A Morte Das Areias do Saara

162 Invasores com boas e más intenções


Eu tinha saído do meu tabernáculo para olhar o que eu tinha feito, e estava fazendo meu caminho através das duas terras que eu tinha feito, quando um golpe foi direcionado a mim, mas eu não sabia de que tipo. Eis que é fogo? Eis que é água? Meu coração está cheio de fogo ardente, meus membros estão tremendo, e meus membros têm dores lancinantes neles.

~ Fragmento do papiro “A Lenda de Rá e Ísis”

Apolo engolia em seco enquanto era levado até o Salão do Julgamento por Anúbis. Não tinha a menor intimidade com o lado egípcio do mundo e o fato de saber que Anúbis costumava andar em companhia de Hades não lhe enchia de conforto também. Quando ele, Anúbis e Ártemis chegaram no Salão do Julgamento, logo os três notaram que não foram os únicos a pararem no Egito no meio do caos do ataque de Tifão. Hermes também estava lá, assim como Afrodite, que parecia cansada e baqueada enquanto se encolhia nos braços de Ares como se fosse casada com ele, não com Hefesto.

Em situações mais calmas, Apolo teria se dado um tempo de olhar com mais calma para o lugar que estava. Era a primeira vez que visitava qualquer parte que fosse do submundo egípcio. No pouco que se permitiu ver dele, ao menos parecia menos ameaçador que o próprio submundo. Contudo, todo o caos com Tifão e as emoções ainda se recuperando da perseguição deixavam Apolo em dúvida. Talvez o submundo egípcio também fosse ameaçador… se a mente de Apolo se permitisse deixar de focar no problema que Tifão foi para averiguar se havia um novo problema ali.

Os deuses egípcios, obviamente, também estavam lá, e a situação como um todo resultou num caos de egípcio e micênico sendo falado um por cima do outro por todos ali. No meio de tanta bagunça, Apolo só podia torcer para entender o micênico, sua noção de egípcio era quase nula. Do pouco que Apolo conseguiu entender, pôde incluir a discussão em micênico que Hórus tinha com Hermes.

— E do nada vocês acharam que invadir a gente era uma boa ideia para se esconderem?

— O deserto é grande, é fácil de se esconder — respondeu Ares.

— Temos um problema em potencial além de visitas chegando sem serem convidadas. — disse Anúbis.

Até então Hórus, Ísis, Osíris, Thoth, Hathor, Set e Hapi, os únicos egípcios além de Anubis presentes ali naquele momento, não haviam notado que mais dois deuses micênicos haviam chegado. A fala de Anúbis fez eles se virarem para o trio formado por Ártemis, Apolo e Anúbis, e logo suspiros escaparam por seus lábios.

— O que agora? — perguntou Hórus — Além de claramente mais dois visitantes…

— Então… — disse Apolo, timidamente — Tem uma chance de Tifão ter me seguido até aqui..

— COMO É? — exclamou Hórus e Ares ao mesmo tempo.

— Como você conseguiu ser tão idiota, Apolo? — reclamou Ares.

— Ei! Nem vem que você fugiu bem antes de mim! — rebateu Apolo — Achei que você ia durar mais. Fica todo se exibindo por ser o deus da guerra e sei lá mais o que, mas Atena que ficou lá!

— Set, Hapi… — disse Hórus — Fiquem de olho nas terras ao norte, nas praias… Se virem algum sinal de TIfão vindo nos atacar, nos avisem imediatamente.

— E tentem o atrasar. — completou Osíris — Não deixe que entre no Egito nem que tente recuperar nossos visitantes.

— Sim. — respondeu Hapi prontamente, afirmando com a cabeça e deixando o salão para trás junto com um silencioso e pensativo Set.

— Vão nos proteger?! — perguntou Apolo, com os olhos brilhando.

— Ainda estamos avaliando isso. — respondeu Hathor.

