A Morte Das Areias do Saara
149 Dentre Férias e um Cerco
Notas iniciais

Agora, o miserável de Khatti, junto com muitos países estrangeiros que estavam com ele, permanecia escondido e pronto para o nordeste da cidade de Kadesh, mas Sua Majestade estava sozinho com seus seguidores, o exército de Amon marchando atrás dele, o exército de Rá cruzando o vau na vizinhança ao sul da cidade de Shabtuma a uma distância de 1 iter de onde Sua Majestade estava, o exército de Ptah estando ao sul da cidade de Aronoma e o exército de Set marchando ao longo da estrada , e Sua cidade de Aronoma e o exército de Set marchando ao longo da estrada, e Sua Majestade formou a primeira força de batalha com todos os líderes de seu exército, e eles estavam na costa da terra de Amor.
~ Fragmento de “Registro egípcio oficial da Batalha de Kadesh, Poema do Pentauro”
O dia seguinte logo raiou em Kadesh, mas a situação não era das melhores. O exército egípcio rodeava a cidade, cercando-a e impedindo que qualquer coisa ou pessoa saísse ou entrasse lá. Mas eles também não estavam nas melhores condições. O exército podia até estar finalmente completo, mas estava cansado, com várias baixas e feridos. Largado numa cama improvisada dentro de sua tenda, Ramsés II, tentava pensar nos próximos passos enquanto também tentava se recuperar dos ferimentos e do cansaço. Estava exausto e enquanto pensava, notava algo estranho em suas memórias, parecia que algo faltava. Seria o cansaço?
Ao lado do faraó, Antam-Nekt, seu fiel leão, estava cochilando e tal como o faraó, várias bandagens cobriam seu corpo onde havia se machucado. Além disso, largados no chão no monte de travesseiros postos sobre um tapete, estavam os quatro príncipes, também dormindo. Tinham suas próprias camas em outras tendas, mas queriam ficar perto do pai.
Ramsés II olhou para os filhos, aliviado dos quatro ainda estarem ali, mas também olhou com estranhamento. Porque tinha a sensação de que dois deles ficaram bem longe dele por várias horas no dia anterior? Não simplesmente em algum lugar do campo de batalha, mas sim bem longe de si. Sentia que sua curiosidade estava tocando algo que não deveria lembrar, algo que não deveria ser de seu entendimento, algo perto dos deuses. Deveria ter parado, mas ele continuou tentando lembrar.
O clima em Kadesh era de tensão e cansaço, mas dessas duas emoções, só uma se refletia a quilômetros de Kadesh, no oásis de Siwa. Nas águas cristalinas de um oásis, Anúbis estava boiando tranquilamente, com olhos fechados, aproveitando um merecido descanso. O cansaço ainda tomava conta de seu coração, mas o relaxamento e a calma se tornavam cada vez mais presentes. A maior parte dos ferimentos dele já tinha sarado, os que restavam não passavam de cortes pequenos que com certeza iriam sarar nas próximas horas, mas era exatamente devido a esses ferimentos que evitou os oásis mais salgados de Siwa, que tanto lembravam o Mar Morto.
Nas margens do Oásis, Kebechet estava de cócoras, tentando convencer uma família de fenecos a comer um punhado de tâmaras. A menina esticava lentamente a mão repleta das frutas, que eram o orgulho da agricultura de Siwa, e esperava a reação da família de pequenas raposas do deserto, brancas e laranjas com enormes orelhas.
— Devíamos fazer isso mais vezes. — disse Anput, logo ao lado de Anúbis, olhando hora para Kebechet e hora para o marido.
— Uhum… — concordou Anúbis em nem abrir os olhos.
— Então, já pensou qual vai ser o lugar que vai escolher para visitar? — perguntou Anput passando os dedos pelos cabelos dele — Eu e Kebechet já escolhemos os nossos.
— Hm… tem uma tumba… — respondeu ele sem abrir os olhos, aproveitando o cafuné.
— Bem sua cara. — disse ela deixando uma pequena risada escapar.
— É bem pro nordeste… — respondeu ele — Lá em Armorica…
— Já fomos mais longe… — disse Anput.
— Ele decidiu para onde vamos? — perguntou Kebechet, que depois de convencer os feneco a pegarem as tâmaras, os deixou para trás na beira do oásis e foi se juntar com os pais.
