A Morte Das Areias do Saara

21 Uma meta quase completa


Notas iniciais
oi oi!! demorou mais saiu o capitulo! eu queria ter postado um capítulo novo especificamente em 11 de setembro, mas n consegui ;~; a data é pq 11 de setembro foi o Ano Novo pelo calendário do Antigo Egito. Bem, sem mais delongas, aproveitem o cap novo!

Sua irmã Isis o protegeu, repeliu os demônios e afastou as calamidades do mal. Ela proferiu o feitiço com o poder mágico de sua boca. Sua língua era perfeita e nunca parou em uma palavra. Beneficente no comando e palavra era Ísis, a mulher de feitiços mágicos, a advogada de seu irmão. Ela o procurou incansavelmente, vagou ao redor desta terra em tristeza, e ela não pousou sem encontrá-lo.

~Fragmento do Livro dos Mortos

Dias se passaram enquanto os deuses procuravam pelos pedaços do corpo de Osíris. Não foi difícil os dias virarem semanas e então meses. Com a passagem do tempo, o dia de Wepet Renpet chegou e foi embora. Seguindo o calendário egípcio que, muito sabiamente, já dividia o ano em 365 dias e 12 meses, Wepet Renpet era o ano novo. Contudo, ao se converter o calendário egípcio que em tanto se inspirava no Nilo, no sol e nas estrelas, era possível ver que a virada do ano coincidia com o meio do mês que, séculos mais tarde, seria conhecido como Setembro. Infelizmente, a situação em que o Egito se encontrava, principalmente os deuses, não fornecia oportunidade para comemorar.

Não fazia sentido para os egípcios dividir o ano em quatro estações. Três eram o suficiente. No horizonte, o sol ia se pondo marcando o fim do dia que, mais curto que o normal, tinha a noite mais longa que o comum também. Um detalhe tão típico da estação denominada Peret que, devido a localização do Egito no mundo, mal era notado por seus cidadãos. Ainda mais com a inexistência de relógios. Contudo, um detalhe que era facilmente notado na estação era o frio que era tão diferente do calor praticamente insuportável durante o Akhet.

Cercado por temperaturas que desciam para cada vez mais perto dos 4ºC conforme o céu escurecia, Anúbis deixava que o vento seco mas ainda gentil batesse em seu corpo enquanto explorava o deserto. O sutil passar do tempo se mostrava no rosto do jovem que ainda era capaz de envelhecer. Ingênuo seria aquele que achasse que só pelo deserto ser o que ele é, que ele não tivesse tamanha diferença de um lugar para outro. O jovem deus ficou de pé em um enorme bloco disforme de pedra enquanto olhava para a imensidão formada por areia branca e outros blocos de pedra de cor semelhante ou mais puxado para o amarelo. Seus olhos logo pararam de prestar atenção na imensidão que facilmente lembrava uma praia interminável e começou a procurar com o olhar o ponto onde seu nariz indicava que havia outro pedaço do corpo de Osíris.

— Ali… — sussurrou o deus para si mesmo.

O jovem deus simplesmente desapareceu da pedra onde estava e reapareceu em uma pedra que estava aproximadamente 15 metros a sua diagonal. Anúbis se ajoelhou para envolver em um pedaço de linho branco o que era claramente a ponta do pé esquerdo de Osíris. O coração do deus chacal estava pesado e preocupado, seu nariz mostrava com clareza que a carne de Osíris não estava em uma situação que seria esperada para o corpo de um deus.

Foi sentindo o estado de morte iminente que emanava da carne de Osíris, que Anúbis notou outro tipo de morte. Uma morte mais antiga, extremamente mais antiga. Concentrando-se mais, notou que parecia vir de vários pontos, como se aquele lugar, tão desolado, fosse um cemitério.

— Isso é estranho… — disse ele sabendo que estava longe demais de qualquer oásis, vilarejo ou do Nilo para que qualquer um ousasse ir até ali.

Por sua cabeça logo passou que talvez fosse os restos de uma caravana que se perdeu e acabou por morrer de fome ou sede, mas essa ideia logo saiu de sua mente quando se aproximou de um desses pontos e viu um esqueleto.

— O que é isso? — perguntou o deus ao rodear o enorme esqueleto.

