A Morte Das Areias do Saara
37 Sob a luz das estrelas
Notas iniciais

Eu ouço tua voz, ó pomba
A madrugada está toda incandescente
Cansada sou eu com amor, com amor, oh, para onde devo ir?
Não é assim, ó belo pássaro acima, É alegria ser negado ...
Pois eu encontrei minha querida, meu amor; E eu estou ao seu lado.
Nós vagamos, e de mãos dadas por caminhos floridos nós vamos
Eu sou a mais bela da terra, Pois ele me chamou assim.
~ Fragmento de poema
O vento batia nas altas folhas das palmeiras enquanto Anúbis, pensativo, se aproximava da vila onde Shadya, Ahmen e Iset chamavam de casa. Apesar da distância que separava o jovem deus da vila diminuir a cada passo que ele dava com suas sandálias de couro contra a areia escaldante, a mente dele estava bem mais longe do que ali.
A mente de Anúbis divagava por assuntos que iam bem mais além do que como pediria Anput em casamento, ele também pensava sobre como exatamente iria montar o tal culto que precisava, ainda por cima, incluir todo o passo a passo de um ritual funerário que se preze para que os humanos pudessem assim seguir para o Salão do Julgamento. Sabia que não podia simplesmente deixar as almas deles vagando perdidas por aí.
O mero pensamento sobre almas penadas fez vir a tona na mente de Anúbis mais um questionamento. Chenzira.
Com um suspiro e o vento balançando preguiçosamente seus cabelos que logo se bagunçou mas de forma alguma isso fazia Anúbis ficar com aparência de largado, muito pelo contrário. Pensativo, ele olhou para a vila na qual, se a história tivesse sido diferente, talvez Chenzira agora estivesse morando.
Sentindo então que estava devendo uma ao falecido amigo, Anúbis parou de andar e ficou ali, quase que no meio do deserto, revirando a mente atrás de uma informação que agora tinha certeza que sabia, mas ainda não a tinha encontrado. A sensação era de como tentar se lembrar de algo que nunca soube. Ou procurar por uma frase no meio de enorme coleção de papiros desorganizados. Já havia tentado vasculhar a mente por tal informação, mas sempre sem sucesso. Entretanto, daquela vez, aquela vasta coleção de conhecimento que simplesmente havia surgido em si, parecia maior e ao menos minimamente organizada. Aquela pilha de informações sobre morte, funerais e além.
Contudo, a cada informação, até então irrelevante, que ele encontrava, mais ele sentia que estava perto da informação que ele queria e mais entendia como aquela grande quantidade de informações se organizava, pois ele sabia, ele sentia, que ali na sua cabeça, mesmo que nunca tivesse realmente estudado sobre o assunto, estavam informações quanto ao destino de toda e qualquer alma já falecida. Assim, foi um sorriso que apareceu no rosto dele, quando ele encontrou o paradeiro da alma de Chenzira.
Teria todo o resto do dia para visitar Shadya, Iset e Ahmen. Sem falar que precisava da escuridão da noite para botar seu plano com Anput em ação. Sendo assim, dissolvendo-se em névoa negra, ele deixou aquele lugar para trás e reapareceu dentre a mata rala que adornava as margens de um dos pequenos rios que, marcando o começo da região do Delta, se separavam do Nilo. Lá, ele viu uma palmeira que solitariamente se erguia enquanto pássaros se banhavam nas águas do pequeno rio logo ao lado.
Com passos apressados, Anúbis se aproximou da palmeira e, cada passo que dava no piso lamacento, uma figura foi se tornando mais nítida ao pé da palmeira. Sentado no chão próximo da singela árvore, estava um garoto. Roliço, de pele quase tão clara quanto a de Anúbis, o garoto tinha um ar apático e sem emoção que mostrava que ele tinha ido além da comum tristeza.
O som dos passos de Anúbis atraiu a atenção do garoto que, lentamente virou a cabeça e, ao ver seu rosto por completo, Anúbis soltou um suspiro aliviado, pois ali estava Chenzira. Os olhos de Chenzira se arregalaram com surpresa ao ver o amigo. A surpresa foi tanta que Chenzira se levantou de seu cantinho e lágrimas começaram a encher os olhos de sua face transparente. Sim, transparente. Pois aquilo não passava da alma do garoto.
— A-Anúbis… — choramingava o garoto esfregando o olho com a mão — Não é mais uma miragem do deserto não né?
