A Morte Das Areias do Saara

148 Tempestade no Deserto


Notas iniciais
Na imagem de hoje, o interior de provavelmente um templo ou palácio ou qualquer coisa grande do tipo, com grandes colunas e paredes pintadas com hieroglifos coloridos, alguns moveis de madeira, tapete e luz entrando de um portal.

Sua Majestade chegou à cidade de Kadesh, e agora o miserável Caído de Kadesh chegou e reuniu todos os países estrangeiros até o fim do mar; toda a terra de Khatti veio, a de Nahrin da mesma forma, a de Arzawa, Dardany, a de Karkisha, Luka, Kizzuwadna, Carchemish, Ugarit, Kedy, toda a terra de Nukhashshe, Mushanet, Kadesh; ele não deixou nenhum país estrangeiro para não trazê-lo de todas as terras distantes, com seus chefes lá com ele; cada homem com sua infantaria e suas carruagens excedendo muitos, sem limite de semelhantes. Cobriram montanhas e vales e eram como gafanhotos por causa de sua multidão. Ele não deixou prata em sua terra, despojou-a de todos os seus bens e os deu a todos os países estrangeiros para trazê-los consigo para lutar.

~ Fragmento de “Registro egípcio oficial da Batalha de Kadesh, Poema do Pentauro”

Com as presas gigantes para fora e os dedos da mão roçando no solo seco, Sekhmet encarava Zababa e rosnava para ele antes de pular com a boca escancarada em sua direção. Logo ao lado, o confronto entre Anúbis e Tashimishu, um dos vários deuses de guerra dos hititas, também continuava. Com a tempestade forte, os dois nem conseguiam ver onde estavam os demais e como iam as lutas deles.

Tashimishu, como registro de seus conflitos anteriores do dia tanto com Sekhmet como com outros deuses, já colecionava seu próprio álbum de cicatrizes e ferimentos. Dos quais, o mais doloroso era visivelmente um no antebraço, cuja carne tinha sido cortada profunda e dolorosamente, como se o braço fosse uma banana cuja casca havia começado a ser retirada. A pele que estaria frouxa devido ao corte estava, no entanto, amarrada ao braço, forçando-se a ficar conectada. Com certeza estava doendo, ainda assim, a luta continuava.

A lança de Tashimishu ia de encontro com o cetro de Anúbis e o sorriso no rosto do deus hitita dava a entender que ele esperava que o cajado logo iria se quebrar, por ser de madeira enquanto sua espada era de ferro, a novidade do século. Contudo, golpe atrás golpe, o cajado resistia sem grande dificuldade. A lança de Tashimishu cortava a chuva quando ele súbita e magicamente a trocou por uma espada em busca de atacar um ponto aberto na defesa de Anúbis num ataque mais curta distância.

Anúbis pulou para longe no último segundo, mas sentiu a lâmina raspar em seu abdômen, abrindo um pequeno corte do qual escapou um pouco de sangue prateado. Apenas algumas gotas. Mas ele não parou para analisar o fato, simplesmente invocou sua névoa e fez com que ela engolisse Tashimishu de baixo para cima.

O hitita soltou um pequeno resmungo quando uma dor lacerante e aguda subiu por seu corpo quando a ponta de seu dedão do pé tocou a névoa. Ele também pulou logo para longe. Contudo a névoa o seguiu com tranquilidade. Ele pulou mais uma vez para trás mas, dessa vez, quando a névoa o seguiu, Tashimishu sumiu dali e, no segundo seguinte, reapareceu atrás de Anúbis.

Obviamente, ele não deu tempo para Anúbis lidar com sua repentina aparição. Um pouco de mágica foi suficiente para atirar contra Anúbis dezenas de lanças. Mas tudo que elas encontraram foram mais névoa quando Anúbis se desfez nela. Essa névoa, mais rápida do que a primeira, rapidamente pulou na garganta de Tashimishu, e logo uma faixa de linho extremamente apertada se formou ali, enforcando o deus e putrefazendo onde tocava.

Tashimishu engasgava e tentava puxar a faixa enquanto Anúbis se materializava atrás dele, puxando a faixa para que ficasse cada vez mais apertada. O pescoço do deus ficava em tons nojentos de roxo, cinza e preto, quando Zababa acabou esbarrando atrás de Anúbis ao tentar escapar de um ataque de Sekhmet, fazendo ele deixar de puxar a faixa por alguns segundos.

