A Morte Das Areias do Saara
30 O brilho no olhar
Notas iniciais

ADORAÇÃO ao NILO!
Salve a ti, ó NILO!
que se manifesta sobre esta terra,
e venha dar vida ao EGITO!
Misterioso é teu sair da escuridão,
Neste dia em que é celebrado!
Irrigando os pomares criados por RA
para fazer todo o gado viver,
tu dás a terra para beber, inesgotável!
Caminho que desce do céu,
amando o pão de SEB e as primícias de NEPERA,
tu fazes as oficinas do PTAH prosperarem!
~ Poema, Hino ao Nilo.
Não só de deuses imortais se fazia um palácio. Os guardas e trabalhadores do palácio onde Narmer viviam se assustavam e corriam para longe do jardim gritando sobre a ira dos deuses, pois um enorme ser verde de cabeça de crocodilo encarava um jovem nos jardins reais. Contudo, logo ficaria óbvio para os transeuntes que aquele jovem de pele pálida e cabelos negros não era um jovem ordinario. Pois o jovem que enfrentava o deus crocodilo irradiava uma luz negra que envolvia o seu corpo completamente.
Num piscar de olhos, diante da figura de 8 metros de Sobek, estava uma segunda figura tão alta quanto. Entretanto, enquanto Sobek era claramente um ser verde com o corpo humano forte e cabeça de crocodilo, o ser diante dele era completamente negro e tinha cabeça de chacal, Anúbis.
Sobek não perdeu tempo, Anúbis mal tinha se transformado e, com um alto rugido, o deus crocodilo lançou uma onda de água lamacenta que, não só fez um generoso estrago no pobre jardim, como também atingiu Anúbis que conseguiu se segurar no lugar depois de dar meros dois passos para trás. Não parando por aí, Sobek usou sua enorme boca para morder Anúbis que, não conseguindo fugir a tempo, viu seu braço sendo mordido por parte dos aproximadamente 60 dentes de Sobek. Anúbis rangiu os dentes em dor e logo contra atacou lançando uma névoa negra forçando Sobek a largar seu braço. Sobek deu dois passos para trás e protegeu o rosto da névoa, mas ele não notou que, escondidos na névoa, estavam três chacais feitos da mesma fumaça negra que corroia a pele de tudo que tocava. Os chacais começaram a morder os pés de Sobek que, urrando de dor, chutou-os para longe. Os chacais simplesmente se desfizeram ao bater contra uma pilastra, parede ou pedra.
Com um ranger de dentes afiados, Anúbis avançou contra Sobek ficando os dentes no pescoço de Sobek. Tendo a forma de um chacal egípcio, os dentes de Anúbis eram mais afiados e longos do que os de qualquer outra espécie de chacal, o que certamente fazia um estrago bem maior na presa. Rodeado pela névoa putrefadora e com dentes afiados em seu pescoço, Sobek caiu no chão rugindo de dor. O sangue divino jorrava do pescoço do deus crocodilo que se debatia socando Anúbis mas sem conseguir se soltar. Cada soco que Sobek dava no rosto de Anúbis era mais fraco, o que era justificável já que já era possível ver partes do osso de Sobek depois de tanto tempo em contato com a névoa cujo dano seu corpo não parecia ser capaz de curar rápido o suficiente.
Começando lentamente a ficar ofegante, Sobek pouco fazia para se soltar. Mesmo quando novos chacais feitos de névoa começaram a morder toda parte do corpo do deus que estivesse alcançável. E, como ele estava largado no chão, era possível morder praticamente tudo. Anúbis se separou do pescoço de Sobek, observando como, sem forças, a imagem do deus crocodilo começava a falhar. A névoa cada vez mais densa fazia Sobek se contorcer de dor e, em questão de meros segundos, ele já estava em seu tamanho normal. Mas Sobek era um deus e, consequentemente, imortal. Anúbis sabia que uma vez que a densa névoa negra que envolvia o deus fosse embora, ele iria se curar em questão de minutos, e não era isso que Anúbis queria. Não. Ele queria algo bem mais lento e doloroso, compatível com toda a dor e desespero que Chenzira passou em seus últimos minutos de vida ao ter seus membros mordidos e arrancados por crocodilos ferozes e famintos. Assim, com Sobek parecendo tão pequeno diante de si, Anúbis juntou as duas mãos entrelaçando os dedos e as ergueu para o céu. Apenas a lua era testemunha quando as duas mãos de Anúbis desceram rapidamente esmagando Sobek contra o chão. O deus crocodilo já mal tinha forças para gritar de dor ao receber os golpes enquanto estava largado em meio à uma poça formada de seu próprio sangue.