— Se Tifão vai ser um problema para nos preocuparmos, temos que saber o que esperar. — disse Hórus — E se não for, temos que saber o que fazer com os nossos visitantes.

— Não viemos aqui fazer mal… — disse Afrodite, tentando fazer um charme na voz.

— É o que suas palavras dizem. — disse Osíris — Mas não temos como ter certeza disso, especialmente considerando que talvez colocaram Tifão na nossa direção. Também não podemos descartar a possibilidade de, mesmo que tenham vindo em paz, essa desculpa pode ser usada posteriormente por outros que não estão com apenas a paz no coração.

— Não é como se tivesse sido uma decisão muito pensada… — defendeu-se Hermes — A situação estava feia. Não sabemos como está Zeus e nem sei como estão os outros.

— Até quando saímos, os em pior situação pareciam ser Atena e Poseidon. — disse Ártemis.

— Não deveríamos nos preocupar com Tifão estar vindo para cá ao invés de continuar conversando? — perguntou Apolo.

— O tempo passa mais devagar aqui. — explicou Anúbis.

— Nada muda o fato de que isso é problema de vocês. — disse Ísis — Se Tifão nos atacar, é outra história. Mas vocês que deveriam resolver isso. Não levamos problemas até vocês.

— Olha o que eu achei… — disse Serqet entrando no Salão do Julgamento seguida de Dionísio.

— Oi… — disse Dionísio timidamente.

— Mais um… — resmungou Hórus em egípcio, revirando o olhar.

— Claramente temos cara de local de refúgio. — disse Serqet.

— Não imaginava que fossem tão covardes assim. — disse Hórus — Todos vocês fugiram, pela cara?

— Você não estava lá para ver o tanto que a gente apanhou! — esbravejou Ares.

— Pode ser que não, mas enfrentamos Apófis, e vocês também não estavam lá. — respondeu Ísis — Enfrentamos uma guerra interna entre nós, e vocês também não estavam lá. Lutamos contra os deuses hititas na Batalha de Kadesh, e vocês também não estavam lá. Já enfrentamos os mais diversos problemas divinos e mágicos, e não fugimos para a terra dos outros com o problema nos seguindo!

— De toda forma, podemos ficar aqui um tempo independente de Tifão estar vindo para cá? — perguntou Hermes — E podem nos ajudar a descobrir o que aconteceu com Zeus?

— Têm mesmo a cara de pau de ainda perguntar isso? — questionou Hórus.

— Sim. — respondeu Hermes com um sorriso amarelo.

— O que acontecer com a gente e Micenas pode impactar vocês também! — disse Ares.

— Tem razão. — disse Artemis — Sei que não foi certo de nossa parte envolver vocês nisso.. mas não é nenhuma novidade que a situação do mundo não anda muito boa ou estável. Uma mudança brusca de poder em nossas terras ou uma confusão muito grande pode afetar todos nós… e não seria de um jeito bom de ser afetado.

— Não parece tudo meio coincidência demais? — perguntou Thoth — Quero dizer… é normal problemas variados acontecerem no decorrer dos anos e muito perto um do outro. Mas as coisas dessa vez estão muito estranhas.

— Concordo. — disse Ísis — Primeiro eram os exércitos com armas estranhas, sem falar da instabilidade em vários países.. agora Zeus sumindo e Tifão aparecendo para atacar?

— Me parece que não sabemos ainda a total extensão dos envolvidos nisso tudo. — concluiu Osíris.

Enquanto Hórus respirava fundo e tentava juntar toda a sua paciência, nas praias nortes do Egito, Set e Hapi ficavam de olho em tudo. Era sem dúvida uma área grande para ficar de olho, mas era aí que o fato de Hapi estar com eles fazia a diferença. O litoral norte egípcio era tomado pelo Delta do Nilo e, como Hapi era o deus do Nilo, era fácil para ele perceber quando algo acontecia em qualquer parte das águas do importantíssimo rio. O que não era banhado pelo rio, era composto por um seco e poderoso deserto, ao qual Set ficava de olho.

