A Morte Das Areias do Saara
31 Alma
Notas iniciais

Não deixe meu corpo tornar-se vermes,
mas me livre como tu livra a ti mesmo.
Peço-te,
não me deixe cair na podridão,
como tu permite todo deus,
e toda deusa,
e todo animal,
e todo réptil,
ver corrupção, quando a alma saiu deles,
após a sua morte.
~Fragmento do Livro dos Mortos
Tremendo, Anúbis segurava o corpo de Neby enquanto lágrimas escorriam de seu rosto para o corpo do animal que por tanto tempo esteve ao seu lado. Anput também chorava e segurava com firmeza o ombro de Anúbis na esperança de tentar diminuir a sua dor que parecia só crescer. Anput pode ver a prova dos sentimentos quando percebeu algo estranho e levantou a cabeça para poder ver o que era. Ao redor dos três, uma névoa negra começou a surgir. Não precisou de muito para Anput entender que aquela névoa que lentamente os rodeava era provavelmente fruto do pesar de Anúbis.
Entendendo bem a situação, Anput interrompeu seu próprio luto e ficou ajoelhada em frente a Anúbis. Delicadamente, ela limpou as lágrimas que escorriam e juntou sua testa na testa dele. Não haviam palavras para serem ditas, afinal, nada poderia mudar o que havia acontecido. Não adiantava Anput falar que eram as ordens das coisas, falar que seres mortais devem morrer, pois assim funcionava o ciclo. Afinal, de que adiantaria se Anúbis sabia muito bem disso. E ali a jovem ali permaneceu, mesmo quando a névoa negra explodiu ampliando-se rapidamente para tudo ao redor fazendo com que a palmeira ali perto rapidamente secasse e morresse mas deixando os três no meio completamente ilesos.
Eventualmente a névoa começou a diminuir conforme Anúbis respirava fundo. A névoa negra foi diminuindo e diminuindo até que sumiu completamente. Apesar disso, Anput não conseguia evitar pensar que, mesmo numa breve falta de controle, ele ainda havia controlado a névoa o suficiente para que ela não atingisse ninguém.
Mesmo com a névoa sumindo completamente, Anúbis não fez qualquer menção de se levantar. Ele permaneceu ali, segurando nos braços o corpo de Neby. Em silêncio ele permaneceu, com Anput à sua frente. Certamente mais de uma hora de passou quando Anúbis se levantou levando Neby consigo. Afinal, tinha uma última promessa a cumprir para o velho amigo. Iria sim cuidar dele.
E assim, dentro daquela singela casa com vista para o mar, Anúbis começou o longo e demorado processo de mumificação. Por mais de um mês ele trabalhou só parando quando a única coisa que precisava fazer era esperar, e fazia isso sentado olhando para o mar. Anput ajudava sempre que podia, o que não eram muitas vezes, pois Anúbis pouco falava e nem parecia se importar quando qualquer um dos outros deuses ia até lá para falar qualquer coisa que fosse.
Com o passar dos dias, de mumificação à rituais, Neby recebeu tudo ao qual tinha direito. Segurando a múmia de Neby em seus braços, Anúbis saiu da singela casa e caminhou até um ponto onde a areia da praia era mais fofa enquanto Anput o seguia. Nefertem, Qebui e Néftis também estavam lá. Resolveram aparecer depois de ouvir que Anúbis estava sepultando Neby embora talvez Néftis tivesse mais intenções de entrar mais nas graças do filho do que de realmente honrar o chacal falecido. Ali, no meio da areia fofinha, Anput fez uma breve magia e fez surgir uma plataforma retangular feita de pedra. Um pouco mais baixa que uma mesa e do tamanho perfeito para deitar o corpo de Neby, e foi o que Anúbis fez.
Com os braços livres, Anúbis fez surgir seu cetro e, com um mero toque da base do cetro no chão, uma estrutura de pedra surgiu rodeando os deuses ali presentes e, mais importante, a múmia de Neby. Sepultamentos até então, quando aconteciam, não tinha nada de pomposo. Meros corpos jogados em buracos de pedra, talvez por isso não chegavam com sucesso no Duat. Mas Neby merecia mais e foi exatamente por isso que Anúbis ergueu uma estrutura de pedra ao redor tal como tinha feito com Osíris. Com as paredes e teto de calcário erguidos, bastou um mero toque da mão do deus na morte para que, nas paredes brancas da pedra do interior da tumba, surgisse uma história meticulosamente escrita e desenhada. A história de Neby. Tudo o que Anúbis sabia. O salvamento inesperado quando era um mero filhote amedrontado, a parceria mesmo em meio à perigos que incluíam Sekhmet e Naunet, a liberdade de correr por onde bem quisesse sem ninguém para o prender, o carinho recebido e fornecido e os últimos dias brincando na praia.
