Notas iniciais
olá olá. bem vindos a mais um cap e como sempre, desculpe pela demora

Eu sou um Príncipe, filho de um Príncipe, e a emanação divina que foi produzida de um deus. Eu sou um Grande, filho de um Grande, e meu pai determinou para mim meu nome. Eu tenho multidões de nomes, e eu tenho multidões de formas, e meu ser existe em cada deus. Eu fui invocado por Temu e Heru-Hekennu. Meu pai e minha mãe proferiram meu nome, e [eles] o esconderam em meu corpo em meu nascimento para que nenhum daqueles que usariam contra mim palavras de poder pudessem ter sucesso em fazer seus encantamentos terem domínio sobre mim.

~ Fragmento do papiro “A Lenda de Rá e Ísis”

Num cantinho tranquilo nas margens do mar Adriático, uma bela praia se estendia. A areia branca era rodeada por plantas verdes com flores vermelhas e rosas e um lindo céu azul. Dentre as belas plantas, que embelezavam a praia, havia uma pedra grande quase sendo engolida pelas plantas e sobre essa pedra, uma bela ninfa se sentava. Seu nome era Neria, uma ninfa da flor Nerium Oleander, que crescia ali ao lado com delicadas flores rosadas.

Seus cabelos cacheados rosados refletiam a cor de suas flores caiam em cachos delicados pelos seus ombros e costas como uma bela cachoeira. Seu vestido de linho incluía uma única alça no ombro direito da ninfa, alça essa que ameaçava perigosamente cair e exibir mais dos seios provocadores que roçavam no tecido branco finíssimo que cobria o corpo dela de forma escultural. Cada centímetro dela parecia pedir por algo mais de uma forma até meio artificial, como uma armadilha. Neria calmamente sentava na praia, admirando as ondas e esperando por algo… ou assim parecia. Mesmo alguém mais atento teria dificuldade em notar a ansiedade que se escondia por baixo de sua pele.

Num eventual momento, Neria subitamente se remexeu e se encheu de determinação apesar do estômago que se embrulhava. Quem esperava havia voltado. No limite entre a praia e a mata, havia aparecido ninguém menos que o poderoso Zeus. Neria se arrumou, deixando os seios fartos e a coxa atraente mais ressaltadas enquanto sentava. Um sorriso escapou no rosto de Zeus quando ele notou o corpo atraente da ninfa, e ele até começou a andar mais aprumado, ansioso pelos próximos capítulos que aquele momento prometia.

— Vossa Majestade trouxe? — perguntou Neira, com os olhos brilhando.

— Claro! — respondeu Zeus, gostando do tratamento.

Ele parou na frente de Neira, e exibiu para ela nada menos do que o raio mestre. A arma mais poderosa de Zeus brilhava nos olhos da Neira, que não precisava nem fingir a admiração e intimidação que aquele cilindro de bronze celestial com a mais pura energia de raios e trovões lhe causava.

— É seguro tocar? — perguntou ela inocentemente.

— Sim. — respondeu ele, constantemente orgulhoso da quantidade absurda de poder que tinha.

Delicadamente, e com certo receio, Neira tocou no raio mestre com a pontinha do indicador. No primeiro leve toque na área que lhe parecia mais seguro, ela recuou o dedo de novo, com medo de algo ruim acontecer por causa do toque. Mas estava tudo bem. Então, continuando o seu plano, ela tocou no raio mestre novamente, deslizando o dedo por ele por alguns poucos centímetros e então erguendo o olhar de forma sensual para Zeus, de pé na sua frente.

— É tão… grande… — disse Neira de forma provocativa.

— O raio sim… mas não outras coisas! — exclamou Zeus, revoltado, entendendo os comparativos feitos nas entrelinhas da fala da ninfa — Não sou um troglodita como os egípcios e os etíopes! Sou, tal como as mais belas estátuas, a imagem da perfeição, do intelectualismo, racionalidade, exemplo do físico ideal do homem!

— Pequeno então? — perguntou a ninfa, tentando esconder que sua verdadeira vontade, desde do começo daquilo tudo, era fugir o mais rápido possível para o mais longe possível.

— OBVIAMENTE! — exclamou Zeus — Como esperado do ideal da masculinidade!

— E a performance? — perguntou Neira, roçando a ponta de seu pé na perna de Zeus embora estivesse com vontade de vomitar pelos próprios atos.