Cada osso era de um tamanho absurdamente grande e, mesmo com partes enterradas sob a areia, era possível ver que faziam parte de uma única criatura grande o suficiente a ponto de Anúbis ter precisado dar vários passos para ir de uma ponta até a outra do conjunto de ossos. Ao ver o conjunto de dezenas de ossos arredondados com o dobro ou o triplo do tamanho de seu punho, Anúbis não pode deixar de pensar que talvez seria algum tipo de monstro ou demônio. Entretanto, não sentia nenhum tipo de magia que indicasse isso. Os ossos se organizavam como se formassem uma grande e pitoresca cobra mas, conforme aumentavam em tamanho, mais estruturas semi-circulares se juntavam a eles até que, na ponta, parcialmente enterrado na areia, estava o que era claramente a cabeça de o que quer que estava morto ali.

— Você era bem longo… e bem grande… — disse Anúbis analisando o crânio — E com esses dentes, não me surpreenderia se matasse um crocodilo. Mas… espero que tenha perdido alguns ossos das patas para o deserto porque… com patas pequenas desse jeito, não sei como conseguia levantar um corpo desse tamanho…

Sua atenção foi então atraída para uma tempestade de areia que se aproximava vindo do leste. Sabendo que aquele era um sinal de que era melhor sair logo dali ou seria descoberto por Set, Anúbis deixou o mistério para traz para que fosse enterrado pela areia enquanto a localização e a semelhança daquela parte do deserto com uma praia, não passava pela cabeça dele que talvez o estranho animal usasse suas patas não para andar, mas para nadar.

O deus desapareceu e apareceu novamente no novo esconderijo que eles tinham encontrado. A pequena cabana do Delta do Nilo tinha se provado ineficiente quando aliado de Set começaram a atacar e, apesar de terem encontrado Bastet e Hathor para ajudar na proteção, resolveram que era melhor encontrar outro esconderijo. Felizmente, o Delta do Nilo era grande o suficiente para encontrarem outro lugar para se esconderem mesmo que este não fosse tão perto do Mar Mediterrâneo.

Anúbis entrou na cabana, que era levemente maior que a anterior, depois de passar por Bastet que, possuindo o corpo de um gato, protegia a entrada. Os dois deuses mal trocaram um olhar quando Anúbis entrou e olhou para Neby. Neby se esticou e abriu a boca num enorme bocejo que exibia seus dentes afiados enquanto acordava e ia receber o jovem deus que fez um carinho em sua cabeça.

Depois de dar o carinho que Neby merecia, Anúbis foi até onde haviam deixado uma longa caixa que agora guardava os pedaços do quebra cabeça macabro que era o corpo de Osíris. A caixa também estava repleta de natrão que, apesar de não ter muita diferença visual do sal ou da farinha, fazia um serviço excelente em manter o estado do corpo. Anúbis se ajoelhou ao lado da caixa pronto para continuar o quebra cabeça macabro. Por algum motivo, as partes do corpo de Osíris não se juntavam magicamente quando aproximadas, algo que surpreendeu e preocupou os deuses. Sendo assim, Anúbis tinha passado a usar as faixas de linho que podia invocar para enrolar e juntar as partes.

— Estamos quase terminando eim? — disse Bastet em sua forma normal depois de entrar na cabana enquanto o gato marrom que usou como hospedeiro miava em seus pés.

— Sim… — disse Anúbis suspirando e olhando para o corpo que estava realmente quase completo a essa altura.

— Viu? Nem precisava se preocupar com todo esse negócio de natrão e sei lá mais o que. — resmungou Bastet.

— Tenho lá minhas dúvidas quanto a isso. — respondeu Anúbis — Posso estar enganado mas… o cheiro… não só se parece cada vez mais com o cheiro de carne que apodrece, como também parece cada vez menos ‘divino’.

— Estando certo ou não, acho certo dizer que tinha algo mais naquela espada de seu pai — disse Bastet.

— Agradeceria se parasse de se referir a ele como meu pai.

— O que quer que eu faça se ele é o seu pai? — perguntou Bastet dando de ombros e então voltando ao corpo do gato.

— Só por isso não quer dizer que tem que ficar me lembrando disso — resmungou Anúbis bufando levemente.

— Vocês dois bem que poderiam parar de brigar… — disse Hathor se aproximando e soltando um suspiro.

