A Morte Das Areias do Saara

66 A luz de uma visita inesperada


Notas iniciais
CHEGUEI COM CAP NOVO!! devo chegar com mais um novo rapidinho pq quero ficar logo com o mesmo tanto de capítulo que a Os Deuses da Mitologia

Então disse Nefer-ka-ptah: "Pela vida do Faraó, esse livro será meu. Diga-me tudo o que você deseja, e eu o farei por você".

"Providencie meu funeral", disse o sacerdote. "Faça para que eu seja enterrado como um homem rico, com sacerdotes e mulheres de luto, ofertas, libações e incenso. Então minha alma descansará em paz nos campos de Aaru. Cem pedaços de prata devem ser gastos em meu enterro."

Então Nefer-ka-ptah enviou um mensageiro da frota para buscar o dinheiro, e ele pagou cem moedas de prata nas mãos do sacerdote

~ Fragmento de “O Livro de Thoth”

Se tinha algo que havia mudado no Duat, era a fila de mortos esperando para serem julgados. A morte não para de traçar vidas nem mesmo quando o deus da morte tira alguns poucos dias de férias. Todavia, apesar da fila de almas que lhe esperava, Anúbis não se sentia triste ou ansioso por ter voltado para seu trabalho. Mas de fato sentia-se mal por Anput, tinha certeza que ela iria querer viajar mais.

Ao entrar no Salão do Julgamento, tudo parecia normal como qualquer outro dia. Os deuses seguiam seu cotidiano sem se preocupar que informações importantes e secretas possam eventualmente acabar vazando porque algum mortal estava indo atrás do Livro de Thoth.

Osíris, aproveitando uma breve folga, não estava sentado em seu trono. Ele estava de pé no meio do Salão conversando com Ísis que ficava de bochechas coradas apesar de tentar manter o decoro e a postura altiva mesmo quando ele lhe dava um beijo no torso da mão. Hórus estava em algum lugar que não se dava para ver à primeira vista, Ammit tirava uma soneca merecida deixando as patas para cima e a barriga exposta e Thoth parecia perdido em seus próprios pensamentos enquanto encarava um papiro.

— Desculpe não poder ficar tanto tempo viajando… — disse Anúbis para Anput — Pode chamar Seshat ou Sodpet para ir com você em algum lugar…

— Tudo bem… — respondeu Anput com um sorriso que Anúbis notou ser um pouco triste — Sei que é complicado com a fila de mortos aumentando à cada dia e tudo mais…

—Bem-vindos de volta. — disse Bes que se dirigia até a porta do Salão do Julgamento não só para falar com os dois, mas também para ir embora enquanto carregava uma pequena ânfora repleta de vinho dentro.

—Achei que não gostasse daqui debaixo. — disse Anúbis surpreso com a presença do deus anão ali.

— Vim pegar um pouco de vinho e conversar… — explicou Bea dando de ombros — esse lugar é meio arrepiante e tudo mais… realmente não gosto muito de vir aqui. Mas Lorde Osíris me ofereceu uma boa ânfora de vinho em troca de uma boa conversa. Viram algum dos nômades do deserto no caminho?

— Não. Fomos direto até Punt. — Explicou Anput — Não paramos na Núbia dessa vez.

A conversa então mudou de rumo quando Hórus chegou à passos apressados mas determinados com um rolo de palito escorrendo de uma de suas mãos.

— Ótimo. Chegaram. — disse Horus olhando para o papiro em suas mãos pela maior parte do tempo enquanto andava até os recém-chegados, mas dando um breve olhar para o primo — Queria falar com vocês desde do dia que saíram, mas meu pai pediu para que esperasse que voltassem.

— Aconteceu algo? — perguntou Anúbis.

— Nada muito urgente mas… Os filhos de Khufu, — disse Hórus — também querem fazer uma tumba tão absurda quanto o pai?

— Kawab não… — mencionou Anúbis — As filhas também não. De toda forma, não acho que Khufu esteja muito inclinado à deixar ninguém fazer nada tão extravagante e chamativo quanto ele mesmo se não quiserem uma mastaba.

— É verdade…. — disse Anput — Mas não acho que Khafre esteja muito inclinado também à obedecer os desejos do pai.

— Porquê a pergunta? — perguntou Anúbis.

— Hum… estava falando com Thoth e… — disse Hórus — É provável que essa construção seja um pouco demais considerando os recursos atuais do império. Bem, depende dos anos que vierem também… e do que mais essa família pode inventar...