Quando Anúbis levantava as mãos mais uma vez para dar um próximo golpe, com a respiração falha e pesada, Sobek simplesmente sumiu deixando pouco mais do que areia para trás. Lentamente, Anúbis voltou para sua forma original e fitou a poça de sangue deixada para trás. Embora em seu coração estivesse a sensação de dever cumprido, nenhum sorriso era exibido em seu rosto. Ele olhou para o céu da noite e inspirou profundamente o ar gélido noturno sentindo que tinha vingado o amigo pois sabia para onde Sobek tinha ído. Sem forças para se quer andar e muito menos se curar apropriadamente, Sobek fugira para o Duat onde poderia se curar e de onde provavelmente demoraria anos para sair.
Tomando alguns segundos para se acalmar, Anúbis olhou para a singela lagoa artificial que agora estava em ruínas e com a água suja de lama. Um mero toque de seu cetro no chão e a destruição deixada para trás foi consertada. No entanto, não pareceu de bom tom deixar a lagoa artificial cheia de sangue. Parecia que tinha que lavar muito sangue ultimamente, mas o gosto de sangue na boca não era uma diferença agradável ao se comparar da última vez que teve que se lavar depois de um trabalho sangrento. Ele cuspiu um pouco do sangue que estava em sua boca e passou o braço para limpar o queixo enquanto olhava para o outro braço do qual seu próprio sangue pingava da mordida de Sobek que lentamente se fechava. Sabia que tinha a possibilidade de Anput, Qebui, Bastet e Nefertem se preocuparem com a sua ausência… bem… talvez não Bastet, mas não podia aparecer com tanto sangue.
Calmamente, ele olhou para o palácio e se aproximou dele discretamente. Ficou em silêncio por alguns segundos enquanto ouviu dois guardas gritando.
— Estão atacando o palácio! — gritou um homem.
— É a ira dos deuses! Dois enormes estavam brigando no jardim! — respondeu o outro.
— Isso é uma punição! É isso que é! — esbravejou uma mulher — O faraó não está agradando os deuses o suficiente, por isso Bastet o atacou!
— Porque ela fugiu então? — perguntou o primeiro homem.
— Vai ver julgou que a lição foi aprendida. — respondeu a mulher dando de ombros.
Era tudo que Anúbis queria ouvir antes de desaparecer dali e ir até o Nilo onde pode finalmente se lavar. O sangue de Sobek seguia a leve correnteza descendo rio abaixo quando Anúbis voltou para o ponto de encontro com os outros quatro deuses.
Anúbis encontrou os quatro sentados na mesma duna da qual haviam iniciado a missão suicida. A novidade vinha das mãos de Bastet que seguravam o objetivo de tudo aquilo, a espada de Seth. Outra novidade não era tão boa assim, todos eles estavam feridos com arranhões e cortes que lentamente se curavam. Ao ver Anúbis, Bastet se levantou de uma vez e foi andando à passos apressados e pesados na direção dele com uma expressão de raiva.
— ENTRAR, PEGAR A ESPADA E SAIR! — gritou Bastet apontando o dedo indicador de maneira acusatória para Anúbis — Era só isso! Mas não! Você tinha que começar uma briga com Sobek e alertar o palácio inteiro!
— Eu sei… — disse Anúbis em voz baixa olhando com olhar de culpa para Anput que estava com três cortes gêmeos no braço que muito se pareciam com as garras de Sekhmet.