— SEKHMET! — reclamou Anúbis dando para si uns segundos para chutar Zababa no meio das costas, fazendo o deus tropeçar e morder o lábio, segurando uma pequena reclamação de dor, pois o chute foi acompanhado de névoa — CUIDADO COM SEU ADVERSÁRIO!

— Não é culpa minha se ele se mexe tanto quanto um babuíno. — reclamou Sekhmet.

— Ei! — reclamou Zababa.

— Tô mentindo? — perguntou Sekhmet.

Os poucos segundos que Anúbis havia deixado de puxar a faixa, foram suficientes para Tashimishu colocar uma pequena adaga entre o pescoço e a faixa, na esperança de cortar a faixa. Afinal, os dedos claramente não estavam conseguindo afrouxar o aperto. Tal como o cetro, a faixa de provou mais resistente do que era esperado pelo material do que ela era feita, mas dessa vez, ao menos o linho estava de fato se desgastando com as tentativas de Tashimishu.

— Acho que essa foi uma ideia um tanto burra de sua parte. — disse Anúbis para Tashimishu.

Tashimishu quase ia perguntar porque, mas logo entendeu quando Anúbis apertou a faixa novamente e dessa vez a lâmina da adaga tentando cortar sua garganta se juntou à dor que já sentia anteriormente. Sangue começou a escorrer do ferimento que a adaga abria, Tashimishu sentia que logo seria uma competição entre morrer enforcado ou engasgando com o próprio sangue com a garganta cortada. Ambas as ideias, ele logo considerou jeitos muito idiotas para um deus morrer.

Querendo ter certeza que derrubaria o deus, logo Anúbis amarrou a faixa de linho também no braço terrivelmente ferido de Tashimishu. A faixa apertou o máximo que conseguia enquanto Anúbis ainda puxava da outra ponta. Tashimishu gritou devido a dor de ter o braço já terrivelmente ferido ser ainda mais espremido, e a névoa o rodeando, lutando contra o vento da tempestade, ia fazendo com que ferimentos aparecessem em todo o seu corpo. Mas era difícil controlar a névoa ali, aquela tempestade estava muito forte, então parte dela escapava, sem causar nenhum dano.

Talvez vendo a condição do deus, ou por um motivo completamente diferente, a tempestade que os envolvia ficou repentinamente bem mais forte. Anúbis sentia o vento tentando lhe carregar. Seus pés mexeram alguns centímetros e teve a certeza que se pudesse agarrar algo no chão com os pés tal como alguns primatas conseguiam fazer, teria o feito.

Magro como era, sem ter alternativa melhor, Anúbis se botou de joelhos na esperança de o vento fazer menos efeito nele. Mas ele puxou Tashimishu junto, derrubando o deus no chão. Lama voou para todo lado quando o deus caiu no chão e Anúbis se colocou enforcando-o com as mãos dessa vez, mas tomando cuidado com a adaga ali no meio.

Tashimishu, que não iria deixar as coisas acabarem assim, deu uma poderosa joelhada na barriga de Anúbis. Sentindo que iria botar todos os órgãos para fora, Anúbis tossiu. Com o aperto menor em seu pescoço, Tashimishu rolou para longe do deus egipcio e então se levantou de uma vez, com uma lança em sua mão, a qual usou prontamente para atacar Anúbis na esperança de arrancar-lhe a cabeça.

Contudo, Tashimishu havia subestimado o próprio equilíbrio ao levantar tão repentinamente em meio a uma tempestade com o vento tão poderoso. O vento lhe empurrou um passo trôpego e meio para trás. Consequentemente, a lança, que atacou muito tortamente, não arrancou a cabeça de Anúbis, como era o objetivo, mas foi capaz de abrir um corte visivelmente doloroso indo de sua orelha, passando por sua sombrancelha e terminando em sua testa.

O sangue prateado começou a jorrar sem parar dessa área, que normalmente sangra muito, forçando Anúbis a fechar o olho direito que foi coberto por uma cortina de sangue. Mas ele não ia deixar assim. Aproveitando o desequilíbrio momentâneo de Tashimishu, Anúbis pegou seu cetro e bateu como um forte ponteiro de relógio nas pernas do deus, derrubando-o mais uma vez no chão.

Lama voou para todo lado, se misturando nas roupas de Anúbis com os ferimentos e o sangue tanto dele como de outros adversários e até de mortais. Em seguida, tentou achar força dentro de si para invocar sua forma gigante de avatar. Mas, com o cansaço e a dor acumulada desde a luta contra Lelwani, logo viu que não tinha forças.

