A Morte Das Areias do Saara
62 Todos merecem umas férias
Notas iniciais

E Nefer-ka-ptah, embora fosse filho do rei, não se importava com nada na terra, a não ser ler os registros antigos, escritos em papiro na Casa da Vida ou gravados em pedra nos templos; durante todo o dia e todos os dias ele estudou os escritos dos ancestrais.
~ Fragmento de “O Livro de Thoth”
Os príncipes, as princesas e o faraó olhavam atentos e apreensivos para os três deuses que ficavam analisando cada um dos papiros com os planos de construção da pirâmide de Khufu. Não era preciso muito para ver que era um plano ousado principalmente pelo tamanho do projeto. Logo, foi totalmente compreensível que os três deuses estivessem tendo dificuldades em confiar no projeto.
— Tem certeza que isso vai dar certo mesmo? — perguntou Hórus cruzando os braços com um olhar sério — Se der errado nos momentos finais, terá sido um enorme desperdício de recursos.
— Hemiunu… o que tem a dizer sobre isso? — disse Khufu falando com seu arquiteto-chefe.
— Entendo a preocupação quanto a execução perfeita do projeto. — disse Hemiunu tentando aparentar menos nervoso do que realmente estava — Eu e meus homens estamos nos esforçando e dando o melhor de nós. Rezamos também para Imhotep para que ele nos ajude.
Por um segundo Hórus e Anúbis se entreolharam achando que tinham ouvido o nome errado. Não existia nenhum deus chamado ‘Imhotep’. Assim, o mais óbvio era supor que Hemiunu estava mesmo falando do único Imhotep que eles conseguiam pensar. Isso é, o arquiteto da primeira pirâmide de todas. De toda forma, era uma escolha estranha. Afinal, Imhotep não passava de um mortal.
— Você disse Imhotep? — perguntou Anúbis querendo confirmar suas suspeitas.
— S-Sim… — gaguejou Hemiunu de medo sentindo que talvez não devesse ter mencionado que estavam rezando para um mortal — T-Também rezamos para Thoth e Ptah mas… considerando que Imhotep foi q-quem fez a primeira pirâmide nós… esperamos contar guias dos melhores caminhos dos problemas tão específicos de tal construção.
Embora os deuses ainda achassem aquele assunto peculiar e que deveria ser mais discutido, o rumo da conversa logo mudou ante à um comentário de um dos príncipes.
— Empilhar um monte de pedras não pode ser tão complicado quanto fazem parecer… — comentou levianamente o Príncipe Baufra.
— Não seria se fosse só mesmo um monte de pedras empilhadas. — disse Anúbis — Claro, toda a locomoção das pedras da pedreira até as extremidades do Deserto Ocidental é um percurso extremamente complicado considerando o peso das pedras e os meios de transporte atuais… mas… um monte de pedras empilhados de forma a não só parecer bonito e simétrico como também não esmagar vários cômodos e corredores em seu interior?
— E… toda a escolha da localidade dela… — completava Anput colocando a mão no ombro de Anúbis enquanto se aproximava para ver mais detalhes do papiro que estava nas mãos dele — … os lados alinhados perfeitamente com norte e sul, leste e oeste?
— Quando todo o projeto ficar pronto, verá que não é só um monte de pedras empilhadas, Baufra. — disse Khufu olhando para o filho com o queixo erguido como prova do orgulho que tinha de seus planos funerários.
— Independente de qual seja a dificuldade, espero muito que dê certo. — disse Hórus — Lembre-se… Vocês, principalmente você, Khufu, devem nos servir e agradar e assim iremos favorecer seu povo e sua família. E lembre-se também, Khufu, que assim como muitos faraós antes de você, eu estou lhe favorecendo e ajudando. Aconselho-te a não fazer nada que possa levá-lo à perder isso.
Khufu ouviu o aviso bem demais. Seu rosto ficou sério quando ele abaixou a cabeça respeitosamente para os três deuses. Realmente não queria perder o favorecimento de Hórus. Um favorecimento que rendia os títulos de “Hórus em vida” para os faraós. Um título que fazia mais sentido ainda quando Hórus habitava o corpo do faraó em questão, coisa que ele fazia com frequências diferentes para cada faraó. Khufu já tinha passado por isso e não tinha tanta certeza se gostava ou não. Especialmente porque se sentia bem melhor com Khnum, que o favorecia e protegia bem mais. Contudo, trabalhar com Hórus era um dos vários benefícios de ser o faraó embora não todos tenham usufruído desse benefício que geralmente vinha junto com a coroação. Aqueles que não tinham Hórus ao seu lado costumavam até mentir sobre isso e, quase todas as vezes, se tornaram faraós que não duraram muito tempo.