— Muito boa. — disse ele, segurando o queixo dela.

Ele foi se aproximando dela, sedento para finalmente conseguir o que queria e ela foi se deitando na pedra onde estava sentada, se afastando com o desespero tomando conta de si. O raio mestre foi casualmente deixado de lado sobre a pedra, os olhos de Zeus percorriam ela por inteiro, especialmente na alça do vestido que começava a deslizar pelo ombro dela. A ninfa mordeu o lábio de forma sensual e então, como se aquilo fosse um sinal, silenciosa e agilmente, quase se misturando as sombras das árvores, surgiu da mata um homem de pele quase tão negra quanto a noite que antes que Zeus pudesse sequer notar a presença dele, sussurrou de forma bem audível:

— Durma….

Tanto Zeus quanto Neira imediatamente caíram moles na pedra. Engolidos pelo mais profundo sono da vida deles. O homem, ninguém menos do que Hipnos, o deus do sono, pegou o raio mestre e então tirou a ninfa de baixo de Zeus. Apoiando a ninfa na grama ao lado, ele se aproximou dela e sussurrou no ouvido dela para que apenas ela escutasse.

— Acorde.

Neira imediatamente acordou assustada. Olhou ao redor com os olhos esbugalhados e, com um suspiro de alívio ao ver Zeus dormindo e babando na pedra e Hipnos lhe olhando com uma calma quase sonolenta, a ninfa teve certeza de que o plano maluco tinha dado certo.

— Obrigada… por realmente ter me acordado. — disse ela.

— Não conte para ninguém o que aconteceu aqui ou vou desfazer isso. — ameaçou Hipnos.

— Não vou. Não se preocupe. — disse Neira se sentando e encarando Zeus com rancor — Isso é pelas minhas irmãs e amigas!

Com passos pesados, ela foi até sua planta, e cavou na mistura de terra e areia com as próprias mãos revelando que a planta estava na verdade dentro de um vaso de argila escondido na terra, não plantada direto no solo. Ela pegou o vaso, abraçou-o com carinho, e saiu de lá com passos apressados, sentindo o triunfo explodir no peito junto com o medo de ligarem aquele acontecimento à ela ou Zeus vir em busca de vingança. Plantaria suas raízes o mais longe possível dali agora que tinha se livrado de sua parte no complexo plano. Não queria pensar mais nisso.

Hipnos ficou vendo a ninfa indo embora e então focou em Zeus enquanto apertava firmemente o raio mestre em sua mão. Ele respirou fundo enquanto as ondas do mar atrás dele e as folhas e galhos das árvores se mexendo devido ao vento eram as únicas coisas fazendo qualquer barulho.

— Está feito, senhora Gaia… — disse Hipnos.

O rosto de uma mulher adormecida surgiu no chão perto de onde ele estava. Hipnos nem se deu ao trabalho de virar seu rosto para ela, continuou encarando Zeus, um tanto preocupado e curioso nas consequências do ato.

— Muito bem. Falarei bem de você para sua mãe… — disse o rosto da mulher, Gaia, antes de sumir de novo — Leve o raio para a estrela do dia.

O rosto adormecido de Gaia sumiu, deixando Hipnos sozinho com Zeus adormecido e o raio-mestre por uns segundos antes de Hipnos também sumir dali, carregando o raio-mestre com ele. Enquanto Hipnos ia para sua própria segunda parte do plano, ansioso por livrar as mãos do raio-mestre, Gaia também ia para sua segunda parte. Seu rosto adormecido apareceu novamente naquela caverna esquecida onde a enigmática criatura descansava, e esperava por sua vez.

A atmosfera ali era completamente diferente da calmaria onde Zeus ficou largado, dormindo sozinho. A caverna parecia carregar uma promessa de morte quando o rosto de Gaia adormecido apareceu ali novamente, perto da figura disforme e ameaçadora de onde o sibilar de dezenas de cobras eram emanados. Na entrada da caverna, arrepiado e receoso em chegar mais perto, Hipnos apareceu brevemente, largou o raio-mestre no chão, e foi embora.

— Está feito. — disse Gaia.

— Bom… — disse a figura numa voz grossa e sussurrante que poderia muito bem ter vindo das profundezas do inferno.