— Armorica. — respondeu Anput.
— Mas vai ter cidade? — perguntou Kebechet — Ou só plantação e as casinhas por perto das plantações?
— Se dermos sorte, podemos contar com algum vilarejo… — respondeu Anúbis finalmente abrindo os olhos e deixando de boiar para ver Kebechet pensando no roteiro do passeio — Está querendo alguma cidade?
— Queria… mas minha melhor ideia foi a Babilônia… — admitiu Kebechet — Mas eu já fui lá no começo do ano com a mamãe…
— Podemos tentar aquele reino lá que Thoth mencionou… — disse Anput e Anúbis olhou para ela sério — Quê?
— Não sabemos praticamente nada de lá. — respondeu Anúbis — Nem se somos bem-vindos.
— Não fomos pro vale do Indo uma vez séculos atrás? — perguntou Anput.
— Aquilo foi diferente. — respondeu Anúbis — Estávamos só nós dois e, por mais que pouco, os dois povos já tinham tido algum contato mesmo que indireto. Esse tal de Shang está muito longe.
— Considere então como também meu destino escolhido para essas férias. — sugeriu Anput.
— Dois contra um é injusto. — respondeu Anúbis.
— Façamos assim então…. — sugeriu Anput — Amanhã vamos pra Armorica e depois nos preocupamos se vamos para Shang ou não.
— Pode ser. — disse Anúbis.
Kebechet olhou para os dois, sérios, e então, mordendo o lábio inferior não gostando de ver eles assim nas férias, jogou água nos dois. Os dois até ficaram chocados por uns segundos, mas Anput logo revidou. Já Anúbis, ele mergulhou e, enquanto Kebechet estava ocupada, rindo, se protegendo e revidando da água jogada por Anput, ele alcançou a filha e rapidamente agarrou-a pelo tórax, levantou-a para fora da água ao sons das risadas dela, e a jogou pra longe, num ponto devidamente fundo do oásis, enquanto ela gritava e ria:
— Não vale!
— Claro que vale. — respondeu Anúbis enquanto Anput ria.
Kebechet nadou, tentando se esconder um pouco antes de executar sua vingança. Repentinamente então, ela surgiu na superfície novamente e começou a bater os pés, sem sair do lugar, na direção dos pais, jogando assim bem mais água do que da primeira vez.
— Não vale porque eu não consigo imitar! — declarou ela enquanto atacava com a água de seus pés — E também é dois contra um.
— Você que comprou a briga. — respondeu Anúbis, com os braços semi-erguidos se escondendo da água jogada por Kebechet, segundos antes de mergulhar para repetir o arremesso de criança de antes.
Em Kadesh, com a dor de membros doloridos e feridos, Ramsés II saiu lentamente da cama. Deixando para trás os filhos e o leão exaustos, o faraó foi até a frente de sua cabana, onde um de seus generais e alguns soldados garantiam a segurança do faraó e sua família.
Junto com o general, o faraó olhou para a situação de seu exército, exausto, machucado, parcialmente morto e inteiramente em luto. Olhou também para os muros altos de Kadesh, muros que não conseguiam ultrapassar e nem tinham mais forças para tentar. O exército no alto de Kadesh encarava seu exército no chão e vice versa. Difícil saber quem estava mais exausto e quanto tempo duraria aquele certo.
— Alguma ideia de como passarmos o muro? — perguntou Ramsés II.
— Até agora, nada, meu faraó. — respondeu o general.
— Espero não ter que recorrer a minha última ideia. — admitiu o faraó, decidindo por andar dentre os seus homens lhes dando força.
— Favor não vá tão perto dos muros de Kadesh, Vossa Majestade. — disse o homem, sinalizando para um soldado seguir o faraó tal como ele mesmo o faria — Eles podem muito bem lançar uma flecha mortal contra o senhor.
— Se eles ainda tiverem alguma a essa altura. — disse Ramsés II, apesar de ter dado uns passos para trás, de volta a sua cabana, para pegar seu escudo, por precaução, antes de ir falar com os homens.
Quando o sol se pôs no Egito, os soldados em Kadesh ficaram mais atentos, pois a escuridão podia trazer muitos perigos. Mas em Siwa, tudo estava mais tranquilo. Uma fogueira solitária tinha suas chamas refletidas no oásis da pequena cidade mais além, ao redor dela, Anput e Anúbis estavam sentados, cada um concentrado em algo enquanto Kebechet estava logo ao lado, tentando dar uma de acrobata.