O motivo de a deusa do amor não estar por perto até então estava em suas mãos no formado de um pedaço de carne comum. Esse pedaço, ela deu para Neby que logo começou a preguiçosamente comer.

— Obrigado por cuidar dele, Hathor — disse Anúbis.

— Não se preocupe — disse Hathor sorrindo e botando a mão no ombro do jovem deus — Consegue encontrar os pedaços bem mais facilmente né? — disse ela batendo levemente com o indicador na lateral do próprio nariz querendo se referir ao olfato de Anúbis — É bem mais útil do que eu nisso.

— Como vão as buscas dos outros? — perguntou Anúbis.

— Tenho a sensação de que estamos cada vez com mais dificuldade de encontrar novos pedaços. — disse Hathor soltando um suspiro — talvez seja uma mostra de como estamos nos aproximando da completude?

— Thoth passou por aqui recentemente? — perguntou Anúbis — Vi algo estranho no deserto e queria perguntar para ele. Talvez ele saiba mais.

— O quê? — perguntou Hathor.

— Um esqueleto de animal. Incrivelmente velho e grande. Não parecia nada que eu conhecesse.

— Humm.. não sei de Thoth, mas Anput pediu para avisar para que bem que poderia usar sua ajuda — disse Hathor.

— Onde?

— Descendo o Nilo, em sua primeira ramificação pela mão direita. Perto de um pequeno vilarejo onde o ramo faz a curva.

Ele assentiu com a cabeça e, depois de fazer carinho na cabeça de Neby mais uma vez, foi para o local explicado. Rumando pelas proximidades das primeiras ramificações do Nilo, logo encontrou um vilarejo adormecido pelas sombras da noite. Continuando suas buscas, logo encontrou Anput enquanto ela mergulhava no rio.

O jovem deus sentou-se embaixo de uma palmeira sem notar como seus olhos eram atraídos pela jovem que deixava a água iluminar seu corpo conforme escorria por ele depois de de cada mergulhada que ela dava. Na palmeira do lado, Anúbis pode notar brevemente as roupas dela esperando pela dona que provavelmente esperava mantê-las secas. Isso significava que o embrulho de linho o qual ela segurava firmemente provavelmente era um pedaço de Osíris. Quase não havia vergonha na nudez ainda apesar da vermelhidão que cobrisse as bochechas de Anúbis. A nudez era tão relativamente comum que era como se trajavam no dia a dia os mais pobres, os escravos e algumas crianças e ela, ou algo bem próximo dela, era alcançada por quase todos durante os dias mais quentes. Entretanto, no mínimo de vergonha que existia, Anput não se desfez do pano que cobria a parte debaixo de seu corpo.

— Não me parece bem um momento propício para nadar — disse Anúbis quando ela levantou da água pela terceira vez.

Anput demorou alguns segundos para responder enquanto se virava para ele e abria um sorriso.

— Realmente. Noite e frio. Não é uma combinação muito boa para nadar — respondeu Anput.

— Porque tanto mergulha então? — perguntou Anúbis.

— Nem vai acreditar na situação que encontrei esse pedaço. — disse Anput enquanto saía da água e entregava o pedaço para Anúbis.

— Como? — perguntou Anúbis ao abrir o pequeno embrulho de linho e encontrar uma orelha.

— Na boca de um peixe! — disse ela fazendo com que ele olhasse para para ela com incredulidade.

— Na boca de um peixe? — repetiu ele virando levemente a cabeça para a diagonal, talvez meio como um cachorro, enquanto também se esforçava para focar na conversa apesar da garota na sua frente no estado em que se encontrava.

— É! — exclamou ela deixando a água de seu corpo pingar por onde andava enquanto ía de um lado para o outro explicando a situação — Dei sorte de chegar a tempo antes que ele botasse o pedaço na boca. O que teria acontecido? Não tenho ideia! Mas também não quero pensar no que aconteceria se ficarmos com um pedaço faltando! Por isso achei que seria interessante ter sua ajuda… nem que seja para opinar na possibilidade de isso acontecer. Além disso, não sei o quão bem seu nariz é capaz de funcionar para farejar coisas na água, mas seria de grande ajuda ter alguém que sabe procurar coisas melhores do que eu. Entende?

