A Morte Das Areias do Saara

167 Suspiros do Submundo



Enquanto isso, o veneno queimava com um fogo ardente, e seu calor era mais forte que o de uma chama ardente. Então, a Majestade de Rá disse: "Deixarei que Ísis me perscrute, e meu nome sairá do meu corpo e entrará no dela." Então, a divina se escondeu dos deuses, e o trono na Barca dos Milhões de Anos ficou vazio. E aconteceu que, quando chegou a hora do coração sair [do deus], ​​ela disse a seu filho Hórus: "O grande deus se comprometerá por um juramento a entregar seus dois olhos."

~ Fragmento do papiro “A Lenda de Rá e Ísis”

Quando Ísis entrou no Salão do Julgamento para contar ao marido o estranho acontecimento na praia, não havia mais corte em seu braço para provar o seu ponto. Ainda assim, Osíris tocou gentilmente o braço da esposa no ponto onde, pouco antes, um corte misterioso havia sido feito como que carregado pelo vento. Hathor e Néftis haviam acompanhado Ísis, tão curiosas quanto ela quanto ao corte do qual foram testemunhas.

- Não tem muitas coisas que podem nos cortar… — dizia Ísis, levantando o principal motivo para tamanha preocupação por algo tão pequeno.

- Sim… — concordou Osíris — Teria sido proposital?

- Quem e porquê? — perguntou Hathor — Um corte tão pequeno assim?

- O “quem” é a parte mais complicada. — disse Hórus, que antes das três chegarem, estava conversando com Osíris — Com tanto acontecendo, impérios caindo, massas de mortais invadindo as cidades e deuses revoltados ou sumindo, é uma lista difícil de fazer.

- Perguntar um à um gastaria tempo demais e daria resultados de menos. — disse Ísis, não gostando das palavras que dizia.

Momentos depois, Anúbis, Anput e Kebechet chegaram no Salão do Julgamento também. Tendo acabado de deixar o funeral improvisado de Lelwani para trás, eles estavam longe de estarem com o melhor dos humores. Os olhares cansados e pesados pelo luto mal foram atraídos pela comoção de Ísis no centro do Salão. Assim, os três seguiram para cômodos mais profundos do Salão do Julgamento, nem um pouco interessados em acrescentar mais um problema ao dia que deveria ter como problema principal a partida de Lelwani.

A ausência da família unida era sentida como um vazio no ar que lembrava a todos de Lelwani. Ainda assim, Hórus seguiu os três com o olhar e isso trouxe algumas ideias para ele. Se culpou um pouco por fazer a associação que sabia que o primo odiaria, mas, no momento, era necessário.

- E Seth? — perguntou Hórus — Faz tempo que ele não apronta nada.

- Está magicamente obrigado a me obedecer. — lembrou Osíris — Mandei-o ir fazer uma tempestade de areia em algumas fronteiras para dificultar o avanço das massas de invasores de forma sutil o suficiente para ninguém reclamar que estamos interferindo.

- Tempestades de areia são feitas de vento. — lembrou Hórus.

- Sabe onde foi que ele estava? — perguntou Ísis.

- Ao menos eu pedi para que fosse fazer isso pela fronteira com a Núbia. — explicou Osíris — Bem no limiar dos templos construídos por Ramsés II lá.

- Muito longe… — lembrou Hathor — Estávamos ao Norte, na praia.

- Podemos confirmar com ele e com pessoas da região se essa tempestade de areia realmente aconteceu mas… — disse Osíris — Considerando com tudo que acontece, também temos que colocar em nossa lista deuses estrangeiros. Na verdade, exatamente considerando tudo que acontece, acho difícil Seth está envolvido.

- Você o defende demais. — disse Ísis.

- Sei que acha isso, meu amor… Mas pense bem… — pediu Osíris — Seth pode ser muitas coisas, mas ele é leal à Rá e ficaria tão impactado e triste quanto nós se visse o Egito cair. E na situação em que estamos, nunca ficou tão perto de isso acontecer.

- Mas ainda estamos numa situação muito melhor que muitos dos nossos vizinhos. — lembrou Hathor — Talvez até que todos.