— Droga. — resmungou Anúbis enquanto Tashimishu começava a se ajoelhar.

— Vai mesmo ser uma luta no chão? — perguntou Tashimishu — Você já está bem acabado.

— Créditos mais para Lelwani, não para você. — respondeu Anúbis apoiando-se em seu cetro, mas não fazendo força alguma para se levantar.

— Se Lelwani perdeu, então ainda estou melhor que ela. — resmungou Tashimishu.

— Nah… Eu já estou cansado. Admito. Ela é uma adversária mais complicada que você. E você, os créditos vão pra quem do que estava antes, Sekhmet ou Hórus? — perguntou Anúbis — Imagino que lutou com ele antes também.

— Pff — menosprezou Tashimishu, logo cuspindo no chão encharcado pela chuva.

No segundo que o cuspe de Tashimishu tocou o chão, este se abriu nos joelhos de Tashimishu numa ferida torta e negra que logo ameaçou o engolir. Tashimishu tentou rolar para longe, mas faixas de linho surgiram do buraco profundo do corte no chão, e começaram a se amarrar ao deus, impedindo que ele fugisse e puxando-o cada vez mais para o buraco.

Tashimishu se segurava como dava na superfície. As mais variadas armas afiadas surgiam de seu corpo, cortando as faixas de linho gradualmente, mas outras logo surgiam para substituir as que eram cortadas.

— Desgraçado. — reclamou o hitita entre dentes, encarando Anúbis com raiva enquanto ainda resistia ser engolido pelo buraco.

Anúbis nada respondeu, estava usando toda sua força restante naquilo e no guerreiro de pedra com cabeça de chacal que invocou logo em seguida. O guerreiro surgiu do chão logo ao lado de Tashimishu e, na maior simplicidade, deu um chute na cara do deus. Os dedos do deus, que deixavam marcas no chão ao abrir pequenos buracos com a ponta de seus dedos e unhas ao tentar se segurar, logo deixaram o chão escapar.

O buraco negro com passagem direta para o submundo e as profundezas do Duat engoliu Tashimishu, que caiu gritando profanidades em neshite. O buraco então se fechou com um baque seco levando Tashimishu com ele. Uma preocupação a menos.

Anúbis olhou para onde antes estava o buraco por alguns segundos enquanto respirava um pouco. Sua mão então subiu para o ferimento na testa, tocando-o levemente e logo ficando ensopada de sangue prateado, que escorria tanto que já passava de seu pescoço. Então, o barulho do conflito entre Sekhmet e Zababa voltou a chamar sua atenção.

Ele olhou para os dois e viu que, apesar do vento forte, os dois lutavam de pé. Os golpes e passos podiam até ficar um pouco desengonçados devido ao vento, mas claramente eles eram orgulhosos demais para se render ao vento. Anúbis então olhou para o guerreiro de pedra que havia invocado, e disse:

— Procure Hórus nesse caos. Veja se quer ajuda para derrotar Tarhun. Essa tempestade já irritou e é com certeza coisa de Tarhun.

O guerreiro acenou respeitosamente com a cabeça e a mão no coração e então, abusando de seu corpo pesado de pedra, saiu correndo no meio da tempestade em busca do faraó dos deuses enquanto Anúbis se perguntava se o orgulho de Hórus aceitaria uma ajuda, e o de Sekhmet também para falar a verdade.

Sentindo saudades de quando estava desmaiado no chão, Anúbis se levantou novamente usando o cetro como apoio.

— Vai querer ajuda? — perguntou Anúbis para Sekhmet, sabendo que ela ficaria bem irritada se ele interrompesse sem permissão dela.

— Não. — respondeu ela sem tirar seus olhos do confronto com Zababa.

— Então tá. — disse Anúbis sentindo-se de fato aliviado de ela não precisar de ajuda.

— Tem certeza, Sekhmet? — perguntou Zababa ofegante enquanto as espadas de ambos se encontravam no meio do conflito numa competição de força.

— Tenho sim. — respondeu Sekhmet com seu sorriso ameaçador — Ainda estou pegando leve com você. Apenas me divertindo.

Zababa abriu um sorriso, duvidando da declaração de Sekhmet, mas ela prontamente afastou a espada dele com a própria espada. A espada de Zababa foi para o alto enquanto sua mão ainda a segurava firmemente. A barriga do hitita ficou exposta e, com a mão livre, Sekhmet usou suas garras para dilacerar a barriga do deus.