Sentindo os olhos lacrimejarem mais uma vez, Anúbis saiu da construção com os outros deuses atrás de si. Tão fácil como a construiu e pintou suas paredes, Anúbis selou a porta. Pois aquilo era uma tumba, e tumbas não deveriam ser violadas. Por esse mesmo motivo, os deuses enterraram ela na areia, tornando-a cada vez mais profunda, mas que Neby pudesse ter seu descanso eterno.
De forma delicada, Anput olhou para Anúbis que, embora estivesse olhando apenas para onde estava antes a tumba de Neby, mostrou que estava prestando atenção nela pois, quando ela segurou a mão dele, ele segurou de volta. Os dois entrelaçaram os dedos e ficaram silenciosos em pesar por alguns segundos até que Anput resolveu quebrar o silêncio.
— Sei que parece uma pergunta estúpida mas… — disse Anput — Você está bem?
— Melhor. — disse Anúbis soltando um pesado suspiro.
— Você sabe que, qualquer coisa que precisar, estou aqui né? — disse Anput.
— Sei disso. — disse ele sem conseguir abrir um sorriso — Obrigado.
— Queria ter podido conhecer mais ele. — disse Nefertem — Ele parecia certamente ser bem simpático no pouco tempo que passei com ele.
— E era mesmo… — disse Qebui soltando um suspiro pesado. Apesar da dificuldade que teve em admitir que sentiu uma dor no peito quando Chenzira morreu, o mesmo não se aplicava para Neby, que parecia bem mais digno do pesar do deus.
— Olhe pelo lado bom… — disse Anput segurando agora a mão de Anúbis com ambas as suas mãos — Ele certamente teve uma vida boa até o final. E, se aquele dia em que saímos para brincar tantos anos atrás tivesse sido diferente, se as suas decisões naquele dia tivessem sido diferentes, certamente aquele humano teria acabado com ele ali e ele não teria todos esses anos que teve pela frente.
— Sei disso… — disse Anúbis.
— Para um chacal, ele certamente viveu bastante. — disse Néftis.
Delicadamente, Néftis se aproximou e botou a mão no ombro de Anúbis do lado oposto onde Anput estava. Néftis tentava, de modo tímido, apaziguar a dor que tomava conta do coração de seu menino. Pode-se até pensar que, por sempre se preocuparem tanto com a morte, que os egípcios de antigamente não a recepcionaram com dor, mas não era o caso.
— Ele está livre de todo sofrimento. — disse Néftis.
— Sim… — disse Anúbis ao sentir a pequena semente de esperança desabrochando em seu peito — Livre de todo sofrimento.
Foi nesse ponto que ele se tocou que não tinha acabado ali. Sua mão inconscientemente focou o pingente com o formato do hieróglifo de vida em seu pescoço. A luz de esperança que brotou no peito do deus da morte fez ele sumir rodeando de de névoa deixando os outros deuses para trás. Sem nem explicar para onde ia, Anúbis foi embora enquanto Anput, Néftis, Qebui e Nefertem ficaram com expressões de estranhamento e curiosidade trocando olhares entre si.
Quase que instantâneamente, o jovem deus da morte apareceu em outro lugar. Num templo numa ilha cercado por um lago de fogo dentro do Duat. Uma rápida olhada mostrou para Anúbis que Osíris ainda estava lá, tal como estava da última vez que o vira. Contudo, dessa vez ele tinha mais uma companhia, Thoth, que entregava a espada de Seth para Osíris.
— Anúbis? — estranhou Osíris ao ver o jovem aparecendo de repente.
— Alguma alma passou por aqui? — perguntou Anúbis apressado.
— Calma… respire… — disse Thoth — Como conseguiu simplesmente aparecer no meio do Salão do Julgamento? Não imaginava que fosse possível simplesmente aparecer no Duat.
— Salão do Julgamento? — perguntou Anúbis.
— É assim que decidi chamá-lo. — comentou Osíris dando de ombros — Estava discutindo com Thoth parte dos pormenores que restam. O que acha de…
— Desculpe interromper. — disse Anúbis cortando Osíris sem pensar nem duas vezes — Uma alma! Passou por aqui alguma alma?
