A Morte Das Areias do Saara
64 Proposta tentadora demais
Notas iniciais

"Por que você ri de mim?" disse Nefer-ka-ptah.
"Porque você leu esses escritos inúteis", respondeu o padre. "Se você quiser ler escritos que valem a pena, posso dizer-lhe onde está oculto o Livro de Thoth."
~ Fragmento de “O Livro de Thoth”
O Reino de Punt era um pedacinho de terra que poucos sabiam da existência mas que se beneficiava de seu vizinho rico que tinha que lidar com as adversidades de viver num deserto. Daquela terra que já não sofria tão direta e cruelmente as complicações do Saara, os egípcios buscavam ouro, madeiras raras, incenso e animais exóticos.
Aquele povo que olhava curiosamente para o casal egípcio, em alguns anos, criaria mais um dentre os vários mistérios que a história mundial guardava. Afinal, num dia sem datas, o Reino de Punt desapareceria por completo sem deixar rastros. Teriam eles sidos dizimados por inimigos? Ou talvez pela natureza? Ou talvez apenas continuaram a existir e se tornaram outros povos? Ninguém saberia dizer com certeza e muitos historiadores discutiriam onde exatamente Punt ficava, pois, da existência desse povo poucas provas ficariam para trás. Em sua maioria, apenas textos e registros dos egípcios sobre suas expedições até ali.
— Anput. — apresentou-se Anput colocando a mão sobre o peito e olhando com o canto do olho esperando Anúbis se apresentar também.
— Anúbis. — disse ele simplesmente.
— Faarax — respondeu o mais velho dentre os cidadãos daquele vilarejo de Punt se apresentando.
Com todos alheios do que o futuro guardava para o Reino de Punt, Faarax continuou a falar enquanto levava a mão direita até o coração e abaixava a cabeça em sinal de respeito.
— Não conhecer… costumes…Kemet... bem… — dizia Faarax tropeçando pela língua egípcia — Não conhecer … língua… Kemet bem.
— Tudo bem… — disse Anput dando um breve olhar para Anúbis antes de olhar para o homem novamente.
No olhar que Anput lançou a Anúbis, havia uma pergunta silenciosa “Quer fazer as tentativas de socializar?”. Não muito surpreendentemente, ele simplesmente resmungou um não baixinho para ela que, esperando bem isso dele, apenas revirou o olhar com um pequeno sorriso no rosto.
Anúbis não era como Anput que gostava de interagir com os mortais de outras civilizações. Para ele, bastava ver eles de longe. Na verdade, até mesmo entre os deuses não eram tantos assim com os quais ele costumava conversar regularmente.
— Desculpa… perguntar… — dizia Faarax pesando cada palavra bem antes de dizer-la — Ahm… não saber palavra. O quê… são?
— Viajantes. — disse Anput — Só viajantes.
O senhor virou o rosto levemente para falar com uma mulher que estava logo ao seu lado enquanto os outros cidadãos do vilarejo esticavam o pescoço para ouvir. A conversa que aconteceu foi rápida e silenciosa e, embora Anúbis e Anput tivessem escutado as palavras ditas, eles desconheciam o idioma.
— Sabe que eles não vão simplesmente achar que somos viajantes normais né? — sussurrou Anput para Anúbis.
— Sim. — disse ela com um longo suspiro — Mas você quer mesmo entrar na explicação complicada de o que a gente é? Ainda mais sabendo que eles não parecem ser tão fluentes assim em egípcio e a gente não sabe nada do idioma daqui.
— Aposto que Thoth saberia… — disse Anúbis suspirando.
— Com certeza. — concordou Anput.
Depois de alguns minutos, Faarax se afastou de seus conterrâneos e se virou novamente para os dois deuses. Um sorriso educado estava em seu rosto mas as mãos tremiam levemente. Anúbis e Anput se perguntavam o que ele achava que eles eram. Com certeza meros viajantes não era uma das opções.
— Nos permitiria…dar boas-vindas? Festa? — sugeriu Faarax — Comida. Música.
— Uma festa para nós? — perguntou Anput confirmando a informação.
— Sim. Sim. Grande festa. — confirmou o homem.
