A Morte Do Sol
12 A Fórmula da Mente Desgarrada
Dr. Alistair Greaves sempre foi um nome conhecido da família. Mary me contou que ele é o médico que trata distúrbios mentais e que Lady Morgana havia o chamado para visitar Julian. Isso porque, segundo Mary, Julian estava mal. Ele teve uma crise forte na noite passada e passou a madrugada andando pela mansão.
As palavras de Mary ressoaram em minha mente, trazendo à tona lembranças vívidas da noite anterior. Os passos que ouvi enquanto jantava sozinha, o som que me gelou a espinha e me fez fugir apavorada, na verdade, pertenciam a Julian. O pavor que senti, imaginando que algo desconhecido estava me espreitando, agora se transformava em uma triste compreensão. Era ele, perdido em seus próprios pensamentos, vagando pelos corredores como um fantasma.
Mary mencionou que Julian não saiu do quarto desde então e que não quis comer nada. A situação era grave o suficiente para que Lady Morgana chamasse o Dr. Greaves, algo que, segundo ela, raramente acontecia. O doutor seria chamado à tarde para ver o estado de Julian, e isso apenas reforçava a gravidade do que estava acontecendo.
Fiquei me perguntando sobre Julian e suas crises. Eu o vi pouco, e quando o vi, ele parecia distante, preso em um mundo que nenhum de nós conseguia alcançar. Agora, sabendo que os passos que me assustaram eram dele, o peso daquela noite se tornava mais denso. Julian não era uma ameaça para mim, mas para si mesmo.
Dr. Greaves, embora eu nunca o tenha visto pessoalmente, agora era uma figura importante em minha mente. Como ele poderia ajudar Julian? Era uma pergunta que eu fazia com certa desesperança. Lady Morgana raramente falava sobre as condições do filho, mas ela sabia que as crises de Julian só pioravam com o tempo.
Eu não sabia se o Dr. Greaves traria respostas ou apenas mais diagnósticos frios, mas uma coisa era certa: o som daqueles passos, que tanto me aterrorizaram, agora carregava uma dor muito mais profunda do que o medo que senti na hora.
Foi nesse estado de pensamentos inquietos que me encontrei na cozinha, observando Mary preparar o café. O ambiente era antigo, mas com um tipo peculiar de aconchego. A luz suave que entrava pela janela pequena iluminava as prateleiras repletas de potes de cerâmica e utensílios desgastados, dando a impressão de que o tempo ali estava parado, preservado. A brisa que entrava pela janela, leve e fresca, balançava a cortina branca com suavidade, quase como se o próprio ar tentasse suavizar a tensão que pairava.
Mary, concentrada em seu trabalho, se movia com calma, como sempre fazia. Ela era um reflexo da paz que eu tanto desejava, mas ao mesmo tempo, algo no silêncio da cozinha parecia amplificar as minhas preocupações. Ela colocou a xícara diante de mim, o aroma forte do café preenchendo o ar e trazendo, de alguma forma, um alívio temporário.
Mary caminhava pela cozinha com seus passos suaves, o avental longo e cinza com bordados delicados de flores se movendo com ela. Cada movimento dela parecia emanar uma calma que eu desejava absorver, mas, ao mesmo tempo, a inquietação dentro de mim crescia, como se a quietude da cozinha amplificasse minhas próprias angústias.
Eu observei seus gestos, as mãos firmes e cuidadosas enquanto ela ajeitava os utensílios e organizava a mesa. Queria dizer algo, algo que quebrasse o silêncio pesado que eu sentia não só no ambiente, mas dentro de mim. As palavras pareciam hesitar nos meus lábios, mas algo em seu jeito tranquilo me deu coragem. Decidi falar.
“Mary,” comecei, minha voz suave, quase como um sussurro. Ela se virou, interrompendo seu movimento natural, e me olhou com seus olhos tranquilos e atentos.
“Hm?” respondeu ela, sua expressão sempre acolhedora, como se estivesse esperando por qualquer coisa que eu quisesse dizer, sem pressa alguma.
Eu hesitei por um momento, sentindo o peso daquilo que realmente queria perguntar, mas algo dentro de mim me fez iniciar com outra questão, uma mais leve, mas ainda assim importante. “Você sempre esteve aqui, não é? Sempre cuidou da mansão e das coisas de Lady Morgana... Como é que tudo isso começou?”
“Sim, eu sempre estive por aqui. Quando jovem, vim para ajudar, e nunca imaginei que ficaria tanto tempo. A mansão, as pessoas, as histórias... elas acabam se entrelaçando com a nossa vida, não é? Não temos como escapar delas.”