— Sim. — disse Osíris — Foi direto para o portal que apenas você consegue atravessar. O que achei bem estranho, para falar a verdade. Só o fato de chegar até aqui indica um funeral perfeito… mas passar pelo Salão sem necessitar de um julgamento? Mesmo que ele ainda esteja sendo planejado e desenvolvido…
Anúbis mal ouviu as palavras de Osíris. Afinal, tinha começado a correr em direção ao portal que levava ao Aaru antes mesmo de Osíris terminar de falar. Sabia do fundo de seu ser que a facilidade de simplesmente aparecer no meio do Duat, e do recém-nomeado Salão do Julgamento, não iria funcionar com o Aaru, que parecia ser uma dimensão à parte.
Correndo, Anúbis atravessou o portal e entrou naquela dimensão cheia da cor dourada. Do radiante e tranquilo céu azul, pequenos flocos de luz dourada caíam lentamente até o chão coberto de plantações de junco até onde a vista alcançava. O vento batia tranquilamente em Anúbis fazendo seu cabelo se mexer lentamente até que ele viu que, no meio das altas plantações de junco, alguma coisa se movia. Ao longe, ele via as plantações se moverem de um lado para outro enquanto abriam espaço como se algum ser, baixo demais para aparecer no meio dos ramos de junco que podiam chegar à 1 metro e meio, corresse em direção à Anúbis ignorando todas aquelas plantas que estavam pelo caminho.
Cada vez mais perto do ser, Anúbis corria o quanto podia e também corria o ser que, ao diminuir bastante a distância que o separava do deus da morte, venceu os centímetros finais rompendo os juncos restantes como uma cortina com um grande salto aterrissando bem no peitoral de Anúbis. Anúbis se deixou ser derrubado no chão tamanha era a alegria que sentia pois, ali, de pé sobre si lambendo o seu rosto sem parar, estava Neby.
— Tudo bem garoto, tudo bem. — disse Anúbis entre as dezenas de lambidas — Tá tudo bem.
Qualquer lágrima que ainda sobrou foi derramada ali enquanto Anúbis abraçava Neby do jeito que fosse possível mesmo em meio a enorme agitação e alegria do animal. A animação dele, os pulos, lambidas e o abanar do rabo deixavam claro que ele não sentia nenhuma dor, seja nos ossos ou no coração. Estava mais feliz do que nunca, mais saudável do que nunca. Até parte dos pelos que perderam um pouco da cor com o passar dos anos pareciam ter voltado ao seu tom arenoso. E o brilho no olhar estava certamente mais forte do que nunca.
Eventualmente, Neby se acalmou o suficiente para que Anúbis pudesse se levantar e abraçar ele direito e olhá-lo com um sorriso no rosto. Anúbis sabia que Neby tinha conseguido chegar até ali por causa de sua mumificação perfeitamente feita e do ritual meticulosamente executado. Mas, passar pelo Salão do Julgamento sem necessitar de um, apenas mostrava que nenhum julgamento era necessário. Afinal, porquê seria? Neby era mais do que seu amigo de longa data, Neby era um chacal, seu animal sagrado, seu guia espiritual, seu servo e aliados.
Gentilmente, ele segurou o rosto de Neby juntando testa com testa enquanto o chacal ainda balançava o rabo em pura alegria.
— Está tudo bem agora. — disse Anúbis — Sei que tem que ficar aqui, mas prometo que não ficará sozinho. Também prometo só deixar passar pessoas dignas de sua tão ilustre companhia.
Ao término da frase do jovem deus, Neby pulou de alegria entendendo cada uma das palavras que foram proferidas e, em seguida, rolou no chão botando a barriga para fora pedindo por carinho. Anúbis prontamente atendeu ao pedido enquanto falava:
— Não só bons humanos trarei para cá, como também trarei todos os chacais que passarem para esse outro plano. Vocês cuidarão daqui por mim?
A mistura de latido terminado com um uivo foi tudo que Anúbis precisava de resposta. O sorriso se manteve no rosto do deus. Não era o mesmo que ter o amigo vivo, não mesmo. Mas, ali estava Neby, num mundo sem males para o perturbar. Mesmo que fosse um mundo no qual Anúbis não poderia viver, nada o impedia de visitar. E, além do mais, Neby teria amigos. Eventualmente, se tudo desse certo, dentro de algumas décadas era até provável que Shadya, Iset e Ahmen vivessem ali. Um suspiro escapou dos lábios de Anúbis ao pensar em como a alma de Chenzira estava perdida por aí. Ele olhou para aquela imensidão dourada enquanto pensava que faria de tudo para que os mortais soubessem como fazer todos os ritos funerários para que então, aqueles dignos de chegar até o Aaru pudessem o fazer e reencontrar os entes queridos que se foram.
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