A Morte Das Areias do Saara
65 Banho de cachoeira na savana
Notas iniciais

Então Nefer-ka-ptah estava ansioso em suas perguntas, e o sacerdote respondeu: "Thoth escreveu o livro com sua própria mão, e nele está toda a magia do mundo. Se você ler a primeira página, encantará o céu, a terra, o abismo, as montanhas e o mar; entenderás a linguagem dos pássaros do ar e saberá o que as coisas rastejantes da terra estão dizendo, e verá os peixes das profundezas mais sombrias do mar. E se você ler a outra página, mesmo estando morto e no mundo dos mortos, você poderá voltar à Terra da forma que já teve. E além disso, verás o sol brilhando no céu com a lua cheia e as estrelas e contemplará as grandes formas dos deuses.
~ Fragmento de “O Livro de Thoth”
Depois de sua aventura no templo, Minkhaf passou o dia pensando e discutindo suas opções com sua esposa, Ahura. Tinha que traçar logo o que deveria fazer, pois no dia seguinte tinha que ir visitar o pai que questionou de qual motivo fez o príncipe gastar tantas peças de prata. Minkhaf não gostou de ouvir que sua esposa era contra seus planos. Não vá nesta jornada, pois problemas e tristeza esperam por você na terra do sul."Não vá nesta jornada, pois problemas e tristeza esperam por você na terra do sul.", foi o que ela dissera. Mas ele iria em busca do livro de Thoth de qualquer jeito. Era sua esperança e Khufu já estava exigindo explicações para o gasto exorbitante de prata. E Minkhaf sabia, não conseguiria atrasar o encontro com o faraó por mais um dia. Assim, ele aproveitou o tempo que tinha o máximo possível e, quando chegou a hora, cruzou os corredores do castelo em busca do pai.
Passando pelos corredores elegantes de paredes do mais perfeito branco, Minhkaf foi para onde lhe disseram que o faraó Khufu estava. O poderoso faraó estava num cômodo bem arejado e ricamente adornado, assim como todos os outros cômodos reais, mas que passava uma sensação mais preguiçosa e calma. Talvez por causa da dona daquele quarto.
A ocupante daquele quarto era uma senhora de aparência frágil que estava sentada numa banhada à ouro. Seus cabelos grisalhos eram ralos e apesar da aparência frágil, seu olhar era forte. Sua pele enrugada tinha o tom marrom-claro amarelado tão parecido com o mineral rutilo e tão mais claro do que o tom de pele de seu filho que agora lhe segurava a mão enquanto se sentava na cadeira banhada à ouro ricamente adornada com padrões enfeitando as duas faces das cotas.
— Oh, um de meus netos veio me visitar? — disse a mulher ao notar a chegada de Minkhaf.
Diante da fala da mulher, seu filho, Khufu, virou-se na cadeira para olhar para Minkhaf no portal de entrada do cômodo. Vendo o olhar sério do pai, Minkhaf se encolheu levemente ao entrar no cômodo e o fato foi notado por sua avó que soltou uma risada fraca.
— Ora menino, o que aprontaste agora? — perguntou a mulher — Geralmente são seus irmãos que aprontam. E já não estão velhos demais pra essas coisas?
— Não estou aprontando, minha querida avó. — defendeu-se Minkhaf — Estou apenas com ideias para o melhor futuro do império.
— Hum… conte-me mais… — disse a mulher com uma voz bem fraca e cansada.
— Deixe disso, mãe. — disse Khufu de forma carinhosa gentilmente acariciando a mão decrépita da mãe — Tem que descansar, não se preocupar com problemas. Já se preocupou bastante com eles por muitos anos.
— Por mais velha e acaba que eu esteja garoto, e sei disso, ainda ocupo o cargo mais alto dentre seus conselheiros. — disse ela ralhando com o filho que simplesmente abriu um pequeno sorriso.
— E que conselhos. — disse Khufu — Seria meu fim ir contra eles.