Sangue explodiu do ferimento, carne e sangue divino voaram para todos os lados, Zababa fechou o rosto numa expressão de dor. Os joelhos dele tremiam, mas Sekhmet não ligou, ela continuou o ataque girando o corpo e o braço mirando a ponta da espada na jugular de Zababa. No último segundo, Zababa viu o que ela fazia e tentou desviar dando passos apressados para trás. Sem forças, ele caiu no chão ao pelo menos desviar com sucesso.

— Você tem claramente tudo sob controle. — disse Anúbis — vou ver se Hórus precisa de ajuda porque essa chuva toda já me irritou.

— Vá. — disse Sekhmet tentando fincar a espada no estômago de Zababa, mas ele rolou para longe e a espada da deusa apenas encontrou a areia encharcada.

Ele sabia bem como Sekhmet lutava então sim, parecia de fato que ela não estava dando tudo de si. Então ele ficou tranquilo ao ir atrás de Hórus no meio daquela chuva acompanhada de um vento poderoso que tentava o levantar do chão. O cetro apoiado no chão já estava quase servindo como uma bengala contra o cansaço e o vento, quando ele sentiu um cheiro no ar que fez com que ele segurasse a respiração por um segundo.

Seu coração apertou e a força voltou para suas pernas ao sentir o cheiro de Kebechet no meio da chuva. Depois de um segundo de agradecimento ao olfato canino dos chacais, Anúbis começou a seguir o cheiro da filha desesperadamente. Já estava pensando em todas as piores possibilidades, mas não soube o que achar quando foi notando que ele parecia estar indo para fora do círculo de tempestade criado por Tarhun.

Estava lutando tanto contra a força do vento, que quando ela não era mais um problema, Anúbis quase caiu no chão devido a força exagerada usada contra nenhuma resistência. O cetro ajudou-lhe a parar a queda mas o olhar do deus estava focado em Kebechet, escondida inutilmente atrás de uma árvore magra demais para esconder sua figura. O olhar do pai era de alívio, o dela era de quem havia sido pega uma traquinagem, o que fez o olhar de Anúbis logo passar para uma curiosidade um pouco irritada.

— O que está fazendo aqui? — perguntou Anúbis.

— Tá tudo bem? — perguntou Kebechet vendo o corte na testa de Anúbis.

— Kebechet… porque está aqui? — perguntou Anúbis novamente.

— E-Eu queria ver a luta! — defendeu-se Kebechet — Para um dia poder ajudar.

— Eu não disse para você não vir? — perguntou Anúbis respirando profundamente.

— Na verdade, não. Não disse. — disse Kebechet com um sorriso torto.

O deus olhou para a folha por uns segundos enquanto repassava as cenas desde quando ele tinha ido lutar em Kadesh. De fato não tinha dito nada. Mas…

— Deveria ser óbvio a essa altura… — respondeu Anúbis.

— Não sou mais um bebê. — disse Kebechet.

— Tem 9 anos. — respondeu Anúbis.

— 54. — respondeu Kebechet.

— Eu tenho quase 2000 e isso não quer dizer muita coisa. — respondeu Anúbis — Não é bem assim que funciona. Sabe disso.

Kebechet suspirou decepcionada e cruzou os braços fazendo um biquinho de irritação para o pai. Anúbis suspirou, juntou toda a paciência que já tinha lhe deixado no decorrer das aventuras daquele dia, e olhou para Kebechet novamente.

— É perigoso. — disse ele.

— Eu sei. — respondeu Kebechet.

— Os deuses hititas estão com muita raiva. — completou ele.

— E tem alguém que vai pra guerra amigo e sem raiva do outro lado? — perguntou Kebechet.

— Vá ficar com Lorde Osíris ou com sua mãe… — disse Anúbis, quase implorando.

— Mas lá tá chato. — reclamou Kebechet.

— Eles sabem que você está aqui? — perguntou Anúbis.

— Não…. — disse Kebechet olhando para os próprios pés e então para Anúbis novamente — Vai realmente ficar aqui me dando bronca enquanto deve ter alguém precisando de ajuda?

— Você tá muito malandrinha e esperta pro meu gosto. — reclamou Anúbis suspirando pesadamente.

Kebechet claramente levou aquilo como um elogio, pois logo abriu um enorme sorriso.

— Quer dizer que eu posso ficar? — perguntou Kebechet com os olhos brilhando.