- Exatamente. — disse Osíris — Por isso levantei a possibilidade de estrangeiros. Seria ingenuidade de nossa parte achar que não criamos antipatias em todos esses séculos de existência. Inclusive pela própria contagem desses mesmos séculos. Impérios estão caindo para todo lado e ainda estamos aqui. Quase ninguém que está aqui hoje estava aqui há 2 mil anos atrás. Os assírios podem ser herdeiros dos sumérios, mas nossa existência ainda é invejável. E que hora melhor para tentar nos derrubar do que quando todos estão fragilizados?

- O que diz faz sentido. — disse Isis — Mas por favor certifique-se de que Seth realmente está no sul fazendo seus deveres. Por favor.

- Farei isso. Vão pensando em quais outros podemos checar sem causar uma crise diplomática. — disse Hórus, imediatamente se transformando num falcão e indo cumprir sua missão.

O submundo como um todo ficou para trás a escuridão de seus mistérios foi trocada pela comum noite mortal. Apesar da normalidade da noite, ela mesma tinha seus segredos e assombros, por isso os mortais tinham medo do escuro. Hórus sobrevoou o Egito seguindo o curso do Nilo, passou por pequenas aldeias onde o povo dormia e com certeza algum ladrão se preparava para seu serviço noturno.

Na fronteira sul que tão nada ironicamente parecia dividir o Egito Antigo e o Atual também das terras Núbias do Sudão, uma tempestade de areia atacava a escuridão e escondia os grandes templos que Ramsés II havia construído ali, um dele, outro de sua esposa favorita, Nefertari. Ambos com o mesmo objetivo, mostrar para os invasores vindo do sul com quem se meteriam se invadissem o Egito. Um medo que o Egito já não botava mais.

Ainda sem ver nada além de areia, Hórus mergulhou no meio da tempestade de areia e voltou para sua forma humanoide. Rapidamente ele se encolheu e fechou um pouco os olhos quando a areia começou a atacá-lo de todos os lados, tentando explorar cada parte de seu ser do jeito comuns de tempestade de areias de comportarem, mas que trouxe memórias antigas terrivelmente desconfortáveis para Hórus. Seu peito se apertou e, quando sentiu que o ar lhe faltava, teve certeza que não era a areia a única culpada disso, sua mente também era, uma vez que ele não precisava respirar.

Queria sair logo dali, resolver logo aquilo. Mas não acharia Seth naquele caos. Ainda assim, era como se ele estivesse em cada centímetro daquela tempestade, como se cada grão de areia fosse as mãos do deus lhe explorando, invadindo, perturbando sua paz. Era de propósito? Era a falta da adrenalina numa luta contra Seth? Quando foi a última vez que entrou numa tempestade de areia sem estar numa luta?

- APAREÇA LOGO SETH! — gritou Hórus, não se importando de engolir areia se isso significasse sair logo dali.

- À que devo a repentina visita? — perguntou Seth no meio da tempestade.

Hórus olhou na direção da qual vinha a voz de Seth, e lentamente viu a forma do deus se formando conforme ele se aproximava a areia lhe dava passagem. Com a chegada de Seth, um círculo de proteção se formou ao redor dos dois deuses. Areia parou de chicotear e se esfregar grotescamente em Hórus e então o silêncio tomou conta da pequena área que eles estavam.

A areia passava ao redor do círculo, deixando-os como num escudo do mundo real. Não se via nada. A escuridão da noite era o único sinal de que ainda havia mundo lá fora. Ainda assim, se livrar da areia não era um lucro tão grande quando, em troca, Hórus se via diante de seu estuprador.

- Seu nojento. — resmungou Hórus entredentes.

- … O que eu fiz agora? — perguntou Seth, perdido, mas não realmente, não que Hórus tivesse conseguido ver por debaixo da atuação daquele que planejou tirar Hórus de seu eixo desde do começo.

- Essa areia idiota! — exclamou Hórus.

- Seu pai mandou eu fazer uma tempestade de areia aqui… — disse Seth, fingindo não saber em que ponto Hórus queria chegar — Para defender o NOSSO império. O que está insinuando para me olhar desse jeito?

