A Morte Das Areias do Saara
147 Uma Pequena Reviravolta
Notas iniciais

Sua majestade passou pela fortaleza de Tjel, sendo poderoso como Mont em sua saída, todos os países estrangeiros tremendo diante dele e seus chefes trazendo seus presentes, todos aqueles que estavam insatisfeitos sendo curvados por medo do poder de Sua Majestade. Seu exército percorreu os desfiladeiros estreitos como quem percorre as estradas do Egito. Ora, passados os dias sobre estas coisas, Sua Majestade estava em Pi-Ramsés, a cidade que fica no Vale do Cedro. E Sua Majestade prosseguiu para o norte. Mas quando Sua Majestade alcançou a região montanhosa de Cades, então Sua Majestade avançou como Montu, o senhor de Tebas, e cruzou o vau com o primeiro exército de Amon-dá-vitória-a-Usima-Rá-setpenre`.
~ Fragmento de “Registro egípcio oficial da Batalha de Kadesh, Poema do Pentauro”
Podia ter se passado tanto várias horas como alguns segundos. A percepção de tempo de Anúbis foi embora ao mesmo tempo que ele desmaiou no chão. Contudo, era claro que algum tempo havia se passado, pois ele se sentia levemente melhor quando uma mão tocando-lhe o ombro lhe acordou.
— Ei garoto, tudo bem aí?
Demorou para ele reconhecer a voz ou ter forças para abrir os olhos, mas, quando o fez, viu o rosto de Sekhmet ao seu lado.
— Vê se não vai passar dessa pra melhor. — disse Sekhmet, sentando-se exausta ao seu lado — Anput e Kebechet não vão gostar de ter que esperar você voltar a vida.
— Sekhmet…. — resmungou Anúbis enquanto procurava a força dentro de si para se sentar.
Ao colocar a mão no chão para dar uma força extra na sua tentativa de se levantar, viu que apesar de a aparência da mão estar melhor, ainda havia dedos faltando. Exausto, ele sentou-se e olhou para Sekhmet, que também exibia seus próprios ferimentos de batalha e a boca leonina suja de sangue. Dentre os ferimentos de batalha da deusa, o mais óbvio era o antebraço esquerdo faltando.
— Todo mundo apanhou lega,l né? — comentou Sekhmet ao notar ele olhanado para o braço que lha faltava.
— Como estão os demais? — perguntou Anúbis.
— Hórus a muito custo conseguiu derrotar Zababa. — explicou Sekhmet — Todos conseguiram ir até bem apesar de todos sairmos bem ferrados. Mas, infelizmente, Téfnis perdeu feio pro Tarhun. Mas Set se vingou… ou quase isso. Agora só os mortais estão lutando. Muwatalli II apareceu, para a alegria de Ramsés II, que também conseguiu outra parte do exército dele que finalmente alcançou o campo de batalha.
— Tefnut morreu? — perguntou Anúbis levemente surpreso — Calma… e como assim Set se vingou mais ou menos com o Tarhun? Ele não é o principal dos hititas?
— Sim, Tefnut morreu. Espera até Shu descobrir isso. — disse Sekhmet suspirando pesadamente — Não consegui encontrar ele nessa bagunça. Deve estar desmaiado em algum lugar. Mas sobre Tarhun… não. Arinna e Inara tiraram ele de perto no último segundo.
— Claro que tiraram… — disse Anúbis suspirando.
— Não iam deixar ele morrer assim né? — perguntou Sekhmet — Ele deve estar aí em algum lugar nessa confusão. Ainda não confio que eles vão ficar quietos mesmo.
— Se Arinna e Inara também estão aqui… não era melhor Lady Ísis ter vindo também? — perguntou Anúbis.
— Seria mais justo né? — perguntou Sekhmet dando de ombros — Mas acho que ela queria ter certeza de que iríamos conseguir lidar com tudo ainda assim.
— Lelwani disse que eles têm uma profecia também. — disse Anúbis lembrando da conversa que teve.
— Qual? — perguntou Sekhmet repentinamente séria.
— Que… — disse Anúbis lentamente tentando organizar os pensamentos com a cabeça latejando — Algo vai acontecer nos próximos séculos ou décadas.
— Que algo? — quis saber Hórus repentinamente surgindo perto dos dois, igualmente acabado, mancando e com sangue pingando de um braço que apesar de ainda ali, não parecia conseguir mexer.
