A Morte Das Areias do Saara

168 O Caos no Vale dos Reis


Notas iniciais
fotenha de hoje, o vale dos reis.

Assim, o grande deus foi forçado a revelar seu nome, e Ísis, a grande dama dos encantamentos, disse: "Flua, veneno, e saia de Rá; que o Olho de Hórus saia do deus e brilhe fora de sua boca. Eu trabalhei e fiz o veneno cair no chão, pois o veneno foi dominado.

~ Fragmento do papiro “A Lenda de Rá e Ísis”

A noite prometida por Gaia e imaginada por Nyx não foi bem o que a erupção do vulcão islandês trouxe. A escuridão parcial envolveu sim o norte da Europa, e a temperatura tão longe quanto o Saara e o Mar Cáspio. O clima mundial, que era uma combinação tão complexa de ações e reações, sofreu. A chuva que já não estava muito em sua normalidade, principalmente na região do Cáucaso, virou um problema ainda maior e para muito mais gente.

Nas terras etíopes, a chuva não caía. Consequentemente, no Egito, o Nilo não inundava. Sem água, a comida não crescia. E pra piorar, com as mudanças temporárias trazidas pela erupção, o sol estava tímido, acanhado. As colheitas não cresciam direito, não havia comida para todos, e o caos de outrora só piorava. Nas ruas egípcias, pessoas brigavam por comida e os trabalhadores se irritavam com os preços crescentes de comida e o salário, em grãos e cerveja, que só caía.

No submundo, os deuses estavam bem cientes da situação que trazia não só caos, como também mortos. Mortos como a moça que Anúbis carregava nos braços, pálida, magra, morta. Ele a deitou delicadamente na mesa da pedra dentre as várias idênticas que usava para fazer múmias e olhou para o rosto da mulher, para suas bochechas fundas e olheiras profundas. Mesmo falecida em seus meros 29 anos, já parecia uma múmia antes mesmo dele começar.

Era uma visão triste, de fato, mas uma que com o passar dos séculos e milênios, ele já havia, de certa forma, se acostumado. Não era a primeira seca, e nem seria a última, que o vale do Nilo passava. A dúvida era apenas se, em meio a tantos outros problemas, se o Império que receberia as próximas secas ainda seria o egípcio. Não querendo pensar em tais coisas, ele olhou para a pobre mulher diante de si. Magra, suja da poeira e da lama que caíam sobre seu corpo quando ele estava esquecido nas ruas apinhadas de Mênfis. Uma morte solitária, implorando por comida.

Da forma mais respeitosa que conseguiu encontrar, Anúbis pegou uma pequena faca e cortou fora o pano pútrido que um dia a mulher havia chamado de vestido. As costelas, antes cobertas pelo vestido, se mostraram mais ainda, sem uma grama as escondendo. Foi nesse momento que Kebechet entrou no recinto, carregando um grande jarro e elegante, pesado com água, que seria usada para lavar a mulher

— Acho que vai querer ouvir a conversa que eles estão tendo lá… — disse Kebechet.

— Não sei.. não costuma ser muito diferente. — disse Anúbis, suspirando pesadamente sem parar o que fazia — Vão reclamar da falta de chuva ao sul, perguntar se tem como trazer chuva logo para cá ao invés de para ao sul para o Nilo encher. Vão pedir para Hapi fazer o possível com as águas do Nilo ainda assim…Hapi e os demais vão falar que não é tão fácil assim…

— Tão falando em pedir ajuda à Rá. — disse Kebechet, finalmente atraindo a atenção do pai.

— Rá? — perguntou ele — Ele está longe de estar num estado que possa nos ajudar muito. Já não foi difícil fazer ele ajudar quando Tifão está aqui?

— Foi o que tio Hórus falou… — resmungou Kebechet

— Ele não é seu tio. — resmungou rapidamente Anúbis, deixando tudo para trás, cobrindo a jovem com um longo pano e logo seguindo sua curiosidade em direção ao salão do julgamento.

Kebechet deixou o jarro no chão ao seu lado e saiu a passos apressados atrás do pai. Chegando no Salão do Julgamento, os dois não foram os únicos curiosos com a conversa. Anput já estava lá, inclusive foi a mando dela que Kebechet foi atrás da Anúbis. Ao lado dela, estavam Nefertem e Qebui, mais além, estavam mais meia dúzia de deuses enquanto, no centro, Osíris, Ísis, Hórus, Hathor, Hapi, Sobek e Tefnut discutiam, e não pareciam gostar do rumo da conversa.

