A Morte Das Areias do Saara
63 O Reino Perdido de Punt
Notas iniciais

Um dia ele foi ao templo para orar aos deuses, mas quando viu as inscrições nas paredes, começou a lê-las; ele esqueceu de orar, esqueceu dos deuses, esqueceu dos sacerdotes, esqueceu tudo o que estava ao seu redor até ouvir risadas atrás dele..
~ Fragmento de “O Livro de Thoth”
Ao redor de Anúbis e Anput se abria a grande imensidão do nada. Um tapete fenício com vários detalhes florais feitos em tons de vermelho, preto e amarelo se estendia no chão. Junto com alguns travesseiros e o céu noturno, tal tapete conseguia criar um recinto até romântico e confortável no alto da montanha escolhida por eles para ver o pôr-do-sol, já à muito terminado.
Para ver o pôr-do-sol, foi escolhida uma montanha montanha que não era tão alta quanto o monte sem nome onde haviam noivado, mas o céu estrelado ali era tão lindo quanto. Sem luzes de cidades grandes para apagar seu brilho, as estrelas brilhavam poderosas criando uma pintura que nenhum artista poderia reproduzir com fidelidade o suficiente.
O que era mais incrível para eles, era notar como toda a região da montanha era coberta por uma com acácias, juníperus e até mesmo samambaias em seu topo. Conheciam as árvores, especialmente as acácias que eram tão preciosas para os egípcios e a matéria prima de muitas de seus objetos de madeira, mas as flores que desabrochavam ali eram uma novidade que até o momento a escuridão da noite escondia as cores.
— Estou sinceramente repensando aquela minha ideia de ver o nascer do sol da praia hoje. — admitiu Anput deitada ao lado de Anúbis no tapete apenas admirando as estrelas.
— E porquê? — perguntou ele.
— Eu gostei desse cantinho da montanha... Das estrelas tão pertinho… — disse ela com uma voz sonhadora — Podemos usar esse lugar por mais tempo. Me pergunto também o que mais deve se esconder por aqui.
Anúbis olhou rapidamente para ela torcendo para que ela não tivesse notado que estava se sentindo meio distante no momento. Sua mente era constantemente bombardeada pelos mais diversos pedidos dos mortais. Pedidos para cuidar de almas de entes queridos, dar o merecido para almas que deixaram uma trilha sangrenta para trás ou o último pedido de um pai ou mãe moribundo que, até antes de uma partida iminente, eram tudo que alguma criança ainda tinha.
Quando passava o dia literalmente quase inteiro lidando com suas obrigações, já se tornara fácil não se deixar levar pelas vozes incessantes. Mas, em momentos calmos assim, era difícil não se deixar ser engolido pelas vozes que clamavam sua atenção. No começo de seu culto, quando as vozes ainda eram poucas, era fácil lidar com isso e separá-las do próprio pensamento. Agora, universalmente reverenciado em todas as partes do Egito, ele sentia que estava prestes a provar que deuses também eram suscetíveis à dor de cabeça. Não tinha dito à ninguém, mas imaginava que Anput percebesse, que às vezes se sentia um tanto soterrado em responsabilidade. Talvez por isso Anput insistisse tanto em tirar algumas férias ao menos uma vez por século. Mas Anúbis sabia como seu trabalho deu esperança ao povo. As pessoas se maravilhavam com a garantia de que seu corpo seria respeitado na morte, sua alma seria protegida e julgada com justiça. E isso facilmente fazia ‘férias’ virar um peso na consciência.
Contudo, Anúbis sabia que Anput não merecia que ele estivesse com a cabeça longe dali naquele momento. Assim, ele tentou buscar alguma coisa para prender a atenção e puxá-lo para ali. Focou-se nos olhos dela refletindo as estrelas, no leve som do farfalhar das árvores perto, no som da voz dela, no cheiro distante, doce e familiar que chegava até suas narinas e na textura confortável do tapete fenício embaixo de si. Até que, a fala dela o fez ter uma ideia.
Anúbis sentou-se no tapete e olhou ao redor em busca de algo. Com apenas a lua para iluminar, não havia muito o que descobrir no meio da escuridão. Contudo, os segredos guardados pelo escuro não ficariam por mais muito tempo escondidos, pois não precisou de muito para Anúbis criar duas pequenas bolas de fogo para iluminar o lugar. Em seguida, ele se levantou e as duas bolas seguiram ele quando ele deu alguns passos para longe do tapete.
Desde do momento em que ele havia se sentado, os olhos de Anput acompanharam-no perguntando-se o que estava passando pela cabeça dele. Até que, eventualmente, a curiosidade a derrotou de vez.