— Ainda bem que sabe disso. — disse a mulher orgulhosa mas logo olhando para o neto com um pequeno sorriso — Quer saber de um segredo…. Minkhaf? … era Minkah né? Minha memória não é mais como antigamente. E não ajuda esse meu filho ter me dado tantos netos. Pois bem... Não importa quanto os faraós falem que ninguém está acima deles ou que não escutam ordens de ninguém, todo mundo sempre acaba escutando a própria mãe.
— Sabias palavras como sempre. — disse Minkhaf abrindo um gentil sorriso para a avó enquanto o faraó Khufu ajudava delicadamente a frágil mãe a se deitar novamente na luxuosa cama.
— Agora descanse… — disse Khufu gentilmente para mãe — Vou ver quais as ideias do garoto.
— Considere-as bem. — alertou a mãe com uma voz fraca e soltando logo um suspiro relaxado ao se aconchegar na cama novamente — Boas ideias vêm de vários lados.
— Sim. — disse o faraó gentilmente dando um beijo nas costas das mãos da mãe antes de deixar o quarto dela para trás.
Com Minkhaf em seu encalço, Khufu deixou o quarto de sua mãe exibindo um semblante preocupado. Ao alcançar o pai, Minkhaf notou pela expressão de Khufu que ele estava aflito.Com um rápido olhar para o portal que eles tinham acabado de deixar para trás, Minkhaf julgou já ter noção do que deixava Khufu temeroso.
— A vó não está bem? — perguntou Minkhaf.
— Tem dias que parece melhor do que outros mas, no geral, parece que sua saúde está pior a cada dia. — admitiu Khufu com um suspiro — Rezo para os deuses e os magos curandeiros visitam diariamente, mas acho que ela está perto de se unir à meu pai.
Por alguns segundos, os dois deixaram aquela informação se assentar em seus corações. Uma tristeza pairava ao redor dos dois enquanto cruzavam o palácio até chegarem num de seus jardins.
Khufu olhou para uma das figueiras que, dentre videiras, jasmins e margaridas, enfeitava e dava cor ao jardim ao redor de uma piscina rasa onde flutuavam flores de lótus, as favoritas de sua mãe. Pensativo, tentando mudar o foco de sua mente de sua mãe para o problema em questão, o faraó pegou um dos figos que pendia da árvore e analisou longamente.
— Então… — disse Khufu levantando o olhar da fruta para o filho — O que queria com as peças de prata?
— Encontrei um sacerdote que sabia a localização do livro de Thoth. — explicou Minkhaf — Um livro escrito pelo próprio deus que contém tudo o que se é possível saber.
Pelo olhar que Khufu lançou para Minkhaf, o príncipe percebeu que o pai havia notado a importância de tal livro. Assim, os dois se sentaram em um dos bancos de pedra e por vários minutos Minkhaf explicou o que sabia do livro. Tentou também responder as perguntas e descrenças que cresciam no peito de Khufu. Afinal, como Minkhaf sabia que o homem não estava simplesmente mentindo? Minkhaf sabia que ele não tinha muitos argumentos para isso, mas tinha que acreditar naquela oportunidade. Tinha planos mais profundos no meio de tudo aquilo, e Khufu talvez imaginasse isso. O posto de faraó passar para o filho mais velho era uma mera tradição, nada impedia Khufu de nomear qualquer um dos mais novos como seu sucessor, inclusive Minkhaf. E o objetivo de Minkhaf, no meio de tudo isso, era mostrar para o pai que seria um líder melhor do que os irmãos mais velhos.
— Dê-me a barca real, ó meu pai, para que eu possa ir para a terra do sul com minha esposa Ahura e meu filho Merab. — disse Minkhaf se erguendo, imponente, do banco depois de várias explicações e perguntas — Pois o livro de Thoth eu preciso e terei.
