Notas iniciais
quando a criatividade e a inspiração estão em alta acontece o q? os capítulos saem rápido!

Nefer-ka-ptah agora pedia por um pedaço de papiro novo e um copo de cerveja; e no papiro ele escreveu todos os feitiços que estavam no Livro de Thoth. Então, ele pegou o copo de cerveja e lavou o papiro na cerveja, de modo que toda a tinta foi lavada e o papiro ficou como se nunca tivesse sido escrito. E Nefer-ka-ptah bebeu a cerveja e imediatamente conheceu todos os feitiços que haviam sido escritos no papiro, pois esse é o método dos grandes mágicos.

~ Fragmento de “O Livro de Thoth”

Já faziam alguns dias que Minkhaf havia voltado para Mênfis deixando o corpo de Ahura para trás para que pudesse ser mumificado. O príncipe passava seus dias, solitário, triste, completamente entregue ao luto enquanto sentia a frieza com a qual agora dividia a cama. De olhos pesados e avermelhados, ele mal deixava o quarto para trás. Tinha dias que não tinha mais vontade de viver, e esses eram os dias nos quais se empanturrar de cerveja até chegar no palácio sendo carregado pelos soldados do pai. Outros dias ele amaldiçoava os deuses. Pegava as pequenas estátuas em madeira, ou mesmo as mais caras feitas em bronze ou diorito, e as tacava com força e ódio no chão. Ele obviamente não conseguia causar muito dano às feitas de material mais resistente, e talvez por isso ele as tacava contra o chão repetidas vezes, dia após dia.

Minkhaf chorava, gritava e sofria mesmo no dia que uma de suas irmãs timidamente tentou entrar em seu quarto para falar com ele. Khamerernebty era a mais nova das filhas de Khufu mas já contava com 22 anos de vida. Mesmo que ela ainda tivesse mais três irmãos mais novos que ela, todos muitas vezes a tratavam como caçula, especialmente porque os mais velhos dos filhos de Khufu eram ao menos 10 anos mais velhos do que ela. Ela achou que esse tratamento fosse mudar depois que se casou com Khafre, um dos filhos mais velhos mas que, felizmente, era apenas 3 anos mais velho do que ela já que na primeira safra de filhos de Khufu, muitas foram meninas. Contudo, nada havia mudado.

E pra piorar, Khamerernebty tinha que admitir, morria de medo do marido-irmão. Mas nunca teve medo de Minkhaf, muito pelo contrário, tinha dó e raiva de como o marido tratava o irmão mais velho, mas nunca teve coragem de fazer nada. Mas, quando Khamerernebty viu a raiva misturada com pesar que saia dos olhos de Minkhaf, ela pela primeira vez teve medo do irmão. Contudo, estava ali numa missão importante implorada pelos outros irmãos e era pela família que naquele momento ela arrumava toda a coragem que tinha.

— Minkhaf… — disse fracamente Khamerernebty testando o terreno com o irmão e chamando sua atenção.

Minkhaf foi bruscamente puxado de seu luto ao ouvir a voz da irmã. Largado no chão com frasco de vinho na mão e com os olhos embaçados pelas lágrimas, ele mal pode distinguir o rosto de Khamerernebty e, por isso, passou o braço bruscamente nos olhos limpando qualquer traço de lágrimas e borrando levemente o kajal preto que adornava seus olhos tal como adornavam de todo egípcio.

— Khamerernebty… — resmungou Minkhaf com a voz pesada e lenta — O que quer?

— Os outros estão te chamando… — disse Khamerernebty gentilmente — É… importante… É sobre Kawab.

— Kawab? — perguntou Minkhaf imediatamente ficando com o coração apertado de medo e ódio. Sabia bem que o primogênito de Khufu estava de cama já havia um bom tempo — Ele...

— Não.. .ainda não… — respondeu Khamerernebty entendendo bem o que Minkhaf não teve coragem de preencher em sua frase — Mas acham que não falta muito. Então… mamãe achou melhor… irmos ver ele uma última vez.

— Ele não acorda desde do dia que cheguei. Que diferença faz? — questionou Minkhaf.

— Não vai ver ele então? Pode se arrepender… — disse Khamerernebty ousando dar um passo para mais perto do irmão mas sem coragem de dar um segundo.

— Já me tiraram tudo que podia me causar qualquer sentimento como esse, irmã. — respondeu Minkhaf com uma pequena risada — Djedefre e Khafre também foram ver Kawab?

— Sim. — respondeu ela — Estávamos todos lá e então acharam melhor alguém te chamar…

— Hunf… eles devem ter ido apenas para manter as aparências. — disse Minkhaf cruelmente.

— Não diga uma coisa dessa… isso não é verdade. — pediu Khamerernebty com lágrimas nos olhos — Todos gostamos de Kawab! Ele sempre nos deu muita atenção e brincou bastante com a gente quando éramos pequenos, mesmo que estivesse sempre ocupado aprendendo e treinando com papai.