— O que não me parece bom…- comentou Bes.

— Nem pra mim…- completou Anput.

— Vai fazer algo quanto à isso? — perguntou Anúbis.

— Não. — disse Horus com expressão fechada enrolando o papiro novamente — Se os humanos querem ser burros, que sejam burros sozinhos. Somos um grande império e nos recuperaremos de qualquer fiasco que eles possam causar.

Apesar de não concordar plenamente com as palavras de Hórus, nenhum deles insistiu muito mais. Não demorou muito mais para o assunto logo morrer quando começaram a focar em outras coisas. Em questão de minutos, o Salão do Julgamento estava em funcionamento novamente enquanto, no mundo mortal, Minkhaf preparava a barca real.

Dentre suprimentos que eram carregados por serviçais para dentro da barca, Minkhaf se debruçava sobre um papiro enquanto planejava sua viagem para o sul. Seu dedo percorria o mapa seguindo o Nilo desde Memphis e descendo e descendo para o sul até chegar na cidade de Geptu, ou Koptus, dependendo de em que idioma quer chamar a cidade. Teria que descer tanto que quase chegaria na cidade de Tebas que era, até então, pouco mais do que um pequeno porto comercial que era fortemente influenciado e também fortemente influenciava o reino da Núbia. Não só em termos de cultura, pois os núbios começavam a assimilar a religião egípcia, como também em povo. Era claro como a população do sul do Egito era mais negra do que a do norte. Contudo, isso não era motivo para qualquer segregação ou menosprezo. O Egito podia ter muitos problemas, assim como qualquer outro lugar. Como pobreza, desigualdade, escravidão, xenofobia, necrofilia e zoofilia, mas racismo não era um deles.

Minkhaf estava ciente que aquela viagem levaria dias. O Nilo não era nada pequeno e ainda teria que ir contra a correnteza dele. Ele respirou fundo perguntando-se se deveria pedir aos deuses por ventos bons, se deveria fazer uma oferenda para Qebui, mas achou que para o que estava indo fazer, era melhor que nenhum deus fosse procurado. Já estava temeroso do que poderia acontecer se sua empreitada fosse descoberta. Entretanto, ele sentia, ele sabia, que com o conteúdo do que estava provavelmente registrado no Livro de Thoth, poderia proteger a si e a sua família da ira dos deuses, nem que fosse com uma pequena chantagem.

Sua concentração com o planejamento da viagem foi interrompido quando pequenos passos apressados correram em sua direção.

— PAPAAAAAAAAAAI! — gritava o pequeno Merab correndo até Minkhaf.

Minkhaf deixou o papiro de lado e se virou a tempo de pegar o filho nos braços. Radiante de felicidade, a criança de dois anos se jogou nos braços do pai enquanto a mãe calmamente seguia o filho com um sorriso tranquilo no rosto.

O pequeno Merab era a mistura perfeita dos pais. Seu cabelo tinha pequenos cachinhos negros e seus olhos castanhos eram doces como os da mãe enquanto seus lábios eram largos e grossos tal como o pai e tal como o avô.

— Achei o Aped… — disse Merab mostrando o pequeno brinquedo de madeira no formato de um pássaro em suas pequenas mãos — Podemos ir agora.

— Onde estava? — perguntou Minkhaf olhando do filho e então para a esposa, Ahura.

— Ele… ele tava econdidobincando de econdê— disse o pequeno.

— Embaixo da cama. — explicou Ahura com um sorriso doce mas logo trocando para sua expressão preocupada — Certeza que está tudo bem irmos também?

— Não acho uma boa ideia deixá-los sozinhos aqui em Mênfis. — disse Minkhaf passando a criança para a esposa.

— É uma viagem longa e… perigosa… — disse Ahura receosa — Sabe que não aprovo-a também.

— Não gosto da ideia de deixá-los aqui em Mênfis. Pode ser tão perigoso quanto. — explicou Minkhaf — Não é como se estivessemos indo desamparados também. Um mensageiro foi na frente. Teremos acomodações no decorrer do trajeto. Meu pai enviou mensageiros na frente. Não há com o que se preocupar.