Bem mais ao sul de onde estava escondido o livro de Thoth, uma grande cachoeira de águas poderosas, trazia água para aquele pedaço seco da savana africana. O barulho da cachoeira era tão alto que Anúbis e Anput mal podiam ouvir um ao outro. Já haviam saído do que um dia seria Djibouti, ou até mesmo do que seria a Somália, ali já era a Etiópia. Um povo que, em não tanto tempo assim, iriam lhes dar alguma dor de cabeça.
— É mesmo linda! — exclamava Anput tentando fazer com que sua voz fosse ouvida no meio da competição de volume contra a queda d’água.
Eles subiam, desciam e desviavam das pedras que estavam no meio do caminho até a cachoeira enquanto se aproximavam do lago formado pela queda d’água. O vento levava as gotículas da cachoeira até eles molhando-os levemente e criando um arco-íris no vazio do céu.
— Olha! — disse Anúbis surpreso olhando para um animal diferente de tudo que já tinham visto.
O animal se curvava de forma desengonçada sobre o lago, junto com mais dois iguais à si, bebendo água. Seu pelo era amarelado e manchado com várias manchas marrons de formatos diferentes. Contudo, o que mais chamava atenção no animal, era que tinha um pescoço absurdamente longo, uma girafa.
A visão de tão exótico animal criou um brilho no olhar de Anput motivando-a a imediatamente cruzar os obstáculos e a distância que a separavam do animal. Ela parou uns metros de distância e começou a ir lentamente. Não queria assustar a girafa. Com passos leves e lentos, ela se aproximou até que a girafa, calma e curiosa, olhou para ela deixando o lago para trás. Curiosa, a girafa estendeu a cabeça para a deusa que gentilmente estendeu a mão e acariciou-a na lateral da cabeça.
— Aqui tem animais muito diferentes. — disse Anput — Primeiro foi aquele… burro… grande, branco e preto que vimos da outra vez… agora esse com o pescoço enorme.
— Teve também aquele com chifres enormes. — lembrou-se Anúbis enquanto se sentava em uma das pedras — E devem ter outros mais também.
— Acho que vou voltar aqui sem você algum dia para explorar mais… — disse Anput soltando um suspiro olhando para ele com um olhar de desculpas — … você é ocupado demais… desculpa…
— Tudo bem… — disse ele dando de ombros com um sorriso triste — Você gosta bastante de viajar e sei que não consigo viajar com você tanto quanto você gostaria.
Doía nele um pouco admitir isso, mas era verdade. Podiam estar ali passeando e relaxando, mas era difícil não pensar em como a fila de mortos para jultar estava aumentando sem parar naquele exato instante.
— Ouvi falar que aqui tem mais leões do que no Egito… — lembrou ele — Deve encontrar muitos animais se for mais para dentro do continente.
— Os leões não comem você né? — perguntou Anput para a girafa — Você é um bichinho tão engraçado e desengonçado pela cara. Seria injusto.
A calmaria e inocência do momento fizeram com que Anúbis resolvesse simplesmente aproveitá-lo mais profundamente. Iriam voltar para o Salão do Julgamento quando o sol estivesse começando a se pôr, assim, tinha que aproveitar os momentos que ainda tinha. Deixou-se tanto perder-se na alegria de Anput ao estar tão perto do trio de girafas que começavam à paparicar-la, que nem notou quando uma quarta girafa chegou de fininho por trás de si e lambeu-lhe a orelha esquerda.
Anúbis se arrepiou e pulou no pedaço de pedra negra no quão sentava-se virando-se um pouco para a girafa que lambeu-lhe a orelha. Ao ver a cena, Anput não conseguiu segurar a risada por muito tempo, logo caiu na gargalhada.
Vontade de rir não estava presente no sacerdote que havia dado a dica para Minkhaf sobre o livro de Thoth. Com o peito subindo e descendo intensamente, o sacerdote entrava na casa singela e solitária na qual ele morava. Suas mãos tremiam e do seu corpo suava intensamente quando ele tentava apressadamente se apoiar na parede. Arfante, ele caiu no chão quando de dentro dele, como se estivesse possuindo-o, saiu Seth.