Com algumas perguntas mais, Hórus se deu por satisfeito quanto aos detalhes da pirâmide. De uma coisa tinha certeza, aquilo gastaria horrores de recursos. Todavia, ele sabia que tinha que deixar os humanos andarem com as próprias pernas às vezes. Por mais que pudesse achar que as ideias deles pudessem ser ruins mais do que só algumas vezes. Eles tinham recursos, sabia disso. O Império tinha riquezas absurdas. Mas Hórus também sabia que tais riquezas não eram infinitas. Assim, curioso para o que aconteceria, Hórus virou um falcão novamente e foi embora deixando apenas Anúbis e Anput ali sem saber se teriam graves consequências se recursos demais fossem gastos. Talvez o próprio gasto de recursos possa se transformar em consequências o suficiente.
Apesar de Hórus ter saído, a presença ainda de dois deuses fez com que o ambiente continuasse tenso, e não era de Anput que os presentes estavam com medo.
— Bem… — começou a dizer Khufu para os filhos e filhas conforme os planos da construção da sua pirâmide eram guardados e outro papiro ganhava a atenção de todos conforme era aberto por Hemiunu — Eu os trouxe aqui pois, como é bem fácil notar, eu não estou mais jovem. E alguns de vocês já estão caminhando para isso. Assim, achei que seria necessário conversar sobre a tumba de vocês.
— Nossas tumbas? — questionou o Príncipe Khafre já deixando a mente voar pelas possibilidades.
— Sim. — confirmou Khufu — Podem ser criativos o quanto quiserem. Pirâmides, mastabas… junto com os maridos e esposas, ou sozinhos. Estou inclusive pensando em fazer uma pequena pirâmide para a mãe de vocês dentro de meu complexo funerário…
— Qual mãe? — perguntou a Princesa Meritites II que, levando o nome da mãe consigo, lembrou à Khufu que ele tinha duas esposas ao mesmo tempo.
— Ahm… sua mãe… — disse Khufu levemente constrangido por não ter levado a segunda esposa tanto assim em consideração — minha querida primeira esposa e irmã, a Rainha Meritites… mas… agora que menciona… Talvez deva incluir nos planos algo para Henutsen também.
Um mero aceno de cabeça foi tudo que Khufu precisou fazer para que Hemiunu anotasse apressadamente e de qualquer jeito sobre um papiro pouco importante um lembrete para si mesmo. O arquiteto não demonstrava, mas estava se sentindo sobrecarregado com o tanto de exigências de Khufu.
— Continuando… — disse Khufu estendendo a mão direita em direção à mesa onde o mapa do Egito estava esticado — Eu recomendo colocarem suas tumbas na mesma extremidade do Deserto Ocidental mas não perto demais da minha. Também são livres para escolher outras partes do Império. Mas devo lembrar-lhes da dificuldade de locomoção dos materiais e pessoas e também da significância que esse pedaço do Deserto Ocidental ganhou nas últimas décadas.
— Nada perto da sua então.. — disse Príncipe Kawab se erguendo de onde sentava mas parando por um segundo pois sua mão estava entrelaçada com a da esposa e queria até puxado ela junto gentilmente para ver também o mapa de perto mas Hetepheres, em seu enorme estado de gravidez, simplesmente negou com a cabeça com um sorriso cansado.
— Veja lá por mim. — disse a Princesa Hetepheres II docemente para o marido.
— Dependendo do que for… até pode ser perto. — disse o Faraó Khufu dando de ombros — Uma pirâmide pequena, uma mera mastaba ou algo do tipo.
— Não quer ter nada para competir em grandiosidade eim, pai? — questionou o Príncipe Khafre também indo olhar o mapa.
— E também… — disse Khufu ignorando a pergunta do filho — Os homens mais velhos devem pensar com calma. Principalmente você, Kawab. Não sei o que acontecerá até eu morrer e depois disso, mas devem ter tumbas dignas de um faraó caso assim se tornem.
— Não sei… — disse Kawab — Nada contra seu projeto, pai, mas acho um tanto exagerado para mim.