De pé, Kebechet erguia seus braços para o céu estrelado e inclinava seu corpo lentamente para trás, até começar a olhar para trás nesse processo de fazer uma ponte com o corpo. Ela coloca então os dedos no chão, o corpo parecendo um semicírculo um tanto oval com sua barriga no topo sendo iluminada pela lua. Enquanto isso, Anput estava toda concentrada em re-trançar seus cabelos e Anúbis tentava usar todas suas habilidades manuais, que se resumiam em preparar corpos, para, usando fibras de papiro comprimido e pedaços de couro, fazer uma pequena bola levemente oval, praticamente do tamanho de uma bola de sinuca.
— Acabei! — declarou ele, vendo seu trabalho — Não é nada profissional mas…
— Deixa eu ver. — disse Kebechet, chutando suas pernas no ar para então, depois que apenas suas mãos ficaram no chão, finalmente se levantar.
— Ah, ficou boa… — respondeu Anput enquanto Kebechet se sentava logo ao lado de Anúbis e olhava para a pequena bola.
— Sim. Ficou legal. — respondeu Kebechet — Vai dar para jogarmos hoksha amanhã então. Posso pintar então? Até amanhã já vai ter secado…
— Pode. — respondeu Anúbis entregando a pequena bola para ela.
— Vou pegar minhas tintas e volto. — respondeu Kebechet rapidamente sumindo dali.
Anúbis quase deitou na areia para aproveitar a brisa da noite e a beleza das estrelas, mas então olhou para Anput em sua infinita missão de fazer várias trancinhas nos cabelos. Ela ainda nem tinha alcançado a metade de seu longo cabelo cacheado.
— Quer ajuda? — perguntou ele.
— Se você tivesse perguntado isso uns 100 anos atrás, sabe que a resposta seria não né? — perguntou ela, rindo.
— Óbvio. — disse ele — Você só ia ter retrabalho fazendo as tranças feias que eu ia fazer.
— Mas acho que você aprendeu bastante a arte de trançar cabelo com a Kebechet. — brincou Anput falando pomposamente como se aquilo fosse uma grande conquista.
— Obrigado. — respondeu ele — Não foi fácil.
— Imagino. — disse ela separando já uma mecha de cabelo para ele — Sendo assim, sim, hoje você pode ajudar. Pode fazer essa metade aqui?
— Claro. — respondeu ele chegando mais perto e pegando metade do cabelo dela — Tentar pegar o mesmo tanto de cabelo para cada trança que nem essas que você já refez né?
— Isso. — confirmou Anput — E não esquece de seguir as linhas. Tem dois pentes aqui.
— Peguei as tintas! — declarou Kebechet reaparecendo ali naquele momento, mas logo deixando elas de lado na areia ao ver o que eles estavam fazendo — Também quero ajudar.
— Pode? — perguntou Anúbis para Anput.
— Pff. Ela faz trança melhor que você. — disse Anput — Divide metade desse cabelo todo que te dei com ela.
Nem precisava Anput falar, Kebechet já sentada do ladinho do Anúbis para dividir cabelo com ele. E daquele jeito, com um aproveitando a presença do outro, a pequena família passou a noite até que mais um dia. Trançar cabelo era complicado e o cabelo de Anput era grande, então eventualmente Kebechet cansou e pousou a cabeça no ombro do pai, onde ficou apenas vendo os dois continuarem a trançar os cabelos de Anput. E no dia seguinte, quando o sol já atingia seu ápice mais alto naquelas terras, Anúbis, finalmente curado, já estava longe dali com as duas.
Ele, Anput e Kebechet se viram numa pequena ilha cujo continente parecia lentamente engolir com terras a circulando por quase todos os lados. O mar de Armorica era lindo, azul bem escuro, com a vegetação verde fazendo um contraste lindo. Um dia, aquele pedaço de terra faria parte de um país cujas praias ao sul teriam muito mais mérito que aquela em que a pequena família estava. Mas ainda estava bem longe para Armorica ser parte das várias terras que um dia se chamariam França.
No meio da ilha, havia uma pequena construção circular feita de várias pedras sobrepostas até parecer um pequeno morro. Tanto parecia um morro que a própria natureza já parecia estar engolindo a pequena construção. O único lugar com pedras maiores era a entrada, onde duas pedras maiores na vertical seguravam uma terceira na horizontal.