- Seu… — resmungou Hórus, se vendo sem palavras — Aquela areia…

- Sim, tempestades de areia são feitas de areia. — repetiu Seth, se mostrando confuso enquanto, por dentro, ria — Não sei se é novidade para você… Mas assim… está no nome já.

- A quanto tempo está aqui? — perguntou Hórus, tentando recuperar a compostura, mas falhando já que sentia o coração bater, desesperado para ir embora.

- Tempo o suficiente para ter visto o sol se pôr. — respondeu Seth — É um pequeno prazer que me permito quando tenho que cuidar de uma tempestade de areia inclusive.

- O que sabe sobre minha mãe hoje? — perguntou Hórus.

- Sobre sua mãe? — perguntou Seth, fazendo uma expressão de dúvida apesar de seu coração ter falhado uma batida — Sinceramente não me importo o suficiente com o que sua mãe faz para saber de qualquer coisa sobre o dia de hoje dela. Não sei do que está me acusando agora! Mas tenho certeza que está me acusando de algo! Adoram fazer isso! Já não basta eu repetidas vezes dizer que sou fiel à Rá!? Não! Claro que não! Ainda tem que me prender magicamente ao seu pai!

- Pare de fazer por merecer! — rebateu Hórus.

- Sou um deus tal como você! Sou irmão de seu pai! Sou mais velho que você! — rebateu Seth, claramente se mostrando ofendido, o que não era nenhum fingimento teatral — Ficam me acusando sem provas! Quantas vezes já não fizeram isso? Sempre sou claramente a primeira pessoa que passa pela cabeça de vocês quando algo dá errado! Já não cansaram de ficar me humilhando e duvidando de mim? Já não cansaram de me humilhar por esse milênio não? Tive algo a ver com a situação que o Egito está agora? Não! Mas certamente já vieram ao menos 6 vezes me questionar. Tive algo a ver com os deuses de outros impérios que estão sumindo? Também não. Mas não duvido que tenha passado na sua cabeça que só sabe me colocar como o vilão de tudo. Tive algo a ver com os hititas nos atacando em Kadesh? Também não! Inclusive, pelo o que me lembro, recentemente até ajudei na luta contra Tifão! Mas ainda assim achavam que eu estava do lado dele, né?

- Tá. Tá. Tá. — disse Hórus, repetidas vezes, bem desconfortável e vendo muito bem o ponto de Seth — Se eu for nas vilas perto, terei relatos de mortais de que essa tempestade está durando tanto quanto diz?

- Vá, vá checar minha palavra de novo! Lutar contra um titã claramente não é suficiente! Já que é assim, depende de onde for. — disse Seth, dando de ombros — Como não parecia nem saber que tempestades de areia são de… areia..

- Eu sei que são de areia! — exclamou Hórus, com raiva, mostrando que Seth atingia seu objetivo.

- Sei sei… bem… de toda forma, a tempestade começou mais para sudoeste… — continuou explicando Seth — No deserto ao oeste do Nilo. E fui empurrando até aqui para pegar quaisquer grupos de núbios que estivessem perto demais do Egito e potencialmente vindo até aqui. Algumas vilas egípcias e núbias podem ter passado por uma tempestade também? Claro. Mas creio que a essa altura é só mais um dia para eles.

Com mais raiva do que conseguia suportar. Se sentindo ofendido e invadido, Hórus bufou e deixou Seth para trás. Na sua mente, saía de lá para investigar os vilarejos por testemunhas, mas lá no fundo sabia, simplesmente queria ficar o mais longe possível de Seth. Nas investigações que fez, bufando de raiva e com a mente mais ocupada com xingamentos à Seth do que com teorias e ponderações quanto aos relatos dos mortais, julgou o álibi de Seth confiável. Não pensou muito dos relatos de que teve um momento que a tempestade ficou um pouco mais fraca, afinal, não era nada que chamava muita atenção.

E assim, sem provas, não demorou muito para as investigações caírem por terra. O momento era muito propício para Seth. Com a morte de Lelwani, não parecia tão fácil pedir para Anúbis a pena da verdade para fazer um teste. E certamente toda a reclamação de Seth sobre a falta de confiança dos outros deuses teve o seu peso também, ainda mais quando a luta contra Tifão ainda estava muito fresca na cabeça dos deuses e seus danos ainda eram muito claros entre o povo. Mas mais importante que isso, a situação ia de mal a pior no mundo todo e, sem mais acontecimentos que poderiam ser ligados ao corte fino e breve no braço de Ísis, o assunto logo foi caindo em importância.