— O que está fazendo? — perguntou ela enquanto Anúbis se aproximava de arbustos de plantas de tamanhos e formatos diferentes.
— Procurando algo… — disse ele.
— O quê?
Ele não respondeu a pergunta já que queria guardar ainda alguma surpresa. A falta de uma resposta fez a curiosidade de Anput aumentar enquanto ele parecia procurar alguma coisa no meio do mato. Ele por duas vezes levou um pequeno ramo de flores para o nariz e no segundo se deu por satisfeito com um pequeno sorriso no rosto.
Não queria puxar o pobre ramo de um jeito bruto que acabasse com sua base. Então, por mais que não fosse a real função do objeto, ele invocou a pequena faca usada na cerimônia da abertura de boca de uma mumificação. Com a faca, ele cortou um pequeno ramo, voltou até o tapete, se agachou e entregou o ramo para ela com um pequeno sorriso no rosto.
Segurando delicadamente o pequeno ramo, ela admirou a beleza delicada e minúscula das pequenas flores de pétalas brancas e miolos grandes e amarelos que cresciam em sua extensão. Além disso, ao chegar tão perto assim da flor, ela notou com surpresa o detalhe que talvez tenha dedurado a presença daquela flor ali para ele tão antes.
— Nossa! Esse cheiro! É bem forte! — disse ela levando a flor até o nariz para cherar mais profundamente — É muito bom! E familiar.
— É a flor que os mortais vêm até Punt pegar para fazer incenso acho. — disse ele fazendo a faca simplesmente sumir — Ao menos o cheiro é idêntico.
— Porquê não me mostrou antes? — perguntou ela.
— No começo… você estava empolgada demais para ver o pôr-do-sol que por pouco não perdemos. — admitiu Anúbis — Depois, estava escuro e achei que a pobre for merecia ter suas cores vistas de dia. Por mais que seja simplesmente branca.
Anput retribuiu os motivos com um doce sorriso olhando para ele e então olhando para a pequena flor em sua mão quando uma pequena ideia nasceu em sua mente. Uma mera palavra em egípcio foi necessária para fazer um feitiço para manter o ramo e suas flores daquele jeito para sempre.
— Sai. — murmurou ela.
O pequeno ramo de flor irradiou uma pequena luz branca nos seus contornos e logo se apagou. Não havia nada de visualmente diferente, mas tudo havia mudado para as pequeninas flores.
— Obrigada. — disse ela se aproximando dele e lhe dando um doce beijo.
Com a mão esquerda protegendo o ramo de flores contra seu coração e a mão direita na bochecha dele, Anput não deixou aquele beijo terminar tão rápido assim. Eram tantas almas para julgar ou guiar, pessoas para mumificar, órfãos para amparar, pedidos para atender, ela sabia ao menos em parte o peso que Anúbis carregava nas costas e como ele tentava esmaga-lo às vezes. Assim, queria muito que ele relaxasse ao menos um pouco e, por isso, não deixou aquele beijo ser rápido e vazio.
O prolongar do beijo ocasionou o óbvio, ele ficou levemente mais profundo enquanto Anúbis botava a mão na cintura dela fazendo um arrepio espalhar-se pelo corpo dela. Foi nesse momento também que Anput agradeceu silenciosamente por ter feito o feitiço para proteger as flores antes do beijo. Assim, não só o tempo não era mais um problema, como também não havia mais preocupação em esmagar as delicadas flores.
Em meio a privacidade criada pelas estrelas e pelo vazio ao redor deles, uma coisa foi levando à outra. A mão de Anúbis na cintura de Anput puxou ela para mais perto abraçando-a com carinho e ao mesmo tempo com urgência. As preocupações e as orações dos mortais ainda fervilhavam em sua cabeça, mas a cada toque elas pareciam menores, mais controladas. Ainda estavam ali, mas se tornavam lentamente preocupações para outra hora.
Quando percebeu, Anput já estava deitada mais uma vez no chão com Anúbis em cima de si. O longo cabelo trançado de Anput estava esparramado pelo chão com a mão que segurava a flor pendendo para o lado preservando-a do que provavelmente viria a seguir mesmo que tal cuidado não fosse mais necessário. Naquele ponto, não era mais difícil descobrir como eles iriam aproveitar mais as horas naquele pedacinho da montanha. E de fato as horas se passaram até que com timidez o sol começou a nascer no lado leste do Nilo.
Na cidade de Mênfis, o dia ainda estava cedo demais para começar, mas Minkhaf já vagava pela cidade. Sentia que havia aprendido muito com os textos que lera. Adorava ler e a sensação de aprendizado que vinha depois disso. No entanto, ainda assim, queria aprender mais. Sempre queria.