Sua resposta me deixou pensativa, mais uma vez me fazendo perceber que havia muito mais naquela mansão do que qualquer um poderia explicar. Mas o que realmente me fez continuar com a conversa foi a sensação de que ela tinha algo a dizer, algo não dito, algo que talvez me ajudasse a entender melhor o que estava acontecendo com Julian — e, quem sabe, até com o próprio Dr. Greaves.
A conversa parecia ter aberto uma porta, e eu senti que agora era o momento certo para perguntar, para tentar entender o que estava acontecendo com Julian. Respirei fundo antes de perguntar, tentando suavizar as palavras para que não parecessem intrusivas.
“Mary, você lembra como Julian começou a ter esses problemas? Como ele se tornou assim?” Minha voz saiu mais suave do que eu esperava, quase como se tivesse medo de que as palavras revelassem algo que talvez não fosse para ser dito. O silêncio que se seguiu foi pesado, e, por um momento, me perguntei se eu tinha ido longe demais, se estava sendo intrometida demais. O que Mary sabia? Ela já havia dito tanto, mas não era o bastante. Eu precisava entender mais, saber mais sobre o que estava acontecendo dentro daquela mansão, especialmente com Julian.
Ela ficou em silêncio, seus olhos fixos no espaço à sua frente, como se estivesse revivendo os anos passados, buscando as palavras certas. Eu quase pude ouvir os pensamentos dela, tentando decidir o que revelar e o que manter escondido. O tempo parecia passar lentamente, e a cada segundo, meu receio de que ela não fosse responder aumentava.
Finalmente, Mary respirou profundamente, seus ombros relaxando como se ela tivesse se decidido a falar. Olhou para mim com aqueles olhos calmos, e, com uma voz tranquila, quase como uma lembrança distante, ela começou a falar.
“O senhor Julian sempre foi um menino sensível,” disse ela, suas palavras cheias de pesar. “Desde muito pequeno, ele demonstrava uma sensibilidade que a maioria das crianças não tem. Era como se o mundo afetasse ele de maneira mais profunda, mais intensa. Quando ele era criança, eram apenas pequenas coisas — mudanças de humor, inquietação, medo do escuro... mas, com o tempo, as coisas começaram a piorar.”
Eu fiquei quieta, ouvindo atentamente, como se cada palavra de Mary fosse uma chave para desvendar o mistério que rondava Julian. Ela parecia hesitar por um momento, antes de continuar.
“Ele começou a ter esses episódios de agitação ainda muito jovem. Às vezes, ficava em transe, sem conseguir se conectar com o que estava à sua volta. Lady Morgana, claro, procurou os melhores médicos, mas os problemas dele continuaram. Não era algo simples. Ele tinha uma fragilidade... algo que sempre esteve com ele, desde que era um garoto.” Mary fez uma pausa, olhando para a xícara de café que eu ainda segurava em minhas mãos. “Nunca consegui entender totalmente o que era, mas era como se ele vivesse em um mundo à parte, um lugar onde as coisas pareciam distorcidas, confusas.”
Aquelas palavras me atingiram com força. Julian não estava apenas lidando com uma crise passageira, ou com algo temporário. Ele havia carregado isso por toda a sua vida. Eu não sabia como isso me fazia sentir, mas algo dentro de mim se apertou. Como ele lidava com isso? Como Lady Morgana lidava? E o que o Dr. Greaves realmente fazia para ajudá-lo?
Mary me olhou, talvez percebendo a confusão e a preocupação que eu não conseguia esconder. “Ele é uma boa pessoa, Eliza. Sempre foi. Só... precisa de ajuda, mais do que os outros percebem. É por isso que o médico virá. Talvez, dessa vez, algo mude.”
Senti uma pontada de esperança, mas logo ela se misturou com um temor profundo. “O que o Dr. Greaves disse que ele tinha?” Perguntei, a ansiedade quase palpável em minha voz. Eu precisava entender o que estava acontecendo com Julian, o que o deixava tão perturbado.
Mary hesitou por um instante, como se estivesse escolhendo cuidadosamente as palavras. “O doutor mencionou obsessão. Ele disse que Julian vive preso a pensamentos que não consegue controlar, como se estivesse constantemente em uma batalha interna. Às vezes, ele vê e ouve coisas que não estão lá. É como se sua mente criasse sombras que o seguem, e essas sombras o perturbam.”
A descrição de Mary me fez sentir um frio na espinha. Eu não conseguia imaginar o que era viver assim, atormentado por visões e sons que ninguém mais podia perceber. “Então ele tem alucinações?” Perguntei, tentando compreender a gravidade da situação.