— Não podemos interromper Rá de novo! — exclamava Hathor — Ele não está saudável o suficiente pra ficarmos interrompendo seu tratamento assim!

— Que tratamento? — perguntava Ísis — Não sabemos o que fazer pra tratar ele e a cada ano ele vira mais um velho que não parece entender o que tem ao seu redor ou lembrar quem é.

— Não muda o fato de que talvez perturbá-lo não seja uma boa ideia… — comentou Hapi, com a voz mal sendo ouvida em meio à tantos deuses mais importantes que ele próprio.

— FALA MAIS ALTO! — exclamou Sobek, batendo no ombro de Hapi — É isso aí! Não sabemos como ajudar, mas temos que tomar cuidado para não piorar!

— Que outra ideia vocês têm então? — perguntou Ísis, claramente a mais irritada ali.

— Perdi muita coisa? — perguntou Anúbis, aos sussurros, para Anput, enquanto a discussão continuava.

— Não muito. — respondeu Anput, falando igualmente baixo e sem tirar os olhos da discussão.

— Tem mesmo muita gente morrendo já de fome? — perguntou Nefertem, aos sussurros — Eles disseram isso.

— Sim. — afirmou Anúbis.

— Como se não bastasse todo o ouro gasto em guerras… agora vem isso… — resmungou Qebui.

— Não sei como Ramsés III aguenta tantos gastos… — disse Nefertem — Ainda mais com a comida ficando mais cara.

— Mas ao menos ele está aguentando mais que os anteriores… — disse Anput — Já deu 29 anos de reinado dele…

— Não está aguentando tão bem não. — disse Anúbis, enquanto o pequeno grupo ignorava a discussão do centro, que parecia andar em círculos, e focava em suas próprias conversas.

— Como assim? — perguntou Nefertem.

— Os trabalhadores que estão fazendo a tumba dele não estão sendo pagos na frequência certa e estão ficando com muita raiva… — disse Anúbis.

— Mas as pessoas estão morrendo! — exclamou Ísis.

— Nós sabemos… — disse Hórus, cabisbaixo, também não gostando de lembrar disso.

— As chuvas, o sol e as cheias, tudo funciona num sistema complexo. Tudo influencia tudo. — disse Tefnut — Os hititas tentaram forçar uma seca.. e olha o que aconteceu com eles.

— Não temos provas de que a queda deles tenha a ver com eles tentarem quebrar as regras do tempo. — disse Hathor — Mas o que Tefnut disse não deixa de ser certo. As coisas funcionam com um sistema. Por isso o clima é acordado. O vulcão que entrou em erupção afetou todos nós de surpresa e afetou o clima de toda região. Não estamos numa situação que faça sentido trazer chuva ou cheia. Não tem de onde vir a água e o sol está frio.

— Por isso… se esquentarmos o sol, talvez as condições para termos chuva melhorem. — disse Ísis.

— Não podemos interferir assim. — disse Osíris, com um grande suspiro — Temos que deixar a história e a natureza tomarem o seu rumo. Se fizermos tudo ao nosso bel prazer, sem nos importarmos com nada, onde isso iria parar? O que nos impede de agora mesmo aparecer nos acampamentos dos povos que invadem o Egito e simplesmente acabar com todos num piscar de olhos. Somos deuses, não seria difícil. Mas não podemos. Limites existem pois são necessários.

— Uma hora estamos acabando com invasores e com as chuvas, e no outro estamos como os Hititas… — disse Hórus — Querendo mexer no tempo, se metendo nas batalhas dos humanos… lutando contra deuses para que o nosso território fique maior. O que seria do mundo se todos os deuses lutassem entre si como os mortais lutam?

— Não estou pedindo para ir à guerra com ninguém. — disse Ísis, com a voz quase suplicante — Só estou pedindo por algo para matar a fome de um povo…

— Não é a primeira vez que o Nilo não alaga e as pessoas passam fome. — disse Sobek, cruzando os braços — Porque essa preocupação com os famintos agora? E porque civilizações estão sumindo e você está com medo de sermos os próximos?

Diante da visão de estar sendo lida como um livro, Ísis não respondeu. Isso fez um sorriso vitorioso aparecer no rosto crocodiliano de Sobek. Apesar da curiosidade pelos rumos da conversa que havia atraído não só Anúbis, mas outros também até ali, a conclusão parecia ser de que nada iria ser feito.