A figura se remexeu, começando a se erguer. Sua presença se expandia, preenchendo cada espaço da caverna, como uma tempestade feroz que se intensifica antes de um cataclismo, conforme ele ia rastejando para fora de seu diminuto esconderijo. Olhos flamejantes brilharam quando Tifão saiu para a luz do sol novamente, após séculos de escuridão.

Em cada mão, centenas de cabeças de cobras de olhos vermelhos cheias de veneno e ódio, sibilavam e rugiam, espalhando por aquela solitária, quieta e abandonada floresta um clamor terrível da mais pura ira afugentando animais de quilômetros mais além do que a simples presença de Tifão naquela caverna já afastava, como se sentissem a morte se aproximando. Uma das centenas de mãos em formatos de cobra se enrolou no raio-mestre de Zeus, já tão pequeno nas mãos do ser monstruoso que mais parecia um grampo de cabelo. Ainda assim, os trovões e relâmpagos do raio-mestre se entenderam bem com Tifão e rodearam seu corpo. Com os rugidos tão poderosos que sacudia até as árvores, como se a própria natureza temesse sua presença, Tifão crescia sem parar, até que a caverna na qual se encolhia antes fosse tão pequena que mal podia conter o próprio pé.

Seu corpo era uma massa tumultuada de nuvens escuras e ameaçadoras, a personificação da pior das tempestades que a natureza podia criar. Onde relâmpagos dançavam e trovões ecoavam em sua essência. A cada movimento, o ar ao seu redor se tornava pesado, quase insuportável, como se a própria atmosfera estivesse em pânico, sentindo a aproximação do terror encarnado. Com a liberdade do ar puro, asas monstruosas e imensas irromperam de suas costas, estendendo-se como sombras de tempestade, prontas para envolver o mundo em seu terror.

Quando sua altura era tão ameaçadora, a ponto de nenhuma árvore sequer conseguir atingir a altura de seu joelho, Tifão deu seu primeiro passo e a terra tremeu sob seus pés, causando um terremoto. Poderia voar para seu objetivo, mas preferia causar o caos de terremotos. Com um sorriso ameaçador e sedento por violência, Tifão começou a correr para o Olimpo.

A terra tremeu num terremoto. No Egito, recém saídos do submundo de Hades, Anúbis e Kebechet haviam ido até Mênfis resolver alguns assuntos com os embalsamadores de lá, mas enquanto faziam isso o chão começou a tremer. O povo começou a gritar, as construções tremiam, ameaçando cair ao chão. A gritaria era generalizada. Pessoas e animais entravam em desespero, coisas caíam no chão, quem podia corria para os templos tanto para implorar aos deuses por proteção, como para aproveitar as paredes mais resistentes deles.

— Hórus não tinha dito que Poseidon não ia pegar muito pesado? — perguntou Anúbis, confuso enquanto o embalsamador a sua frente caía de olhos no chão, sem forças nas pernas para combater a terra tremendo.

— Sim… Tem como ser algum outro deus? — perguntou Kebechet.

O nível do terremoto era tão grande, que até os dois deuses estavam tendo dificuldade em se manter em pé. Kebechet se segurou em Anúbis, ele tentou segurar dar mais suporte para ela enquanto silenciosamente tentava encontrar suporte para ele mesmo. Algum prédio mais além pareceu ter caído, pelo barulho que fazia. Todas as estantes no cômodo que os dois estavam já estavam no chão, gritos de socorro vinham de mais além provando que o estrago na cidade era grande.

Pedaços do teto de madeira e palha do cômodo onde estavam começaram a cair. Felizmente eles não caíram no pobre embalsamador que se encolhia na frente dos deuses, mas ainda assim Anúbis agarrou o homem pelo o braço com uma mão, e o braço de Kebechet com a outra, e mesmo com a dificuldade que ele mesmo estava de andar, tirou os dois dali mesmo que nenhum perigo estivesse ameaçando Kebechet.

Eles deixaram o embalsamador lá, encolhido no chão, deixaram as construções sagradas para trás e foram para as ruas de Mênfis. No caos da cidade, os dois deuses viram o caos que estava. Construções mais fracas se desfaziam, caindo no chão sobre as pessoas. O povo tentava ajudar e tirar as pessoas debaixo dos destroços, mas só caminhar já era extremamente complicado. Crianças choravam, sangue salpicava as pessoas e as ruas estavam tomadas por pessoas em busca de seus entes queridos.