— Eu não disse isso.- respondeu Anúbis, firme — Vá para o Salão do Julgamento.

— Não… — resmungou Kebechet.

— Kebechet…. — disse Anúbis dando-lhe uma segunda chance.

— Não… — repetiu ela.

— Então tá… — disse ele repentinamente agarrando o antebraço dela e sumindo com ela dali rumo ao Salão do Julgamento.

— Por favor! Eu tenho que aprender né? — perguntou Kebechet entre o campo de batalha e o Salão — Pra que me colocaram pra treinar quando eu era mais nova então? Não treinei que nem vocês, que nem gostam tanto de ficar comparando.

— Kebechet? — perguntou Osíris ao ver os dois surgirem no Salão do Julgamento — Eu achei que tinha ido até Anput…

— É… Ela decidiu tirar o dia pra ser espertinha. — disse Anúbis, ele soltou ela e ela imediatamente saiu correndo, emburrada.

Anúbis suspirou de coração partido. Odiava dizer não para Kebechet. Mas pedir para se envolver numa guerra das proporções que Kadesh estava sendo já era demais. Vendo o olhar triste de Anúbis, Osíris se levantou de seu trono, foi até Anúbis e colocou a mão em seu ombro.

— Eu falo com ela. — prometeu Osíris — Vá resolver o que ainda estiver pendente.

— Não… eu vou… — disse Anúbis.

— Não tem que voltar lá pra cima? — perguntou Osíris.

— O tempo aqui passa mais devagar mesmo. — respondeu Anúbis indo atrás de Kebechet.

— Pelo menos limpe esse sangue todo no rosto. — falou Osíris enquanto Anúbis se afastava.

Ele seguiu os passos de Kebechet indo parar, não surpreendentemente, na sala das múmias. Magicamente então fez um pouco de linho, que usou para limpar o sangue do rosto e, depois de uma breve conferência de que o corte já tinha cicatrizado o suficiente para não produzir uma cachoeira em seu olho, ele sentou-se ao lado de Kebechet, que se encolhia num canto escuro abraçando os próprios joelhos.

Kebechet não chorava, o que ele já achou que era uma vitória, mas estava visivelmente emburrada, fazendo bico e não querendo olhar para ele. Anúbis então suspirou e coçou a nuca se perguntando como começaria a falar com ela.

— Eu sei que gosta de ajudar e participar… — disse ele.

— Então porque não me deixam? — perguntou Kebechet finalmente olhando para ele.

— Já não ajuda com a mumificação? — perguntou Anúbis.

— Mas eu quero ajudar mais! — insistiu Kebechet — Os outros também não ficam só cuidando dos seus trabalhos e pronto. Também foram lá pra Kadesh ajudar ou foram cuidar lá dos outros filhos do Ramsés II… mas cuidar dos filhos tava chato…

— E porque quer ir pra guerra então? Tem outros jeitos de ajudar. — perguntou Anúbis — Guerra é feia. Sangrenta. Nojenta.

— Eu já não vejo múmias aqui? Mortos de todo tipo? Que grande diferença tem? — perguntou ela.

— Lá também é perigoso. Ainda mais essa guerra em específico. — respondeu Anúbis.

— Eu sei… — disse Kebechet com um biquinho.

— Ainda não respondeu porque quer tanto ir pra guerra… — tentou Anúbis novamente.

Kebechet ficou em silêncio algum tempo e Anúbis pacientemente esperou pela resposta. Com a voz bem baixa e melosa, a garota finalmente respondeu:

— Não é por causa da guerra… — admitiu ela — Eu só queria ficar mais com você. Está sempre ocupado.

Aquilo acertou o coração de Anúbis como várias adagas incandescentes. Ele teve que se segurar muito para manter o autocontrole e não chorar mas, enquanto respirava fundo, passou o braço ao redor de Kebechet e a trouxe para mais pertinho, e ela logo se aconchegou naquele meio abraço.

— Desculpa… — disse Anúbis com a voz triste.

— Não precisa pedir desculpa. — disse Kebechet — Não é culpa sua. Afinal todo mundo morre e você tem que estar lá nos julgamentos.

— Ainda não me isenta de culpa. — respondeu ele — Vou tentar.. Não.. tentar não… vou administrar melhor o tempo.

— Tá tudo bem… — resmungou Kebechet.

— Não está não. — insistiu Anúbis — Quando terminar essa confusão toda, já vou falar pra Hórus que vamos tirar umas férias nós três por vários dias e ele que aguente.