— Não. Sou eu mesmo. — disse Anúbis com um sorriso triste se sentindo culpado pelo ocorrido com o amigo, e o fato de poder ver através dele relembrava-o bastante bem do estado de Chenzira.
— E-Eu achei que nunca m-mais veria ninguém… — soluçava o garoto com uma voz que parecia tão distante e ao mesmo tempo, logo ali — Minha mãe e minha irmã vem aqui às vezes mas…
Anúbis olhou para o pequeno punhado de pequeninas flores ao pé da palmeira. Provavelmente traços da mãe de Chenzira. Um suspiro de pesar e culpa escapou os lábios do jovem deus enquanto o amigo, com dificuldade, tentava desabafar.
— E-Eu não consigo tocar ela…e ela não me vê... Eu não consigo tocar nada! E não vejo os outros desde daquele dia! E… aquele dia… — choramingava Chenzira parando de repente com uma expressão de completo terror no rosto — … aquele dia… e… o que está enterrado aqui… embaixo da palmeira…
— Chenzira… — tentava dialogar Anúbis.
— Eu não sou burro! — gritou Chenzira com lágrimas escorrendo por seus olhos — Eu acordei embaixo da terra e reconheci bem o corpo que está enterrado! E-Eu… E-Eu… eu morri? Eu morri não foi?!
Anúbis mordeu o lábio por um mero segundo e então deixou um pesado suspiro escapar por seus lábios antes de confirmar com a cabeça. Contudo, Chenzira já parecia saber da resposta, pois não se mostrou surpreso por isso, apenas voltou a sentar no chão. Na verdade, agora que estava mais perto, Anúbis podia ver que Chenzira não se sentava de fato no chão, apenas ficava pairando à milímetros dele.
— Acho que isso explica muita coisa. — resmungou Chenzira — Mas acho que não explica porquê apenas minha mãe e irmã vêm até aqui.
— Eu… Nós.. não sabíamos que estava aqui. — disse Anúbis — Tenho certeza que perguntamos pra Ahmen se sabia onde você estava.
— Não que faça tanta diferença. Ninguém pode me ver mesmo! — disse Chenzira ficando rapidamente nervoso, uma alteração de humor brusca que Anúbis tinha certeza que estava mais relacionado ao fato de ele ser meramente uma alma penada, do que necessariamente um reflexo da personalidade do amigo — Não toco nada! Ninguém me vê! Ninguém me escuta!
— Chenzira… calma… respire...- disse Anúbis calmamente se ajoelhando na frente de Chenzira e tocando-lhe.
O gesto, tão simples, fez Chenzira parar e olhar para a mão de Anúbis com os olhos arregalados. Afinal, ele sentia a mão de Anúbis ali em seu ombro. Depois de mais de um ano ali, sozinho, preso debaixo daquela palmeira, alguém estava finalmente vendo-o, ouvindo-o e tocando-lhe.
— … você está me vendo…e… falando comigo… e… tocando meu ombro… — disse Chenzira com o queixo tremendo mostrando que começaria a chorar.
— Estou.
Desatando a chorar, Chenzira abraçou fortemente o amigo em busca do abraço que por meses ele estava precisando. Fungando e deixando as lágrimas escorrerem pelo seu rosto, Chenzira chorou tudo que estava preso dentro dele enquanto abraçava Anúbis com bastante força. Inicialmente, Anúbis nada disse, deixou com que Chenzira extravasasse tudo que tinha preso dentro de si. Foi só quando o choro histérico trocou para alguns soluços, que o jovem deus ousou dizer algo.
— Está melhor? — perguntou Anúbis enquanto Chenzira se afastava.
— A-Acho que sim. — respondeu ele soluçante — C-Como… como consegue me ver e tudo mais?
— Acho que temos muito o que conversar para que entenda o motivo. — disse Anúbis sentando-se à frente do amigo.
E foi o que fizeram. Conversaram e conversaram até que todo o assunto fosse colocado em dia. O rosto de Chenzira alternava entre emoções de surpresa, medo, tristeza, inveja e até apatia enquanto Anúbis explicava tudo. Tudo. Quem ele, Anput e Qebui eram, o que acontecia em Mênfis e como estavam os outros três amigos.
— Muita coisa aconteceu mesmo… — disse Chenzira cabisbaixo — Normal. Faz mais de um ano que morri…
— Desculpe. — disse Anúbis — Não pude te salvar quando vivo, nem posso salvar sua alma.
— N-Não pode? — perguntou Chenzira assustado.
— Não. O máximo que posso fazer é mostrar-lhe o caminho mas… sem os devidos ritos funerários, dificilmente conseguirá chegar até o final.