— Lelwani não soube dizer. — respondeu Anúbis olhando para o primo — só que seja lá o que for, vai trazer muitas mudanças.
— Não quer sentar? — perguntou Sekhmet para Hórus.
— Se eu sentar não levanto mais. — resmungou Hórus.
— Então tá… — disse Sekhmet voltando a olhar para Anubis — Acha que é possível que ela esteja mentindo?
— Não. — respondeu Anúbis.
— Nem sabemos se essa mudança é pra pior ou melhor? — perguntou Hórus.
— Não que ela tenha dito ao menos. — respondeu Anúbis — Mas aparentemente foi a preocupação com essa mudança que fez eles, os deuses hititas, se juntarem à guerra hoje.
— Se não tem necessariamente certeza que a mudança vai ser algo ruim... — disse Sekhmet — Pode ser o simples medo de mudança.
— E ainda assim eles foram idiotas o suficiente para considerar que interferir diretamente em assuntos mortais era uma boa solução? — perguntou Hórus incrédulo e Anúbis deu de ombros.
— Também achei idiota. — respondeu Anúbis, fazendo Sekhmet dar uma pequena risada.
— De toda forma, vou chamar minha mãe. — disse Hórus — Quando os mortais terminarem de se matar, vamos magicamente mudar as memórias deles um pouco para não lembrarem da gente interferindo tanto assim.
Horus então se transformou num pássaro e tentou voar, mas com sua asa em frangalhos e pingando sangue, ele quase caiu no chão três vezes antes de sumir no horizonte.
— Vamos ter certeza que nenhum mortal fugiu. — disse Sekhmet se levantando com extrema dificuldade — Vamos juntar eles, rastrear e tudo mais, para que nenhum fique sem ter a memória alterada um pouco por Ísis.
— Só um pouco? — perguntou Anúbis ainda se perguntando se queria mesmo levantar.
— Vai ser uma história interessante pra se contar. — disse Sekhmet abrindo um sorriso cheio de dentes — Mas também não podemos deixar eles exagerarem na história. Apesar da versão exagerada ser a verdadeira.
Enquanto Anúbis pensava se já queria levantar ou não, uma comoção no campo de batalha chamou sua atenção e de Sekhmet. Gritos em vários idiomas explodiam no campo de batalha e quando Anúbis e Sekhmet olharam para o que causava tanta confusão, foi fácil achar a cabeleira ruiva de Ramsés II no meio.
Pingando suor e sangue, colecionando machucados mas ainda sobre um cavalo, Ramsés II abriu caminho no que ainda restava do exército hitita (apesar de seu próprio exército já estar com uma quantidade de mortos maior). E era fácil ver qual era o alvo de Ramsés II, era Muwatalli II, escondido atrás de seus generais, ainda ileso no meio do caos que era a Batalha de Kadesh.
Muwatalli II não estava ileso por saber se defender bem, mas sim porque ainda não havia participado da batalha, ao contrário do governante egípcio. Mas Ramsés II não estava nem aí que sua situação de saúde estivesse pior, ele foi na direção do imperador hitita sem pensar duas vezes.
— Não vai conseguir chegar até mim. — disse Muwatalli II, embora seu rosto mostrasse que não tinha muita confiança nisso.
Ramsés II não respondeu. Estava concentrado demais acabando com todos que se colocavam no seu caminho. Era uma coragem e força admiráveis. Tanto que Anúbis se levantou enquanto os soldados egípcios gritavam as mais diversas palavras de incentivo e força para se motivarem a ajudar o faraó.
— Não sei se ele é incrível ou doido. — disse Sekhmet com uma risada.
— Talvez um pouco dos dois. — respondeu Anúbis.
Ramsés II nem pensava duas vezes nem olhava para trás quando decepava qualquer parte de corpo que fosse com sua fiel espada. Seu fiel leão seguia atrás dele, com a armadura que vestia no começo do conflito já quase totalmente perdida. Parecia irrelevante agora que o exército hitita tinha, em sua maioria, armas melhores feitas de ferro enquanto o Egito ainda lutava para sair da Era do Bronze.
— ELE É O PRÓPRIO BAAL! — gritou um soldado hitita antes de sair correndo assustado com a carnificina deixada pelo imparável Ramsés II.