— E os mortos? — perguntou Kebechet — Logo deve chegar um monte dessa batalha.

— Enquanto eles não chegam… — disse Anúbis — E depois que as coisas normalizarem vamos sair de novo… pra praia talvez. Gosta da praia né?

— Gosto! — disse Kebechet com os olhinhos brilhando — Podemos ir naquele Oásis engraçado de Siwa também? O que não tem como afundar direito por causa do tanto de sal.

— Com certeza. — respondeu ele com um sorriso — Vá pensando já para onde quer ir. Norte? Sul? Leste? Oeste?

— Todas as opções! — disse Kebechet energeticamente.

— Será que temos tempo pra tanto? — perguntou Anúbis dando uma pequena risada — Vamos dar um jeito.

— Promete? — perguntou Kebechet.

— Prometo. — disse Anúbis.

— Então vamos logo acabar lá com a briga pra sairmos logo de férias! — pediu Kebechet.

— Justo. — disse Anúbis — Vou te levar também, mas se ficar muito perigoso você volta pra cá sem eu ter que pedir duas vezes. E não saia de perto de mim. Entendido?

— Entendido! — respondeu Kebechet.

Com as pazes feitas, os dois voltaram para Kadesh. Cumprindo sua promessa, Kebechet ficou bem pertinho de Anúbis quando os dois se aproximaram da chuva, que agora estava bem mais fraca, tanto que eles não tinham dificuldade alguma em ver Sekhmet destroçando o que restava de Zababa e Hórus numa luta intensa com Tarhun, que não parecia mais tão bem.

Quanto aos mortais, eles nem prestaram tanta atenção, mas estava claramente sendo uma briga do resto da energia egípcia, tentando entrar em Kadesh. Provavelmente não iria durar muito e iriam trocar para apenas cercar a cidade, impedindo que fosse devidamente reabastecida.

— Parece que tá ficando tudo bem, né? — perguntou Kebechet.

— Não sei… Shu estava aqui antes… — respondeu Anúbis — Ajudando Hórus… E Set antes tava com Arinna e depois era Lady Ísis… nenhum sinal dos três… já tá difícil de acompanhar. Ainda mais antes com a chuva toda atrapalhando a visibilidade. Setne e Pareherwenemef ainda estão com Thoth?

— Acho que sim. — respondeu Kebechet — Ao menos até quando eu saí, estavam.

— Fica atrás de mim. — disse Anúbis enquanto se aproximava cautelosamente de Hórus no resto de sua luta contra Tarhun.

Kebechet se encolheu atrás do pai, que andava segurando seu cetro pronto para entrar em combate. Anúbis ainda estava cansado, mas com Kebechet ali, parecia ter encontrando forças de algum lugar. Com o canto do olho, Anúbis notou Zababa sumindo e Sekhmet rugindo em vitória, mas continuou a andar. Quando ainda faltava alguns metros até Hórus e Tarhun, e a chuva já não passava de uma garoa, repentinamente, num redemoinho de areia, Set, Arinna e Ísis surgiram numa batalha frenética, misturando uma tempestade de areia própria com a garoa que já acontecia.

Arinna era como uma bola de fogo que já estava falhando. Ela brilhava, mas seu brilho piscava como uma lâmpada a caminho de quebrar, mas isso não significava que ela não conseguia rebater os ataques de Ísis e Set. O fogo de Arinna se misturava com a areia de Set, e então com relâmpagos de Ísis, criando um redemoinho ameaçador. O redemoinho foi crescendo sem controle, interrompendo os restos da batalha de Hórus contra Tarhun.

Anúbis já segurava o braço de Kebechet para saírem dali, quando aquele redemoinho explodiu, empurrando todos os deuses ali presentes para longe. Contudo, talvez um segundo tarde demais, Anúbis conseguiu carregar ele e Kebechet para longe dali. Os dois caíram de qualquer jeito num morro de areia, não tão longe assim dos arredores da batalha.

— Tudo bem? — perguntou Anúbis para Kebechet depois de cuspir um pouco de areia enquanto ambos estavam sentados na duna.

— Tudo bem. — disse ela com um sorriso, mas logo ficando séria — Será que os outros estão bem?

