A Morte Das Areias do Saara
77 Um novo residente nos campos dourados
Notas iniciais

Mas quando ela viu Nefer-ka-ptah voltando na barcaça real, seu coração ficou feliz e ela se alegrou muito. Nefer-ka-ptah veio até ela, colocou o Livro de Thoth em suas mãos e pediu-lhe que o lesse. Quando ela leu a primeira página, ela encantou o céu, a terra, o abismo, as montanhas e o mar, e ela entendeu a linguagem dos pássaros, peixes e animais; e quando ela leu a segunda página, ela viu o sol brilhando no céu, com a lua cheia e as estrelas, e ela viu as grandes formas dos próprios deuses; e tão forte era a magia que os peixes surgiram das profundezas mais escuras do mar.
~ Fragmento de “O Livro de Thoth”
A brisa soprava gentil e calma pelos campos de juncos dourados do Aaru. A tranquilidade que reinava ali era completamente oposta do caos que se via no mundo exterior, mesmo ignorando as audácias de Khufu e Minkhaf. Ali não havia guerra, não havia fome, nem seca. Ali não era preciso se preocupar se o rio iria inundar de novo ou se iria inundar demais.
E ali, se juntando ao paraíso que era o Aaru, estava o pequeno Merab. Seus olhinhos brilhavam sem conseguir acreditar na existência daquele mundo tão dourado. Seu campo de visão mal conseguia ultrapassar os altos juncos que cresciam por toda a parte, mas era o suficiente para ele se maravilhar com o céu tão belo e límpido que inexplicavelmente caía lentamente pequenos flocos de luz dourada tal como neve. Quando o pequeno garoto esticou sua mão livre para pegar um dos flocos, ele se desfez inofensivamente em sua mão.
— Aqui é tão bonito! — disse o menino olhando para Anúbis que segurava sua outra mão.
— Aqui é onde você vai morar agora. — explicou Anúbis — Tem um lugar reservado para você.
— A mamãe vai vir ficar comigo? E o papai também? — perguntou Merab e Anúbis mordeu o lábio sabendo que aquela era uma pergunta difícil de responder.
— Sua mãe… talvez. — disse Anúbis não querendo botar uma falsa esperança na criança — Mas seu pai… não. Ele não.
Merab abaixou a cabeça e fungou baixinho enquanto seus olhos começavam a ficar mareados. Era uma cena que doia ver mas, felizmente não durou muito, pois a atenção de Merab foi desviada pelo barulho de algo grande correndo pelos juncos abrindo caminho até eles.
— O que é isso? É um monstro? — perguntou Merab preocupado se escondendo atrás de Anúbis e se agarrando ao seu saiote.
— Não. Não é um monstro. — respondeu Anúbis e, poucos segundos depois disso, dentre os juncos loco saíram várias formas pretas, cinzas, marrons e brancos.
Não era um monstro. Não era nem apenas um ser. Era na verdade um bando de dois chacais e quatro cachorros que haviam vindo correndo alegre e desesperado de mais de uma parte do Aaru prontos para receber Anúbis. Não muito surpreendentemente, liderando o bando estava Neby que, assim como os outros, pulava em Anúbis, balançava o rabo e estirava a língua para fora felizes em o receber.
Vendo que não passavam de animais, Merab começou a timidamente sair de seu esconderijo enquanto Anúbis tentava dar atenção e carinho para os seis animais que brigavam para ver quem ia ter mais cafuné na cabeça.
— Merab, este é Neby. — disse Anúbis fazendo cafuné na cabeça de Neby mas em seguida se agachando para ficar na mesma altura de Merab ao apresentar os outros — Essa é Tantanuit… é a namorada do Neby.
Merab riu, com uma risada inocente de criança, ao pensar que um chacal iria ter uma namorada mas logo deixou as apresentações continuarem.
— Nos cachorros agora… — disse Anúbis — Esse é Wr.
— Que nome chique! — exclamou Merab — Você que escolheu?
— Não. Ele que escolheu. — explicou Anúbis e Merab riu de novo.
— Sério? — perguntou ele ainda rindo.
— Muito sério. — respondeu Anúbis sorrindo de leve — Assim como essa daqui ficou com inveja do nome dele e escolheu o nome de Rpat. Mas as outras duas eu quem escolhi. Aquela ali é Djefatsen e a irmã dela e a Iyneferti.
— Posso fazer carinho? — perguntou Merab.
Anúbis então olhou para os animais como se esperasse uma resposta deles. Um gesto de cabeça aqui e ali e um latido foram as respostas que ele recebeu mostrando que eles tinham entendido sim a pergunta.
— Pode sim. — respondeu Anúbis enquanto Iyneferti já ia se aproximando do menino, curiosa e ansiosa por um carinho.
Tímido, Merab estendeu sua mão devagar até a cabeça de Iyneferti. Ela fechou os olhos feliz quando os dedinhos dele começaram a fazer cafuné em sua cabeça.
— Eles vão mostrar o caminho para onde você vai ficar. — explicou Anúbis — Não saia de perto deles até chegar lá. Quando eu descobrir se sua mãe vai vir ficar com você ou não, eu volto. Tudo bem?