— Não sabiam cortar pedra ainda talvez? — questionou Anput, passando gentilmente a mão sobre uma das pedras perto da entrada — São claramente de qualquer lugar da natureza, não preparadas para a construção.
— Acho que não sabiam mesmo… Ou talvez não sabiam cortar reto… — disse Anúbis se aproximando da entrada, abaixando a cabeça para passar pelo pequeno portal que provavelmente só Kebechet conseguiria passar sem abaixar a cabeça.
As duas seguiram Anúbis, mas logo pararam quando ele também parou, no meio do corredor já engolido pela escuridão. Com uma chama magicamente acesa, Anúbis fitava os estranhos desenhos que cobriam as paredes da tumba de teto baixo. Não havia nada que fosse reconhecível nos desenhos neolíticos do começo da cultura bretanha, como humanos ou animais, apenas círculos e espirais que se contorciam e enfeitavam belamente a pedra. De certa forma, parecia até as marcas de uma impressão digital.
Uma curiosidade sem explicação tomou conta de Anúbis, querendo que ele tocasse as linhas belas e sem sentido, mas ele parou antes dos dedos tocarem a pedra fria, pois sabia que não ia gostar que fizessem o mesmo com as tumbas espalhadas pelo Egito com também obras nas paredes. Com cabeças e ombros abaixados, desviando de uma ou outra cerâmica rudemente feita e quebrada esquecida no chão, eles foram seguindo os desenhos, eventualmente reconhecendo algumas figuras.
— Isso parece um machado… — sugeriu Anput.
— Aqui… uma cobra. Não parece? — perguntou Anúbis.
— São bem simples né? — perguntou Kebechet — Não dá pra ter muita certeza de nada… Mas esse aqui me lembrou umas melancias cortadas.
— Ah! Aqui! Pessoas! Não? — perguntou Anput apontando para uma parte dos desenhos — Ao menos parece… vários rostos com olhos e narizes. Muita coincidência pra ser só vários círculos com algumas linhas no meio.
— Faz sentido. — respondeu Anúbis, tal como Kebechet, se aproximando de Anput para ver os desenhos que ela indicava.
O corredor de entrada não era tão grande assim, logo os três estavam numa área um pouco maior e circular, com o teto levemente mais alto, na qual eles não entraram tanto assim, ficaram logo na beirada da entrada dessa área. Afinal, os três sentiram um pequeno arrepio ali, e Anúbis sentiu mais ainda o que havia escondido embaixo daquela terra, afinal, era uma tumba.
— Aqui estão enterradas as pessoas né? — perguntou Kebechet.
— Sim… — respondeu Anúbis — Mas não tem nada aqui tentando preservar os corpos deles, tal como fazemos. E com um ambiente desses… não falta mais muito para não sobrar mais nenhum traços deles…
— Que triste… — respondeu Kebechet.
Num piscar de olhos então, do outro lado do cômodo circular no qual os corpos desapareceriam para sempre, apareceu uma figura que quase parecia fazer parte da escuridão. Um robe preto cobria o seu corpo, e um grande chapéu negro com abas largas escondia a maior parte do seu rosto. Seu queixo, pescoço e mãos, contudo, estavam bem visíveis, especialmente considerando que ele segurava uma voice. Ele era um mero esqueleto, Ankou, um servo da morte.
O Ankou se curvou profundamente para os três, disse algo num idioma que nenhum dos três entendeu, mas que lhes soou bem respeitoso, e então sumiu, deixando-os sozinhos novamente na tumba neolítica. Os três ficaram em silêncio por uns segundos, mas logo deram as costas para o centro da tumba, e saíram dela, deixando o sol os abraçar.
— Uma visita perfeita… — disse Anput para Anúbis — Até o deus herdeiro dessa tumba, talvez da morte, ou qualquer título parecido veio te receber.
— Queria saber o que ele disse. — respondeu Anúbis dando uma última olhada para a entrada da tumba.
— Tem algo mais aqui na ilha para ver? — perguntou Kebechet — Queria ver como é o vilarejo aqui perto também…. Deve ter algum aqui perto né? Se tem mortos, também têm vivos.
— Esses mortos são de muito antes de qualquer vivo que esteja vivendo pelas redondezas agora. — disse Anput — E também… a ilha parece vazia.