Seth se aprumou ereto ignorando o estado do pobre homem diante de si. Estava calmo, mas seu olhar era perigoso quando, de seu posto de superioridade, olhou para o homem sem se abaixar nenhum centímetro sequer apesar do fato do sacerdote estar jogado no chão.
— Viu? Não foi tão difícil assim. — disse Seth — Tem seu dinheiro para um funeral e sepultamento que preste.
— T-Terei meu funeral… — gaguejou o sacerdote — I-Irei para o A-Aaru…
— Veremos… Aquele meu filho bem se orgulha de ser justo e imparcial. Qual será o julgamento daquele que ajudou um mortal à conseguir os segredos dos deuses? — disse Seth antes de desaparecer num singelo redemoinho de areia deixando o homem chorando no chão.
Enquanto isso, o tal filho continuava a aproveitar a bela cachoeira. Deixando as girafas para trás, Anúbis e Anput chegavam mais perto da queda d’água nadando pelo lago formado por ela. A água gelada era mais do que bem vinda em meio a temperatura alta da savana. Embora a temperatura não fosse tão aterrorizantemente quente como a do Saara conseguia ficar, a água ainda era bem refrescante naquele momento.
Os dois haviam se aproximado de uma parte onde a cachoeira caía com menos intensidade. Afinal, a queda d’água era tão larga, que não era tão difícil assim achar uma parte mais convidativa para tomar um bom banho. Foi à alguns metros dessa parte que Anput parou e permitiu-se uns segundos para admirar a cachoeira. As gotículas de água que escapavam da parte principal da cachoeira eram tantas que a deusa sentia dificuldade em deixar os olhos abertos pois, mesmo ali um tanto longe do centro da cachoeira, a água chegava até seu rosto.
Ao contrário de Anput, Anúbis continuou mais além. Com um mergulho profundo notou um aglomerado de pedras e peixinhos que timidamente se escondiam em seus pontos mais escuros com a aproximação do deus. Ao menos naqueles breves momentos antes de suas pequenas férias de alguns poucos dias acabar, ele queria tentar relaxar. Então, estando numa parte mais tranquila da cachoeira, foi fácil subir as pedras que se aglomeravam embaixo da queda d’água até ficar de pé em uma delas.
Ali, a água batia mais ou menos em sua cintura enquanto a água da cachoeira caía em seus ombros de um jeito estranhamente relaxante, como uma massagem feita pela própria natureza. Com o poder da água, era difícil ver, ouvir ou falar qualquer coisa, mas talvez isso só deixasse a experiência até mais relaxante. Assim, vendo que o que Anúbis estava fazendo parecia interessante, Anput logo se juntou a ele embaixo da queda d’água. Ela riu ao ver como o cabelo dele, geralmente tão arrepiado e bagunçado, só que de um jeito bonito, ficava ali por causa da água. O som alto da cachoeira escondeu quase que completamente a risada dela dos ouvidos dele, mas mesmo assim ele correspondeu à alegria dela entrelaçando seus dedos nos dela.
Seguindo o coração, Anput tocou-lhe a bochecha esquerda com a mão livre e chegou o mais pertinho dele que conseguia. Suas testas se tocaram assim como seus olhares enquanto tudo que chegava até seus ouvidos era o barulho forte, constante e estranhamente relaxante da cachoeira. O momento por si só era tão relaxante, que eventualmente deixaram as pálpebras penderem preguiçosamente quase fechando os olhos. Foi também nesse momento que Anúbis cortou a pouca distância que ainda os separava e selou o momento com um doce beijo nos lábios dela. Anput retribuiu o beijo com prazer e com uma tristeza ardendo no peito, pois sabia que aquele momento de férias e relaxamento não iria durar por muito mais tempo.
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