— Olha… — disse Sekhmet — Admito que no começo achei muito ego o apelido de "Ramsés, o grande".
— Eu também … — concordou.
— Mas agora… — disse Sekhmet deixando o resto da frase no ar enquanto soltava uma risada e Ramsés II, fazendo parecer fácil, alcançava Muwatalli II com uma ferocidade imparável.
— É… — disse Anúbis — Como ele ainda tá de pé? Queria ver ele lutando contra Hórus.
— Sinceramente. Não sei se quero isso. — Agora fundida com Hathor e tudo mais, se o resultado de uma luta dessas acabar com a autoestima de Hórus, vai ser problema meu também.
— Haja paciência pela cara então? — perguntou Anúbis segurando uma risada.
— Ah sim. — disse Sekhmet, mas logo olhou para Anubis com um sorriso perigoso — Você podia fazer umas competições de luta no Aaru com os mortos poderosos lá.
— Não. — respondeu Anúbis fechando a cara para a ideia, e Sekhmet deu de ombros para a resposta dele — Eles ganharam o merecido descanso.
— Que lugar chato se não pode lutar um pouco. — disse Sekhmet.
— Eles podem fazer um se quiserem. — defendeu-se Anúbis — Mas eu não vou organizar um.
— Não dá no mesmo? — perguntou Sekhmet.
— Quantas vezes você já viu alguém ter coragem de dizer não pra gente mesmo se um "não" fosse o que queria falar? — perguntou Anúbis — Ou fazendo algo que não queria só pra nos agradar?
— Entendi. — respondeu Sekhmet — Bem, chega de papo. Vamos trabalhar.
Anúbis deu uma última olhada em Ramsés II lutando, talvez até como uma chance de ganhar alguns preciosos minutos, visto que sentia as pernas reclamando com a ideia de sair andando pelo campo de batalha. Era uma cena um tanto impressionante de se ver. Ramsés II, já muito marcado pelas lutas do dia, avançando contra Muwatalli II, completamente limpo. O olhar de pavor que Muwatalli II escondia no olhar era completamente diferente do olhar de determinação e ódio que cada centímetro do rosto de Ramsés II exalava.
Ninguém era doido de se colocar no meio daquele combate entre os líderes, e era possível ver olhares de temor e preocupação no exército hitita, que começava a disfarçadamente tentar sair dali. Ou nem tão disfarçadamente assim, correndo em direção ao rio que separava o campo de batalha da paz do Deserto Sírio. A confiança dos hititas no líder deles talvez estivesse acabando ali. Com 30 anos, Ramsés II ainda estava no auge de sua força. Sendo 10 anos mais velho, Muwatalli II talvez estivesse começando a deixar o auge para trás.
Vendo que Ramsés II parecia estar lidando com tudo muito bem ali apesar do cansaço e dor que estaria sentindo. Assim, Anúbis foi andar pelas bordas do campo de batalha, fazer exatamente o que haviam pedido para ele fazer, juntar aqueles que estavam fugindo da batalha para que pudessem magicamente apagar as participações dos deuses ali.
Enquanto andava pelo campo de batalha, evitando os corpos mortos largados pelo chão, Anúbis pensava em como iria juntar os que fugiam. Não poderia simplesmente amarrá-los para que ficassem quietos até Ísis chegar, não era uma abordagem muito legal especialmente se envolvesse fiéis na lista, o que era certo que aconteceria. E pedir para ficarem quietos dificilmente funcionaria. Então, quando encontrou a primeira dupla de soldados egípcios fugindo, mancando, Anúbis fez um chacal de névoa para disfarçadamente seguir a dupla e assim, poder acompanhar cada passo deles e, quando Ísis chegasse, seria fácil ir até a dupla.
Ele repetiu o processo para cada egípcio ou hitita que encontrou fugindo. Não tinha nem feito meia dúzia de chacais de névoa quando no horizonte viu um soldado morto no chão ao lado de um pequeno menino, que Anúbis reconheceu como sendo Setne, o mais novo dos filhos de Ramsés II que foram levados até ali.