Ahura deixou um suspiro escapar de seus lábios enquanto tentava se convencer disso. Alheio à toda conversa, Merab se enroscava no pescoço da mãe que o segurava e admirava o pássaro de brinquedo em sua mãe. A mulher olhou com preocupação para o marido, mas tentou se esforçar em acreditar nas palavras dele de que estava tudo bem.

Quando tudo estava pronto na barca real, a família zarpou de Mênfis com sentimentos diferentes ardendo no peito. Em Minkhaf ardia a expectativa e ansiedade, em Ahura a preocupação e, no pequeno Merab, a alegria de sair numa viagem de, até onde ele entendia, de férias para partes diferentes e divertidas do império do qual seu avô era o governante supremo.

Por dias à fio a família viajou. Por dias à fio almas foram julgadas no submundo até que a fila de almas fosse diminuída à um nível mais aceitável. Era um serviço cansativo e necessário, mas provavelmente teriam o parado se soubessem que Minkhaf subia o Nilo indo para o sul em busca do Livro de Thoth.

— Hummm… você por acaso viu a Bastet recentemente? — perguntou Anput um dia.

— Hunf. — respondeu Anúbis enquanto acariciava a cabeça de Ammit que lambia os beiços depois de um lanchinho que foi uma alma — Eu que não.

— Seshat estava me perguntando hoje se a vi… — disse Anput sentando-se no chão encostada numa pilastra.

— Já já está vindo a próxima alma… melhor continuarem a conversa depois… — avisou Thoth arrumando seus papiros numa estante que, com um mero movimento de mãos, simplesmente desapareceu.

— Não viu a Bastet, Thoth? — perguntou Anput para o deus que parou para pensar um pouco.

— Faz uns dias que a vi. — explicou Thoth — Parecia normal. Estava brincando com uns gatos.

Levemente curiosos com onde Bastet estava, cada um continuou seguindo seus afazeres. Anput começou a dar atenção para Ammit que deitou ao seu lado enquanto Anúbis preparava a balança para mais um julgamento. Mas então um clarão invadiu o Salão do Julgamento.

O clarão não era só terrivelmente luminoso, como também era quente. Os deuses pararam de fazer o que estavam fazendo até então e tentaram entender o que estava acontecendo. A luz era tão forte que pareceu até ter engolido qualquer outra cor que tentasse competir com seu brilho.

A luz se movimentava até ficar mais fraca em determinadas partes do Salão do Julgamento e focar-se na entrada do mesmo. Notando isso, a curiosidade fez os deuses se reunirem ali. Todos os deuses presentes no momento se reuniram na entrada no Salão do Julgamento curiosos embora um ou outro, Thoth entre eles, já tivessem a suspeita do que aquilo era. Foi quando a luz diminuiu repentinamente e se concentrou num único homem de pele e olhos dourados, corpo forte e olhar cansado.

Os deuses mais novos, nascidos depois da última aparição daquele deus, não estavam ali. Todos os presentes ali sabiam quem era aquele homem e foi exatamente por isso que eles se ajoelharam abaixando a cabeça e mantendo a mão fechada sobre o coração.

— Bem vindo ao Salão do Julgamento, — disse Osíris — Senhor Rá.

Rá olhou ao redor analisando cada centímetro do Salão do Julgamento. Para tranquilidade dos outros deuses, o Salão do Julgamento estava perfeitamente organizado e em ativo funcionamento. Não queriam mostrar para Rá um caos, afinal, lembravam bem do desastre em que estavam quando Rá apareceu séculos atrás quando Hórus e Set estavam lutando até o último suspiro.

— Tudo parece em ordem… — disse Rá.

— Sim. — afirmou Hórus abaixando a cabeça humildemente embora ainda lhe doesse o pescoço fazer isso, mas Rá era Rá — O império está numa ótima dinastia. As riquezas são abundantes, as vitórias em batalhas numerosas. Estamos numa Era de ouro sem dúvidas.

— Senti isso… — disse Rá — Senti que isso afetou a força de Apófis negativamente… ou a minha positivamente. De toda forma, achei por bem sair de lá um pouco e ver como estão lidando com as coisas por aqui e pelo mundo mortal. E… ouso dizer… aproveitar um pouco de ar puro. E levantem-se… é o suficiente…

Não que o Duat fosse a melhor opção de ar puro, mas podiam entender o posicionamento de Rá. Mas além disso, aqueles que notaram o olhar cansado dele, também ficaram preocupados com esse pequeno detalhe. Um deles foi Anúbis que, achou até estar vendo errado, mas achou ter notado pequenos sinais de rugas ao redor dos olhos e boca de Rá. Não fazia o menor sentido, por mais velho que Rá fosse, ele ainda era imortal, era um deus, teria parado de envelhecer pelo menos mil anos atrás. Assim, com a cabeça cheia de questionamentos, Anúbis se levantou assim como os demais.