— As pirâmides também são de muito antes do povo de Mênfis… — lembrou Anúbis dando de ombros.
— Certo, você ganhou. — respondeu Anput — Vamos ver se conseguimos passear disfarçadamente pelo vilarejo. Quer ver alguma coisa por lá?
— Alguma fruta diferente para experimentar seria legal. — disse Kebechet — Mais que isso é pedir demais né?
— Provavelmente. — responderam Anúbis e Anput ao mesmo tempo.
Ainda em Karnak, mesmo que lidando com um novo dia, Ramsés II aproveitava um raro momento de privacidade em que os filhos estavam ocupados com alguma tarefa pelo acampamento militar, para ficar sozinho em sua tenda. Isso é, sozinho com o leão. Ele se sentou no chão, dentre algumas almofadas e Antam-Nekt foi até ele, deitando logo ao seu lado como se fosse um simples gato doméstico. Então, pela talvez centésima vez naqueles últimos dias, tentou entrar em contato com Amon-Rá.
— Eu clamo a ti, Amon-Rá… — sussurrava Ramsés II — Há dias que teu silêncio me envolve como trevas. Vários dos nossos foram enviados à Osíris recentemente… Estou cansado, perdido e… se me permite a audácia… preocupado por ti…
Ele esperou alguns segundos, mas não ouviu nada. Mas esperou, com expectativa e um peso no peito, até que a voz de Amon-Rá finalmente lhe respondeu.
— Ah… Q-Quem? — disse Amon-Rá lentamente — Estava tirando uma soneca…
— Amon-Rá! — exclamou Ramsés II repentinamente devido ao susto.
— Quem é Amon-Rá? — perguntou o deus, deixando Ramsés II extremamente pálido.
— O… o senhor é Amon-Rá… — disse Ramsés II, gaguejando, depois de alguns segundos incrédulo enquanto pensava no que fazer, Amon-Rá claramente não estava bem.
— Sou? — perguntou Amon-Rá, parando por uns segundos — Ah! Sim! Sou! Sou sim! E você é Ramsés… o pai de Seti I…
— Ahm… quase… — respondeu Ramsés II — Sou o Ramsés II, filho do Seti. Esse Ramsés de quem fala era meu avô.
— Avô? Mas ainda é um jovem… é muito novo para ter netos já… — disse Amon-Rá.
— Não… eu sou Ramsés II, não o Ramsés I. — tentou Ramsés II novamente enquanto já rodeava sua tenda desesperadamente com o olhar em busca de uma coisa específica — Esse de quem fala é meu avô e eu sou o neto dele. Ele já morreu há alguns anos… e não era tão novo.
— Aaaah… sim sim, claro. — disse Amon-Rá, agora aparentando meio sem graça — Estava apenas brincando. Lembro de tudo bem.
Mas Ramsés II já havia dado os quatro rápidos passos que os separavam de onde estava, de uma pequena estátua de Hórus de pouco mais de um palmo de altura. Por um breve segundo, Ramsés II se perguntou se precisaria de incenso acesso, achou melhor apostar no excesso do que na falta, assim, pegou uma pequena vareta de madeira largada dentre várias outras ao lado do pote de incenso, e sem dar explicações a ninguém, saiu de sua tenda e foi correndo até a fogueira na qual parte de seus soldados se reuniam, conversando e esquentando comida.
— Faraó? Está tudo bem? — perguntou um deles enquanto o faraó acendia sua vareta e, com cuidado para proteger a pequena chama, ele voltou para o caminho que levava a sua tenda.
— Vossa Majestade? — perguntou o soldado logo ao lado da entrada da tenda.
— Não deixe ninguém entrar. Nem os meninos. — respondeu Ramsés II rapidamente ao se fechar na tenda novamente, sem prestar atenção no leão, que apenas o seguiu com o olhar, sem mal se mexer.
— Sim senhor… — respondeu o soldado, achando o comportamento do faraó peculiar.
— Por favor, não apague. Por favor, não apague. — resmungava Ramsés II enquanto ia desesperadamente com sua pequena chama até o pote de incenso ao lado da estatueta de Hórus.
— Por favor… não conte para eles… — pediu Amon-Rá repentinamente.
— Desculpe… mas minha consciência pede para desobedecer… — respondeu Ramsés II deixando escapar um pequeno sorriso quando o incenso se acendeu e o cheiro doce e relaxante começou a encher a tenda — Me perdoe.
