A Morte Das Areias do Saara

29 Uma vingança fora de hora


Notas iniciais
escolhi ser legal e cruel ao mesmo tempo legal pq achei o capítulo anterior meio fraco no geral. mas não tinha muito o que eu fazer quanto a isso :v o máximo que dava para fazer é continuar a contar os acontecimentos, que seriam bem mais emocionantes. Então, como a inspiração bateu, consegui escrever antes de viajar esse lindo capítulo. o motivo de eu ser cruel vcs descobrem nas notas do final XD

O suporte do fecho desta porta diz:

"Não te abro a menos que tu digas o meu nome".

[E eu respondo]

"O olho vivo de Sobek, o Senhor de Bakhau", é o teu nome.

~ Fragmento do livro dos mortos.

O único barulho que se escutava era do vento batendo contra as dunas de areia levantando pequeninos grãos que se deslocavam de um lado para o outro. Tal movimento, discreto e quase imperceptível, era o responsável por, com o passar dos anos, décadas e séculos, criar novas dunas de areias. Ali, naquela duna aos arredores de Mênfis, os cinco deuses se reuniam explicando qual o plano que eles tinham em mente para Qebui.

— Procurar a espada que Seth usou para fatiar Osíris?! — exclamou Qebui surpreso.

— E roubar — acrescentou Nefertem.

— Isso é loucura! — exclamou Qebui.

— Se não vai ajudar também não atrapalha. — disse Bastet dando de ombros — Pode esperar aqui.

— Também não precisa dessa grosseria — disse Anúbis sem nem olhar para ela.

— Estou irritada! Deveríamos ter feito isso à muito tempo — reclamou Bastet.

— De fato… acho que não entramos em Mênfis antes de os dois se matarem… — resmungou Anput para Nefertem.

— Acusa-me de grosseria mas… — disse Bastet olhando para Anúbis sem parecer ter ouvido o comentário de Anput — Diga-me, Qebui, como é ser amigo de seu predador? Chacais não comem ovelhas?

— O quê? Não me diga que acha que quero jantar o Qebui. Isso é ridículo! — disse Anúbis.

— Pra não dizer meio estranho… — disse Nefertem.

— Você disse, não eu. — disse Bastet dando de ombros.

— Melhor amigo que inimigo. — disse Qebui dando de ombros — Você é a gata, ele o cachorro.

— Chacais são mais próximos de lobos que de cachorros — disse Anúbis revirando os olhos como se isso fosse a coisa mais óbvia do mundo.

— Tanto faz — disse Qebui dando de ombros.

— Certo, certo… vamos parar de tentar nos matar, por favor? — pediu Nefertem — Já tem gente demais pra tentar fazer exatamente isso com a gente depois que entrarmos na cidade.

Ansioso, Qebui olhou para a cidade de Mênfis mordendo o lábio inferior. Assim como os outros quatro deuses que estavam com ele, Qebui era imortal, mas isso não fazia com que ele não tivesse medo de tudo que Seth e seus aliados poderiam fazer. Afinal, métodos de tortura podiam ser bem eficazes. E, ainda assim, era possível ficar tão machucado que a alma iria para o Duat e então eventualmente retornava como se nada tivesse acontecido. Exatamente por isso que tentaram tanto juntar os pedaços do corpo de Osíris, na esperança de que essa última alternativa fosse possível. Contudo, o fato de Osíris não ter voltado a vida mesmo assim, era a prova de que havia algo mais na arma usada por Seth para fatiar o irmão.

Anúbis, Anput, Nefertem e Bastet olhavam para Qebui atentamente esperando a resposta. O olhar de Qebui oscilou entre cada um dos deuses ali presentes antes de soltar um pesado suspiro.

— Certo, eu vou. — disse ele.

Ficou-se decidido que Qebui ficaria com Nefertem já que Nefertem não era exatamente o melhor lutador do grupo. E assim, cada um seguiu seu caminho rumo ao palácio de Mênfis de sua forma. Correndo e saltando pelas casas feitas de barro batido, Bastet avançava pela escuridão da noite com graça e silêncio. Escondendo-se nas sombras, Anúbis e Anput avançavam usando as próprias trevas e escuridão para desaparecer de um lugar e ir para o outro. Nos arredores da cidade, Nefertem esperava enquanto Qebui corria rápido e leve como o vento com uma flor de lótus na mão. Cada um deles poderia aparecer dentro do palácio com muito mais facilidade, mas foi o medo de alertar quem não deveria ser alertado que fez eles recorreram a métodos mais discretos e sutis de invasão.

Dentro dos jardins reais do palácio, Qebui botou a flor de lótus no chão aos pés de uma tamareira que crescia. A flor de lótus, antes fechada, se abriu revelando uma leve luz azulada que deixou Qebui preocupado. Contudo, essa luz logo se extinguiu e da flor surgiu Nefertem.