— Tudo bem. — respondeu Merab que já recebia uma lambida no rosto de Neby.
Sendo aquela cena suficientemente boa para umas boas vindas ao Aaru, Anúbis ergueu-se novamente e foi embora deixando Merab aos cuidados de seus animais sagrados.
Deixando o Aaru para trás, Anúbis voltou para o Salão do Julgamento onde todos estavam com uma sensação de dever cumprido. A alma de Merab ter encontrado seu descanso depois de tantos problemas trazia uma sensação boa que acalmava o coração de todos. Mas, sabendo que alguém ainda estava com o coração inseguro e atormentado, Anúbis deixou o Salão do Julgamento para trás e foi até a sala de papiros de Thoth. Lá, encontrou Ahura com as lágrimas secas no rosto sentada sobre um sofá luxuoso, ao menos para a época, cujas madeiras expostas eram banhadas em ouro e o estofado, mesmo se que fosse fino, era adornado com padrões egípcios cujas tintas, de cores ainda tão exóticas como o púrpura e o azul, com certeza valia mais do que muitos fazendeiros podiam sonhar em ver.
— Merab ficou bem? — perguntou Ísis se aproximando de Anúbis, ansiosa, assim que viu ele saindo do Aaru.
— Deixei com Neby e os outros. — respondeu ele e a resposta dela foi um silencioso sorriso e um aceno com a cabeça — Anput está com Ahura ainda?
— Sim. Ahura está chorando desde do começo aparentemente. — disse Ísis — Disse se arrepender de não ter falado mais com o filho.
Sem nunca perder a postura elegante que tinha enquanto o longo vestido, do mais caro linho, rastejava pelo chão, Ísis acompanhou Anúbis até a sala de papiros de Thoth. Mesmo antes de chegar lá, os dois ouviram os choros e murmúrios da mulher.
— E-Eu devia ter dito mais vezes que o amava… a-agora não sei se voltarei a vê-lo… — choramingava Ahura.
Ao chegarem, notaram como Ahura sentava-se em um canto do sofá e Anput no outro. A jovem deusa parecia sem saber muito o que falar ou fazer. Provavelmente já tinha usado todo seu repertório de palavras de consolo no tempo que levou para Merab ser julgado. Anúbis já ia entrar no recinto mas a mão que Ísis botou em seu ombro o impediu.
— Melhor não. — disse a deusa para que só ele ouvisse — Vamos dar-lhe um tempo de organizar as ideias e os sentimentos. Eu vou falar com ela. Se você entrar agora só vai fazer ela querer perguntar sobre o destino da alma de Merab. E ambos sabemos que é melhor que ela não saiba.
Anúbis afirmou brevemente com a cabeça e Ísis logo entrou. Por alguns segundos, Ahura não viu Anúbis parado no portal de entrada, seus olhos se focaram em Ísis quando ela estava perto o suficiente e logo se ergueram arregalados ao notar quem era. A mulher humana logo se levantou e reverenciou a deusa ajoelhando-se no elegante piso de granito e tocando com as mãos e a testa no chão no maior sinal de respeito que ela poderia passar.
— Ahura… — disse Ísis calmamente — Entendo a preocupação que sente pelo seu filho. Então vamos conversar, sim? Não é bom ficar assim tão abalada até que chegue sua vez de ser julgada.
Quando Ahura levantou levemente a cabeça para olhar para Ísis, ela notou a presença de Anúbis na porta. O olhar da humana atraiu também o olhar de Anput que não havia se distraído da cena o suficiente para notar que Anúbis estava ali também. Ahura quase se levantou e sua boca se abriu como se quisesse perguntar algo para Anúbis, mas Ísis a interrompeu dando um passo para a direita escondendo da visão da mulher a imagem do deus da morte.
— Não. — disse Ísis calmamente — As informações que quer ouvir não devem ser divulgadas para você. É melhor que converse comigo para acalmar as preocupações do coração do que fique frustrada ao tentar inutilmente tirar dele informações que são sigilosas.
O olhar de Ahura se abaixou em decepção enquanto Anput andava calmamente até Anúbis e depois o puxava para fora da sala, para o corredor, onde pudessem conversar escondidos tanto dos ouvidos quanto dos olhos de Ahura.
— Deu certo então? — perguntou Anput — Merab.
— Sim. — respondeu Anúbis e Anput imediatamente suspirou aliviada — Ele está com Neby e os demais por enquanto. Vão ficar com ele no lugar guardado para ele e talvez faça amizade com algumas das outras crianças que tem por lá… espero…
— Vai voltar lá antes de chegar a hora do julgamento da Ahura? — perguntou Anput — Para ver se está tudo bem.
— Sim. Mas preferencialmente sem ele me ver. — respondeu Anúbis — A não ser que a situação esteja muito ruim.
— Espero que não esteja. — disse Anput.
— Eu também. — admitiu Anúbis.
— Agora que ficou mais livre, ao menos por enquanto, quer ir até algum lugar? — sugeriu Anput.