A resposta de Anúbis demorou alguns segundos para ser pronunciada devido a enorme distração que Anput estava sendo para ele estando na frente dele daquele jeito. As bochechas dele coraram mais ainda quando ele notou que ela estava esperando uma resposta e então ele desviou o olhar para tentar recuperar o pensamento que se distraía com o que os olhos olhavam.

— Ahm… — disse ele lentamente tentando organizar a cabeça — É… eu… acho que entendi. Ahm… Eu…. Ahm… Acho que se não conseguirmos encontrar todos os pedaços, ficamos sem caminhos.

— Como assim? Não aconteceria como um machucado talvez? Que se cura depois de um tempo?

— Não tenho certeza mas… está tudo tão estranho. Cada vez mais as coisas que Thoth nos explicou sobre nós não parecem mais se aplicar e parece que as regras dos mortais parecem se aplicar.

— Thoth não nos ensinou tanto assim sobre os mortais… — disse ela — Mais uma das coisas que você simplesmente sabe?

— Sim… eu acho… — disse ele suspirando.

Anput suspirou e sentou-se ao lado dele enquanto pensava também sobre a situação em que estavam e sobre as palavras ditas. Acreditava nele, isso era fato. Mas também, tais coisas não eram exatamente estranhas ou inesperadas quando se era um deus.

— Achava que ia vir até aqui quando estivesse ainda de dia — disse Anput.

— Já estava de noite quando Hathor me contou que queria me ver — disse Anúbis dando de ombros.

— Eu queria te mostrar o vilarejo que tem aqui perto. Achei algo interessante. Ou melhor, algumas pessoas interessantes.

— Quem? — perguntou Anúbis com uma expressão de dúvida e curiosidade e novamente com a cabeça levemente inclinada.

— Ahmen, Shadya, Iset e suas famílias. — disse ela abrindo um sorriso ao qual Anúbis respondeu com um olhar de surpresa.

— Sério?

— Sim! Não é tão longe de Mênfis no final das contas. — disse Anput — Achei que seria legal ver se eles estão bem.

— Lady Ísis não vai gostar se pararmos as buscas — disse Anúbis.

— Eu sei… eu sei… — respondeu Anput soltando um suspiro — Também estou preocupada com Lorde Osíris, mas também estou por eles. Estamos a meses procurando por Lorde Osíris! Parar um pouco por menos de um dia não vai afetar tanto assim. Ainda mais agora que o corpo dele está quase completo. Afinal, estamos parando um pouco agora para conversar não?

— Isso é uma tentativa de fazer eu notar que deveríamos parar de conversar e seguir as buscas? — perguntou ele depois de dar uma levíssima risada.

— Não mesmo. — exclamou ela rindo — Mas bem que eu posso tentar aproveitar essa oportunidade para, quem sabe, chamar você para nadar um pouco?

Ele parou para considerar as propostas enquanto ela o olhava com olhos brilhando cheios de expectativa.

— Depois de deixar a orelha com Bastet então? — sugeriu ele e um sorriso logo se formou no rosto de Anput enquanto ela se levantava de uma vez.

— Temos que fazer isso o mais rápido possível então!

Notas finais
## REFERÊNCIAS ### Livro dos mortos : https://www.holybooks.com/wp-content/uploads/Egyptian-Book-of-the-Dead.pdf Vale das Baleias no Egito : http://www.globaltimes.cn/content/1068774.shtml / https://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-3198337/Stunning-images-reveal-fossilised-remains-whales-middle-desert-sea-floor-long-lost-ocean.html / https://www.youtube.com/watch?v=6iGf1rxWT4A / Estações do Ano : http://www.primaryhomeworkhelp.co.uk/egypt/farming.htm Clima : https://en.climate-data.org/location/5569/ Calendário : https://en.wikipedia.org/wiki/Egyptian_calendar Ano novo : http://www.ancientpages.com/2017/12/31/ancient-history-new-years-celebrations-traditions-around-world/ Nudez : https://en.wikipedia.org/wiki/History_of_nudity / https://www.journals.uchicago.edu/doi/abs/10.1086/sou.12.2.23202932?journalCode=sou Pontos Cardeais : https://seshmedewnetcher.com/egyptian-orientation-and-geography/ ################### ps: sim, o esqueleto q ele achou era o fóssil de uma espécie extinta de baleia.