— Está perdoado… — disse Amon-Rá, com voz triste.
— Clamo à ti, Hórus, o Distante… — dizia Ramsés II, tentando não passar muita urgência na voz apesar de seu coração estar batendo desesperado — Aquele cujo olho direito é o sol, a estrela da manhã. Te invoco, ó Deus falcão, e seus olhos que tudo veem, protetor da realeza do Egito, vingador dos erros, defensor da ordem, unificador das duas terras. Hórus, de olhos aguçados, Senhor da Eternidade e da luz, aceite meu chamado, vinde a mim.
— Ramsés II… — disse a estatueta de Hórus, repentinamente ficando com os olhos brilhando em dourado.
— Senhor Hórus… — disse Ramsés II o mais respeitosamente que conseguiu — Obrigado por ouvir meu chamado.
— Seu tom de voz pareceu urgente… — disse Hórus, provavelmente mais preocupado com uma nova interferência divina — Tudo bem por Kadesh? Os hititas fizeram algo novo?
— N-Não… o problema não é os hititas… — respondeu Ramsés II — Ainda estamos no cerco à cidade e não acho que vamos sair tão cedo. O problema é Amon-Rá…
— O que tem com Amon-Rá? — perguntou Hórus, subitamente ficando mais sério.
— Ele está muito estranho. — admitiu Ramsés II — Já tem um tempo que notei que a memória dele não parece ser tão boa… se me permite a audácia de dizer isso… Mas nos últimos dias ele tem estado estranhamente quieto e hoje acaba de responder e… nem pareceu lembrar quem ele mesmo era ou quem eu era pela maior parte da conversa.
— Tem certeza disso? — perguntou Hórus depois de alguns segundos de silêncio.
— Eu não brincaria com algo do tipo. — respondeu Ramsés II.
— Chegarei aí em breve junto com Ísis e Thoth. — disse Hórus.
A estátua se apagou e Ramsés II entendeu imediatamente que estava sozinho mais uma vez. Ele aproveitou o silêncio por alguns segundos, enquanto se perguntava o que aconteceria, até que Amon-Rá falou.
— Porque está tão preocupado, garoto? — perguntou o deus, subitamente sem entender qual era o problema.
— Ora como “porque”? — perguntou Ramsés II, logo parando por uns segundos para juntar alguma paciência — O senhor não parece bem.
— Estou muito bem, Seti... — respondeu Amon-Rá — Só distraído mesmo.
— Seti é meu pai… — disse Ramsés II lentamente e logo soltando um suspiro.
— Então… — disse repentinamente uma voz que logo o faraó reconheceu como sendo Hórus.
Ramsés II se virou e logo viu os três deuses. Hórus, Ísis e Thoth pareciam preocupados enquanto olhavam para Ramsés II. Thoth particularmente, parecia um pouco desconfortável inclusive. Isso porque sabia que tanto Hórus, como Ísis, assim como outros deuses, haviam participado da batalha de Kadesh, algumas horas antes, mas Ramsés II não lembrava de nada, graças à Ísis.
— Explique direito o que aconteceu com Amon-Rá. — pediu Ísis.
— Eu tentei chama-lo durante toda a batalha, e até mesmo antes de chegarmos a batalha… mas ele estava muito quieto. — explicou Ramsés II — Ele já tinha falado algumas coisas estranhas, como se perder em quantos filhos eu tinha… mas deixei passar porque são muitos mesmo…
— Não… — disse Thoth — Um mortal pode até confundir, mas de nós é esperado a memória perfeita.
— Desculpe, mas parece longe de perfeita. — disse Ramsés II — Hoje ele finalmente respondeu e estava completamente perdido. Não lembrou quem ele mesmo era no começo… e ficou me confundindo com meu avô e com meu pai. Até falou que meu avô era novo demais para ser avô… Considerando a importância e o poder de Amon-Rá, achei que a situação era preocupante e decidi chamar algum de vocês… ele não pareceu muito confortável com a ideia.
Os deuses ficaram em silêncio por alguns instantes e trocaram olhares preocupados. Não conversaram sobre na frente de Ramsés II, mas já sabiam quais passos deveriam ser tomados, ao menos por enquanto.