— Não ouvirá eu falando isso… — disse o Príncipe Djedefre se juntando a conversa também — Quero uma pirâmide bonita mas não precisa ser nada tão grandioso quanto à vossa, pai. Seus planos, ou ao menos a parte que ouvi, são magníficos e sem dúvida deram muito trabalho. Merece o reconhecimento e o destaque que a construção terá. Posso pegar esse pedaço de terra mais ao norte para evitar ofuscar-lhe sequer minimamente independente do que possa planejar.
Não demorou muito para tudo virar uma confusão de ideias e briga por pedaços de terra. Podiam ser a realeza, podiam ser adultos, mas ainda assim eram irmãos. No meio de briguinhas, discussões, piadas e comentários atrevidos, os treze filhos de Khufu iam decidindo sobre seus locais de descanso final. Vendo que aquela discussão não terminaria tão cedo, Anúbis suspirou pesadamente e cruzou os braços ao olhar para Anput.
— Eles claramente se empolgaram e de fato nem parecem lembrar que estamos aqui mais… — disse ele.
— Temos que ver essa briguinha de família até o final? — perguntou Anput enquanto notava que as princesas, apesar de serem mulheres, tinham muito poder de escolha sobre suas tumbas, especialmente aquelas que não eram casadas com príncipes.
— Acho que não. — disse ele — Não parecem estar pensando em nada fora do esperado, afinal. Só seria preocupante se estivessem pensando em algo inaceitável.
— E uma briga por pedaços de terra e grandiosidade de tumbas é aceitável? — perguntou ela segurando uma risada.
— Não é o melhor cenário, mas já é problema deles. — disse ele dando de ombros — Todos os rituais e também as demais exigências de um sepultamento sendo feitas… qualquer ideia idiota e suas consequências é problema deles.
— Vamos então? — perguntou Anput forçando delicadamente ele a descruzar os braços para que pudesse segurar em sua mão — Ir rapidinho no Salão do Julgamento e então umas boas merecidas férias.
— Com certeza. — concordou ele com um pequeno sorriso.
Com facilidade e num piscar de olhos, eles deixaram o palácio e todo o drama real para trás e re-apareceram no Salão do Julgamento. No Salão do Julgamento as coisas estavam tão tranquilas que Ammit tirava uma boa soneca ao lado do trono de Osíris cuja expressão de curiosidade e concentração eram resultados da conversa que tinha com Hórus que estava logo diante de si.
— E então eles disseram que estão rezando para Imhotep! — disse Hórus surpreso — Imhotep! Acredita nisso?
— Se arrependendo agora de ter deixado o mortal semideus viver a vida normalmente, Hórus? — perguntou Khnum.
Khnum estava saindo dos corredores que levavam mais para dentro do Salão do Julgamento, para onde Anúbis fazia as múmias. Provavelmente estava atrás dele pois, ao ver que ele havia chegado com Anput, o deus de cabeça de carneiro mudou de expressão e foi logo na direção do deus da morte.
— Imhotep não tem culpa dos erros de Ptah. Por isso não fiz nada. — disse Hórus.
— Tanto faz. — disse Khnum começando a ignorar Hórus e falando com Anúbis estendendo-lhe um pequeno pedaço de papiro que fez magicamente aparecer em sua mão — Achei que ia estar na sua sala arrepiante de mumificação. Ia deixar lá para quando chegasse mas… considerando que nos encontramos… aqui está os dos últimos dias…
O estômago de Anúbis se revirou ao pegar o pequeno pedaço de papel. Sabia bem o que era aquilo antes mesmo de abri-lo e ver as palavras que guardavam um grande peso escondido. No pequeno papiro estava escrito “Filho de Hasina de Mênfis, Filha de Nakia de Zawty, Filha de Tameniut de Mênfis, Filho de Tasenirit de Waset”.
— Khufu é praticamente seu bichinho de estimação, Khnum… — dizia Hórus ignorando o que Khnum resolvia com Anúbis — … mande-o dar um jeito em seus arquitetos. Rezando para um mortal… é o cúmulo!
— Você mesmo diz para deixar os humanos andarem com as próprias pernas… — defendeu-se Khnum — Pare de só usar isso quando é conveniente para você. Se eles querem rezar para um mortal, é problema deles. Vamos ver no que isso dá.
— Sobre a lista… — disse Anúbis com o rosto sério e os ombros pesados, resultado do pequeno papiro — Podia ter sido mais gentil com Hasina, não? Já é o quê? A sétima vez que vou ter que ficar ouvindo por dias à fio ela pedindo para eu cuidar da alma do filho dela que você nem se deu ao trabalho de…
A frase de Anúbis foi interrompida antes que ele pudesse terminar. E até agradecia por isso. As palavras que quase saíram de sua boca pesavam muito em sua língua.