O Príncipe deixou seus pés guiarem-no pela cidade enquanto sua mente vagava pelos diversos assuntos que lera questionando-se sobre posicionamento dos autores, fazendo para si mesmo as perguntas que os autores não puderam responder e outras coisas. Até que, quando percebeu, estava na frente de um dos vários templos da cidade e logo pensou que poderia orar por mais conhecimento e chances de obtê-lo. Não sabia se o sacerdote responsável por ele estava acordado no momento, mas, mesmo assim, entrou no recinto. Contudo, seu olhar foi atraído pelos textos registrados nas paredes detalhadamente com tintas de várias cores. Era mais do que um registro de sabedoria, era um enriquecimento da beleza do lugar.
— Você toma posse do céu pela grandeza dos seus terrores... — murmurava Minhkaf com o olhar seguindo os complicados hieróglifos cuja escrita pronunciava e que a maioria da população não era capaz de ler — e pelo poder do seu nome de "Príncipe das quinze festas" Brilhe sobre nós como Rá, o senhor.
Ele seguiu lendo os textos nas paredes. Frase após frase. Estava tão envolto que esqueceu de onde estava e do que havia o levado até ali. Esqueceu de orar, esqueceu dos deuses, esqueceu dos sacerdotes, esqueceu tudo o que estava ao seu redor até ouvir risadas atrás dele.
— Por que você ri de mim? — disse Minkhaf olhando para o dono da voz, um sacerdote jovem com um sorriso estranho que parecia-lhe arrogante e ao mesmo tempo assustado.
Minkah teve a impressão de que já tinha visto o homem antes. Talvez em alguma visita distante à Casa da Vida, de antes de seu filho ficar doente. Não sabia dizer, mas sentia que tinha algo de errado com o homem.
— Porque você leu esses escritos inúteis. — respondeu o sacerdote, uma escolha estranha de palavras para um sacerdote dizer sobre textos sagrados — Se você quiser ler textos que valem a pena, posso dizer onde está oculto o Livro de Thoth.
— O livro de Thoth? — repetiu Minkhaf sem ter uma ideia do que o sacerdote se reveria.
— Sim. O Livro de Thoth. — afirmou o sacerdote juntando as duas mãos atrás do corpo e erguendo o queixo orgulhoso — Bem, se bem que Thoth escreveu vários deles.
— Mais de 10.000 livros. — disse Minkhaf.
— E provavelmente na metade do caminho para 20.000 já. — disse o sacerdote dando de ombros com uma simplicidade e descaso que deixaram Minkhaf desconfiado.
— E provavelmente escreverá muito mais, sem dúvida. — respondeu Minkhaf, Thoth era seu deus favorito e tinha certeza que Thoth escreveria ainda mais centenas de livros.
— Sim sim, não duvido também. — disse o sacerdote sem nome — Mas o livro que falo é diferente de todos os demais. Qual o seu nome?
Diante da pergunta que costumava ser um problema para ele, Minkhaf resolveu usar novamente o nome falso que criou.
— Nefer-ka-ptah. — respondeu Minkhaf e o sacerdote abriu um sorriso macabro que parecia esconder algo por trás.
— Bem, Nefer-ka-ptah… — disse o sacerdote — Deixe-me dizer que Thoth escreveu o livro com sua própria mão, e nele está toda a magia do mundo. Se você ler a primeira página, encantará o céu, a terra, o abismo, as montanhas e o mar; entenderás a linguagem dos pássaros do ar e saberá o que as coisas rastejantes da terra estão dizendo, e verá os peixes das profundezas mais sombrias do mar. E se você ler a outra página, mesmo estando morto e no mundo dos mortos, você poderá voltar à Terra da forma que já teve. E além disso, verás o sol brilhando no céu com a lua cheia e as estrelas e contemplar as grandes formas dos deuses.
A proposta apresentada diante de Minkhaf era simplesmente absurda demais, perfeita demais, perigosa demais. Minkhaf queria esconder, mais ficou claro para o sacerdote que os olhos do príncipe estavam brilhando como se tivesse acabado de ver ouro.
Muito ao sul dali, o dia também já havia começado em Punt. Mesmo inicialmente começando de forma preguiçosa, o dia logo ficou empolgante, principalmente para Anput, quando do alto da montanha onde ela e Anúbis passaram tirando bom proveito da noite, ela viu uma torre de fumaça se erguer depois de já terem magicamente arrumado suas coisas e estando prontos para ir para o próximo lugar da viagem.
— Essa fumaça não parece ser de alguma mata queimando. — disse Anúbis enquanto Anput tentava ver o lugar exato de onde vinha o fogo.
— Não mesmo. — disse Anput — Deve ter algum vilarejo por perto! Vamos lá ver?
— Sabe que não deveríamos… — comentou ele.