— Espero que não seja muito dependente dele… — disse Ísis — Vamos tirá-lo de você e levá-lo para entender melhor o que está acontecendo.
— Tudo bem. — respondeu Ramsés II.
— Alguém mais sabe disso que nos contou? — perguntou Hórus.
— Não. — respondeu Ramsés II — Não achei uma boa ideia contar.
— Fez bem. — comentou Ísis tocando a testa de Ramsés II.
Depois de algumas várias palavras murmuradas pela deusa, o corpo de Ramsés II começou a brilhar e então Amon-Rá saiu dele, indo para trás, sendo puxado lentamente para fora do faraó. Amon-Rá parecia sonolento, e também muito mais velho, como se do nada tivesse feito 70 anos. Ísis entrelaçou seu braço com o de Amon-Rá, e o olhou de forma preocupada antes de trocar um olhar com Thoth e Hórus.
— Siga com o seu dia… — disse então Ísis para Ramsés II — Vamos cuidar disso. Não conte para ninguém o que aconteceu aqui.
— Não quer…. — perguntou Hórus deixando a pergunta no ar, torcendo para Ísis entender que o resto dela seria “apagar as memórias dele?”.
— Não. — respondeu Ísis — Ele pode ser útil para nos dizer algo que aconteceu com Amon-Rá enquanto esteve com ele.
Sem dizer mais nada ao faraó, os três deuses sumiram, deixando o faraó lá, com várias perguntas e preocupações. Ramsés II respirou fundo, tentou tirar aquilo da cabeça e logo foi até uma ânfora cheia até a metade com vinho, e logo esvaziou-a. Esse assunto continuou na mente de Ramsés II por mais seis dias, dos quais não ouviu nenhuma notícia dos deuses, então, no raiar de mais um dia de cerco à Kadesh, ele deixou sua tenda novamente com Antam-Nekt seguindo cada passo seu. Ele percorreu o olhar pelos seus homens, cansados e cada vez mais exaustos mas que também tentavam disfarçar que olhavam para ele com o canto dos olhos, tentando entender o comportamento dele dos últimos dias, e se fixou no soldado mais perto.
— Chame o escriba. — demandou Ramsés II.
— Sim, senhor. — disse o soldado, que imediatamente saiu correndo em busca do escriba.
Ramsés II esperou o escriba ali mesmo, na entrada de sua tenda, fazendo carinho na cabeça do leão, que logo ronronava pelo cafuné e se esfregava no faraó, e quando o homem chegou, carregando seus materiais de escrita, Ramsés II indicou a entrada de sua tenda, para que o homem entrasse. O homem obedeceu, envolto em curiosidade e timidez de entrar assim nos aposentos do faraó e medo do fiel guarda-costa felino particular do faraó.
— Em que posso ajudá-lo hoje, meu faraó? — perguntou o escriba enquanto Ramsés II fechava a tenda novamente.
— Vamos fazer um tratado de paz para os hititas. — declarou Ramsés II para que apenas o escriba ouvisse.
— C-Como? — gaguejou o escriba, não acreditando no que ouviu.
— Não acho que vão assiná-lo tão cedo assim, mas… sim, vamos fazer um tratado de paz. — disse Ramsés II, seguindo esse seu último recurso ao se tocar que, com a situação de Amon-Rá, talvez já tivesse problemas demais — Mas não o enviaremos hoje. Melhor fazer com calma.
— Com certeza, senhor. — disse o escriba.
Enquanto isso, no submundo, quase todos já sabiam da situação de Amon-Rá. Tratando-o como um idoso que estava ficando senil, Ísis levava Amon-Rá para a Casa de Repouso que resolveram fazer.
— Acha mesmo que tudo o que ele precisa é descanso? — perguntava Tawaret, que iria cuidar do lugar.
— Não é como se tivéssemos outras ideias… — disse Ísis tristemente — Não é de hoje que o comportamento dele está estranho, mas só foi piorando.
— Por favor, me avise se Thoth descobrir algo novo sobre isso tudo. — pediu Tawaret.
— Com certeza… — disse Ísis — Ele mesmo também pode te dizer. Imagino que ele virá várias vezes visitar Amon-Rá para tentar entender melhor o que acontece.
— Será muito bem vindo obviamente. — disse Tawaret enquanto Ísis tentava convencer Amon-Rá a sentar na cama.
— Eu estou bem… — dizia Amon-Rá.