— Não fale que nem me dei ao trabalho. — disse Khnum sério também — Não é tão simples assim. Sim, crio os corpos dos bebês e coloco nas barrigas das mães. Os detalhes de todo o processo de gestação são sempre discutidos entre mim, Tawaret, Hathor e às vezes até Thoth. Mas, infelizmente, abortos acontecem. Os humanos devem ser lembrados que não podem ter tudo o que querem. E você, como deus dos mortos, tem que cuidar desses pequenos humanos que pouco deixaram nesse mundo, e não reclamar comigo porque uma gravidez não chegou longe o suficiente. Algo que, inclusive, não depende só de mim.
— Já disse que você é um desgraçado? — perguntou Anúbis fazendo a macabra lista desaparecer enquanto magicamente a guardava.
— Duas ou três vezes. — disse Khnum com sua voz pesada e rouca dando de ombros — Podia parar de pensar nos filhos dos outros e ter seu próprio de uma vez. Independente de quantos anos você se sinta tendo em anos mortais, muitos mortais já teriam filhos com sua idade. Se acha com o quê? 16? 17? 18? Tameniut aí na sua listinha, por exemplo. 16 anos.
— Você não tem nenhum pote idiota para fazer e parar de me irritar não? — perguntou Anúbis.
— Na verdade, estou sim pensando em fazer um vaso de argila hoje. — disse Khnum se virando para ir embora do Salão do Julgamento não ligando para o fato de que não combinava muito com ele, com sua expressão assustadora e seus braços musculosos, ter como passatempo fazer várias coisas de argila.
Eles deixaram Khnum ir embora sem qualquer impedimento. Uma troca de assunto seria muito bem vinda por todos ali. Especialmente porque Hórus queria falar com Anúbis sobre toda a situação de Imhotep.
— Estava questionando meu pai sobre se acha que isso pode ter alguma consequência. — disse Hórus — Os arquitetos e trabalhadores rezando e provavelmente adorando Imhotep.
— Somos imortais. — disse Osíris — Mas dependemos também da crença dos humanos. Imhotep é um mortal e está vivendo no Aaru alheio à tudo o que acontece de fora. Espero que não tenha contado nada para ele da pirâmide de Khufu ou de nenhuma outra feita depois que ele morreu…
— Não. — respondeu Anúbis — Depois que entram no Aaru eu prefiro não falar diretamente com nenhuma das almas lá justamente para não gerar interesse pelo mundo exterior. Ao menos tento na medida do possível. Só costumo falar com os caninos.
— Vão fazer algo com os arquitetos e os trabalhadores? — perguntou Anput.
— Melhor não. — sugeriu Osíris — Vamos ver o que acontece e… sim… deixar eles andarem com as próprias pernas.
— Tendo decidido isso… — perguntou Anput abrindo um sorriso que escondia a empolgação dentro de si — Têm algo mais de importante para discutirem?
— Creio que não. — disse Osíris abrindo um sorriso para a garota — Vai roubar o Anúbis? Para onde vão dessa vez?
— Punt. Já faz um bom tempo que não vamos lá. — disse Anput.
— Sendo assim, boa viagem. — disse Osíris com tranquilidade na voz.
Não era preciso desejar boa viagem para Anput, ela já estava empolgada com a viagem quando segurou a mão de Anúbis, que simplesmente admirava a felicidade dela, e partiram deixando o Salão do Julgamento para trás. Fazia já alguns anos que não tinham parado de julgar os mortos, checar estados de tumbas, guiar o caminho para almas perdidas, mumificar pessoas aleatórias e demais serviços que vinham com os títulos que carregavam nos ombros. Umas férias seriam muito bem vindas.
Foi a mesma facilidade que os levou para o Salão do Julgamento que os levou para longe dele. Num momento estavam no Salão do Julgamento, no outro estavam diante de uma praia de areias branquinhas e águas calmas cuja cor começava a fugir para o alaranjado conforme o sol ameaçava se por nas montanhas que começavam a se erguer, à princípio timidamente, atrás dos dois deuses. As águas da praia pareciam extremamente convidativas com sua profundidade que diminuía tão lentamente ao ponto que era difícil lembrar que o mar aberto não estava tão longe assim. Parecia às vezes uma mera lagoa. Aquela praia, junto com as montanhas, formavam as terras de Punt. Uma terra praticamente tropical bem ao sul da abrangência do poderoso Saara que atraía a atenção dos egípcios por vários motivos, sendo os mais importantes o ouro e a fauna e flora diferenciados.