— Obrigada, mas não é necessário. — disse Anput — Guardem sua comida e sua energia. Só queremos conhecer a região. Entende? Apenas conhecer Punt.
Afirmando brevemente, o homem mostrou que entendeu. Em seguida, traduziu o que foi dito para os outros. Como uma ideia tivesse surgido em sua mente, a mulher que estava ao seu lado pareceu lhe sugerir alguma coisa.
— Esposa dizer… perto natureza, animal... diferente. — explicou Faarax apontando para o oeste — Erm… Bonito… água.. caindo… água boa… visitar recomendo.
— Água caindo? — repetiu Anúbis olhando para Anput — Uma cachoeira?
— Talvez… — disse Anput dando de ombros.
— Podemos ir lá amanhã. — sugeriu Anúbis e Anput afirmou com a cabeça e um sorriso no rosto.
— Obrigada. — disse Anput educadamente se virando então para Anúbis abaixando a voz cada vez mais a cada palavra — Para as águas quentes então? Mas antes, quero ver um pouco como é o dia a dia deles.
Anúbis afirmou brevemente com a cabeça e, do mesmo jeito repentino e mágico com o qual eles chegaram ali, eles sumiram depois de algumas palavras de despedida. Contudo, eles não foram para tão longe assim, apenas foram para os limites do vilarejo enquanto Anput via como aquele povo fazia as coisas diferentes dos egípcios. Não foi preciso muita magia para eles ficarem invisíveis para qualquer mortal que tentasse olhar.
Simplesmente olhar um povo seguir com seu cotidiano pode não estar dentre as coisas mais divertidas do mundo, por isso o casal também conversava enquanto fazia isso. A conversa fluía principalmente para os povos que os egípcios já conhecera. Os sumérios tão longe, os núbios tão perto, os minóicos com suas ilhas e peles mais claras, os puntianos tão escondidos mas agora ali diante deles, os fenícios e suas cores exclusivas, os povos nômades do deserto que vira e mexe apareciam em alguma cidade egípcia. E os povos iam mais além do que África, Mar Mediterrâneo e Oriente Médio. Ouviam falar de povos mais além, de povos que viviam mais além dentro da Ásia e que aparentemente tinha sim muita coisa do outro lado do mediterrâneo, não apenas ilhas.
Enquanto isso, em Mênfis, Minkhaf sentia-se extremamente interessado pela proposta que o estranho sacerdote jogava diante de si. Independente de onde fosse, julgara a viagem possível. Afinal, podia simplesmente pedir para o pai por recursos. E ninguém em todo o Egito teria mais recursos do que o pai. Entretanto, sabia que deveria se preocupar com um detalhe. O que o homem queria em troca? Não deveria ser tão simples assim.
— Pela vida do Faraó, esse livro será meu. — disse Minkhaf — Diga-me tudo o que você deseja, e eu o farei por você.
— Providencie meu funeral — disse o sacerdote — Faça para que eu seja enterrado como um homem rico, com sacerdotes e mulheres de luto, ofertas, libações e incenso. Então minha alma descansará em paz nos campos do Aaru. Cem pedaços de prata devem ser gastos em meu enterro.
— Cem pedaços de prata? — repetiu o príncipe.
— Sim. E essa oferta não durará muito tempo. Se não puder, irei atrás de outro. — disse o homem.
Minkhaf afirmou brevemente com a cabeça e, pedindo para o sacerdote esperar, ele entrou mais ainda no templo em busca do sumo-sacerdote deste. Um sacerdote estranho e novato era uma coisa, mas não tinha como o sumo-sacerdote não saber quem ele era.
O sumo-sacerdote do templo, que estava tão concentrado debruçado sobre vários papiros junto com uma jovem enquanto um guarda estava parado ao fundo, levou um leve susto quando o príncipe entrou tão repentinamente no cômodo.
— M-Mas o q-quê…Aqui não.. — disse o sumo-sacerdote em meio ao susto — … p-príncipe Minkhaf?
— Preciso que um mensageiro seja enviado ao palácio imediatamente. — disse o príncipe com urgência.