— Não pode fazer um rito funerário meio atrasado? — perguntou Chenzira.
— Até posso mas… — disse Anúbis soltando um suspiro — Para que uma alma consiga de fato chegar até o final, além de todos os ritos, seu corpo tem que estar intacto. Principalmente o coração.
— Não tem mais muito de mim aqui embaixo né? Não tive coragem de olhar de novo…
— Pouparei-lhe dos detalhes… — disse Anúbis pois, mesmo sem realmente ver, sabia o estado que o corpo de Chenzira estava — mas digo-lhe que não tem o suficiente.
— Hum… — disse Chenzira levando alguns segundos para digerir a notícia — E… ahm… até estou meio sem graça em perguntar… ressurreição é totalmente fora de questão né?
— Totalmente. — disse Anúbis negando com a cabeça — Nem sugira isso.
— Algum motivo em especial? — perguntou Chenzira — Não ficou com vontade de fazer algo do tipo quando Neby morreu? Pera… você ao menos consegue ressuscitar alguém antes que eu comece a teorizar todas essas perguntas.
Anúbis parou para pensar um pouco quanto a indagação de se ele poderia de fato ressuscitar alguém. Sabia que, lá no fundo, tinha pensado nisso quando Chenzira morreu, mas especialmente quando Neby morreu. Além disso, também entendia qual motivo levava o amigo a estar tão tagarela. Era a simples solidão.
— Talvez… — ponderou Anúbis — Cheguei a pensar nisso algumas vezes mas… Isso é completamente fora de questão, Chenzira. Apesar de cada deus ter suas funções, nossa maior finalidade é manter o equilíbrio. Seguir as regras de Ma’at. Qualquer coisa fora disso, ainda mais uma coisa grande como dar vida à alguém que não deveria mais a ter, gera caos. Esse caos alimenta Apófis. O pior problema que o mundo provavelmente pode ter.
— Ah… — disse Chenzira sem encontrar mais palavras para adicionar a informação.
Sabendo que não poderia demorar muito mais ali, pois havia prometido passar na casa de Shadya e Ahmen, Anúbis se despediu de Chenzira alguns minutos depois. Deixou com o amigo, no entanto, a promessa de trazer os outros até seu túmulo e ajudar o jovem falecido a se descontrair um pouco. Nem que fosse preciso Anúbis repetir tudo que Chenzira dizia.
Anúbis foi então para a casa de Shadya, Ahmen e Iset com a mente com mais coisa para pensar do que antes. Encontrou então os três amigos no andar superior da casa concentradíssimos com Anput sentados no chão ao redor de um longo pedaço aberto de papiro. Anput se debruçava sobre o papiro com uma espécie de pincel na mão feito de uma folha de uma árvore. Ela molhava-o com uma tinta feita com minerais moídos e misturados com água.
— Então… — dizia Anput escrevendo sobre o papiro — se você escrever assim, fica “User é jovem”. Mas se eu trocar aqui pelo leão, fica “User é corajoso”.
— O desenho do leão significa corajoso então? — perguntava Ahmen.
— Sim. Mas também pode significar simplesmente leão. — disse Anput dando de ombros — Depende de como está escrito. Você sabe que User não é um leão. Afinal, é uma pessoa. Mas esse “corajoso” esconde muitas outras características de um leão. Esconde a bravura, a imprevisibilidade e a vigorosidade.
— Olha só quem finalmente chegou! — disse Iset que sentava-se ao lado do papiro sendo a primeira a notar a chegada de Anúbis — Já estávamos achando que não iria mais vir.
— Fiz um pequeno desvio que acho que será do interesse de vocês. — explicou Anúbis — Está ensinando eles a ler e escrever?
— Sim. — respondeu Anput — Achei que seria um conhecimento útil para ser passado adiante.
— Devo concordar. — disse Anúbis se sentando também ao redor do papiro.
— Já eu não tenho tanta certeza… — disse Shadya enquanto o pequeno User, agarrado à mãe em seu colo, enrolava a pequenina mão em seus cabelos — Não me parece algo que deveríamos saber. Não digo que não é útil mas sim que… não sei explicar… parece meio... sagrado.
— Eu só acho que parece difícil mesmo. — reclamou Ahmen — Tantos símbolos diferentes!
— E ainda pode escrever de cima para baixo ou de um lado para o outro. — completou Iset.
— E esse lado ainda pode ser tanto a direita como a esquerda!! — exclamou Ahmen — Como sabe-se de onde começa então?