— E Apófis? — perguntou Ísis apontando a primeira preocupação de seu coração — Não é perigoso deixar ele lá sozinho?

— Não está sozinho… — disse Rá — Pedi para Bastet ficar lá mantendo-o sobre controle. Ele está fraco, ela não deve ter dificuldade alguma em lidar com ele.

— Acho que isso explica onde ela está… — sussurrou Anput para que apenas Anúbis escutasse.

— Agora que estou aqui… — continuou Rá — espero que não seja egoísmo de minha parte pedir uma festa. Passei tempo demais na escuridão lutando contra Apófis.

— Podemos fazer a melhor festa de boas vindas que o Egito já viu. — disse Osíris.

— Sim. Quero das grandes mesmo. — concordou Rá erguendo o queixo mantendo uma pose altiva mas ainda com um sorriso no rosto — E não só com as dezenas de deuses que cuidam do Egito, chame os deuses estrangeiros também.

— Quais estrangeiros? — perguntou Néftis — Fenícios? Sumérios? Núbios? Assírios? Minóicos?

— Todos eles. — simplesmente respondeu Rá.

— Não recomendaria chamar os Minóicos. — disse Thoth.

— Porquê? — quis saber Rá.

— Estão uma bagunça. — respondeu Anúbis — E apenas engatinhando.

— Apenas por isso não querem se misturar? — questionou Rá — Posso estar desatualizado, mas, até onde entendo, os Fenícios e os Núbios não estão muito melhor.

— É mais complicado. — disse Ísis — É verdade que os Fenícios e os Núbios também não se comparam à nós e aos Sumérios, por exemplo. E que a cultura e religião Núbia muito se inspira na nossa mas… tem algo de estranho com os minóicos.

— Estranho como? — perguntou Rá.

— É um tanto complicado de explicar. — disse Thoth cruzando os braços — É verdade que os fenícios e assírios também estão engatinhando e que tanto seus povos como os dos minóicos crescem e prosperam à cada dia… mas os deuses minóicos não são como os deuses fenícios ou assírios, nem como nós ou o sumérios. É como se eles ainda não tivessem encontrado sua identidade. São deuses confusos e etéreos por mais que a civilização minóica pareça prometer grandes feitos para o futuro. Estão indo muito bem para quem só praticamente tem a ilha de Creta. É como se eles ainda estivessem se encontrando… sua religião ainda está mutável, frágil… sou da teoria que os minóicos vão cair em alguns séculos e serão substituídos, apagados ou assimilados por outro povo.

— Eles mesmo sentem essa fragilidade de si próprios e se recusam a misturar-se com outros deuses. — completou Hórus — Talvez com medo de serem moldados por outros povos, tal como fazemos com os núbios.

— Não aceitam as tentativas de discutir sobre o que aconteceria com os humanos que morrerem por lá… Nem consegui conhecer ainda o deus deles responsável pela morte. — disse Anúbis — E não aceitam que pisemos em seu território já tem quase uma década. Nós, ao menos. Não os mortais. Quando alguns homens de um navio mercante egípcio morreram lá por uma doença que se espalhou no meio da viagem pelo navio, tive que arrumar meios extremamente indiretos para resgatar as almas que se perderam por lá.

— No final… — disse Seshat — É melhor simplesmente deixá-los em sua ilha enquanto torcemos para, em algumas décadas ou séculos, termos vizinhos além do mar do qual podemos tirar benefícios mútuos e mais duradouros do que o simples comércio.

Notas finais
~~~ REFERÊNCIAS ~~~ O livro de Thoth - https://www.sacred-texts.com/egy/woe/woe10.htm Gebtu - https://en.wikipedia.org/wiki/Qift Tebas - https://en.wikipedia.org/wiki/Thebes,_Egypt Civilização Minóica - https://en.wikipedia.org/wiki/Minoan_civilization Civilização Fenícia - https://en.wikipedia.org/wiki/Phoenicia Núbia - https://en.wikipedia.org/wiki/Nubia#History Assírios - https://en.wikipedia.org/wiki/Assyria