Os dois deuses não ficaram olhando o Mar Mediterrâneo por muito tempo, logo sentiram tremores que denunciavam péssimas notícias. Considerando o tamanho de Tifão, e os temores anteriores de quando ele correu até Micenas, do lado oposto do Mediterrâneo, Set e Hapi torceram para que as notícias serem “cidades ao norte vão ser pisoteadas de novo” e não “o problema veio para o Egito”. Assim, eles esperaram um pouco, cada um prestando uma atenção tremenda em sua zona de vigilância.

Foi pelas águas do Nilo que desaguavam no mar Mediterrâneo que Hapi sentiu que os tremores eram causados pelos pesados passos de Tifão no solo marinho. O gigante e poderoso monstro havia deixado de nadar e usava sua esmagadora altura para vencer os metros finais de água.

— Set! — gritou Hapi em direção ao deserto depois de tomar forma em um dos ramos do Nilo — ELE ESTÁ VINDO PRA CÁ!

— Chame os demais. — disse Set, surgindo diante de Hapi — Irei tentar atrasá-lo.

— Boa sorte. — disse Hapi antes de se transformar completamente em água e sumir, se misturando ao Nilo como um único ser.

Sem perder tempo, Set logo se preparou para a melhor boas vindas que conseguia dar. Sua própria forma gigante luminosa o envolveu, o mais gigante que o deus conseguia, mas que ainda não era o suficiente para alcançar a altura de Tifão. Ao redor de Set, uma forte tempestade de areia se formou usando a força do deserto. Essa mesma tempestade se lançou contra o Mediterrâneo, mirando onde a forma de Tifão era vista no horizonte, se aproximando do Egito.

— ME DÊ OS DEUSES QUE FUGIRAM DE MIM! SEI QUE ELES ESTÃO AQUI! — esbravejou Tifão, sua voz cansando ondas perigosas, que amedrontavam aqueles que moravam perto das praias e já fugiam, como podiam, para longe.

— Não faço questão da segurança deles, mas infelizmente eu só obedeço ordens. — respondeu Set, suspirando pesadamente diante da lembrança do antigo feitiço de Ísis que lhe obrigava a servir Osíris.

Numa batalha de gigantes, a tempestade de areia ficou mais forte, cortante e ameaçadora ao tentar empurrar a ameaça para longe das terras egípcias. Tifão gritava, socava as ondas e usava o raio mestre para atirar em tudo ao seu redor, areia ou mar, Set ou o vazio. Raios que caiam na areia criavam pequenos fragmentos de vidro enquanto Set tentava desviar dos raios

Um raio atingiu a mão de Set, ele rangeu de dor, e poucos segundos depois Tifão tirava finalmente os pés da água. Tifão ergueu a mão livre no ar, pronto para socar Set de cima para baixo, esmagando-o por completo. Contudo, Set, que também tem sua grande parcela de força bruta, com custo segurou usou ambas as suas mãos para segurar a única mão serpentina de Tifão.

— Você pode até ficar maior que os micênicos, mas não passa de uma boneca perto de mim. — disse Tifão.

— Não preciso ser grande para lutar com você. — respondeu Set, rangendo com os dentes.

— Vou te fazer desejar que pudesse ficar maior. — respondeu Tifão.

A mão ensopada de sangue prateado de Set doía, seus pés se enterravam na areia do deserto devido a força que Tifão fazia pra baixo, mortais de vilas nas redondezas corriam para longe de suas casas, completamente desabadas pelos terremotos. A situação não estava boa. Set gritou, a tempestade de areia se intensificou, forçando Tifão a continuar o conflito com os olhos fechados. Set pensou que podia tentar transportar Tifão para o meio do deserto, onde seus poderes eram maiores, e nivelar aquela luta, mas temia os outros não conseguirem o re-encontrar.