Então, tão logo as coisas se acalmaram, Seth voltou para onde havia deixado Setne preparando as coisas.

- Achei que não iria voltar mais. — disse Setne assim que Seth chegou.

- Eles logo suspeitaram de mim. — justificou Seth, com um suspiro pesado — É melhor usar cautela se eu realmente quero me livrar desse feitiço para sempre. Espero que isso ao menos tenha lhe dado tempo o suficiente para ter certeza que essa ideia irá funcionar.

- Não é como se eu tivesse outro deus preso numa magia com Ísis para testar. — rebateu Setne — Tudo que posso fazer é considerar a teoria de novo e de novo.

Setne então entregou o frasco que abrigava algo tão abstrato quanto o silêncio de Maat nas mãos de Seth e abriu o longo papiro que continha cada palavra que julgaram necessária para aquele feitiço. Com a mão livre, ainda pegou a solitária flecha que agora tinha em sua ponta o sangue ressecado de Ísis e entregou para Seth também.

- Preste atenção. Você vai abrir a garrafa e então vai começar a ler essas palavras aqui. Não gagueje, não repita a mesma linha. Basicamente, não erre. Eu vou ficar segurando o papiro. — pediu Setne, indicando o papiro em suas mãos — Quando chegar nessa parte aqui, você vai lamber o sangue de Ísis. E aí continua de novo até o final.

- Lamber? — questionou Seth.

- É… eu sei… nojento… — disse Setne, dando de ombros — Alguma pergunta?

- Não… — respondeu Seth olhando, uma a uma, para cada peça envolvida naquele feitiço que finalmente o libertaria de sua servitude.

Seth percorreu as linhas do papiro mais uma vez, enquanto o único som no cômodo era o crepitar hesitante das chamas que lançavam sombras trêmulas pelas paredes. Ele assentiu brevemente, quase imperceptível, e então abriu a garrafa que continha o silêncio de Maat. No instante seguinte, o mundo pareceu prender a respiração. O fogo emudeceu como se nunca tivesse existido, e uma quietude densa e opressora caiu sobre o ambiente. Era um silêncio tão absoluto que parecia pesar nos ossos, sufocando até os próprios pensamentos. Anormal, sufocante, pesado. Até o ar dos pulmões parecia pedir espaço para passar.

Setne bateu o dedo duas vezes no começo do texto. O papiro seco não fez nenhum barulho quando ele o fez, mas a movimentação foi suficiente para chamar a atenção de Seth, que começou a recitar o feitiço. Logo na primeira palavra dita, Seth notou que nenhum som saía de sua boca, mas não deixou isso lhe abalar. Com palavras mudas, não ditas mas bem enunciadas, Seth continuou a silenciosamente recitar cada frase do poema mágico nas mãos de Setne. A cada frase, o ar ali parecia ficar mais eletrizado e Seth sentia seu corpo formigando como se milhares de formigas estivessem enterrando-no vivo.

Um sorriso ia tomando conta do rosto de Setne enquanto pequenos raios negros estalavam, se contorciam e logo sumiam, entre quaisquer coisas dentro da sala. Entre a cadeira e a mesa, entre as pernas e os braços dos deuses, entre a estante e a parede. A visualização do ar eletrificado de algo mal, silencioso e poderoso que rastejava em cada cubículo de ar ali de forma traiçoeira. Foi exatamente nesse ponto que Seth precisou lamber o sangue de Ísis na flecha.

Um pequeno raio de eletricidade, ansioso e apressado, conectou a língua do deus à ponta da flecha segundos antes dos dois se tocarem. E logo, quando a língua do deus se manchou de sangue prateado, toda a eletricidade que pulsava no cômodo sumiu por um segundo e se concentrou ao redor de Seth. Seth se sentia explodindo, sentia que o coração ia romper o próprio corpo e, se tivesse cabelos, eles com certeza estariam estirados para todos os lados. E de novo, Setne apontou para o papiro. As palavras finais ainda precisavam ser ditas. Assim, com a língua tremendo e pulsando, Seth lentamente as disse sem que ainda nenhum som saísse de seus lábios. Quando a última palavra foi proferida, num piscar de olhos o cômodo voltou ao normal e o crepitar das tochas foi a única pista que os dois tiveram de que o som havia voltado.