Não fazer nada era algo complicado, que sem dúvida ceifaria mais várias vidas para a fome, mas também deixava o futuro do Egito em questionamento. Não que existe alguma solução plausível que apaziguasse as preocupações de todos. Qebui e Nefertem se olharam com preocupação, Kebechet abraçou os pais, esticando os braços para tentar abraçar os dois ao mesmo tempo e eles logo ficaram mais perto para ajudar a menina nisso. Uma coisa era certa, quando todos se dispersaram com o fim da conversa e nada resolvido, todos sentiam que o Egito seria o próximo.

Ainda que o grupo reunido tenha se dispersado, o assunto ainda estava presente na mente de todos, especialmente de Ísis. Mas, quando o dia seguinte raiou, outra situação iria atiçar a curiosidade de Anúbis. Com a proximidade das comemorações do aniversário de 30 anos de reinado de Ramsés III, os oficiais estavam mais preocupados com as festas que a data teriam do que com partilhar a comida pelo povo. Assim, no Vale dos Reis, algo que ninguém nunca antes havia visto começou.

Naquele amontoado de tumbas dos mais diversos faraós da história do Egito, havia uma pequena cidade que abrigava os habilidosos artesãos que construíam as mais belas tumbas e incríveis templos, e também suas famílias. Todos passando pelos mesmos problemas de falta de comida. Naquela manhã, nas obras da tumba de Ramsés III, já com muita raiva e fome acumulados, sob a liderança do trabalhador chefe, todos os artesãos jogaram suas ferramentas ao chão.

— NÃO VAMOS CONTINUAR TRABALHANDO NESSAS CONDIÇÕES! — gritava o líder, Qenna — ESTAMOS COM FOME! NÓS E NOSSOS FILHOS E NOSSAS ESPOSAS PRECISAMOS DE COMIDA! JÁ TENTARAM NOS ENROLAR POR TEMPO O SUFICIENTE! NOS DEVEM NOSSO PAGAMENTO À DIAS O SUFICIENTE!

— É! — gritaram os demais, jogando as ferramentas que tilintavam no chão de pedra.

— NÓS FICAMOS SEM COMIDA E ELES NÃO! — gritou alguém no grupo.

— NOSSOS ESTOQUES ESTÃO ACABANDO MESMO DEPOIS DE TUDO QUE FIZEMOS PARA TENTAR FAZER COM QUE DURASSE MAIS! — esbravejada Quina, incitando a gritaria que retumbava nas paredes do templo — MA’AT NOS ENTENDERIA! O CORPO PRECISA DE COMIDA! SEM COMIDA MORREMOS! CHEGA!

— CHEGA! — repetiram os trabalhadores.

— M-Mas e se nos matarem? — perguntou um acanhado.

— JÁ VAMOS MORRER MESMO SE NÃO NOS DEREM COMIDA! — esbravejou Qenna — E ESTÃO COM POUCA GENTE! MUITOS MORREM NA GUERRA E TODAS AS MÃOS ESTÃO SENDO USADAS PARA PLANTAR OU GUERREAR… OU AQUI! SOMOS ARTISTAS! NÃO SÃO TODOS QUE PODEM FAZER O QUE NÓS FAZEMOS! PINTAMOS PARA OS DEUSES! PARA O FARAÓ! E O FARAÓ TEM QUE CUIDAR DO POVO! E O POVO PRECISA DE COMIDA! O POVO ESTÁ FAMINTO!

— ESTAMOS FAMINTOS! — entoou um artesão qualquer.

A gritaria dentro da tumba não chegou aos ouvidos dos guardas lá fora, de tão profunda dentro da pedra e da montanha que era o destino de repouso final do faraó, mas chegou nos ouvidos de Anúbis. O deus apareceu, invisível, entre os trabalhadores revoltados e de estômago roncando, que marchavam para fora, seguindo o corredor estreito e inclinado da tumba em direção ao sol e ao ar fresco.

— ESTAMOS FAMINTOS! ESTAMOS FAMINTOS! — gritavam os trabalhadores em uníssono.