O preocupante foi que ao lado do menino estava um homem alto e extremamente machucado, com um longo cabelo castanho bem escuro e ondulado e barba volumosa de mesma cor que ia até seu peito desnudo. Uma faixa grossa na altura de seu abdômen segurava uma saia que ia até o joelho, onde terminava em uma linha vermelha grossa e então em vários fiapos brancos. Seu sapato tinha a ponta levemente triangular levantada para o alto e consigo havia vários tipos de armas. O visual denunciava um hitita. Mas ele era alto demais para um ser humano.
— Ah não… — resmungou Anúbis reconhecendo a figura que logo agarrou rudemente o pequeno Setne pelo braço e sumiu dali no segundo seguinte — Merda...
Ele deixou suas buscas para depois e se virou para o campo de batalha mais uma vez. Não sabia para onde o deus havia ido com Setne, mas isso não era um bom sinal. Assim, Anúbis fez uma dúzia de chacais de névoa e soltou-os por toda a área da batalha em busca não só de Setne, mas também dos outros deuses.
Querendo fazer sua própria busca também, ele logo se transportou imediatamente para o campo de batalha. O caos do conflito o envolveu rapidamente com lutas ainda ocorrendo ou soldados chorando pelos conhecidos mortos. Então, no meio do caos, facilmente encontrou Sobek. Não era bem quem ele queria, mas era melhor do que nada.
A primeira vista, achou que o deus crocodilo estava ainda lutando, só que dessa vez com mortais, pois não via nenhum deus hitita por perto. Mas logo viu que ele estava simplesmente de olho nos mortais para ter certeza que nenhum deus hitita ia se meter novamente. Ele não precisava fazer mais do que só encarar os mortais. Ninguém iria querer se aproximar de um homem com cabeça de crocodilo.
— SOBEK! — chamou Anúbis.
— Hey. Tá tudo bem por aqui. — disse Sobek, que assim como Anúbis, sustentava vários machucados que lentamente se curavam — Consegui me livrar de Iyarri… por isso parece que peguei lepra… mas muito baixo deles enviarem o deus da pest-
— Tarhun pegou Setne. — disse Anúbis cortando Sobek — Eles devem estar planejando algo.
— Calma… Setne? O pirralho do Ramsés II? — perguntou Sobek, ficando preocupado também — E Tarhun?!
— É! — disse Anúbis logo sentindo que um dos chacais havia encontrado Sekhmet — Um dos chacais que fiz encontrou Sekhmet.
— Vá avisar ela que eu vou atrás do Ramsés II! — disse Sobek apressadamente.
Os dois se separaram para fazer exatamente isso mas, quando Sobek finalmente alcançou Ramsés II, viu que sua mensagem já havia chegado tarde demais. O deus crocodilo encontrou o faraó diante do portão fechado de Kadesh e, no alto do muro da cidade, estava Tarhun, sua esposa Arinna e sua filha Inara e claramente feitos de reféns com espadas no pescoço e rodeados pelos deuses hititas, estava o pequeno Setne e seu irmão mais velho que Ramsés II estava procurando desde bem mais cedo, Pareherwenemef.
Ramsés II olhou para o conjunto pálido e Muwatalli II, à sua frente e do lado de fora de Kadesh, simplesmente abriu um sorriso.
— Vocês são baixos! — rangeu Ramsés II entredentes.
— Oh, você se importa com os filhos? — perguntou Muwatalli II — Tem tantos que fiquei em dúvida se dois seriam suficientes.
Ramsés II rapidamente olhou para o lado, certificando-se que Ramsés Filho e Amunherkhepeshef ainda estavam ali. Os dois filhos olharam para o pai com tanta preocupação quanto ele olhou para eles.
— Um herdeiro por um herdeiro. O que acha? — perguntou Muwatali II.
— Ainda lembrando de Zannanza? — perguntou Ramsés II.
— Vocês o mataram! — rebateu Muwatalli — Mas admito que nesse ponto ele só é um pequeno motivo a mais no meio de nossa longa lista de motivos que nos trazem até aqui.
— Isso é problema de outra dinastia, não meu! — respondeu Ramsés II.
— É de seu povo ainda assim. — respondeu Muwatalli II — Mas um herdeiro por outro ainda parece justo.
— Desgraçado… — resmungou Ramsés II.
— Obrigado. — disse Muwatalli II — E vou logo avisando que não adianta usar flechas, os deuses não vão deixar elas chegarem até lá em cima. E mesmo que chegue, serão inúteis contra os deuses. Afinal, não passamos de mortais. E se vier pra cima de mim de novo eles vão cortar o pescocinho inocente de seus filhos.