As paredes das casas de barro do povo rachavam e caiam em cima das pessoas. Com passos mais apressados que o chão tremendo permitiam, Anúbis e Kebechet foram cada para pessoas soterradas pelas próprias casas e passaram a ajudar a resgatá-las. Certamente o Egito nunca tinha visto um terremoto tão forte e duradouro.

Em Micenas, o caos não estava muito diferente. A destruição dos conflitos internos e a epidemia se misturavam com os estragos de um terremoto fortíssimo. No Monte Olimpo, os mais diversos seres mitológicos e deuses tentavam entender o que acontecia. Se fosse um terremoto mais calmo, simplesmente descartariam o problema como mais uma trivialidade irrelevante dos mortais. Mas aquele estava muito forte. Fazia tremer as casas do Olimpo, que em situações normais parecia um vilarejo calmo, tranquilo e abraçado pela natureza, onde por acaso todos seus residentes eram podres de ricos e isso se refletia em suas casas.

Numa praça central do Olimpo que ninguém ousava se aproximar, os deuses mais importantes estavam reunidos. Até momentos antes do terremoto estavam simplesmente aproveitando o momento de calmaria tensa, discutindo os problemas que assolavam o seu povo com uma preocupação tão diminuta que pareciam estar de férias enquanto se deleitavam em vinhos e pães. Contudo, a chegada do terremoto havia servido como um despertador nem um pouco simpático.

Apolo, que havia voltado a pouco para o Olimpo, sentia até mesmo o próprio Monte Olimpo tremer. Mal havia se juntado com os outros deuses depois de sua visita, até então secreta, à Hades, quando o dia começou a trazer suas reviravoltas e terremotos por todas as terras ao redor do Mediterrâneo. As taças e ânforas de Dionísio caíam no chão, espalhando todo o vinho, e ao notar isso ele abraçava uma ânfora sobrevivente e se sentava no chão já que ficar em pé era demais para a combinação de embriaguez e terremoto. Afrodite, que até então estava sentada, logo ao lado de Pan, nas margens de um pequeno riacho que percorria aquela pequena praça no centro do Olimpo, simplesmente tirou os pés da água e ficou, assim como os demais, tentando entender o que acontecia.

— POSEIDON! QUE TERREMOTO É ESSE? — gritava Atena, irada, pois também era terminantemente contra trazer tanto caos para os mortais.

— COMBINAMOS DE NÃO EXAGERAR NO CAOS! — reclamou Hera.

— ESSE NÃO É MEU! — defendeu-se Poseidon.

— DE QUEM MAIS SERIA ENTÃO? — esbravejou Ares.

— Seja lá quem for, está com raiva! — afirmou Hefesto.

— A gente já viu um tão forte assim? — perguntou Apolo, se apoiando numa pilastra enquanto sentia os próprios joelhos começando a virar gelatina.

— Não que eu me lembre… — respondeu sua irmã, Ártemis, logo ao lado.

— É impressão minha ou está ficando cada vez mais forte? — perguntou Hermes, já se abraçando a uma pilastra, que tremia também questionando se valia a pena continuar a ficar de pé.

— Algo está errado… — concluiu Atena.

Assim que Atena falou, a sequência de termos que se seguiu foi tão forte que os deuses que não tinham onde se apoiar se viram tendo que se render ao chão. Sem falar nada entre si, os deuses micênicos se olharam com a certeza de que aquilo não era um terremoto comum.

— Parece até que querem derrubar o Monte Olimpo! — exclamou Apolo.

Sua sensação não estava tão longe da verdade. Aos pés do Monte Olimpo, escondido sob as nuvens, já tendo afugentado qualquer animal ou mortal das redondezas, Tifão rugiu. O seu rugido estremeceu o coração dos deuses ao mesmo tempo que Tifão aumentou mais uma vez de tamanho, o suficiente para cobrir o sol que banhava os deuses.

— Tifão… — disse Ares, pronto para a batalha, mas por dentro, nem tanto.

— ONDE ESTÁ ZEUS? — gritou Hera, subitamente preocupada e necessitando do marido para aquele momento.

— E-Ele… foi namorar um bom tempo atrás… — disse Dionísio e Hera rangeu os dentes de raiva ao ouvir isso.

— Zeus está acabado! — esbravejou Tifão erguendo sua mão formada de dezenas de serpentes exibindo o raio-mestre ele elas.