— Olha Sekhmet ali. Ela parece bem. — disse ele apontando para mais adiante, já quase no limite do exército egípcio cercando Kadesh, onde a deusa leoa se erguia fracamente — E…

Anúbis parou de falar ao ver Tarhun, com braços que iam até o cotovelo e pernas até o joelho, largado no chão entre onde eles estavam e Sekhmet. Os membros do deus claramente tinham sido cortados provavelmente por Hórus. Anúbis deu uma breve olhada para o conflito que acontecia entre Set, Ísis e Arinna e, sem nenhum sinal de Hórus, decidiu ir até Tarhun.

— Fique aqui. — disse ele.

— Certo. — respondeu ela.

Com cautela, Anúbis foi se aproximando de Tarhun, mas não sem antes dar uma breve olhada para Kebechet, para certificar-se de que ela estava mesmo parada. O deus hitita gemia de dor quando, dos céus, quase caindo em meio à um voo dolorido com asas feridas com penas faltando, surgiu Hórus.

— Pode deixar, eu cuido dele. — disse Hórus se transformando e então mostrando que os braços e uma das pernas estavam tão machucados que era incrível que ele ainda conseguisse os mexer.

— Certeza? — perguntou Anúbis.

— Pode amarrar ele então? — perguntou Hórus — Sei que ele não parece estar num estado que possa causar muita preocupação, mas esse maldito já me irritou o suficiente por hoje.

Cansado, e lutando contra a vontade de se sentar ali mesmo, Anúbis prendeu Tarhun em faixas de linho, enrolando-o tal como uma múmia mal feita. Ele deu uma olhada para Kebechet, obedientemente esperando onde ele pediu para ela ficar, mas olhando preocupada tanto para a situação com Tarhun, quanto para a luta frenética entre Set, Ísis e Arinna.

— Vai matar ele? — perguntou Anúbis olhando para Hórus e apontando Tarhun com o nariz.

— Não ouse! — resmungou Tarhun entre dentes e com raiva.

— Ah se não quer tanto assim morrer então vai ser fácil fazer você colaborar comigo. — disse Hórus — Arinna também tá ficando em desvantagem então… recomendo se apressar.

— O que está sugerindo? — perguntou Tarhun.

— Um acordo de paz… o que acha? — perguntou Hórus pegando um papiro do nada, o qual se abriu com as bordas brilhando, mostrando que era claramente mágico.

— Thoth? — perguntou Anúbis.

— Minha mãe na verdade… — disse Hórus — De toda forma, caso não tenha ficado óbvio, é um acordo mágico que obriga ambas as partes a cumprirem o que está escrito pelo tempo determinado. E não vai querer testar o que acontece se o quebrar.

— O que está escrito e quanto é esse tempo? — perguntou Tarhun.

— Só uns 500 anos. — disse Hórus dando de ombros e escondendo a dor que isso lhe causou.

— É tempo demais. — reclamou Tarhun.

— Talvez para bebês como vocês. — disse Hórus — Continuando… também está escrito que não vão se intrometer tão diretamente em conflitos armados internacionais ocasionados inteiramente pelos mortais e não como consequência de alguma ação divina acidental.

— E proposital? — perguntou Tarhun.

— Aí seria o mesmo que se intrometer de qualquer jeito, não? — perguntou Hórus — Seria criar uma confusão de propósito só pela guerra. Achei que fosse mais inteligente Tarhun.

— E se eu não assinar? — perguntou Tarhun.

— Acha que Arinna consegue mesmo ganhar de Set e Isis? — perguntou Hórus numa surpresa encenada mas cheia de um fundo de verdade.

— Sekhmet está indo pra lá também. — disse Anúbis acompanhando a deusa leoa indo pra lá mesmo — Não que pareça que precisa… Arinna nem está brilhando mais.

— Tá… — resmungou Tarhun — Posso ter um braço pra fora dessas faixas então?

— Acho que não tem uma mão em nenhum braço seu ainda não… — disse Anúbis.

— Quer assinar com a boca? — perguntou Hórus.

— Está querendo me humilhar né? — perguntou Tarhun enquanto Hórus colocava o pincel na boca de Tarhun e aproximava o papiro.

Tarhun percorreu o documento com o olhar, atestando o texto escrito ali e olhou para Hórus.

— Não tem como diminuir para uns 300 anos não? — perguntou com dificuldade enquanto balanceava o pincel na boca.

— No que quer se meter nos assuntos mortais? 450. — sugeriu Hórus.

— Não sei o que o futuro reserva… Não me culpe por ser cauteloso. — disse Tarhun — 350.

— Se tentar diminuir de novo eu termino o serviço com você e Arinna. — disse Hórus — 450.