Ramsés II olhou para os filhos feitos reféns, para as lágrimas que ambos rolavam pelo rosto muito embora Pareherwenemef estivesse claramente tentando se fazer de bravo e destemido. Entre milhares de ideias, rapidamente descartadas, que passaram pela mente de Ramsés II, existia também pedidos para Amon-Rá o ajudar, mas o deus continuava em silêncio.
— Meio baixo isso, não acha, Tarhun? — gritou Hórus chegando voando como um falcão e então mudando para a forma humanóide e logo pousando ao lado de Ramsés II.
— Hórus… — disse Tarhun.
— Eu. — disse Hórus — Não achei que você era do tipo que usava crianças mortais como escudo.
— Situações desesperadas pedem medidas desesperadas. — disse Tarhun.
— Claramente. — respondeu Hórus enquanto Sobek abria caminho na confusão até ele — Se envolvendo em assuntos dos mortais assim… realmente é algo que pode ser classificado como desesperado.
— Se você achasse que essa batalha poderia ser o que definiria se o Egito vai continuar ou não, você faria o mesmo. — disse Tarhun.
— Primeiramente, acho que está dando crédito demais para essa batalha. — disse Hórus — Segundo, não. Eu não faria. Temos que deixar a história acontecer mesmo que não gostemos do resultado.
— E aceitar a própria provável morte? — perguntou Tarhun — Não obrigado.
— É só uma cidade qualquer pelo o que estão brigando… nem Damasco é… — lembrou Sobek.
— Às vezes os caminhos sem volta começam de onde menos esperamos. — falou Arinna, ao lado de Tarhun.
— Tem razão nessa frase… — respondeu Hórus.
Quase como se tivesse planejado o tempo dessa frase, assim que Hórus terminou de dizê-la, Ísis surgiu nos céus com vários hieróglifos a rodeando e rapidamente, antes que os hititas tivessem tempo de pensar, ela os tacou contra os três deuses como uma metralhadora de magia, que atingiu o escudo mágico invisível que os envolvia.
Quando os hieróglifos bateram no escudo, ele imediatamente começou a se quebrar como vidro. Várias coisas aconteceram nesse mesmo segundo. Arinna reagiu a interferência e cortou a garganta de Pareherwenemef. Inara teve uns segundos de hesitação, nos quais ela usou para olhar para o que a madrasta havia feito. Esses segundos de hesitação foram especiais para Anúbis, Sekhmet e Shu, que sem a barreira mágica impedindo que eles chegassem até os reféns, magicamente surgiram ali.
Sekhmet imediatamente afastou Inara do pequeno Setne, impedindo que ela repetisse o ato da outra deusa. Shu logo criou um redemoinho ali para distrair os outros deuses ainda mais e, mais importante ainda, distrair Tarhun, que estava bem onde o redemoinho estava mais forte. Anúbis agarrou Setne pelo tórax, carregando-o apressadamente como um saco de grãos e como Pareherwenemef estava longe demais para Anúbis simplesmente esticar a mão e agarrá-lo, o deus apressadamente lançou uma faixa de linho, que se amarrou apressadamente no pescoço e no braço do garoto, impedindo o sangramento e deixando o garoto em contato com o deus, que logo sumiu dali.
Anúbis segurou como podia os dois garotos, e logo reapareceu no meio do deserto egípcio bem onde as areias eram brancas como a neve e como as estranhas pedras gigantes em formato de cogumelo ou pequenos morros que se espalhavam pelo lugar. Mas Anúbis não estava só com os dois, mas também com Arinna, que acabou indo junto por estar segurando ainda Pareherwenemef. Mas isso já era esperado, tanto que assim que eles surgiram, uma forte e densa rajada de vento com areia atingiu Arinna, forçando-a a soltar do garoto.
A deusa rolou pelo chão e Anúbis olhou por um segundo para aquele que tinha feito isso, Set, antes de sumir novamente e, dessa vez, apenas com os príncipes. O coração de Anúbis estava a mil. Não fazia parte do plano deixar um dos príncipes ser cortado, mas agora que tinha acontecido, ele só podia torcer para acertar de primeira onde Thoth estava. Assim, ele ressurgiu no Salão do Julgamento.