No final daquele grupo, ia Anúbis. Atrás dele, ficava para trás a tumba, vazia, com a tinta fresca enchendo o ar, com as paredes inacabadas testemunhando a primeira greve da história. Anúbis olhou para a tumba vazia e então para os artesãos revoltados, sem ter a menor ideia em qual seria a consequência daquilo. Com as mesmas dúvidas, os trabalhadores seguiram para fora da tumba e foram recebidos pelo sol. Gritavam para que quisesse ouvir, que estavam com fome. Mas ali, não havia ninguém além de trabalhadores, guardas e oficiais que cuidavam das construções. Os primeiros a escutar foram os guardas, chamados de Medjay, cinco homens grandes, de pele negra como a noite, núbios que foram integrados ao povo egípcio.

— O que é isso? — perguntou o líder entre os cinco medjays.

— Estamos com fome, pois já se passaram 18 dias neste mês! — disse Qenna — Não recebemos o pagamento desse mês e não trabalharemos mais enquanto não recebermos.

Os medjay, contudo, nada fizeram. Seja lá se achavam o pedido válido, ou se achavam que os números não estavam ao seu favor, eles deixaram os trabalhadores continuarem sua marcha, gritando por comida e justiça. E eles caminharam, e caminharam, deixando para trás o esquecimento do Vale dos Reis e chegando até onde já havia um pouco mais de movimentação, aos pés de um pequeno templo erguido séculos antes por Tutmósis III logo ao lado do grandioso templo da tia, Hatshepsut, que guardava a capela de Anúbis. Até chegarem lá, passaram por várias outras construções e reformas em andamento, aumentando assim a quantidade de gente de sua revoltada passeata. Foi aí que os funcionários, mais nobres, e que não se dignavam a gastar seu tempo em lugares quentes e abafados, mesmo que fosse criando artes em paredes que durariam milênios, viram a movimentação e lhe deram algum grau de importância e preocupação.

— O que é isso? — quis saber o homem, Amennakht.

— Estamos com fome, pois já se passaram 18 dias neste mês! — repetiu Qenna.

— Coloque-se no seu lugar! Um trabalhador exigindo seu pagamento!? — perguntou Amennakht, escandalizado.

— A situação nos leva à isso. — disse Qenna.

— PRECISAMOS DE COMIDA! — gritou um trabalhador.

— ESTAMOS FAMINTOS! — gritou um segundo, se juntando ao caos de vozes que gritavam coisas diferentes.

— VOCÊS TEM COMIDA, POR ISSO NÃO RECLAMAM!

— NÃO TEM COMO CONTINUARMOS A TRABALHAR NESSA SITUAÇÃO!

— Vão receber quando pudermos pagar, já disse. — falou Amennakht.

— Nossos corpos não podem simplesmente esperar. — disse Qenna — Se não vão nos pagar, também não iremos trabalhar. Iremos usar nossa energia em algo que realmente encha nossas barrigas.

— Não tem nada que eu possa fazer. — disse Amennakht — Eu sou só um escriba. Se não chegar o pagamento de vocês até minhas mãos, não posso repassar para vocês.

— Não pense que acredito que tem tão pouco poder. — disse Qenna, sentando-se no chão arenoso, e logo seguido pelos demais, deixando a mensagem bem clara, não iriam trabalhar — Não iremos trabalhar enquanto não nos pagarem.

Invisível, Anúbis olhou surpreso e admirável para a determinação dos trabalhadores. Mas não foi com o mesmo olhar que o escriba olhou para os homens. Num misto de desespero e raiva, o escriba saiu dali, sem saber o que fazer. E assim, as horas passavam, e o sol ardia, mesmo em sua timidez devido à erupção. Afinal, ainda era um pedaço seco e escaldante de deserto. Ainda assim, os homens continuaram ali. Não havia muita sombra onde se esconderem, mas essas foram muitíssimo disputadas.

Num limiar entre a sombra e o sol, um pequeno grupo conversava sob a proteção do templo de Tutmósis III. As duas estátuas gigantes do faraó olhavam tudo silenciosamente, acompanhando aquele desenrolar da história. Disfarçadamente, Anúbis se aproveitou da coluna que segurava o teto que lhes fornecia sombra, para aparecer e discretamente se juntar em meio ao grupo.

— Não falta muito para o sol se pôr… — dizia um homem do grupo.

— Vão ficar aqui ainda assim? — perguntou Anúbis, atraindo a atenção dos três para si que, em meio a tantos rostos de tantas obras diferentes pelo caminho, não estranharam o deus, julgando simplesmente que ele fosse mais um de seu enorme grupo.