— Qual é meu nome então? — perguntou Ísis.
— …. Néftis… — respondeu Amon-Rá.
— Quase… — disse Ísis suspirando pesadamente e então voltando a olhar para Tawaret — Vou trazer alguns papiros para distrair ele… e quem sabe fortalecer a memória…
— Seria bom. Eu ficarei aqui. — respondeu Tawaret.
Mais vários dias se passaram sem que as coisas mudassem muito. Chegar num acordo de paz favorável não era fácil, o cerco em Kadesh também não parecia estar indo tão bem, e Amon-Rá também não parecia melhorar e ninguém parecia entender mais do que acontecia com ele. Praticamente um mês havia se passado desde do começo do ataque em Kadesh, quando Anúbis, Anput e Kebechet surgiram no Salão do Julgamento depois de não terem pisado lá nem uma vez nesse tempo todo.
O Salão estava um pouco vazio, ao menos do lado de dentro. Do lado de fora, as almas se alinhavam em filas, cada vez mais ansiosas pelo julgamento. Néftis e Seshat se revezavam em colocar alguma ordem na fila, e do lado de dentro, naquele momento, só Osíris e Ammit estavam. Assim que os três surgiram, Ammit se levantou e foi correndo os receber, abanando o rabo para todos os lados e pulando em cima de Anúbis e então de Kebechet. Já Osíris deixou um suspiro de alívio escapar. Estava ansioso para diminuir a confusão de mortos do lado de fora, mas não queria botar essa pressão já com eles mal chegando ali. Mas era complicado aparentar estar calmo considerando que esse não era o único problema do momento.
As provas das viagens deles estavam em Kebechet e Anput. Anput usava um par de brincos de ouro que começavam com uma pedra azulada de jade e continuavam numa espiral formada pelo ouro, primeiro grossa, e depois cada vez mais fina. Nos braços, Anput ainda carregava uma linda ânfora de vinho de cobre, com o corpo bem redondo e preenchida dos mais diversos detalhes estrangeiros feitos com extrema habilidade. No pulso, Kebechet levava ainda uma pequena pulseira de jade com linhas que a trançavam para que parecesse uma corda.
— Como foram as férias? — perguntou Osíris.
— Foram ótimas! — declarou Kebechet.
— Sim. Foram boas e estava precisando delas, mas… — disse Anúbis olhando para Osíris, notando o olhar dele, tenso, de quem queria dizer alguma coisa — Porque escutei de Hades que vocês estão escondendo alguma coisa séria que aconteceu?
— Ah… visitou Hades? E… a fofoca já chegou em Hades? — disse Osíris praticamente se enterrando no próprio trono ao se sentar lá, exausto.
— O que aconteceu? — perguntou Anput.
— É Amon-Rá… — disse Osíris se levantando e indo até eles — Sua memória não está nada bem. Está até tendo dificuldade em nos reconhecer. Tivemos que fazer uma Casa de Repouso… está lembrando muito os humanos quando começam a ficar velhos demais.
Anúbis e Anput se entreolharam de olhos arregalados enquanto tentavam digerir aquela notícia. Eram tantas perguntas, tantas dúvidas, mas formulá-las era tão difícil quanto escolher qual seria a primeira a perguntar.
— Ele vai ficar bem? — perguntou Anúbis.
— Não sabemos. — respondeu Osíris — A verdade é que não sabemos praticamente nada.
— Ramsés II começou a deixar Kadesh… — disse Hórus repentinamente ao chegar no Salão do Julgamento, mas parando de falar assim que viu que Anúbis, Anput e Kebechet haviam voltado das férias — Ah, voltaram?
— Estou os atualizando. — respondeu Osíris.
— Ramsés II ainda estava em Kadesh nesse tempo todo? — perguntou Anput.
— Cerco de cidade é algo bem complicado… — admitiu Hórus — E a moral e a força do exército egípcio vem decaindo. Mas pelo o que entendi, foi uma das exigências para que eles conversem de fato sobre um tratado de paz.
— Um tratado de paz? — perguntou Anúbis estranhando a fala pois duvidava das possibilidades de isso realmente sair do papel — Isso e Amon-Rá num estado preocupante… O que mais aconteceu?
— É basicamente isso. — disse Hórus, suspirando cansado — Se puder ficar um tempo antes de sair de férias de novo… eu também estou precisando de férias...
Fale com o autor