Repentinamente, o gigante usou sua outra mão serpentiforme, que se agarrava ao raio mestre, para desferir um golpe traiçoeiro, envolvendo a cintura de Set, e eletrocutando-o ao tentar esmagá-lo por todos os lados, espremendo-o com força e o eletrocutando. Set rugiu de dor, mas a tempestade ao seu redor respondeu, redemoinhos de areia cortando os braços de Tifão, obrigando-o a afrouxar o aperto.

Set aproveitou esse momento no qual a mão que lhe esmagava de cima a baixo perdeu a força para, usando toda a força que tinha, enquanto um redemoinho denso de areia engolia Tifão, empurrar a mão de Tifão que tentava lhe esmagar para longe. Set então avançou ameaçadoramente na direção do inimigo. Nos poucos segundos que teve antes de alcançar Tifão, Set invocou sua enorme espada de fogo e fincou na barriga do gigante do jeito que podia, afinal a barriga de Tifão era mais gasosa do que física. Tifão gritou, mas seus problemas estavam só começando, pois no segundo seguinte, como uma faca cortando a realidade, um golpe vindo do meio da tempestade lhe acertou o pescoço.

Tifão cambaleou para trás, seu poderoso pé afundou no começo das águas do Mediterrâneo, fazendo a lâmina de Set sair de sua barriga. O sangue grotesco do gigante jorrou como um gás venenoso, mas, no meio da tempestade, a voz de Hórus, o autor do ataque, surgiu.

— SET! DIMINUA A TEMPESTADE UM POUCO! — gritou Hórus.

Já que sua tempestade de areia estaria atrapalhando qualquer ajuda que chegou, Set a diminuiu. Foi nesse momento que viu que mais do que só Hórus havia ido lidar com Tifão. Sekhmet, Anúbis, Ísis, Sobek e Shu também estavam lá, todos com seus avatares gigantes e brilhantes invocados. Quanto aos micênicos, nenhuma presença deles foi registrada. E isso ardia no coração dos egípcios como um sinal de covardia.

Provando que os danos feitos ao seu corpo eram irrelevantes, Tifão se ergueu novamente, sua respiração lançando nuvens tóxicas sobre o deserto. Ele rugiu ao perceber que não enfrentaria mais apenas Set. Mas seu rugido mais parecia uma risada de diversão diante da aventura que teria pela frente.

Nem um pouco interessado em deixar Tifão começar seus próprios ataques, Shu começou a fazer o que tinham planejado. Os micênicos haviam avisado pouco antes que Tifão estava com o raio-mestre de Zeus, o que era um claro problema mais. Assim, Shu se concentrou a soprar para longe as nuvens tóxicas criadas por Tifão. O egípcio ergueu os braços, e o vento começou a se condensar ao redor dos raios que Tifão tentava lançar, desviando-os para o céu.

— Que novidade você se juntar a nós, Shu. — disse Set enquanto Tifão gritava de raiva ao ver os seus raios fugindo, inofensivos, para os céus.

— Fiquei sabendo que nosso nada bem-vindo visitante estava com um brinquedo de Zeus. — disse Shu — Não que raios sejam muito a minha especialidade.

— Segure os raios, Shu! — disse Hórus — Vamos lidar com o resto.

— Temos que impedir que ele se mova! — disse Ísis apressadamente — Ele faz estragos demais quando se mexe muito.

— Cuidado. Ele é forte. — acrescentou Set.

Tentando lidar com o tanto de vento que havia ali, as faixas de linho de Anúbis tentaram se agarrar a Tifão, prendendo seus braços contra seu corpo. Contudo, como muito do corpo de Tifão mal podia se dizer que era sólido, com muito dele sendo feito das mais ameaçadoras nuvens de tempestade, agora alimentadas pelos trovões do raio-mestre de Zeus, era difícil prender Tifão. Notando isso, Sekhmet se transformou em Hathor e, junto com Ísis, se empenharam em criar amarras mágicas, belas e douradas, que não se importavam com o fato de boa parte do corpo do gigante estar no estado gasoso.