- Funcionou? — perguntou Seth e Setne respondeu dando de ombros

- Só tem como saber testando. — disse Setne — Mas não esqueça de minha parte do acordo!

- Não esquecerei. — disse Seth antes de sair dali em direção ao salão do julgamento.

O dia estava relativamente calmo, ou ao menos considerando a média de “calmo” dos últimos dias, que não era muita coisa. Seth encontrou o salão do julgamento no meio dos típicos julgamentos. Então, ignorando a jovem que agora tinha seu coração pesado, ele abriu espaço silenciosamente entre todos os deuses ali presentes até chegar de fininho perto de Osíris, sentado em seu trono, que ao notar sua aproximação, lhe lançou um olhar.

Em silêncio, os dois ficaram ali esperando Anúbis terminar o julgamento da moça. Nos momentos finais, quando o coração foi pesado e Anúbis olhou, como sempre fazia, para Osíris, foi difícil esconder a cara de desgosto ao ver Seth logo ali. Notando isso, Seth apenas sorriu de volta. Anúbis então respirou fundo, tentando fingir que Seth não estava ali, e deixou o serviço continuar, deixando a jovem a seguir em direção ao Aaru, onde com certeza seria recepcionada por Neby e seu bando, que a ajudariam a achar um lugar para sua eterna morada. Antes de chamar outra pessoa, no entanto, diante de todos os outros deuses, Anúbis se virou para Seth e perguntou:

- O que está fazendo aqui?

- Não posso ver meu filho trabalhar e me encher de orgulho? — perguntou Seth, que ultimamente parecia estar tendo como passatempo irritar os outros deuses.

- Não ouse me chamar assim! — rebateu Anúbis.

- Sem brigas aqui, por favor. — pediu Osíris — A pergunta, no entanto, é válida. O que veio fazer aqui?

- Faz tempo que não vejo nenhum julgamento, decidi matar a saudade um pouco. — explicou Seth.

- Não vê pois não são problema seu. — respondeu Anúbis, se aproximando a passos irritados de Seth e Osíris.

- Está bem. Está bem. — disse Seth, erguendo levemente os braços em rendição — Sei que não gosta de mim. Não sou idiota. Quem é o próximo a ser julgado? Acha que Ammit irá o devorar?

- Vá embora! — reclamou Anubis entre-dentes.

- Ahm.. Osíris é quem decide isso… — sussurrou Thoth, acanhado, nem um pouco ansioso em se meter naquela confusão.

- Seth… — disse Osíris, suspirando levemente ao olhar para o irmão mas tomando partido do incômodo de Anúbis — O julgamento é algo importante. Por favor, vá. É melhor não afetar os ânimos aqui. Afinal temos que nos concentrar em sermos imparciais.

- Está bem. Está bem. — disse Seth, suspirando, se mostrando tristemente derrotado — Quer aproveitar logo e pedir algo para eu não ter que voltar aqui e desgraçar a visão de vocês? Outra tempestade de areia em algum invasor? Disseminar o caos em algum lugar?

- Hmm… Acho que Hórus me falou de alguma tentativa de invasão vindo do oeste… — disse Osíris, pensativo — Faça alguma tempestade de areia por lá. Sei que prefere causar discórdias ao invés de fazer fenômenos naturais, mas lembre que não podemos interferir. Fenômenos naturais dentro do esperado não há problema.

- Sim, senhor, vossa majestade. — disse Seth de uma forma meio zombeteira e sumindo de lá com um sorriso pois não sentia nenhuma força dentro de si lhe compelido a cumprir essa ordem.

Seth reapareceu no mesmo cômodo, diante de Setne, tocando seu próprio peito, esperando qualquer força, energia ou puxão que lhe dissesse para cumprir as palavras de Osíris. Seth e Setne se olharam, ambos numa tensão enquanto esperavam qualquer coisa. E então, o sorriso grande e grotesco que tomou conta do rosto de Seth foi o elemento final que ambos estavam esperando.