— Porque você quis ir até Sobek? — perguntou Nefertem.
— Chenzira. — disse Anput — Não foi? Você queria se vingar de Chenzira.
— Um dos amigos humanos… Sobek e seus lacaios o mataram… — disse Qebui explicando para Nefertem.
— Ah… — disse Nefertem abaixando a cabeça imaginando a dor pela qual Chenzira deve ter passado.
— Foi isso então? Uma vingança? — disse Bastet parecendo dividida entre aprovar a ação ou não. Mas só o fato de ter sido Anúbis já dificultava e muito que ela aprovasse qualquer coisa.
— Sim. — disse Anúbis deixando ela para trás e indo até Anput — Pelo menos não temos mais que nos preocupar com Sobek por um bom tempo. Ele foi para o Duat. Não deve conseguir voltar tao cedo.
— Não deixa de ser uma boa notícia também… — disse Nefertem.
— Você derrotou Sobek sozinho? — perguntou Qebui surpreso.
— Ahm… parece que sim… — disse Anúbis enquanto se sentava na frente de Anput.
Os dois se olharam por alguns segundos com sorrisos fracos e cada um lançou um olhar de preocupação para a ferida do outro. Ele, para as marcas deixadas pelas garras de Sekhmet. Ela, para as marcas deixadas pelos dentes de Sobek. Ambas as feridas se curavam sem qualquer esforço deles até o ponto que não deixariam nem mesmo uma cicatriz para trás, mas isso não impediu que Anput aproximasse a mão do braço saudável do rosto de Anúbis e acariciasse sua bochecha gentilmente.
— Está bem mesmo? — perguntou Anput — Sobek só fez isso com você?
— Ele me deixou um pouco sujo também… — disse Anúbis dando de ombros e fazendo Anput soltar uma leve risada — Desculpa por aparentemente ter te colocado em perigo.
— Não, tudo bem. — disse Anput negando com a cabeça — Foi pelo Chenzira.
Sem ter muito mais o que fazer ali, o grupo de deuses deixou a cidade de Mênfis para trás indo ao encontro de Ptah e Thoth para decidir o que fazer e onde manter a espada. Depois disso, não havia mais muito o que fazer. Como Ísis havia escolhido uma modesta casa na extremidade oeste do delta do Nilo com vista para o mar mediterrâneo para criar o filho que crescia em seu ventre, parte dos outros deuses não viam motivos porque não seguir a deusa. Assim, depois de deixar a espada com Thoth e Ptah, Anúbis e Anput seguiram para lá onde ficaram simplesmente curtindo dia após dia ao lado de Neby. Eram dias tranquilos nos quais eles arrumavam comida e água para Neby e o animal brincava seja com os deuses ou com outros animais ou sozinho aproveitando as ondas da água do mar.
Em certo dia, quando o sol brilhava forte no topo do céu, como a maioria dos dias eram em meio ao clima desértico, Anput entrou animadamente na pequena casa na qual, no cômodo principal, Anúbis sentava-se ao lado do adormecido Neby fazendo carinho na cabeça dele. A expressão sorridente de Anput anunciava uma grande notícia mas, ao ver que Neby estava em sono profundo, a deusa respirou fundo para controlar sua ansiedade temendo acordar o chacal.
— A cevada cresceu. — informou Anput em voz baixa — Lady Ísis está grávida de um menino.
— Humm… — disse Anúbis sem tirar os olhos de Neby.
— Ahm… Você ouviu? — perguntou Anput olhando para Anúbis preocupada — O grão de cevada cresceu, não o de trigo. Lady Ísis está grávida de um menino. Um menino que poderá ser faraó. Você não vai precisar casar com ninguém.
— Eu ouvi… — disse Anúbis simplesmente.
Anput ficou mais alguns segundos em silêncio apenas fitando ele enquanto tentava entender o que se passava com Anúbis. Silenciosa e delicadamente, ela se ajoelhou na sua frente olhando mais atentamente para o rosto do jovem deus da morte que não parava de fitar o adormecido chacal que ressonava calmamente. Mesmo que o olhar de Anúbis não estivesse direcionado para ela, ela podia ver a tristeza que escondia os olhos castanhos de Anúbis.