O combate tornou-se um espetáculo de força e estratégia. As amarras mágicas douradas criadas por Hathor e Ísis começaram a envolver Tifão, brilhando intensamente no meio da tempestade de areia e eletricidade. Por um breve momento, os deuses pareciam ganhar vantagem, Sobek até abriu um sorriso, se perguntando se era só aquilo que havia dado tanto trabalho para os micênicos, mas Tifão não seria contido tão facilmente.

Prontos para fatiar, rasgar e estraçalhar o que fosse possível, Hórus, Set e Sobek avançaram. Contudo, com um rugido que fez a terra tremer, Tifão agitou seus braços violentamente, rompendo parte das faixas de linho de Anúbis e esticando as amarras mágicas até quase estourarem. O raio-mestre esbravejava em relâmpagos, atacando tudo em seu caminho com mais poder do que Shu podia controlar. Os relâmpagos explodiram em direções completamente aleatórias, forçando os deuses a desviarem. Um trovão certeiro fritou Hórus, que caiu no chão, acordado, mas desorientado e com dor. Set foi atingido parcialmente no ombro, o impacto o lançou para trás, e ele caiu entre as dunas. Contudo, antes que Tifão pudesse disparar outro raio, Sobek, com sua força brutal, saltou para o peito do gigante. Suas garras rasgaram as nuvens tempestuosas que formavam o corpo de Tifão, fazendo-o recuar novamente para o limite do Mediterrâneo.

Hórus tentou se erguer, mas foi também naquele momento que um dos relâmpagos desgovernados atingiram Shu tão certeiro quanto tinha acertado Hórus anteriormente. Sem ninguém tentando controlar os raios do raio-mestre, Tifão usou toda sua força, desfez a maior parte de qualquer amarra de linho ou brilhante que lhe prendia e atirou um longo relâmpago, que percorreu a terra, queimando a areia, transformando-a em fragmentos de vidro, e atingindo um deus atrás do outro.

Como se estivesse tentando escrever na areia com seu relâmpago roubado de Zeus, Tifão atingiu Shu e Hórus, ainda caídos no chão. Os dois fraquejaram no chão, tão debilitados que não seria difícil acreditar que em breve qualquer um dos dois daria o último suspiro. Tifão continuou percorrendo os deuses com seu relâmpago, mas se deu um momento para agarrar Sobek, ainda preso em seu peito, e lançá-lo para longe.

Fugindo dos relâmpagos que arrasaram a areia, Anúbis sumiu da areia em frente de Tifão e ressurgiu atrás do gigante, pronto para putrefazer, com suas mãos e névoas, qualquer parte do corpo do adversário que conseguisse. Mas não conseguiu fazer muito, pois logo recebeu uma forte cotovelada de Tifão. A cotovelada lançou Anúbis para longe, fazendo-o cair nas águas do mediterrâneo, mas deu brecha suficiente para Ísis e Hathor tentarem prender Tifão mais uma vez.

Por trás da duna para a qual tinha sido lançado, agora em sua forma normal, Set olhou o combate de longe. Mesmo de lá, pôde ver que Shu estava se desintegrando, provando que tinha morrido. Hórus se erguia, teimoso, mas não parecia estar longe disso. Ísis e Hathor tinham dificuldade de controlar Tifão, que tentava usar o raio-mestre para terminar o estrago que queria causar e matar o máximo possível de deuses. E a expressão de Ísis e Hathor não era das melhores.

Vendo que, tal como imaginara dado o que sabia sobre Tifão, filho de Gaia e Tártaro e pai de monstros variados, todos ficariam ocupados ainda por um bom tempo. Aproveitando que talvez sua ausência não seria notada, Set respirou fundo e decidiu sair dali. Não sabia se o feitiço lançado por Ísis tanto tempo atrás iria lhe forçar a continuar seguindo a ordem de Osíris. Já tinha ficado de olho na chegada Tifão e o atrasado como podia, seu serviço estava feito, pelo o que imaginava. Assim, respirando fundo mais uma vez, Set deixou o campo de batalha rumo a rua última esperança para se livrar do irritante feitiço que o forçava a obedecer o irmão.