— Você não? — perguntou um dos homens do grupo, o primeiro que falava — Não consigo passar mais uma noite dormindo com o estômago roncando.

— E pelo menos com a noite a temperatura fica mais confortável. — completou o segundo.

— O pior não é nem o estômago… — resmungou um terceiro, já com lágrimas nos olhos — É minha filha chorando. Minha mulher não está conseguindo fazer leite o suficiente pra ela… precisamos de comida.

— Acha que eles vão pagar alguma coisa hoje? — perguntou Anúbis.

— Sinceramente, não sei mais de nada. — respondeu o terceiro homem.

— Sei que Qenna praticamente ameaçou a gente se demitir… mas sinceramente espero que não chegue a isso. — disse o segundo — O pagamento aqui é bom..

— Quando vem. — completou o primeiro, e os três soltaram uma triste e fraca risada.

— E se eles não resolverem a questão do pagamento hoje? — perguntou Anúbis.

— Ouvi conversas sobre ocupar o armazém de grãos. — respondeu o primeiro homem — E se ainda assim não resolverem, invadir ele. Mas não sei o quão sério estão falando.

— Parece que tem cavalos vindo… — disse uma pessoa no meio da multidão.

Todos ficaram calados, esperando pelos cavalos, que claramente traziam algo com eles, mas não na quantidade que eles esperavam. O pagamento deveria ser vários e vários sacos de grãos, não só aquelas sacolas carregadas na carruagem que o cavalo carregava.

— Aí vem uma mixaria. — disse o homem do lado de Anúbis.

— Vamos ver o que vão falar… vai que tem mais cavalos vindo. — disse o segundo homem, que não parecia acreditar nas próprias palavras.

— FAÇAM DUAS FILAS! — gritou Amennakht — Vamos distribuir entre vocês.

— Vamos lá ver o que deve ser… mas o que queremos não parece ser até agora… — disse o primeiro homem que, ao olhar para onde Anúbis antes estava, não o viu mais, apesar de ele ainda estar ali, mas não para olhos mortais.

Os trabalhadores se organizaram nas filas, curiosos para saber o que os cavalos traziam. Mas quando foi ficando claro que tudo que os cavalos traziam era um pouco de bolo para cada, uma mera migalha que não chegava aos pés dos seus salários, os ânimos só pioraram. No dia seguinte, o armazém de grãos foi ocupado.

Os oficiais não sabiam lidar com a situação. Tentavam pagar parcialmente e atrasado, enrolando os trabalhadores, o que causava mais greves e conflitos. As semanas passaram, quando o pagamento vinha, vinha incompleto como um pedido de paciência que não durava muito. A greve parava e voltava, quase parecia um evento já esperado quando os artesãos, com fome, começaram a abrir tumbas e roubar coisas que poderiam ser trocadas por comida sem suspeita pelos mercados de Tebas. E para Anúbis, era difícil decidir como agir, quando ladrões imploravam por perdão, enquanto roubavam pequenas coisas dos mortos com as barrigas, bem vivas, roncando.

O caos estava sem dúvida fora de controle e, diante da novidade de trabalhadores se recusando a trabalhar, os oficiais não sabiam muito o que fazer. Ninguém queria que a situação chegasse aos ouvidos do faraó, mas ele tinha seus jeitos e seus contatos. Bem longe dali, o escriba real lia para o rei o papiro que seu contato havia enviado pelas costas do vizir responsável pela região. Foi com grande pressa que o escriba foi para o salão do trono quando, na entrada do palácio, o mensageiro vindo de Tebas lhe trouxe essa atualização, “importantíssima”, dissera ele.

Ramsés III já havia deixado a juventude para trás. Em seus 62 anos, quando passava a navalha na cabeça abraçando o visual careca, se livrava de mais fios grisalhos do que negros. Sua pele negra, no entanto, ainda era hidratada e bem cuidada, tentando desafiar a idade da forma que podia para a época. Talvez quisesse viver tanto quanto aquele que antes carregou o mesmo nome que si, mas as marcas de expressão não negavam a idade e a preocupação leviana que ficou ao ouvir as palavras do escriba.

— As greves podem se repetir mais vezes se as coisas continuarem assim. — disse o escriba.

— Então eles terão que dar um jeito. — disse o faraó, suspirando — A colheita foi ruim, temos exércitos que precisamos manter para evitar que o Egito seja invadido… Os recursos estão escassos. Não há muito o que fazer.