As terras nas quais eles pisavam podiam se chamar Punt no momento, mas um dia seriam divididas em vários países diferentes que passariam por muitas reviravoltas ainda pela frente. O lugar onde estavam um dia viraria Djibouti, mas não muito à direita deles estaria o ponto que marcaria a fronteira com a Somália. O mar na frente deles um dia seria chamado de Golfo de Aden e seria responsável por separar o Mar Vermelho do Mar Arábico. Mas agora… era pura e simplesmente a terra de Punt.
— Imagino que ver o pôr do sol nas montanhas mais além seja interessante apesar de meus planos terem sido pelo nascer do sol no mar. — admitiu Anput olhando para o horizonte.
— Podemos simplesmente ver os dois. — sugeriu Anúbis dando de ombros.
Enquanto o feliz casal ia aproveitar umas merecidas férias sob a luz sol e da lua, mais ao norte de onde ele estavam, com o passar do cair da noite, a discussão do faraó Khufu com os seus filhos havia chegado ao fim. Os 13 filhos de Khufu se espalharam pela cidade e pelo palácio indo cuidar de suas próprias vidas. Dentre os que saíram do palácio, apenas um não foi se embebedar no bar mais próximo ou se divertir num prostíbulo de alta classe, e esse era o Príncipe Minkhaf.
Com as palavras crueis e indelicadas que o irmão, Khafre, havia dito ainda ressoando em seus ouvidos, Minkhaf se sentia mal, incapaz, estúpido. Com a cabeça fervilhando e sabendo que estava precisando distrair o pensamento para alguma coisa, ele andou até chegar em um templo onde ficava a Casa da Vida. A Casa da Vida, nessa altura, ainda era um pequeno instituto criado pelo próprio Thoth responsável por preservar e criar conhecimento em forma escrita e pictórica. Talvez o conceito mais perto da época de uma universidade. Por isso, sabia que lá iria encontrar muitos textos dos mais diversos conteúdos para deixar sua mente voar.
— Ora, olá. — disse um idoso sacerdote ao ver o jovem se aproximando lentamente — Faz tempo que não vem até aqui… Nefer-ka-ptah…
— Sim. — disse Minkhaf respondendo ao nome falso que havia dado tempos atrás numa tentativa de esconder que era filho de Khufu — Perdão, Reda, meu filho estava doente então…
— Quis ficar ao lado do pequeno e da esposa imagino. — disse o sacerdote Reda completando a frase e Minkhaf apenas afirmou com a cabeça — Está tudo bem com ele agora, espero.
— Sim. Tudo bem. — disse Minkhaf abrindo um pequeno sorriso tentando esconder a mente pesada que tinha — É um menino forte.
— Que bom ouvir. — disse Reda — Mas… está tarde. É raro ter alguém aqui tão tarde. Sei que gosta de vir aqui mas...
— Peço perdão por ter vindo quando o sol já não brilha no céu. — disse Minkhaf — Encontro minha cabeça cheia de pensamentos não muito agradáveis e quero distraí-la um pouco.
Um breve silêncio se instaurou no ambiente enquanto o sacerdote Reda, um velhinho aparentemente simpático, olhava para o príncipe se perguntando se deixaria ou não ele usufruir dos conhecimentos guardados na biblioteca da Casa da Vida.
— Bem… Fique a vontade mas não se demore muito. — disse o sacerdote Reda — A escuridão da noite pode ser perigosa em seu caminho de volta. E, caso esteja pensando em voltar de vez, convido-lhe também à participar das atividades de amanhã. Amanhã de manhã falaremos sobre técnicas e feitiços para boa saúde. Você sempre teve em interesse em assuntos do tipo, não?
— Sim. Obrigado. — agradeceu Minkhaf abrindo um sorriso cortês que não chegou em seus olhos.
O idoso sacerdote, com um gentil sorriso no rosto, acenou brevemente com a cabeça e deu as costas para o príncipe. Minkhaf sempre se perguntou se Reda tinha noção de que ele era um dos príncipes. Às vezes achava que sim. Hoje, contudo, esse pensamento nem passou pela sua cabeça. Apenas queria distrair a mente e, por isso, pegou aleatoriamente o papiro com a aparência mais antiga que conseguiu achar e que não havia lido antes. Ele abriu-o com delicadeza perguntando-se o que os ancestrais haviam deixado de conhecimento para ele.
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