O destino do traiçoeiro deus foi um outro deserto. Um deserto que não estava marcado em nenhum mapa mortal, e nunca estaria. Um deserto no submundo feito completamente de ilusões criadas para torturar uma única alma. Set só teve que esperar lá por alguns poucos segundos, pois logo um sarcófago desgovernado veio em sua direção, sendo puxado por um cavalo negro feito completamente de névoa. O sarcófago quicou alto demais para sua madeira fraca, e então caiu e se quebrou, revelando seu ocupante, Setne, completamente envolto em faixas de linho sujas, como uma múmia moribunda a anos preso em sua infinita punição pessoal.

O príncipe mal gritou quando, pela milionésima vez, a areia anormalmente quente lhe queimava a pele mesmo com o linho entre ele e a areia. Com até mesmo os olhos envoltos em linho, Setne não havia visto ainda que tinha uma visita. Assim, Setne esperou, curioso e atento, não havia ainda visto os detalhes da punição particular que Setne havia recebido. Enquanto uma força invisível puxava o príncipe pela cabeça, e lhe arrancou as faixas de linho com uma brutalidade e violência tão grande que foi capaz de puxar a pele junto, Set sorriu.

— Ah… como ele me puxou mesmo… — disse Set, referindo-se à Anúbis.

Mesmo com a dor tremenda que sentia, Setne olhou para Set. Já não era novidade para o falecido príncipe sentir o seu rosto e pescoço em carne viva, ou a areia tentando fazer um churrasco de seu corpo. Assim como sabia que em breve uma ilusão de seu pai iria aparecer, e dizer-lhe palavras que fariam certeza que não era apenas o físico de Setne seria ferido, mas o emocional também.

— Vejo que as coisas vão bem aqui. — disse Set — E se eu dissesse que posso lhe tirar daqui… desde que me pague um preço.

— E-Eu t-topo… — gaguejou Setne, lutando contra a dor, com a voz tão fraca e sussurrante que Set mal ouviu sua resposta, contudo, arqueou de leve a sobrancelha diante à resposta, e exibiu um sorriso.

— Não vai perguntar qual o preço? — perguntou Set.

— NÃO ME IMPORTA! ME TIRA DAQUI! — gritou Setne, com toda a força que ainda tinha.

O sorriso de Set se abriu mais, e ele logo sumiu dali, sozinho, deixando Setne gritando para o nada. Setne continuou gritando pelo seu provável salvador, mesmo quando Ramsés II apareceu em sua frente.

— Você é minha maior decepção. — disse a imagem de Ramsés II.

— FODA-SE, PAI! — gritou Setne — EU VOU SAIR DAQUI! E CUSPIR NA SUA CARA!

No instante seguinte, Ramsés II ergueu sua espada e, no momento em que foi abaixá-la, visando, como sempre, o pescoço de Setne, Set voltou carregando com si um jovem de idade aproximada à Setne, mas com outras poucas semelhanças além disso. A espada de Ramsés II desceu e, ao invés de cortar a cabeça de Setne, cortou o braço do jovem.

— Ops. — disse Set, calmamente enquanto o jovem gritava.

— Quem é esse? — perguntou Setne tentando controlar a respiração ofegante e ansiosa, que tentava se recuperar de seu inferno pessoal e abraçar a calmaria novamente.

— Agora ele é você.. — respondeu Set largando o jovem de qualquer jeito na areia escaldante e segurando Setne nada cerimonialmente e sumindo dali junto com o príncipe falecido.

Os dois surgiram novamente num quarto escuro, esquecido, de paredes de granito frias e uma única chama trazendo um brilho fraco para eles. Uma mesa cheia de papiros estava largada num canto, junto com os mais diversos artefatos mágicos. Nenhuma porta ou janela existia ali e, ainda assim, era possível sentir uma sinistra e fria brisa vinda de algum lugar, como se aquela sala não passasse de uma caixa de pedra perdida no meio do nada. Perdido, sem ter a menor ideia do que tinha aceitado, Setne olhou para Set.