— THOTH! — gritou ele assim que apareceu, procurando o deus com o olhar — CURA! RÁPIDO!
Anúbis largou Setne de qualquer jeito para segurar Pareherwenemef que, perdendo a força nas pernas e sangue precioso, fraquejou e quase desmaiava.
— O QUE ESTÁ ACONTECENDO? — gritou Anput tentando digerir a situação toda enquanto Thoth corria até o príncipe mais velho.
— Papai? — perguntou Kebechet igualmente perdida ao lado da mãe e de Ammit.
— Como está a situação lá pra ter que trazer mortais vivos até aqui? — ralhou Osíris enquanto Thoth colocava a mão sobre o pescoço do príncipe, que tremia com olhos semi abertos no rosto pálido e abria e fechava a boca lentamente sem parar, sem força ou capacidade para falar, enquanto tentava não afogar no próprio sangue.
— Pareher... — choramingou Setne.
— Tarhun usou os dois de refém para impedir Ramsés II de continuar atacando! — defendeu-se Anúbis.
— Não é exatamente ainda uma explicação boa para porque temos mortais vivos aqui… — disse Osíris — Mas imagino que seja porque estava atrás de Thoth e Isis e Sekhmet estão ocupadas… logo sua próxima melhor opção para curar um ferimento desses antes que seja tarde demais e que seria fácil de achar, Thoth, provavelmente estaria aqui.
— Sim… — respondeu Anúbis sem tirar os olhos de Pareherwenemef — Aparentemente Lady Isis vai apagar a nossa interferência da memória dos soldados… mais essa cena aqui para apagar não deve ser muita coisa a adicionar.
— Pareher... — continuou Setne a choramingar, tremendo com os olhos esbugalhados para o tanto de sangue do irmão que sujava as faixas de linho e as mãos de Thoth.
— Vai ficar tudo bem… — disse Kebechet segurando a mão do pequeno menino.
— Se estão pegando filhos de Ramsés II para que ele pare de atacar… é melhor ter alguém de olho nos que estão longe do campo de batalha então. — disse Osíris.
— Vou para o palácio então. — se prontificou Anput.
— Chame alguns mais com você. — disse Osíris — Ramsés II tem filhos demais e ainda tem uns por vir… Parece até que quer competir com Zeus.
— Sim… — disse Anput.
— Só melhor não incluir Hapi na lista. — disse Anúbis repentinamente — Já perdemos Tefnut, Sobek está lá em Kadesh… se perdemos Hapi também o Nilo fica complicado.
— Perdemos Tefnut? — perguntou Anput preocupada — Ah não… Vou falar com Bes, Nefertem, Qebui e Sopdet então.
— Não sabia que ainda falava com Qebui… — resmungou Anúbis.
— Não é hora pra isso… — reclamou Anput revirando os olhos.
— Se conseguir encontrar Heka e Menhit rápido, são boas inclusões na sua lista… — sugeriu Osíris.
— Farei isso. — disse Anput antes de sumir dali.
Sem Anput ali, Anúbis, Osíris, Kebechet, Ammit e Setne ficaram olhando atentos para o processo de cura de Pareherwenemef que Thoth realizava. Gradualmente, o príncipe começava a aparentar melhor. Com mais cor no rosto, olhar menos fechado e mais atento, e maior facilidade para respirar. Com um suspiro, Thoth tirou as mãos do pescoço do garoto e começou a tirar com cuidado as bandagens de linho que haviam sido apressadamente envolvidas no pescoço para segurar o sangramento.
— Tudo certo agora… — disse Thoth, fazendo os deuses respirarem aliviados.
— S-Sério? — perguntou Pareherwenemef falando com cuidado como se a simples fala fosse acabar com sua garganta.
— Sério. — respondeu Thoth com um sorriso enquanto ele ajudava o príncipe a se sentar — Bem, talvez queira beber um pouco de água para tirar a sensação incômoda e o gosto de sangue que deve estar sentindo no momento. Mas tirando isso, tudo bem.
— Pareher! — exclamou Setne indo até o irmão e o abraçando.
— Consegue fazer a parte da memória de Ísis por ela? — perguntou Osíris — Acho que esses dois já passaram por o suficiente hoje.