— Não tinha um jeito mais discreto de entrar? — perguntou Qebui num mero sussurro.

— Não sou tão treinado em batalhas como vocês são. — rebateu Nefertem sussurrando.

— Então por qual motivo veio? Não é perigoso demais? — perguntou ele.

— Vim, por não querer ser inútil. Vim, porque posso tentar curar caso a espada que tanto tememos venha a ferir qualquer um de nós.

Também feito de tijolos de barro, o palácio se erguia em uma exuberância modesta. O trabalho em pedra era reservado apenas para as construções que deveriam ser eternas e, até então, estas eram apenas os templos dos deuses que, devido às tecnologias da época, não eram tão grandes como um dia ficariam.

Em outro ponto do palácio, as pinturas que adornavam suas paredes ganhavam um tom mais negro quando uma nova sombra se materializou em um cômodo que tinha acesso à uma varanda. Dessas sombras, surgiu Anúbis. Um rápido olhar no cômodo comprovou que ele estava vazio, uma olhada mais minuciosa mostrou que a espada não estava lá.

Saindo do cômodo, ele se viu num corredor que levava à dois caminhos. De um lado, uma escada, do outro outros cômodos e o bruxulear de uma chama. Sabia que sua missão era recuperar a espada que Set usou para fatiar Osíris, mas o cheiro que vinha da escada trouxe sentimentos e memórias ao deus da morte. Memórias de um amigo que morreu devorado por crocodilos, pois o cheiro que vinha da escada era de Sobek.

Anúbis mordeu o lábio sabendo que poderia se arrepender dessa decisão mais tarde. Mas, mesmo assim, virou para a direita descendo as escadas seguindo o cheiro do deus crocodilo.

Motivado por um desejo de vingança e a sensação de ter assuntos pendentes a serem resolvidos com Sobek. Não foi tão difícil chegar até onde Sobek estava. O maior desafio foi ultrapassado com um simples desaparecer em névoa quando Naunet estava perto demais.

Sobek estava no jardim, do lado oposto do ponto onde Qebui e Nefertem tinham chegado. O deus crocodilo parecia relaxar aproveitando a brisa gelada da noite colocando os pés dentro do raso lago artificial que adornava o jardim. Silenciosamente, Anúbis foi se aproximando de Sobek repleto de mais confiança do que estava no primeiro confronto contra o crocodilo. Anúbis tinha a sensação de que tudo que aconteceu no Duat tinha aberto uma espécie de porta dentro de si, uma porta por onde o poder imortal fluía como as águas do Nilo mais liberto do que nunca.

Um mero estender de mão foi o suficiente para que o mesmo cetro que usou no Aaru voltasse para sua mão. Lentamente, Sobek virou o rosto achando ter ouvido algo, e foi nesse momento que Anúbis balançou o cetro jogando uma nuvem negra que atingiu Sobek. O crocodilo tentou esconder o rosto com os braços, mas não pode fazer nada quando a névoa negra tocou estes mesmos braços fazendo eles começaram a ficar negros entrando em putrefação. Sobek fechou os dentes com força rangendo de dor e ameaçou avançar para Anúbis com a boca escancarada pronta para morder a primeira coisa que viesse pela frente, mas Anúbis se dissolveu em névoa no último segundo. Essa mesma névoa começou a ferir o corpo de Sobek lentamente enquanto o corpo do deus tentava desesperadamente se curar.

Sobek começou a mandar ondas de água para todas as direções, norte, sul, leste e oeste enquanto urrava de raiva. Mas nenhuma atingiu Anúbis pois do céu ele caía. Frio, concentrado, calculista, o deus da morte lançou várias faixas de linho que, estranhamente mais resistentes que o normal, prendiam o deus crocodilo impedindo que ele se movimentasse e lançasse quaisquer outras ondas de água barrenta.

Antes de se quer atingir o chão, Anúbis se desfez em névoa novamente e parou de frente a Sobek. As faixas de linho presas ao redor da grande mandíbula de crocodilo impedia que ele abrisse a boca para morder o jovem deus da morte que estava agora tão perto.

— Isso é pelo Chenzira. — disse Anúbis.

Anúbis tocou no pescoço de Sobek e este começou a putrefazer ainda mais rápido. Era possível ouvir os resmungos de dor de Sobek que não podia gritar já que tinha as faixas enrolada na boca. Sobek sofria e o olhar frio do deus da morte não mostrava qualquer sinal de piedade. Faria Sobek sofrer até desejar a morte se dada a chance, mas Sobek estava pronto para provar que não estava inclinado a dar essa chance, pois uma luz verde começou a emanar do corpo do crocodilo. Anúbis deu dois passos para trás tirando a mão do pescoço de Sobek ao entender o que seu adversário ia fazer. Exatamente como na luta anterior, essa luz verde moldava o corpo de Sobek e lentamente fazia o deus aumentar de tamanho consequentemente arrebentando com dificuldade as faixas de linho.