— Eu sei! Bora! — disse ela agarrando o braço dele.
Não teve nem tempo para ele reclamar, não que ele fosse tentar. Já estava acostumado ao jeito de Anput ser e simplesmente deixava ela se divertir conhecendo um pouco dos outros povos. Sabia bem também que ela tinha um certo fascínio pelos povos do sul do Saara. Assim, o comentário dele de que não deveriam era apenas para pegar no pé dela um pouco do que necessariamente tentando impedir ela.
Num incontável segundo eles estavam mais perto da origem da fumaça. Dentre árvores e montes, vinham a fumaça surgir de uma fogueira posicionada dentre várias cabanas feitas de um jeito totalmente diferente que os egípcios estavam acostumados. Afinal, quase tudo naquelas terras parecia diferente.
As casas eram montadas sobre palafitas e tinham um formato redondo que lembravam muito uma colméia cortada ao meio. Dentre as casas, cresciam algumas tamareiras e árvores de mirra. Dentre as árvores, uma ou duas vacas andavam calmamente mastigando a grama que era seu café da manhã.
Todavia, Anput não os havia levado até um ponto que os deixava escondidos entre as árvores. Provavelmente porque ainda haviam várias casas entre a fogueira e a proteção da floresta. Então, a repentina aparição dos dois deuses foi notada pelos habitantes do pequeno vilarejo erguido em território que um dia já seria a Somália.
O povo que olhava para eles eram claramente diferente dos egípcios. Conversavam entre si em um idioma que eles não conheciam, vestiam saias brancas que tinham até um corte parecido com as saias egípcias, mas o caimento e o corte eram levemente diferentes. Alguns ainda usavam outro pedaço de pano que passava por cima de um dos ombros ou colares de estilos diferentes dos encontrados comumente nos mercados egípcios. Esse povo também enfeitava ao redor de sua cabeça com uma espécie de tiara que adornava os cabelos como um círculo colocado sobre a cabeça.
—Acho que estão assustados com a gente…. — disse Anúbis notando como um dos mortais mais novos queria preparar sua arma para aqueles dois estranhos mas um mortal mais idoso o impediu segurando a arma feita de madeira com a mão e começando a conversar com o jovem e, pela altura da voz, com todos do vilarejo.
—"com a gente"? — repetiu Anput que, assim como Anúbis, estava era curiosa para ver o que aconteceria ali e não com medo de serem atacados. Afinal, eram deuses imortais. — Não somos os primeiros egípcios à vir até Punt. Talvez eles já tenham visto outros. Até um dos filhos do Khufu já veio até aqui, não foi?
—Aposto que ninguém chegou simplesmente aparecendo do nada nas margens do vilarejo. — disse Anúbis enquanto se arrependia silenciosamente de não ter aprendido nada do idioma dali.
— Isso… e acho que você provavelmente é a primeira pessoa branca que eles estão vendo. — disse Anput notando que sim, a maioria dos olhares estavam sobre Anúbis. — Bem… eu acho ao menos. Afinal, não tem muitos outros povos além da gente que viajam até Punt. E mesmo no Egito já é raro alguém da sua cor.
O chute de Anput era muito bom. Com suas peles belas e negras como a penumbra, os habitantes de Punt pareciam ter a pele da cor extrema oposta de Anúbis. Embora eles já tivessem visto os povos do Sul do Saara antes, havia sido em outros vilarejos e em outros séculos. As chances de aquele encontro estar repleto de novidades eram bem altas. No entanto, o que pesava mais na surpresa estampada nos rostos dos habitantes do vilarejo ainda era o fato de que Anput e Anúbis simplesmente surgiram repentinamente.
O único que ousou se aproximar dos dois deuses foi o senhor que impediu o guerreiro ansioso de atacar. O homem deu apenas três passos que foram o suficientes apenas para os destacar dos demais. A distância dele até os dois deuses ainda era bem grande, mas pequena o suficiente para que pudessem se ouvir sem elevar a voz.
— Kemet? — perguntou o homem usando a palavra egípcia para Egito.
— Kemet. — afirmou Anput sem saber se o homem sabia falar egípcio ou se essa era a única palavra que ele sabia.
— Iiti Em Hotep. — disse o homem em um egípcio carregado de sotaque dando-lhes boas vindas.
— Dua Netjer en ek.— agradeceu Anúbis.
— Quem...? — disse o homem tropeçando pelo o que parecia um vocabulário limitado de egípcio.
Os dois deuses se entreolharam por um breve segundo enquanto se perguntaram com quanto de verdade responderiam a essa pergunta. Foi Anput quem resolveu que não estava muito interessada em mentir para eles. Talvez o nome deles não significaria muita coisa para aquele povo.
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