Não houveram perguntas por parte deles, afinal era um dos príncipes. Assim, dentro de alguns minutos, um soldado e um mensageiro corriam até o palácio e voltavam ofegantes, devido à falta de cavalos, e com uma sacola de peças de prata até o templo onde tudo começou. Com a prata nas mãos, Minkhaf entregou a sacola valiosa nas mãos do sacerdote depois de checar o valor.
— O livro está em Koptos, no meio do rio. — disse o sacerdote — No meio do rio há uma caixa de ferro, na caixa de ferro é uma caixa de bronze, na caixa de bronze há uma caixa de madeira-cetê, na caixa de madeira-cetê, há uma caixa de marfim e ébano, na caixa de marfim e ébano está uma caixa de prata, na caixa de prata é uma caixa de ouro, na caixa de ouro está o Livro de Thoth. Em volta da grande caixa de ferro estão cobras e escorpiões e todo tipo de coisas rastejantes, e acima de tudo há uma cobra que nenhum homem pode matar. Estes estão posicionados para guardar o Livro de Thoth.
Tendo tudo que tinha, Minkhaf saiu correndo desesperado do templo. Queria contar o plano para a esposa e, acima de tudo, queria ir atrás do que prometia ser uma grande quantidade de conhecimento.
Enquanto em Mênfis as coisas se movimentavam para darem início à um provável novo problema, em Punt as coisas iam muito bem. O passar das horas trouxe a noite até aquelas margens do continente africano.
O pôr do sol foi apreciado naquela noite num lugar de geografia muito diferente e peculiar. No chão, a grama crescia aos punhados em apenas alguns pontos enquanto competia por terreno com a areia e com a água que formava vários lagos de águas termais de tamanhos diferentes. As águas eram rodeadas de algumas pedras grandes, maciças e disformes que formavam pequenos montes de aparências estranhas pois, sua superfície rústica e talvez até enrugada não parecia com morros normais. Não apresentavam a suavidade causada pelas ações do vento e da água, mas sim pareciam desafiar as leis da física com seus cumes tortos, contorcidos e pontiagudos.
Despida, Anput colocou a ponta do pé suavemente na superfície de um dos lagos termais da região enquanto media a temperatura. Já dentro da água, Anúbis admirava a delicadeza suave e bela com a qual ela fazia isso antes de entrar na água quente e relaxante. Lentamente a deusa entrou na água fazendo a superfície reagir a sua presença enquanto juntava todas as suas trancinhas do cabelo em um dos ombros. Um sorriso e um suspiro de relaxamento escapou pelos lábios de Anput quando ela entrou na água por completo e se acomodou sentando-se de um jeito que a água chegasse até seus ombros.
— Essa água é muito boa… — comentou Anput fechando os olhos relaxada.
— Combina bem com o tempo frio. Mas aposto que não é tão bom assim quando está muito calor. — disse Anúbis.
— Concordo. — disse ela se aproximando dele e deitando a cabeça em seu ombro — No calor a cachoeira que vamos procurar amanhã deve ser mais interessante. A água deve ser bem geladinha.
— Hum.. — murmurou Anúbis enquanto passava gentilmente a mão pelo rosto de Anput tirando da frente dele uma das trancinhas que havia se soltado do bolo que ela havia feito com todas elas sobre seu ombro esquerdo.
Com o rosto corado, ela levantou o olhar para ele e por breves segundos eles ficaram perdidos na conexão do olhar até que Anput tirou uma das mãos da água e puxou o rosto dele para mais perto para que pudesse dar um profundo beijo. Todavia, apesar da profundidade do beijo, este não durou muito, pois eles logo se separaram e, com apenas as pontas dos narizes unidos, se olharam longamente.
— Você está querendo passar a noite tal como ontem por acaso? — perguntou Anúbis depois de uns segundos com um pequeno sorriso no rosto.
— Não sei bem. — respondeu ela rindo diante da pergunta dele — Amanhã é o nosso último dia aqui. Queria aproveitar. Podemos acabar perdendo o nascer do sol se for assim. Porquê eu faço questão de ver da praia dessa vez.
— Não fale que amanhã é nosso último dia… — resmungou Anúbis se separando do olhar e soltando um pesado suspiro — Não quero nem pensar no tamanho que se formou em frente ao Salão do Julgamento.