— Não seja idiota Khamerernebty! — exclamou Minkhaf levantando-se repentinamente indo na direção da irmã e fazendo Khamerernebty se encolher quando a cena lembrou-lhe tanto de Khafre — Sem Kawab o caminho de Djedefre e Khafre para o trono ficou ainda menor! Djedefre pode estar de fato triste, mas acredita mesmo que Khafre também está? É a esposa dele, abre as pernas para ele toda noite, conhece ele melhor do que qualquer um de nós! Acha mesmo que Khafre não deve estar nesse momento se perguntando quanto falta para Kawab morrer, quanto falta para nosso pai morrer e se perguntando como faz pra tirar Djedefre do caminho? Você devia estar comemorando também. Em breve pode estar casada com um faraó. Isso se não tiver que dividir ele com outras esposas.

A fala de Minkhaf foi subitamente interrompida por um tapa na cara. A mão de Khamerernebty seguiu seu próprio instinto ao dar um tapa na cara do irmão que parou surpreso com a reação de Khamerernebty. Ela também estava surpresa com a própria reação, mas estava mais machucada pelas palavras que fizeram com que as lágrimas escorressem pelo seu rosto.

— Desculpe… — resmungou Minkhaf.

Não querendo mais trocar uma só palavra com Minkhaf, Khamerernebty deu as costas para o irmão e voltou para a porta por onde passou. Todavia, antes de sair, ela quis deixar uma mensagem final para ele.

— Eu realmente sinto muito por Ahura e Merab. De verdade. — disse ela antes de partir.

O jeito que Minkhaf tratou Khamerernebty rapidamente chegou até as irmãs dele mas não aos irmãos pois Khamerernebty tinha vergonha de relatar assim para eles as palavras que Minkhaf havia usado. Como se não bastasse as mortes ocorrendo na família real, o relacionamento entre seus membros parecia estar morrendo também. Dentre os serviçais, a fofoca é que era tudo uma vingança dos deuses. Afinal, não podiam deixar de notar como tudo parecia dar errado dentro da família depois que os templos foram fechados.

Dois dias depois, tal como os médicos reais previram, a vida de Kawab chegou ao fim. O primogênito e herdeiro do trono partiu pacificamente enquanto dormia aos 35 anos. Uma idade não tão surpreendente para época e suas expectativas de vida tão baixas, mas certamente preocupante considerando que ele usufruia do melhor padrão de vida possível. A morte de Kawab matou algo mais, o sorriso no rosto da esposa de Khufu. Meritites estava com o coração em pedaços com as perdas que aconteciam ao seu redor e o carinho do marido e dos filhos não conseguiam fazer ela sorrir novamente.

E então, com o passar dos dias, chegou o dia do sepultamento de Ahura. Minkhaf, ao contrário da tradição, foi sozinho sepultar a mulher. Nenhum dos irmãos quis o acompanhar por estarem com raiva dele ou preocupados com outras questões, sejam elas vinganças divinas ou planos de ascensão ao trono, e Khufu estava ocupado demais, como sempre. Os únicos que o acompanharam foram os pais de Ahura, que sofriam terrivelmente pela perda da filha.

Foi uma viagem dolorosa e triste, e não só porque Minkhaf não trocava uma palavra com os pais da falecida esposa. Conforme a barca real navegava lentamente pelo Nilo, Minkhaf não conseguia tirar da mente os olhos brilhantes de Ahura e o sorriso inocente de Merab. Parecia uma outra vida os dias que ele voltava para casa pronto para receber o carinho de ambos.

Minkhaf havia pensado muito em como seria a chegada desse dia, se aquela seria sua última chance de se vingar dos deuses e tentar ganhar aquela briga. Por puro orgulho e teimosia, se recusava a finalmente devolver o Livro de Thoth. Sua alma já estava provavelmente condenada às presas de Ammit, então, que diferença faria se rebelar mais um pouco?

A cerimônia de Ahura aconteceu tal como a de Merab, seguindo todas as tradições possíveis e sem economizar em nada. Ahura foi enterrada com toda a honra devida à filha de um rei por mais que não fosse filha de Khufu. Quando a cerimônia fúnebre terminou, Minkhaf ficou tenso sentido que seu momento estava próximo. Contudo, os deuses tinham outro assunto para tratar antes de se preocuparem com ele.

No Salão do Julgamento, diante da balança que decidiria seu destino, Ahura se ajoelhava no chão com as mãos protegendo o peito como se tentasse inutilmente se livrar da sensação de vazio que havia ali. Isso porque seu coração estava agora nas mãos de Anúbis que estava diante dela tão curioso com aquele desfecho quanto ela.

— Meu coração, minha mãe; meu coração, minha mãe! — murmurava Ahura com a voz trêmula seguidas vezes sem parar — Meu coração de onde vim em ser! Que nada se levante para se opor a mim em meu julgamento, que não haja oposição a mim na presença dos deuses; que não haja separação de ti de mim na presença daquele que mantém o equilíbrio! Tu és meu KA, que mora em meu corpo.

