mais denso, a atmosfera mais carregada.

Entrei devagar, sentindo os olhos dele ainda em mim, como se analisasse não só minha presença, mas também meus pensamentos.

A biblioteca parecia mais escura do que antes, apesar da luz da manhã filtrada pelas janelas altas. Meus passos soavam baixos sobre o tapete grosso, mas, mesmo assim, cada um parecia ecoar entre as estantes.

Ele recuou alguns passos, dando espaço, mas não se afastando por completo.

“Espero não ter interrompido” murmurei, finalmente, sem encará-lo diretamente. Minhas palavras saíram suaves, quase hesitantes.

“Interrupções, às vezes, trazem mais respostas do que os próprios registros” ele respondeu, virando-se lentamente para a mesa onde estavam espalhados os documentos. Suas mãos voltaram a tocar o papel, mas sem virar nenhuma página.

Fiquei em pé por alguns segundos, em silêncio, observando-o. Havia algo de meticuloso em seus gestos, como se cada movimento fosse parte de um cálculo maior, como se estivesse sempre dois passos à frente — mesmo numa conversa.

“Eu… achei que fosse o Dr. Greaves” confessei, por fim, num tom mais baixo. “Mary disse que havia alguém aqui.”

“Entendo” ele disse, sem levantar os olhos. “Um erro comum, suponho.”

A maneira como ele respondeu não soou ofendida. Soou… como se já esperasse por isso.

“Mas não é” completou, por fim, erguendo o olhar para mim. “Dr. Greaves tem seus próprios assuntos. Eu cuido de outros.”

“Outros?” repeti, quase num sussurro.

Ele não respondeu de imediato. Apenas pegou um dos papéis sobre a mesa e estendeu-o na minha direção. Era um documento antigo, com caligrafia elegante, parcialmente apagada pelo tempo.

“Histórias esquecidas” disse ele, com um leve movimento da mão. “Coisas que muitos preferem deixar enterradas.”

A forma como ele disse aquilo me causou um arrepio. Peguei o papel com cuidado, tentando entender por que ele me mostrava aquilo — ou por que parecia tão à vontade dentro da mansão dos Blackwood.

“Desculpe” falei, endireitando a postura. “Não perguntei seu nome.”

Ele sorriu de leve, e dessa vez o gesto pareceu quase… indulgente.

“Thomas Whitaker” disse, por fim. “Cuido da parte que ninguém costuma ver.”