Na mão peçonhenta de Tifão, uma das cobras segurava o raio mestre, agora tão pequeno que parecia até um palito de dente exclusivo para a cobra mas que agora se transformava para ficar de um tamanho mais proporcional para o tamanho absurdo que Tifão tinha agora. O olhar dos deuses fixou-se nesse detalhe, e a cor sumiu de seus rostos. Afinal, isso significava duas coisas: A primeira, que Zeus estava acabado mesmo. A segunda, que eles eram os próximos.

— O QUE FEZ COM MEU MARIDO? — esbravejou Hera.

— Matei. — disse Tifão.

— Mentira. — disse Atena.

— Vai querer apostar? — ameaçou Tifão.

— A gente se quer morre assim de morte matada? — sussurrou Apolo para a irmã.

— Não sei também. — sussurrou ela de volta.

Poseidon, Ares, Ártemis e Atena logo se mostraram prontos para o combate, segurando suas armas e aumentando de tamanho para tentar peitar o tamanho absurdo de Tifão, mas muito longe de conseguirem de fato. O mesmo foi repetido pelos demais. As construções do Olimpo ficaram pequenas perto deles, mas Tifão ainda era absurdamente grande. Um tanto inseguro, Apolo preparou seu arco também. Ártemis, Hera e Hefesto também pareciam prontos para fazer sua parte. A verdade, contudo, era amarga: nenhum deles acreditava que tinha alguma chance. O medo estava estampado em cada rosto, mas alguns escondiam isso melhor que outros.

Mais óbvio ainda eram os demais que habitavam o Olimpo já fugiam desesperadamente. Inclusive, Pan, Hermes e Dionísio logo se juntaram a eles. Pan se transformou num ser metade peixe, metade cabra, a origem da constelação de Capricórnio, e fugiu pelo riacho que estava perto dele. Hermes se transformou num Ibis e saiu voando. Dionísio logo saiu correndo, se transformando numa cabra enquanto fugia. Contudo, logo começando o combate, Poseidon invocou tempestades, que logo nublaram o céu e engoliram o Olimpo.

— EI! — gritou Atena para os que fugiram — PRECISAMOS DE TODOS!

— NÃO VOU DEIXAR VOCÊS ESCAPAREM! — gritou Tifão — FAÇO QUESTÃO DE ACABAR COM VOCÊS!

Tifão riu, o som ecoando como um trovão cruel pelo Monte Olimpo, a energia negra que emanava dele sufocava o ar, fazendo os deuses hesitarem, ainda assim Poseidon, Atena e Ares atacaram, impedindo que Tifão resolvesse ir atrás daqueles que escapavam. Os três deuses avançaram na direção de Tifão com armas nas mãos e gritando em motivação. Tifão usou o raio-mestre e lançou um poderoso raio contra Poseidon.

Poseidon gritou quando um poderoso choque percorreu seu corpo, queimando e enegrecendo a ponta de seus dedos das mãos e dos pés. Sem dar tempo para Ares e Atena, Tifão cuspiu uma enorme labareda de fogo contra eles antes que eles sequer chegassem perto.

— NÃO DEIXE ELE TER TEMPO PRA RESPIRAR! — gritou Ártemis para o irmão, Apolo, enquanto os dois começavam a atirar flechas desesperadamente.

— NÃO ACHO QUE NOSSAS FLECHAS VÃO FAZER TANTA DIFERENÇA ASSIM! — respondeu Apolo, se perguntando se deveria se juntar à fuga desesperada de Dionísio e dos demais.

— Nem pense nisso. — disse Ártemis entre dentes, já imaginando o que o irmão gêmeo pensava.

— Não vou te deixar sozinha… mas isso aqui é loucura. — respondeu Apolo no meio da tensão do completo caos que assolava o Olimpo.

Ares caiu no chão ao ser queimado, Atena tentou impedir que o mesmo acontecesse com ela ao usar sua espada como apoio. Apolo e Ártemis atiravam flechas sem parar, causando pouco mais do que pequenos ferimentos quase irrelevantes no enorme inimigo. Irado, Poseidon se levantou mais uma vez apesar da condição que estava. A tempestade que englobava o Olimpo ficou tão forte que o vento começou a carregar objetos no ar e a afetar a direção das flechas de Apolo e Ártemis. O mar, que não era muito longe dali, começou a avançar na direção da terra com uma poderosa tsunami, engolindo vilarejos e derrubando Tifão em cima do Olimpo.