— Não ouvi um “obrigado”. — zombou Set.

— Vai continuar sem ouvir. — respondeu Setne — Onde estamos?

— Vamos chamar de meu escritório secreto. — respondeu Set.

— Estou realmente livre daquele ciclo infinito de punição? — perguntou Setne, incrédulo — Não vão notar que não estou lá e ao invés disso, um cara qualquer está em meu lugar?

— Não tão cedo. — respondeu Set — Aquele cara não passa de um mero e pobre plebeu que acabou de morrer na série de terremotos que tivemos. Muitos morreram. Pobres não costumam ser mumificados e portanto não costumam chegar ao salão do julgamento, não seria estranho se ele passasse pelo mesmo… nem que o corpo dele não seja achado… Sei que meu filho de coração mole tem uma certa mania de mumificar sem ver a quem, mas se não tiver corpo… não tem mumificação.

— E tem certeza que não terá corpo? — perguntou Setne.

— Me certifiquei disso. — respondeu Set — Joguei-o em um vulcão longe do Egito e que anda bem... mal-humorado.

— Anúbis não irá, ainda assim, passar para ver como anda minha punição? — perguntou Setne.

— Nah, acho improvável. — respondeu Set, fazendo pouco caso com a mão — Ele é muito ocupado e estamos num período com muitos problemas. Sem falar que… você seria o primeiro a conseguir fugir, então... para que olhar uma prisão que é considerada inescapável?

— E o que você ganha me tirando dessa prisão? — perguntou Setne — Além de com certeza muitas inimizades se ficarem sabendo.

— Aí que entram as suas condições… — disse Set — E caso não as aceite poderei joga-lo de volta na sua prisão facilmente. Afinal, não estou te ressuscitando… se é que alguém tem o poder de fazer algo do tipo. Ainda está morto. Não passa de uma alma penada. Joga-lo no seu devido lugar no submundo não é tão difícil.

— Que condições seriam essas? — perguntou Setne, atento à qualquer pegadinha.

— Não tenho muito tempo então vou ser breve. — disse Set — Ísis me lançou um feitiço irritante que me obriga a obedecer à Osíris. Já tentei de tudo para desfazê-lo, e falhei. Deve ter algo para impedir que a pessoa sob o feitiço consiga ela mesma o desfazer. Não confio que posso pedir por uma solução a qualquer outro deus sem o pedido cair nos ouvidos de Ísis novamente. Os outros nunca admitirão, mas você foi um mago poderoso que rompeu qualquer barreira que um humano poderia alcançar em magia. Na falta de uma saída divina, me perguntei… o que custa tentar dar uma chance ao mortal egocêntrico.

— Está mesmo sem saída né? — perguntou Setne, soltando uma risada zombeteira — O grande Set, teve que se rebaixar à pedir ajuda a um mortal.

— Lembre que posso facilmente jogá-lo em seu eterno sofrimento. — lembrou Set, fechando a cara em extremo e silencioso ódio.

— E continuará eternamente obrigado a obedecer ao maninho. — lembrou Setne.

— Não acha que está se achando demais para um mero mortal? — perguntou Set — Ainda é um feitiço que Ísis fez. Não seu professorzinho de uma cidade do interior.

— Tive professores melhores do que isso e superei a todos. — lembrou Setne — Mas não se preocupe, meu pequeno aflito, aceito os termos de meu acordo.

— Não acaba por aí. — disse Set — Sei muito bem que pode ser traiçoeiro, mas nunca irá me enganar. Se eu ver que está só tentando ganhar tempo, a punição que Anúbis lhe deu parecerá leve perto da que eu te darei de presente.

— Ainda de acordo. — respondeu Setne — Quanto tempo terei?