Da vez anterior, Anúbis tinha recebido a ajuda de última hora de Bastet que impediu a transformação. Contudo, ele sabia que não teria a mesma sorte dessa vez. Nem queria, pra falar a verdade. Pois, quando Sobek já estava quase atingindo 8 metros de altura, Anúbis fechou fortemente sua mão como um punho sentindo dentro de si que poderia fazer o mesmo.

De dentro do palácio, o caos havia começado. Afinal, os gritos de dor foram ouvidos por Sekhmet que agora lutava contra Anput, mas a verdadeira batalha havia começado sem o alerta da luta de Anúbis e Sobek e era entre Bastet e Seth. Felizmente Khonshu aparentemente não estava, afinal, como deus da lua, provavelmente passava a noite ocupado. Mas mesmo assim, sobrou para Qebui e Nefertem o duelo contra Naunet.

No salão principal do palácio, logo diante do trono do faraó, Bastet encarava um homem que em aparência física não passava de um humano. De cabeça pequena e achatada, nariz grande e redondo, lábios levemente carnudos, olhos levemente repuxados e pele cor de canela, era o faraó Narmer que olhava para Bastet. Entretanto, dentro dele, era Seth quem abria um sorriso desafiador e vitorioso.

Bastet não queria ferir aquele humano, cuja vontade na participação no conflito ainda estava aberta para debate, mas ela não podia deixar aquela estranha espada curvada que emanava uma energia maligna e perigosa nas mãos do deus que se apossava do corpo do faraó. Com maestria e agilidade, Bastet se esquivava de todos os golpes que Seth fazia controlando o corpo de Narmer. Bastet tentava de tudo para tirar a espada das mãos do humano, com pulos girando o corpo para trás, pulando por cima da cabeça de Narmer, cada movimento de Bastet, que se usava até da parede para dar impulso aos seus pulos, mostrava sua agilidade tremenda e, embora não quisesse matar o humano, em certo ponto achou necessário botar suas garras para fora embora tomasse cuidado de não o ferir gravemente.

— NARMER! — gritou Bastet — Se ainda me escuta! Resista! Não deixe ele controlar o seu corpo!

— É inútil, Bastet! — esbravejou Seth com a voz de Narmer atacando Bastet mais uma vez — Acha que um reles mortal é capaz de tal coisa.

— Subestima demais os mortais, Seth. — disse Bastet desviando no último segundo fazendo uma cambalhota para trás — Vamos Narmer! Sei que deve se preocupar com o seu povo, acha mesmo que Seth é o tipo de deus capaz de levar o Egito à glória?

Com um sorriso de puro escárnio, Seth controlou a boca de Narmer para responder, mas as palavras não vieram. O rosto de Narmer foi ocupado por um misto de emoções que trocavam entre si constantemente. Raiva, dúvida, determinação, concentração, desespero, ódio. Narmer e Seth brigavam pelo corpo. O breve minuto de congelamento de Narmer foi o suficiente para que Bastet aplicasse pressão nos pontos exatos da mão do faraó humano, machucando um pouco o pulso dele como consequência do processo de tirar a espada de sua mão.

Bastet não pensou duas vezes, não parou para ver como terminaria aquele conflito interno de Narmer, apenas saiu correndo para noite levando a espada maldita na mão. Seu nariz indicava que talvez fosse necessário fazer umas pequenas pausas no caminho, pois algumas lutas de seus companheiros não pareciam ir tão bem assim.

Notas finais
a crueldade é q vcs vão ter que esperar até janeiro pra ver o resto da luta do Anúbis contra o Sobek kkk ~~~~ REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Chacais 1 - https://en.wikipedia.org/wiki/Egyptian_wolf Chacais 2 - https://pt.wikipedia.org/wiki/Canis_adustus Nefertem - https://pt.wikipedia.org/wiki/Nefertum Jardins reais - https://en.wikipedia.org/wiki/Gardens_of_ancient_Egypt Tamareira - https://pt.wikipedia.org/wiki/Tamareira Arquitetura - https://en.wikipedia.org/wiki/Ancient_Egyptian_architecture Livro dos mortos - https://www.holybooks.com/wp-content/uploads/Egyptian-Book-of-the-Dead.pdf Sobek - http://riordan.wikia.com/wiki/Sobek Narmer - https://pt.wikipedia.org/wiki/Narmer Narmer 2 - https://www.google.com/search?q=narmer&tbm=isch&source=iu&ictx=1&fir=99ocdBHhRpC93M%253A%252C99e4s2B_jXmjYM%252C_&usg=AI4_-kSsDoeJm9TgcLIhvYDHVpKraL00qw&sa=X&ved=2ahUKEwjcjYjZ4L7fAhWIDpAKHcfRAHgQ_h0wF3oECAQQCg#imgrc=_