— NÃO SE ESQUEÇA DE COM QUEM ESTÁ MEXENDO! — gritou Poseidon, com o peito cheio de coragem.

O ser gigantesco se apoiou de qualquer jeito no Olimpo, destruindo suas construções tal como os terremotos haviam destruído as construções dos mortais. Essa foi a deixa que Hefesto precisou para lançar chamas no rosto de Tifão e Artemis e Apolo o acertarem com flechas no olho, tentando desafiar também o forte vento da tempestade.

As flechas brilhantes mudaram a direção por causa do vento poderoso que carregava carroças e cavalos, mas atingiram perto do olho de Tifão. Tifão resmungou com o fogo e as flechas acertando pontos diferentes de seu rosto. Doía… mas os ferimentos estavam longe de serem qualquer coisa muito preocupante.

Ainda tomado pela raiva e determinação, Poseidon tentou prender Tifão um redemoinho de água. Mas Tifão também não estava tão calmo assim. Ele gritou, fogo saiu de sua boca enquanto ele a girava para todas as direções, queimando tudo que tocava. E enquanto ainda cuspia fogo, com o raio de Zeus magicamente de volta a sua mão, e ele o lançou novamente.

Relâmpagos e fogo se misturavam no Olimpo atingindo a tudo e a todos. Foi bem nesse momento que Atena e Ares tentaram se erguer novamente, só para serem engolidos pelas chamas novamente com tanta dor que já chegavam a pedir pela morte, se é que podiam morrer. Poseidon tentou se proteger com sua água e aguentar o choque que ela lhe passava em consequência e Apolo e Artemis pularam para longe. Desolada, Hera olhou desesperada para tudo, preocupada com o marido, e não gostando do que acreditava que seria o resultado de tudo aquilo, ela se transformou numa vaca e fugiu para longe.

Não gostando de tantas tentativas de fuga, Tifão tentou avançar na direção de Hera. Querendo ajudar na fuga dela, Poseidon usou toda sua concentração e poder para envolver Tifão na tromba d’água que crescia até os céus mais forte que conseguiu formar, impedindo que ele avançasse na direção de Hera. Com dificuldade e o raio mestre na mão, Tifão lutou contra aquela tromba d’água. Tudo o que ele conseguiu, no entanto, foi lançar um poderoso soco contra o solo do Olimpo enquanto raios e trovões eclodiram de seu punho serpentino. Isso foi o suficiente. O cenário de destruição que assolava o Olimpo era tão intenso que nem mesmo parecia mais a morada dos deuses. Sequer parecia um vilarejo mortal pobre e desgarrado.

Um choque razoável percorreu a todos, incluindo Poseidon. Não foi o suficiente para derrubar o deus, mas foi para enfraquecer a tromba d’água. Raivoso, salivando lava, Tifão gritou ao se libertar. Não querendo ficar mas nem um momento ali para se juntar à lista de perdedores, Hefesto e Afrodite decidiram que era hora de fugirem para o mais longe possível. Ele como um boi, ela como um peixe nadando no mesmo riacho que momentos antes molhavam os seus pés.

Com um grito, Tifão socou Poseidon e, quando o derrubou ao chão, o socou contra o chão do Olimpo uma, duas, três vezes, esmagando suas costelas, que se quebravam ruidosamente. Insatisfeito, socou de novo… e de novo, e de novo. Cada soco dando um choque intenso em Poseidon e em tudo nas redondezas, fazendo sangue sair da boca de Poseidon, afundando mais o solo do Olimpo, quebrando pedaços da montanha e reduzindo sua altura e beleza e também espalhando um terremoto por toda Micenas. Casas caíram até virarem pó, Ártemis e Apolo perderam o equilíbrio e suas flechas brilhantes voaram inofensivas e desengonçadas sem fazer muito estrago no corpo do grande Tifão. As fugas de Hera e Hefesto foram atrapalhadas um pouco, mas eles continuaram-na com determinação. Apolo e Ártemis, foram eletrocutados fortemente, a própria Afrodite também foi, dada a sua escolha de fugir pela água. Seu corpinho de peixe desmaiado no riacho foi carregado pela correnteza para longe.