“Sim,” Mary respondeu, a tristeza em sua voz era palpável. “Mas não são apenas alucinações; é mais complicado do que isso. Às vezes, ele fica tão perdido que não consegue distinguir entre o que é real e o que não é. Isso o deixa extremamente ansioso e, em algumas ocasiões, até agressivo, embora ele não queira. É uma luta constante.”
Eu a olhei, tentando processar tudo aquilo. “E como é o tratamento dele? O que o Dr. Greaves faz para ajudar?” A pergunta saiu quase como um sussurro, temendo a resposta.
Mary suspirou, uma expressão de preocupação cruzando seu rosto. “O doutor tem tentado diferentes abordagens. Ele começou com algumas terapias e medicinas, mas os efeitos são lentos. Julian às vezes responde bem, mas em outras ocasiões, parece que tudo se torna ainda mais intenso. O médico tenta guiá-lo, mas, como você deve imaginar, não é fácil.”
Eu sentia a necessidade de saber mais, de entender como poderia ajudar, mesmo que apenas um pouco. “E se não funcionar? O que acontece se ele não melhorar?” Minha voz tremia com a possibilidade, a angústia se acumulando em meu peito.
Mary olhou nos meus olhos, e eu vi a sinceridade e a tristeza em seu olhar. “Eliza, não posso dizer que sei como as coisas vão se desenrolar. Mas, em situações como essa, o amor e o apoio são essenciais. O senhor Julian precisa saber que não está sozinho nessa luta. Se o Dr. Greaves não encontrar uma solução, pelo menos teremos que ser a força que ele precisa para continuar.”
Enquanto conversava com Mary, minha mente se perdeu na lembrança viva de Julian na biblioteca. Eu me via observando-o, um momento que parecia encapsular tudo o que ele era: bonito, mas tão incrivelmente frágil. Seus olhos, profundos e marcados por olheiras, refletiam uma tristeza que eu não conseguia compreender completamente, como se cada livro que ele alinhava meticulosamente nas prateleiras carregasse o peso de sua luta interna.
Ele se movia com uma delicadeza quase etérea, cada gesto cuidadoso enquanto organizava os volumes de acordo com sua obsessão por ordem. Os dedos longos e finos acariciavam as lombadas dos livros, como se quisesse extrair deles um pouco da paz que lhe faltava. Eu o observava, maravilhada e ao mesmo tempo angustiada. A forma como ele se dedicava àquela tarefa era um reflexo de sua própria necessidade de controle em um mundo que parecia desmoronar ao seu redor.
À medida que a imagem de Julian na biblioteca se desfazia em minha mente, um profundo sentimento de compaixão e tristeza se apoderou de mim. Eu sabia que ele precisava de ajuda, mas, mais do que isso, precisava de amor. Um amor que fosse capaz de iluminar as partes escuras de sua alma, um amor que o fizesse sentir que não estava sozinho em sua luta. Ele era um ser tão precioso, um tesouro que não deveria se perder na imensidão de suas angústias.
Com o coração apertado, me afastei da cozinha e fui até meu quarto, onde o peso da responsabilidade sobre o futuro de Julian parecia mais real do que nunca. Fechei a porta atrás de mim, sentindo a solidão se instalar no ambiente, mas não era uma solidão de abandono. Era uma solidão de reflexão, de necessidade de respostas que estavam escondidas em algum lugar.
Peguei o diário do meu pai para consultar novamente, certa de que haveria mais respostas ali, tanto sobre Julian quanto sobre o próprio Dr. Greaves.
Conforme eu lia, cada palavra parecia ter mais peso do que antes. Meu pai mencionava Julian em alguns trechos, quase sempre de forma evasiva, como se houvesse algo sobre ele que não pudesse ser plenamente descrito. Havia uma passagem que falava sobre “a fragilidade mental” e como Lady Morgana, mesmo naquela época, já estava preocupada com o filho. E então, quase no final de uma página, o nome do Dr. Greaves apareceu pela primeira vez.
“Dr. Alistair Greaves foi recomendado a Morgana por amigos influentes. Eles dizem que ele é o único capaz de lidar com os distúrbios mentais mais complexos. Mas há algo nesse homem que me incomoda. Não posso dizer exatamente o quê, mas seu olhar... algo nele parece frio demais, clínico demais.”
Essas palavras do meu pai me deixaram arrepiada. Ele raramente demonstrava desconfiança em seus escritos, então esse pequeno comentário sobre o Dr. Greaves era algo que eu não podia ignorar. Eu me perguntei o que exatamente meu pai tinha sentido ao conhecer o médico. E, se ele estava certo sobre essa frieza, como isso impactaria o tratamento de Julian?
Fechei o diário e me debrucei sobre a sensação de que havia mais naquela mansão — mais no que estava acontecendo com Julian e com o próprio Dr. Greaves — do que eu poderia ver à primeira vista.
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