— O tempo que minha paciência durar. — respondeu Set.

— E se eu conseguir, o que eu ganho? — perguntou Setne.

— Tempo. — respondeu Set, enigmaticamente.

Claramente sem qualquer medo de que Setne pudesse escapar dali, Set foi embora de volta para o confronto com Tifão, deixando o príncipe falecido para trás. Sozinho na estranha sala, Setne não conseguia acreditar na sorte que tivera e no acontecimento dos últimos momentos. Tinha conseguido fugir de seu eterno pesadelo mas, ainda assim, não conseguira ainda ver a luz do sol lhe abraçando ou a brisa do vento tocando sua face levemente e lhe recebendo de volta ao mundo dos vivos.

Com esperança de que o tempo que Set havia lhe prometido seria entre o mundo dos vivos, ou que ao menos teria tempo e chances para descobrir formas de melhor sua própria situação e ressuscitar de fato, Setne respirou fundo e deixou escapar um sorriso no rosto exausto. Se sentou na cadeira diante da mesa com lentidão, ansioso por sentir cada toque gentil da madeira, mas ao invés disso, atravessou-a e caiu no chão, confuso e aturdido.

Por uns segundos ele ficou parado no chão, tentando entender o que havia acontecido. Da posição que estava, a cadeira ainda lhe atravessava as pernas que agora, com mais calma e melhor ângulo, pôde ver que eram transparentes. Claramente a missão que tinha pela frente não seria nada fácil se tivesse que a cumprir naquele incômodo estado fantasmagórico.

De volta ao centro do combate com Tifão, a situação que Set encontrou lá não era das melhores. Sobek e Hórus também haviam sumido, provavelmente morrido, tal como Shu. Largado entre Set e o centro da batalha, estava Anúbis, queimado e desacordado. Eram Hathor e Ísis que, sozinhas e machucadas, cuidavam do resto.

As duas prendiam Tifão de uma forma que Set nunca havia visto antes. Sete fitas vermelhas envolviam Tifão fortemente, puxando-o contra o chão, que o engolia. Fitas completamente diferente das que antes as duas usavam para prender Tifão. O custo para Ísis e Hathor, contudo, era grande. Suor escorria da testa das duas e era claro que o esforço era tremendo. Ainda assim, Set ficou chocado. Tifão mal se movia, mesmo que os raios ainda estivessem completamente descontrolados, atingindo a tudo aleatoriamente. Parecia mesmo que elas iam conseguir.

Isso é, até Hipnos repentinamente aparecer entre as duas e falar:

— Durmam…

E elas caíram no chão.

Set ficou boquiaberto, primeiro com o acontecimento, segundo com a audácia de claramente Hipnos ter ido até o Egito criar confusão. Livre, Tifão se soltou e rugiu em alegria.

— EI! — gritou Set em direção à Hipnos que olhou em sua direção claramente assustado, porque achava que estava sozinho.

Hipnos desapareceu num piscar de olhos, sem dar tempo para Set o alcançar. O deus micênico temia as consequências de sua participação secreta ter vazado logo para os egípcios. Contudo, sumindo e reaparecendo ao lado de Ísis e Hathor, Set tentou fazer de tudo para acordá-las enquanto, com as mãos sobre a barriga, Tifão ria ruidosamente pelo desenrolar das coisas.

Notas finais
** UM POUCO DE VIDA REAL *** Não achei em nenhuma parte do mito de Tifão que Tifão chegou a ir até o Egito, mas porque não né? kkk liberdade poética tá aí pra gente usar kk Enfim, sobre o um pouco de vida real de hoje… terremotos não são tão desconhecidos para os egípcios. Claro que não é nada tão comum quanto o Japão, mas ainda assim rolava e ainda rola. Tanto antigamente quanto hoje, era comum as pessoas se refugiarem nos templos antigos pq eta parede forte. **** REFERÊNCIAS **** A lenda de Rá e Ísis - https://sacred-texts.com/egy/leg/leg20.htm