Apolo e Ártemis caíram, fracos, eletrocutados, com as extremidades dos membros enegrecidas pelas queimaduras que a eletricidade produzia. Enquanto isso, Poseidon, que não passava agora de uma massaroca de deus, parecia dar seus últimos suspiros na mão de Tifão que lhe agarrava como uma grande boneca despedaçada e então o largava, queimado e desacordado no chão, tal como Ares e Atena já estavam. A tempestade se acalmava, como se estivesse tensa e preocupada por Poseidon. Como uma criança tímida e perdida vendo sua mãe cair.

Tonto, dolorido e com a visão turva, Apolo olhou para a irmã e para Tifão, destruindo tudo com suas poderosas mãos e rindo de alegria. Ele aproveitava que Poseidon não dava qualquer sinal de reação para socar Atena, esmagando-a e eletrocutando-a sem dó, uma vez que a deusa havia começado a acordar. Se socos poderosos e eletricidade funcionavam com Poseidon, Tifão acreditava que poderia muito bem funcionar com Atena.

Num último suspiro, depois de um olhar silencioso, mas que diziam muito, Apolo e Ártemis decidiram o que iam fazer. Doeu no coração de Ártemis, mas era um fato de que precisavam sobreviver para resolver aquilo. Poseidon e Atena pareciam casos perdidos, Ares parecia ser o próximo, então rapidamente Apolo e Artemis se transformaram também. Apolo virou um corvo e Artemis virou um gato. Os dois fugiram sob gritos irados de Tifão.

— NÃO VOU DEIXAR QUE ESCAPEM! — gritou Tifão, não notando que Ares usou exatamente esse momento para se transformar num peixe e sumir.

Apolo voou o mais alto que conseguia, fugindo da mão gigante de Tifão. O coração do jovem deus chega se apertou ao sentir o vento que passou por suas patas de corvo quando Tifão tentou capturá-lo, e falhou. O problema foi que a segunda mão de Tifão esmagou Ártemis em cheio. A deusa em forma de gato soltou um miado sofrido e Apolo gritou.

— ARTEMIS!

Se o coração de Apolo se apertou quando Tifão quase o capturou, nesta hora, ao ver Ártemis como um gato esmagado, seu coração imediatamente desabou. Ainda no ar, com ódio e preocupação controlando suas mãos, Apolo voltou a sua forma humanoide, segurou seu arco e flecha enquanto caía no ar e atirou a melhor e mais poderosa flecha que já atirou em sua vida. A flecha cortou o ar, destruindo as gotas da pouca chuva que ainda caía e atingiu o olho de Tifão.

O monstro gritou de dor levando as mãos ao olho ferido e dando um passo trôpego para trás. Esse momento de distração era tudo que Apolo precisava, ele voltou à forma de corvo e mergulhou em direção à Ártemis. Agarrou sua pequena forma felina com as patas e saiu voando desesperadamente para longe.

Seu corpo doía de todos os choques que levou, sua cabeça latejava, mas o fato de estar carregando Artemis para longe era uma determinação para ele. Isso e o fato de que Tifão decidiu o seguir, já que todos os outros deuses interessantes haviam ficado para trás. Ele batia as asas desesperado, se perguntando se talvez todo aquele dia e aquele momento teriam sido diferentes se seu povo estivesse numa situação melhor… mas se sentia mais fraco que o normal desde antes de TIfão chegar ao Olimpo.

— NÃO VOU DEIXÁ-LO ESCAPAR! — gritava Tifão, com a flecha de Apolo presa ao olho, indo atrás daquele que o feriu.

Apolo pensava desesperadamente em para onde os demais tinham ido até que chegou a conclusão que precisava de ajuda e de despistar Tifão. Decidiu ir para o mar, torcendo para que a profundidade do mar fosse o suficiente para ao menos atrasar Tifão. Nos primeiros passos do gigante, Apolo logo certificou que sim, mas ainda assim queria que fosse com Poseidon, para saber onde a água do Mar Mediterâneo era mais funda.

A água ia subindo cada vez mais alto e mais para trás Tifão ficava. Logo ficou claro que o Mediterrâneo era mais fundo do que Tifão conseguia ficar alto. Apolo olhou para trás preocupado um momento, e ficou aliviado que não via Tifão, mas sabia que não podia voltar para Micenas que o problema retornaria. Pior ainda, até onde sabia, Zeus estava morto ou talvez jogado no Tártaro ou sabe-se lá o quê. Podia muito bem estar como Poseidon, vivo mas em forma de um purê macabro. Não conseguia pensar direito e seu desespero só aumentou quando viu um deserto se aproximando.