— Sim. Os recursos estão escassos e as comemorações dos 30 anos de reinado de vossa majestade se aproximam. — disse o escriba — A festa pode ser comprometida neste ritmo. Só faltam alguns poucos meses.

— Eu tenho uma ideia mas… — disse o faraó, com a voz pesada — Não gosto dela. Vamos discutir num lugar menos aberto.

O faraó se ergueu de seu trono e, no corredor que levava até a sala do trono, passos apressados se afastaram, com medo da espionagem ser descoberta. Passos femininos e delicados cruzaram o palácio em direção aos próprios aposentos, no complexo de harém do faraó, onde suas esposas secundárias moravam. Os passos eram de Tiye, uma das esposas do faraó.

Tiye não era a primeira esposa do faraó, e tão pouco a primeira com aquele nome. Era uma mulher mais jovem que o faraó, mas cujo filho já era um jovem ansioso por herdar o trono do pai, se não fosse o fato de que tinha um irmão mais velho, filho de outra mãe, da Grande Esposa Real.

— Eu ouvi. — disse ela, aos sussurros, embora poucos estivessem no cômodo — Os artesãos e artistas se revoltaram em Tebas. Não são pagos direito a muito tempo e não há recursos para mandar a mais… Estão preocupados também com as comemorações dos 30 anos de reinado… Ele foi para outro lugar falar com o escriba sobre isso. Disse que tem uma ideia… Não queria falar num lugar tão aberto quanto a Sala do Trono.

— Deve ter ido para a sala de guerra! — exclamou um dos ocupantes da sala, o filho de Tity, Pentaweret, um jovem esperto e orgulhoso de 18 anos.

— Eu disse que pela pressa do escriba em encontrar o faraó, o conteúdo da mensagem que veio do sul era importante. — disse, com um sorriso, o último ocupante daquela sala, ninguém menos do que Setne — Tentarei ouvir a conversa na sala da guerra. Mas me parece que podemos usar isso ao nosso favor.

Alguns dias mais foi tudo que as engrenagens da história precisaram para três planos se desenvolverem. Um apenas engatinhava, escondido nos muros do palácio sob o comando da alma de um falecido príncipe, que controlava seus peões como marionetes. O segundo plano corria, veloz, ansioso por chegar na linha de chegada, como um ladrão na noite. Mas, daquela vez ao menos, não era bem um grupo de ladrões que se esgueirava pelas entranhas do Vale dos Reis.

Sacerdotes e demais oficiais do governo, tão longe de seus deveres, mas ainda sob o comando do faraó, se esgueiravam pelo Vale dos Reis. Sob o mando do faraó, segurando tochas na calada da noite, com um mapa mental das tumbas reais, uma mapa mental que não incluía a soterrada e esquecida tumba de Tutancâmon, os oficiais abriram uma das tumbas, respiraram fundo, e entraram no túnel íngreme, perigoso e abafado.

Eles sentiam o coração deles presos na garganta enquanto desciam, entrando cada vez mais fundo na longa tumba. Por um segundo, eles acharam ter visto a sombra de uma pessoa extra atrás deles mas, quando se viraram, não havia nada lá. Não havia nada lá pois Anúbis era o dono da sombra e Hórus havia o tirado de lá rapidamente.

— Não faça nada! — exclamou Hórus, após ter puxado Anúbis para fora da tumba, de volta à escuridão e o vento frio da noite no solitário Vale dos Reis.

— Você está sabendo disso também?! — questionou Anúbis, surpreso — O que está acontecendo aqui?

— Ramsés III me contou pouco tempo atrás que eles iriam abrir uma tumba. — disse Hórus, suspirando — Queria te contar antes que eles invadissem mas… com tudo acontecendo…

— Ramsés III sabe?!?! — exclamou Anúbis.

— Ele que mandou eles abrirem a tumba. — explicou Hórus, massageando as têmporas.

— Nessa altura… com mais de 1000 anos… quase 2000, exatamente 2000, pouco mais de 2000, não sei mais… Não achei que teria ainda coisas que eu veria pela primeira vez! — disse Anúbis, exasperado — Mas no mesmo ano vi trabalhadores se recusando trabalhar e um FARAÓ mandando roubarem as tumbas de outros FARAÓS?!

— EU SEI O QUÃO RUIM ISSO SOA!! — gritou Hórus, respondendo ao aumento de voz de Anúbis, sem nenhum medo de outra pessoa ouvir, afinal, não havia mais ninguém ali.