Tarhun voltou a olhar para o documento, cujo número de seu prazo de validade magicamente mudou e então, com dificuldade, tracejou seu nome rudemente no papiro. Quando terminou, ele olhou para Hórus, que pegou o pincel e assinou logo ao lado. Então, o faraó dos deuses gritou para os que ainda lutavam.

— Joguem Arina para cá. Acabou aqui. — gritou Hórus e então olhou para Anúbis e falou mais calmamente — Pode soltar ele.

— Outra coisa… — disse disse Anúbis enquanto as faixas de linho se soltavam magicamente — A partir de agora estou tirando um mês de férias. Não estou perguntando.

— M-Mas… que? — perguntou Hórus, perdido, mas Anúbis já andava até Kebechet enquanto Set e Isis carregavam Arinna, acabada, até Tarhun e Hórus — Mas e os mortos? Olha o tanto de gente que morreu aqui! E os mortais ainda estão cercando Kadesh. E ainda temos que apagar as memórias deles pra não lembrarem da nossa luta.

— Você não precisa de mim para nenhuma dessas coisas e vai demorar bem mais que um mês até todo esse pessoal chegar no Egito, ser mumificado e as almas chegarem no Salão do Julgamento. — respondeu Anúbis em alto e bom tom enquanto ia até Kebechet.

Anúbis pegou a mão de Kebechet e os dois sumiram dali, deixando um Hórus e Tarhun chocados com a cena, principalmente Hórus. Anúbis e Kebechet então surgiram novamente no teto do palácio de Ramsés II, a vários quilômetros de Kadesh. Nos cômodos do palácio, ouviam facilmente crianças de todas as idades correndo, brincando, brigando e chorando com as mães e babás cuidando delas. Com certeza os cada vez mais numerosos filhos de Ramsés II. Eles continuaram a andar pelo telhado, até cruzaram com um gato que morava ali e os olhou com olhos intensos enquanto fazia sua caminhada pelo telhado.

— Como ele subiu aqui? — perguntou Kebechet — Não sabia que tinha alguma coisa escalável até aqui.

— Claramente ele achou alguma então. — disse Anúbis.

Repentinamente então Kebechet saiu correndo na mesma direção em que iam, pois mais além estava Anput e Nefertem e os dois tinham acabado de ver Anúbis e Kebechet se aproximando. Em pontos mais distantes do palácio, até podiam ver a silhueta de outros deuses, mas Anput era tudo que importava no momento.

— Acabou? — perguntou Anput ao ver os dois e Kebechet prontamente a abraçar.

— A parte que me importa sim… — respondeu Anúbis.

— Como assim a parte que te importa? — perguntou Nefertem.

— Os mortais ainda estão lutando… na verdade estão fazendo um cerco em Kadesh… — explicou Anúbis — E Hórus e os outros ainda estão cuidando de uns detalhes, mas a luta divina em si, acabou.

— Então vamos sair de férias! — declarou Kebechet.

— Sério? — perguntou Anput surpresa, olhando de Kebechet para Anúbis — Para onde vamos então?

— Podemos começar com Siwa? — perguntou Anúbis — Preciso de um tempo de descanso de verdade primeiro… um oásis viria bem a calhar.

— Siwa! — exclamou Kebechet.

— Siwa então. — disse Anput — Realmente parece precisar descansar… está todo sujo e machucado.

— Vamos arrumar isso mesmo… — disse Anúbis, visivelmente cansado.

Anput então entrelaçou os dedos com ambos e logo sumiram dali, em direção aos Oásis de Siwa.

Notas finais
*** UM POUCO DE VIDA REAL *** Um detalhe que acho que já comentei mas queria relembrar, sim os egípcios já tinham um conceito de férias. Assim como de “mês”, que tinha 30 dias, assim como o ano já tinha 365 dias, só que com 12 meses de 30 dias e aí 5 dias perdidões no final kk **** REFERÊNCIAS **** Poema do Pentauro - https://www.worldhistory.org/article/147/the-battle-of-kadesh--the-poem-of-pentaur/ Poema do Pentauro - https://www.jstor.org/stable/528771?seq=2 A batalha de Kadesh - ht umtps://en.wikipedia.org/wiki/Battle_of_Kadesh Táticas de cerco egípcias - http://www.touregypt.net/featurestories/siegewarfare.htm Ramsés II - https://www.worldhistory.org/Ramesses_II/ Arinna - https://en.wikipedia.org/wiki/Sun_goddess_of_Arinna