- Nada… — disse Seth, incrédulo — Não sinto nada! Nenhuma vontade de obedecer meu irmão.

- De nada. — respondeu Setne — Minha parte agora então.

- Não apronte demais. — pediu Seth, sabendo que era um pedido vazio.

Com um estalar de dedos, um redemoinho envolveu Setne, tirando-o daquele cômodo pequeno, esquecido no meio do nada, e largando-o sob o sol ardente no meio do deserto. Claro que Seth não iria facilitar as coisas para Setne. Mas Setne ainda assim não passava de um fantasma, não sentia fome, nem sede, nem frio, nem calor. Mas mais que isso, se sentia maravilhado de finalmente ver a luz do sol de novo, mesmo que ela agora atravessasse seu corpo translúcido. Estar no meio do deserto não lhe encheu de desespero, muito pelo contrário, só ficou feliz de ver o mundo novamente, por mais que a falta da luz carinhosa do sol lhe tocando a pele tivesse lhe caído como uma facada em seu coração.

Ele se ajoelhou no chão, aproveitou aquele momento por uns segundos enquanto sentia a diferença de seu corpo. Se não tomasse cuidado, não duvidaria que atravessaria o chão e desceria até voltar ao submundo… se é que o submundo era um lugar simplesmente embaixo da terra. O falecido príncipe olhou para o sol, e este não lhe queimou as retinas, e logo foi formulando seu plano. Com o movimento do sol, teria uma noção de onde era leste ou oeste. Esperar pelas estrelas seria melhor. Mas sem precisar de coisas mundanas para lhe manter vivo, nada lhe impediria de voltar para as cidades egípcias.

E assim, o tempo passou sem ninguém saber que Setne estava solto por aí. Afinal, já havia problemas demais tomando a mente dos deuses. Um desses novos problemas que surgiram começou alguns anos depois da morte de Lelwani. Já havia algum tempo que Anúbis, Anput e Kebechet se revezavam em visitas ao submundo micênico, onde um dos problemas estava. Dessa vez, Anúbis havia ido até lá com Kebechet. No caminho que faziam toda visita, quase como um ritual, passaram primeiro por Caronte em seu barco. O barqueiro, agora uma sombra quase invisível, dormia num silêncio profundo, encolhido em sua embarcação encalhada. Anput e Anúbis haviam o puxado dias antes para fora do rio, para um lugar seguro, fora do contato perigoso do Rio Estige.

O submundo estava triste e cinza, de uma tristeza silenciosa que parecia emanar do próprio chão. Não que um dia ele tivesse sido cheio de cores e alegria, mas estava diferente. Estava morrendo, com cada brisa trazendo seus danos, cada vestígio de existência parecia desmanchar-se em poeira. Inclusive, grão a grão, árvores secas se desintegravam em câmera lenta de forma triste e solitária, como se implorasse que alguém olhasse para elas, intercedesse por elas. Mas ninguém respondia. Não havia mais lamentos, nem gritos. Só pó e esquecimento. Não havia ninguém. Ninguém além de Anúbis e Kebechet, e do pó que saía das coisas, se movia no submundo. Até o Estige parecia que sua correnteza estava estranha, paralisada no tempo.

Eles seguiram o caminho em direção à casa de Hades, onde, logo na frente da entrada, em situação não muito diferente de Caronte, Cérbero dormia, tão frágil que mais parecia uma memória. Kebechet correu até o grande cachorro e colocou suas pequenas mãos em uma das cabeças, que ressonava.

- Ele ainda não acordou… — disse Kebechet, acabando por abraçar o Cérbero do jeito que dava, apesar da diferença de tamanho absurda.

- Não. — respondeu Anúbis, se aproximando também do grande animal e tocando sua testa na pelagem negra do cachorro e acariciando-o com as mãos — Não deve estar diferente lá dentro.

- De novo? — perguntou Kebechet, apreensiva, sabendo bem que foi assim que Lelwani ficou antes de sumir.