— E NÃO FAZ NADA?! — gritou Anúbis de volta.

— O que exatamente você espera que eu faça? — questionou Hórus, entrementes, com raiva — A ideia foi dele! De Ramsés III! Não tem comida suficiente! Ainda temos exércitos para manter em TODAS as fronteiras! Ou achou que pararam de tentar nos invadir para marchar contra Mênfis, Tebas, Pi-Ramsés ou qualquer cidade que fique no meio do caminho, que nem fizeram com os hititas e fazem com os assírios?! Sabe mais do que qualquer um que muitas tumbas aqui ainda estão entupidas de ouro! E nem estou falando da tumba ridícula de Tutancâmon, que eles claramente nem lembram que existe e nem conseguem mais achar, se não ela já estaria fazia a muito tempo! Só o ouro da tumba de Tutancâmon já faria diferença, e ele foi um faraó bem fraco e que ficou pouco tempo. Imagine o tanto que tem nas tumbas maiores… IMAGINA A DE RAMSÉS II!

— Então Ísis tentar fazer algo pela situação não é bom. Mas você fazer algo, está tudo bem? — perguntou Anúbis.

— O que eu estou fazendo? — perguntou Hórus — A ideia não foi minha! Foi de Ramsés III! Já disse! Não estou fazendo nada! Não estou interferindo!

— Última vez que chequei, eu protejo tumbas e você me puxou lá de dentro! — respondeu Anúbis.

— Ah! — exclamou Hórus, com raiva e deixando escapar uma risada — Não seja hipócrita. Acha que não sei que deixa os ladrões escapuliram às vezes se o roubo for claramente por extrema necessidade e se forem respeitosos? Na medida do possível de se chamar alguém que rouba os mortos de respeitoso.

— Pode me explicar então como sacerdotes e oficiais de barriga cheia se enquadram em “extrema necessidade”? — perguntou Anúbis.

— Eles não vão pegar tudo pra eles. — explicou Hórus — Vão pegar para o Império e isso será usado para arrumar as coisas de novo, distribuir pelo povo, manter o exército, comprar comida importada se for necessário…

— Estamos falando dos mesmos mortais com tendência de corrupção e vício no poder? — perguntou Anúbis.

— Eu sei. Eu sei! — respondeu Hórus, suspirando cansado e exasperado — Ao menos falaram que vão tirar as múmias e colocar num lugar seguro também… já que as invasões à tumbas estão aumentando, como você mesmo me informou.

— Esse foi o nível que chegamos? — perguntou Anúbis, decepcionado, deixando um suspiro pesado escapar de seus lábios.

— Esse foi o nível que chegamos. — concordou Hórus, não menos cabisbaixo do que Anúbis.

O terceiro e último plano, que estava andando tão na surdida quanto os demais, não gostava do nível que o Egito chegou. Ele havia ficado maturando na mente de sua orquestradora, que pensou, desistiu e desistiu da desistência várias vezes. Contudo, eventualmente, sua mente decidiu-se e, num ponto de virada importante em seu plano, Ísis entrou no cômodo onde Rá ficava, descansando, sendo cuidado, e esperando por uma melhora que talvez nunca viria.


Notas finais
* UM POUCO DE VIDA REAL *** Ramsés III tava mesmo com um problemão nas mãos. A guerra estava cobrando mto do Egito e a colheita foi uma merda graças às consequências climáticas da erupção do vulcão. Sem recursos suficientes, e uma boa pitada de corrupção e desorganização, o pagamento para os construtores e artesãos das tumbas atrasava e vinha com partes generosas faltando, o que levou à primeira greve da história. a situação era tão ruim que sim, além dos ladrões de tumba comuns e dos trabalhadores roubando as tumbas, funcionários do governo também começaram a roubar tumbas. suspeita-se que a mando do próprio faraó. mas sem garantias se esse foi o Ramsés III ou algum depois dele. Mas é, tava ruim. **** REFERÊNCIAS **** A lenda de Rá e Ísis - https://sacred-texts.com/egy/leg/leg20.htm Fome e a primeira greve - https://libcom.org/article/records-strike-egypt-under-ramses-iii-c1157bce a primeira greve - https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1089/a-primeira-greve-de-trabalhadores-da-historia/ Fim da Era do Bronze - https://en.wikipedia.org/wiki/Late_Bronze_Age_collapse