Anúbis colocou cuidadosamente o coração de Ahura na balança e com a mão livre invocou a pena da verdade. O deus trocou um olhar rápido com Osíris e notou que ele estava tão tenso e curioso com aquele resultado como todos os outros deuses presentes ali também estavam. Anúbis não sabia se era porque estava mais consciente de cada pequeno gesto que fazia dada a delicadeza da situação que rodeava a vida e a morte de Ahura, mas podia sentir mais claramente do que nunca a força pura e a magia primordial que irradiava da pena.

Se não fosse o fato de estar transparente por não passar de uma alma, Ahura teria com certeza ficado ainda mais pálida no momento que a pena tocou a balança. Seu peito doía com a ausência do coração e a tensão do momento quando Ahura trocou sua fala.

— Preste atenção, ó justo juiz, à balança para apoiar o testemunho dela. — disse Ahura.

A balança mágica por uns segundos analisou o peso dos dois objetos até que lentamente começou a pender para o lado do coração lentamente. A expressão de Ahura se encheu de terror e o peito de Anúbis se apertou quando a balança deixou o coração um mísero dedo mais baixo que a pena. Contudo, isso não durou muito, pois o peso pareceu ter mudado de lado pois a pena começou a abaixar até estar um dedo mais baixa que o coração.

Osíris se mexeu em seu trono inclinando o corpo na direção da balança enquanto Anúbis, encarando-a com um olhar sério, tentava entender a dúvida da balança e se perguntava o quão normal seria aquilo. Em todos aqueles séculos, foi a primeira vez que a balança parecia tão confusa.

— Está quebrada a balança! — alertou Hórus.

— Não… — respondeu Anúbis — Está confusa.

— A balança tem consciência para estar confusa? — perguntou Hórus verdadeiramente curioso.

— Sim- respondeu Anúbis sem tirar os olhos da balança que se movia mais uma vez de um lado para o outro.

Enquanto isso, a pobre Ahura não ousava nem mesmo respirar. Temia que qualquer coisa pudesse deixar a balança contra si. E a balança, sem sentir a pressão dos vários olhares dos deuses sobre ela, continuava em dúvida quanto ao destino de Ahura. Era uma situação extraordinária que levou Anúbis a tocar o centro da balança sem afetar o peso do coração ou da pena. Com o toque, a mão dele começou a brilhar sendo envolvida por uma luz pura e branca.

Uma conversa silenciosa aconteceu entre Anúbis e a balança. Uma conversa na qual os dois mostravam os vários pontos de Ahura através de memórias dela focando nos pontos que deixavam o julgamento complicado. Reviram como desde o começo ela não gostava da ideia, mas como também não tentou impedir Minkhaf tanto assim. Como ela sofreu com a morte de Merab e com a espera do próprio julgamento sem saber qual era o destino da alma do filho. Como ela sabia que daria errado mas tinha esperança que o marido faria dar certo. Quão errado era ter esperança quando essa esperança envolvia enganar os deuses? Mas a memória que mais deixava tudo complicado, foi a que a própria Ahura, pouco depois de Minkhaf ter conseguido roubar o livro, lia ela mesma alguns dos feitiços.

— Ahura… — disse Anúbis ainda com a mão na balança — Você não roubou nada, nem grãos, nem oferendas, nem qualquer outra coisa. Não pode-se dizer que nunca tenha mentido pois isso o fez em vida como é comum de todos os humanos. Você não lançou maldições, nem cometeu adultério, nem assassinato, nem agiu com violência. Não tomou o alimento de nenhuma criança, nem matou animais sagrados. Em algumas ocasiões chegou a se intrometer em assuntos que não lhe diziam respeito, assim como em sua juventude ouviu conversa alheia escondida. Entretanto, nunca incitou conflitos ou aumentou suas palavras ao falar, assim como não aterrorizou ninguém, nem transgrediu alguma lei. Não colocou pesos extras em balanças, nem parou a água quando devia fluir ou apagou o fogo quando devia queimar. Não infligiu dor, nem difamou um escravo e não agiu forma fraudulenta no Trono da Verdade. Mas junto com o marido roubou de deuses. O qual tentou trazer os mortos de volta à vida não uma, mas duas vezes. Mas desde o começo tentou impedi-lo e assim como tentou colocar senso em seu pensamento.

Sentindo que depois da conversa silenciosa com a balança, ela havia tomado a sua decisão, Anúbis tira a mão dela e observa com o olhar atento quando a pena volta a ficar mais pesada que o coração. Mesmo sabendo que a balança parecia mais decidida dessa vez, ele espera para ter certeza de que ela não irá mudar de ideia e então se vira para Ahura quando a decisão foi acertada.

— Foi por um fio. Mas pode ir para o Aaru. — disse Anúbis olhando para Ahura tentando ficar sério para manter a pose mas tendo que segurar um pequeno sorriso com dificuldade ao pensar em Merab.

Notas finais
tô doida pra fazer o próximo capítulo já kkk O livro de Thoth - https://www.sacred-texts.com/egy/woe/woe10.htm Estátuas dos deuses - https://artsandculture.google.com/usergallery/egyptian-gods/MwJiabvbG-neIQ Kawab - https://en.wikipedia.org/wiki/Kawab