— Provavelmente. — disse Thoth trocando o olhar de Osíris para Anúbis — Deixe-os aqui, para não se meterem em mais confusão por enquanto. Pode voltar para Kadesh e quando os deuses hititas resolverem parar de interferir em assuntos mortais, pode voltar para pegar eles e devolver para o pai.
— Certo… — disse Anúbis dando uma breve olhada nos dois meninos e então na própria filha, que não parecia nada abalada pela cena que presenciou.
Ele bagunçou os cabelos de Kebechet por um segundo, fazendo ela reclamar e rir ao mesmo tempo, e logo ele foi embora, voltando para Kadesh. Tal como previra, foi o completo caos que recebeu Anúbis quando ele chegou. Os deuses lutavam entre si no deserto mais além, tentando não destruir a cidade, enquanto Muwatalli II e boa parte de seus homens haviam se abrigado dentro de Kadesh, deixando para os egípcios a missão de ativar as táticas de cerco de cidades… o tipo de batalha favorito de absolutamente ninguém. Alguns tentavam quebrar a enorme porta de entrada de Kadesh com machados enquanto outros corriam para trazer escadas para escalar pelos muros.
Deixando para os mortais seus próprios problemas, Anúbis foi para onde o conflito divino acontecia em proporções incríveis. A diferença mais óbvia era que acontecia uma tempestade bem localizada onde os deuses brigavam entre si. Nuvens cinzentas e pesadas deixavam fortes chuvas caírem no chão, com vento forte acompanhando o conjunto, deixando tudo escuro e difícil de enxergar. Mas ao mesmo tempo, o calor lá estava insuportavelmente forte. Tão forte que a chuva evaporava assim que tocava o chão. Se o tamanho da luta não afugentasse os mortais, o calor certamente terminaria de fazer isso.
Trovões explodiam para todo lado começando incêndios que desafiavam a chuva quando alguma árvore ou arbusto era atingido. Era como se a natureza tivesse criado o próprio inferno pessoal no deserto sírio. No centro de todo esse caos, Hórus e Shu lutavam contra Tarhun, Ísis contra Arinna e Sekhmet contra Zababa, Tashimishu e Sandas, três deuses bélicos. Não havia nenhum sinal de Lelwani, o que Anúbis achou bom, e nas margens e tudo aquilo, protegendo o rosto com um braço e tentando não deixar o vento lhe carregar, estava Inara. Ela olhou para ele por um segundo, mas nada fez. Ela não parecia tão interessada em se julgar naquele caos.
Anúbis ignorou Inara agindo como uma mera expectadora, e foi até Sekhmet. O vento quase o carregava para longe, respirar naquele mormaço pesadíssimo era difícil, e ardia bastante quando a água tocava nas queimaduras que ainda não haviam sumido. Mas quando alcançou Sekhmet, ele se transformou em chacal e rapidamente foi na direção da garganta de Zababa.
Zababa gritou e o ataque deu à Sekhmet a chance de desferir um golpe bastante mortal em Sandas, que já estava numa situação muito ruim mesmo antes daquilo tudo. A espada de Sekhmet decapitou Sandas, seu corpo mole e sem vida caiu no chão e logo se misturou com a areia enquanto Zababa tentava se livrar de Anúbis preso em sua garganta. As presas de Anúbis rasgaram quando ele foi puxado para longe e caiu na areia, pronto para machucar Zababa ainda mais.
— Aceita dividir um pouco? — perguntou Anúbis para Sekhmet enquanto ele e Zababa se encararam.
— Com todo prazer. — disse Sekhmet no meio de uma ferrenha troca de golpes de espada contra Tashimishu — Mas achei que Hórus tinha acabado com esse maldito do Zababa, posso fazer as honras e você fica com o frouxo do Tashimishu?
— Ei! — reclamou Tashimishu.
— Pode ser. — respondeu Anúbis.
Sekhmet dançou ao redor de Tashimishu e lhe chutou poderosamente atrás dos joelhos. O deus caiu de joelhos, Sekhmet segurou uma risada, e Anúbis pulou em sua garganta antes que os joelhos tocassem a areia. Zababa tentou investir contra Sekhmet, mas ela dançou para longe do seu ataque e contra-atacou com sua espada.
Enquanto Tashimishu começava a se debater e o sangue divino dele manchava sua boca, não só machucando, como também putrefazendo tudo por ali, tudo que Anúbis conseguia pensar era como ele precisava de férias.
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