— Pare de pensar nisso. Estamos de férias! — implorou Anput segurando na mão dele firmemente — Os sacerdotes também tiram férias, bem longas inclusive, você também merece umas férias.
— Existem vários sacerdotes, existe só um eu. — respondeu Anúbis — E é um pouco difícil não ficar pensando em tudo. Ainda está na minha cabeça a lista de bebês que Khnum deu antes de sairmos. Sem falar das vozes na minha cabeça não param nunca...
— Imagino que seja difícil ficar cuidando de tantos assuntos relacionados à morte, julgar os mortais e ainda assim achar tempo para fazer as múmias mas… — disse Anput deixando a voz vagar com a frase incompleta pois não sabia bem como terminar.
— Na verdade, fazer as múmias é até relaxante, por incrível que pareça… — corrigiu ele e ela olhou para ele meio incrédula.
— Você tira o cérebro deles pelo nariz… — comentou ela incrédula olhando para ele com olhos arregalados — e abre o corpo inteiro para tirar outros órgãos.
— Eu disse que ela relaxante, não que não era meio nojento. — disse Anúbis — Apesar de já ter me acostumado à essa altura.
— Relaxante como então? — perguntou ela.
Ele parou alguns segundos pesando suas palavras antes de responder enquanto olhava para o céu onde as estrelas começavam a aparecer do lado oposto dos últimos rastros coloridos do pôr-do-sol.
— Eu passo mais tempo no Salão do Julgamento do que em qualquer outro lugar. — começou ele a explicar — Por mais confortável que eu possa me sentir lá, ele ainda é bem distante. Às vezes, quando as almas chegam para serem julgadas, é fácil acabar só pensando que aquela pessoa é “só mais uma”. Mas, quando faço as múmias, é diferente. Por mais repugnante que o processo de fazer uma múmia possa parecer, principalmente para os outros já que à essa altura já acho bem normal, é relaxante pois o corpo conta muito da vida das pessoas. Se foi rico ou pobre, quantas vezes se machucou, quantas vezes ficou doente, se teve uma vida longa ou não… Está tudo lá. É fácil se concentrar e entender profundamente a imagem de quem era aquela pessoa em vida. Por mais que quando a pessoa morra eu receba magicamente muita informação da vida dela, não quer dizer que eu fique me concentrando em cada detalhe de informação que chega. O faço no julgamento para ser o mais justo possível, mas não é a mesma coisa. Até porque está no meio do julgamento. Mas, quando estou fazendo a múmia, é inevitável se concentrar inteiramente em quem foi aquela pessoa.
Anput pensou sobre aquilo e, por um tempo, não sabia bem o que responder sobre aquilo ou sequer se deveria responder alguma coisa. Então, por alguns minutos eles permaneceram em silêncio. Juntos, mas sozinhos com os próprios pensamentos.
— É bom que tenha achado algo que te relaxa… — disse Anput apertando a mão dele mais firme — Sei que não fala muito disso, mas imagino que seja difícil lidar com tudo às vezes. Não é um trabalho muito feliz lidar com a morte.
— Qualquer explicação que eu possa dar do que sinto disso fica facilmente bem estranha provavelmente. — disse ele — A morte não é um momento feliz na maioria das vezes, claro, mas gosto de lidar com ela. Talvez porque não sou eu quem decido quando os mortais morrem, como alguns povos acham de seus respectivos deuses da morte ou dos mortos.
— Acha que fica mais impessoal assim? — perguntou ela.
— Muito pelo contrário. Mas, por ser um evento inevitável, acho que talvez seja mais fácil. Mas só um pouco. Sempre que alguém se vai muitos sofrem, alguns ficam alegres até… — respondeu ele revirando os olhos — os mortais sabem guardar rancor afinal de contas. Mas, sendo um momento inevitável, posso me preocupar com as almas das pessoas e assegurar um julgamento justo e gosto disso. Tranquiliza os mortais de um jeito diferente de como os outros cuidam dos mortais ainda em vida ou como eu cuido dos órfãos que são deixados para trás. Dou meu melhor com os mortos e aqueles que ainda vivem sentem a certeza de que não ficarão desamparados quando a vez deles chegar.
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