— O bebê de Shadya nasceu ontem também… — disse Anput — Certeza que não quer visitar?
— Certeza. — disse Anúbis enquanto Neby acordava e se espreguiçava.
O chacal com dificuldade se levantou, na verdade, Anúbis teve até que ajudar ele a terminar de se levantar. Uma vez desperto, Neby se aproximou de Anput recebendo-a com a língua para fora e abanando o rabo vagarosamente pedindo carinho.
— O que tem de errado com você? — perguntou Anput fazendo carinho na cabeça de Neby mas desviando seu olhar para Anúbis, que não tirava o olhar de Neby.
— Não sente? — perguntou Anúbis sem tirar os olhos de Neby.
Pois ali, em seu querido parceiro de pouco mais de uma década, ele sentia. Um fio, anteriormente forte e resistente, mas que, principalmente recentemente, a cada dia se deteriorava. Fraco, frágil, um mero sopro poderia romper o fio. E por isso que Anúbis não queria ir para lugar algum, não queria sair do lado de seu companheiro, não queria dar atenção para outra coisa ou ser que não fosse Neby. Pois ele sabia, que não importava os poderes incríveis que tinha como deus, a ordem, a Ma’at, ditava as regras do funcionamento do mundo. Regras que deviam ser seguidas e mantidas para evitar o caos. E ali, naquele pequeno e frágil fio, ele via o que Ma’at tinha planejado para Neby.
Sua hora estava próxima.
Os olhos de Anput foram até Neby e, se concentrando um pouco mais, ela pode sentir aquele mesmo fio que não faltava muito para se romper. A garota imediatamente sentiu os olhos se enchendo de lágrimas mas, ao notar o olhar de preocupação que Neby lançou até ela, ela imediatamente engoliu as lágrimas e tentou colocar um sorriso no rosto. Um trêmulo sorriso, que não conseguiu evitar que uma lágrima rolasse pela bochecha da deusa.
Daquele dia em diante, nenhum dos dois saiu do lado de Neby. Eles não queriam ousar uma viagem muito longa com Neby, mesmo se usando a praticidade das viagens com sombra e névoa. Felizmente, ali, na areia branquinha, debaixo de palmeiras e de frente para o mar lindamente azulado, parecia um ótimo lugar para um último adeus. Por vezes Qebui, Nefertem, Néftis, Thoth e Hathor apareciam para também dar atenção ao chacal que, apesar da dificuldade crescente para andar, ver e ouvir, ainda queria brincar. Mas, na maioria dos dias, eram apenas Anúbis e Anput que passavam o dia cuidado, mimando e brincando com Neby que adorava deitar na praia e sentir a brisa de um mar. Constantemente Anput curava a idade que tentava chegar nos ossos, olhos e ouvidos de Neby, sabendo que não poderiam afastar mais a hora que chegava, mas pelo menos podiam aumentar o conforto do animal.
Dias depois, naquele mesmo pedacinho de areia, Anúbis se sentava com Neby no colo como um bebê. Alguns metros atrás, Anput apenas observava embaixo de uma palmeira. O chacal inspirava e expirava lentamente enquanto usava o ombro de seu mais antigo amigo para descansar a cabeça. O deus olhou para o animal que também tinha como amigo e deu um doce beijo no topo da cabeça. Neby respondeu esse beijo com uma lambida no rosto de Anúbis que ficou fitando o rosto de Neby com um leve sorriso no rosto.
— Obrigado por tudo, amigo. — disse Anúbis sentindo os olhos encherem de lágrimas — Eu vou cuidar de você.
Nesse ponto, Anput se aproximou, se ajoelhou na areia e abraçou os dois levemente. Tanto Anput quanto Anúbis ficaram apenas fitando Neby e fazendo carinho nele. Lágrimas incontroláveis escaparam dos olhos de Anúbis, quando o brilho sumiu completamente do olhar de Neby.
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