— Tem algum lugar em mente? — perguntou ele.
— Quer entrar escondido em Cnossos? — sugeriu ela.
— Impossível eu entrar escondido em Cnossos. — lembrou Anúbis com um sorriso e revirando os olhos — Sabe como os minóicos são querendo ficar escondidos dos outros deuses na ilhazinha deles.
— Então eu tenho uma outra ideia. — disse Anput já sorrindo ansiosa — Queria finalmente te mostrar Cnossos já que fica aqui do lado… mas você é um chato que chama atenção demais só de pisar no lugar.
— Não é minha culpa… — tentou se defender Anúbis, mas ela logo botou a mão na bochecha dele — E sinceramente… não sei se estou com humor pra ir muito longe hoje.
— Tudo bem. — disse ela gentilmente — Quer ir visitar Hathor comigo? O que acha?
—Pode ser. — respondeu Anúbis.
Anput entrelaçou seus dedos com os de Anúbis e juntos eles magicamente deixaram o submundo para trás indo para o exuberante palácio que Hathor chamava de lar. A música que chegou imediatamente aos seus ouvidos junto com risadas de crianças trazia uma leveza gostosa de sentir.
O luxuoso palácio, mais elegante do que o do faraó mortal, parecia também um tanto tristemente vazio com suas paredes adornadas e meticulosamente pintadas e suas pilastras que eram moldadas e pintadas para lembrar os papiros que cresciam na beira do Nilo. Nenhum humano veria tal exuberante palácio, pois ali era uma terra só para deuses. Mas, por mais silencioso que estivesse, a sala para onde os dois parecia vibrar de vida quando eles ouviram a risada de um bebê.
—Esse deve ser Imsety. — disse Anput — Chegou à o conhecer?
—Não. — respondeu Anúbis e imediatamente um menino de aparentemente 8 anos apareceu pelo portal de entrada depois de ter ouvido as vozes dos visitantes — Olá, Qebehsenuef.
— MÃE… — gritou o menino que era praticamente a cópia de Hórus de quando ele tinha aquela idade, só que bem menos egocêntrico — Anúbis e Anput estão aqui!
—Qebehsenuef, não precisa gritar. — falou Hathor tentando imediatamente acalmar o que era uma cara feia de início de choro do bebê em seus braços, Imsety.
O jovem Quebehsenuef, ao invés de correr até a mãe, simplesmente se transformou num pássaro e voou feliz até ela se transformando de volta para sua forma mais humanóide pouco acima do sofá onde Hathor estava sentada. O menino ficou agachado sobre o sofá encarando com um sorriso empolgado o pequeno irmão mais novo que lhe olhava com olhos curiosos, mas marcados pelo começo de lágrimas que haviam se formado depois do susto que levou do irmão mais velho.
—Desculpa, Imsety. — disse Quebehsenuef — Não queria te dar um susto.
A única resposta que o pequeno Imsety deu foi enfiar a mãozinha gordinha quase inteira na boca.
—Ele já está bem grande… — comentou Anúbis.
—Sim. — disse Hathor — Não para de crescer.
—Você é um bebezão bonito e bonzinho né?- perguntou Anput sentando ao lado de Hathor — posso pegar ele?
— Claro — respondeu Hathor passando o bebê para Anput doce e cuidadosamente.
— Já descobriram que animal ele é? — perguntou Anubis e Hathor simplesmente negou com a cabeça e um doce sorriso.
— Eu acho que vai ser um passarinho. — disse Quebehsenuef — Daqueles bem pequenos.
— Porquê? — perguntou Anúbis.
— Porque eu quero alguém pra voar comigo mas eu ainda quero ser maior. — explicou Quebehsenuef — Então só eu posso ser um falcão.
— Por mais que Quebehsenuef diga isso, uma parte de mim acha que Imsety não será animal nenhum. — explicou Hathor — A essa altura Quebehsenuef já tinha virado falcão ao menos uma vez. Era tão complicado porque pássaros são tão pequenos e frágeis quando tão novos. Bem, todos os seres o são nessa fase da vida. Mas lembro bem quando Ísis cuidava de você, Anúbis. E do nada você virava um chacal pequenininho e dengoso. Um filhote de chacal certamente parece menos sensível e frágil do que um filhote de falcão.
Sem graça da lembrança de sua primeira fase de vida, Anúbis desviou o olhar por um segundo com um levíssimo rubor nas bochechas.
—Lembro que da primeira vez ela ficou desesperada achando que tinha me perdido. — respondeu Anúbis lembrando-se bem da memória por mais que ele não tivesse nem um ano na época.
—Sim, ela me contou. — disse Hathor rindo — Então, como foi o julgamento de Merab?
—Ele foi para o Aaru. — explicou Anúbis — Mas estou preocupado com Ahura. A questão dela vai ser complicada. Por mais que tudo tenha sido ideia de Minkhaf, ela chegou a ler parte do livro de Thoth.
—Parece que teremos que esperar pelo sepultamento dela e pelo julgamento da pena para descobrir. — disse Hathor com um suspiro triste — Não gosto quando crianças ficam sozinhas no Aaru.
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