— Merda. Merda. Merda. — resmungou Apolo — Por favor, terra de ninguém… que seja um deserto, terra de ninguém…

— A… Polo… — resmungou Ártemis dolorosamente.

— Tá tudo bem… — disse Apolo — Não sei se estamos indo pra terra de outros deuses ou não, mas está tudo bem.

— O que … vamos fazer… agora? — perguntou Ártemis.

— Não sei. — respondeu Apolo, continuando a voar até que tudo embaixo de seus pés era areia e mais à frente ele viu uma faixa de terra féril, cheia de verde e um rio no meio muito bem identificável, o Nilo — Merda.

— Impressão minha… ou estamos invadindo…? — perguntou Ártemis, notando a mesma coisa que ele.

— Segunda opção. — respondeu Apolo, preocupadíssimo, sem saber se temia mais Tifão ou ser subitamente atacado por deuses egípcios.

Apolo olhava para todo lado desesperado. Procurava qualquer deus egípcio subitamente o atacando, ou qualquer templo que ele pudesse ir e se humilhar completamente por ajuda. O Nilo ia chegando cada vez mais perto até que ele as viu bem no limite onde a areia era vencida pela fertilidade do Nilo. Gigantescas, do mais puro branco que refletia o sol e pontas de ouro repletas de hieróglifos, as pirâmides de Gizé. A mais alta entre elas ainda era a construção mais alta feita pela humanidade mesmo tantas centenas de séculos após ter sido construída.

Não sabia se algum deus era responsável por ela. Não tinha nem total certeza que eram construções sagradas, mas não tinha como algo tão gigantesco, caro e belo não carregar um significado divino também. Então Apolo voou para a maior das pirâmides, o túmulo de Khufu. Ele deixou Ártemis no chão delicadamente e tanto ele como ela voltaram para suas formas humanoides. Ela, exausta, machucada e suja de sangue dourado, ficou largada na areia. Ele se ajoelhou diante da pirâmide e ficou fitando a areia sob seus pés.

— Não sei que deus dentre os egípcios é responsável por essa pirâmide… — disse Apolo em micênico, uma vez que desconhecia completamente a língua egípcia — Desculpa invadir assim o território de vocês. Mas a situação estava muito ruim e eu fugi sem rumo… os outros fugiram também… não sabia pra onde ir… Precisamos de ajuda, e entendo se não puderem fornecê-la.

Tagarelando sem parar, Apolo torcia para falar a coisa certa. Não estava pensando direito, só sabia que nunca tinha visto a situação ficar tão ruim assim a ponto de o Olimpo ficar completamente vazio. Apolo só parou de tagarelar quando notou um par de pés com sandálias aparecer no seu campo de visão e então falou num micênico praticamente perfeito.

— O que aconteceu? Tem a ver com os terremotos?

Apolo ergueu o olhar para ver quem tinha aparecido para falar com ele, e como um Deja Vu de quando visitou Hades algumas horas antes (apesar de mais parecer uma eternidade), viu que quem tinha vindo até ele foi Anúbis.

— Sim… sim… Tifão nos atacou… Zeus está sei lá onde… Ou até morto… Ou sei lá… Não sobrou nada no Olimpo e…- afirmou Apolo, engolindo em seco querendo dar outra informação que julgava importante, embora qualquer expectativa de ser bem recebido no Egito poderia acabar com ela — E… Eu sinceramente não sei se ele está vindo nadando até aqui agora também…

Notas finais
*** UM POUCO DE VIDA REAL *** O conto de Tifão diz que os deuses gregos fugiram para o Egito. Foi um conto difícil de achar muita coisa e que tem várias versões, então to usando um pouco de liberdade poética tbm ok? Como não se tem muita certeza de todas as coisas que aconteceram que culminaram no fim da Era do Bronze, nada mais justo do que a coisa misteriosa que deixou tantos impérios fudidos na verdade ter sido o Tifão kkk **** REFERÊNCIAS **** A lenda de Rá e Ísis - https://sacred-texts.com/egy/leg/leg20.htm Tifão - https://www.theoi.com/Text/NonnusDionysiaca1.html Tifão 2 - https://www.perseus.tufts.edu/hopper/text?doc=Perseus%3Atext%3A1999.01.0162%3Abook%3DP.