- Sim… — confirmou Anúbis, deixando Cérebro para trás e olhando para a casa, logo atrás — Hades já teria aparecido se estivesse acordado. Mas ao menos ainda deve estar lá.

- Vamos lá ver… — pediu Kebechet, já indo até a porta.

- Vamos… — concordou Anúbis, seguindo a garota.

Na primeira vez que tinham ido até ali, a entrada na casa de Hades havia sido acanhada, se sentindo invasores. Agora isso não acontecia mais. Se sentiam apenas os fiscais que confirmavam se os últimos suspiros da civilização micênica ainda existiam, que torciam para aqueles fracos suspiros um dia ficarem mais forte e acordarem os seres que dormiam ali, esperando pela morte do último mortal que sabia seu nome. Testemunhas de um fim silencioso.

A casa, por dentro, era um espelho do mundo exterior: silenciosa, empoeirada, suspensa na beira da não existência. Poeira já se acumulava em cima de tudo pela vista, provavelmente vinda das mesmas árvores que lentamente se desintegravam. Os lugares mais limpos eram onde estavam as pegadas deles das visitas anteriores, assim, eles avançaram, seguindo o mesmo caminho que essas mesmas pegadas seguiam, para cada vez mais profundamente na grande residência.

O caminho os levou até uma porta, que aí sim eles abriram de forma mais acanhada, como se uma parte deles esperasse ver algo diferente, algo mais vivo, mas não. O que viram foi a mesma coisa que viram nas últimas visitas, Hades, Perséfone, Macária e Melinoe, dormindo, tão transparentes quanto Caronte ou Cérbero. Não haviam caído naquele sono sem fim ao mesmo tempo, exatamente por isso que conseguiram se aglomerar assim, entre abraços de carinho e aconchego, na mesma cama, enquanto esperavam pelo fim da própria civilização e vida, ou por um milagre.

Kebechet abraçou o pai. Não por impulso, mas por necessidade. Não só por causa da cena que via, mas também por se perguntar se um dia seriam eles ali. Com uma mão na porta de madeira, que em poucos dias havia ficado velha, Anúbis usou a outra mão para abraçar Kebechet de volta enquanto os mesmos pensamentos passavam pela sua mente.

Longe dali, longe demais para qualquer um saber, um barulho explodiu aos céus. Não foi o grito de homem, até porque não havia homens por perto para sentir o pavor que aquele estrondo causava. Foi algo mais antigo, mais profundo. Nas terras gélidas do norte, onde nenhum faraó reinava e nenhum escriba registrava, onde uma ilha não descoberta, deserta dos animais terríveis que eram os humanos, um vulcão entrou em erupção.

Em futuro solo islandês, o monte de Hekla rugiu. Por séculos, adormecido sob um manto de gelo e tempo, ele despertou. O pouco do norte da Europa ocupado por pessoas sentiu o tremor de Gaia cumprindo sua promessa para Nyx, e viu a fumaça do vulcão se erguendo aos céus e tampando o sol, mas pouco entendeu.

Colunas de fogo riscaram as nuvens, o sol lutava por seu espaço em meio à escuridão forçada. Mas o vulcão era raivoso e causava uma erupção colossal. Diga do fim de uma Era, digna do fim dos tempos. Pedaços da montanha foram arremessados, chuva negra caiu sobre campos longínquos, cobrindo as folhas de fuligem e medo. Por dias, talvez semanas, o céu chorou cinzas como se a própria atmosfera tivesse sido queimada e isso, com certeza, teria graves consequências.




Notas finais
*** UM POUCO DE VIDA REAL *** Outro ponto que costuma ser levantado como tendo ajudado ao fim da Era do Bronze e à queda de civilizações, foi a erupção do vulcão Hekla, na Islândia. Foi uma puta erupção e uma dessas tem muitas consequências para o clima, que veremos no próximo capítulo. Durante os últimos 7.000 anos, um terço das cinzas vulcânicas depositadas na Escandinávia, Alemanha, Irlanda e Reino Unido se originou em Hekla. Não necessariamente dessa erupção, mas de outras também. Ele é um vulcão malandro. Tão malandro que sim… ele é apontado como o provável causador de um problema láaaaaa no Egito.