— Já disse… — disse Anput suspirando — Basta olhar para o lado que as figuras estão olhando. Esse é o lado que começa.
— Complicado demais… — disse Ahmen negando com a cabeça.
— Mas então… — começou Anput olhando ansiosa para Anúbis — Como foi lá com Osíris e Thoth?
— Já está praticamente tudo pronto para começarem os julgamentos. — disse Anúbis — Ele até conseguiu um demônio para devorar o coração e a alma daqueles que não forem dignos. Ma’at até apareceu e deu uma pena da verdade e uma balança.
— D-Deveríamos estar ouvindo isso? — perguntou Shadya preocupada enquanto Iset e Ahmen se olhavam já com medo de Ammit fazer parte do futuro pós-morte deles.
— Bem, acho que não tem problema considerando que parte do que Osíris pediu foi para espalhar mais dentre os mortais algumas informações. Tipo como conseguir chegar até o Salão do Julgamento, como fazer os ritos funerários e coisas do tipo. — explicou Anúbis.
— Sabe o que isso me parece? — perguntou Anput ansiosa com os olhos brilhando — Que está na hora de você criar seu culto.
— Ele disse a mesma coisa. — disse Anúbis suspirando.
— Uhh… isso soa importante. — disse Iset.
— E é. — disse Anput — Ter pessoas o cultuando deixa um deus ainda mais forte. Por isso Lorde Osíris é tão forte. E Rá. Claro, nascimento também ajuda muito nisso.
— De toda forma, tenho que passar todo o passo a passo de um rito funerário decente no meio de tudo isso. As pessoas tem que saber fazer um funeral do jeito certo, ou então as almas não chegarão até o Salão do Julgamento e ficarão vagando a esmo por aí.
— Porquê não deixa escrito em algum lugar? — perguntou Anput olhando para a pequena lição de escrita que dava para os amigos humanos e Anúbis lentamente parecia achar a ideia dela bem interessante — Um papiro com um passo a passo.
— Vai ter sacerdotes também? E coisas do tipo? Templos, por exemplo. — perguntou Shadya fazendo perguntas que Anúbis já tinha feito a si mesmo também.
— Não vejo muito sentido em templos. — disse Anúbis dando de ombros — De certa forma, um túmulo já não pode ser considerado um templo para a morte? Isso me parece o bastante. Mas quanto aos sacerdotes… bem… alguém tem que preparar os corpos das pessoas para serem embalsamadas e fazer os rituais.
— Sacerdotes então. — disse Anput afirmando com a cabeça.
— Estou me sentindo bem importante participando dessa conversa. — disse Iset soltando uma risada.
— Toda essa conversa sobre morte me deixa próximo de o que fui fazer antes de vir aqui. — disse Anúbis adotando um ar sério — Encontrei o túmulo e a alma de Chenzira.
De todas as coisas que Anúbis poderia ter dito, o grupo não estava preparado para aquela. Cabisbaixos, eles fitaram o chão levemente empoeirado pela areia que insistentemente entrava pela janela desprotegida por alguns segundos até que uma lágrima escorreu pelo rosto de Shadya e Ahmen levantou seu braço para limpá-la.
— A mãe dele nunca quis contar pra gente onde ele está. — disse Iset.
— Acho que ela nos culpa pelo o que aconteceu. — disse Shadya — Nem sabemos se ela ainda mora aqui na vila.
— Podemos ir lá? — perguntou Ahmen.
— Devem… — disse Anúbis soltando um suspiro — Ele está se sentindo muito solitário.
— E-Ele está lá?! — perguntou Shadya.
— Sua alma está lá. Sim. — explicou Anúbis — Vocês não poderão vê-lo, ouvi-lo ou tocá-lo, mas ele poderá vê-los e ouvi-los.
Isso era o suficiente para o grupo de amigos que imediatamente arrumou as coisas e decidiu continuar a aula de escrita junto com Chenzira para que pudessem, não só conversar, mas como também incluí-lo na atividade. Juntos, todos foram até onde o garoto estava enterrado e com sua alma esperando os amigos que, segundo Anúbis havia prometido, iriam visitá-lo. Um sorriso e lágrimas nos olhos surgiram quando Chenzira viu que Anúbis havia cumprido a promessa.
Por horas a fio os amigos ficaram conversando, rindo e aprendendo a ler e escrever. Até User havia ido aproveitar o momento e Chenzira gostou tanto de ver o pequeno bebê como gostou de descobrir que Anput também podia o ver e ouvir, mas não tocar-lhe. Não sabiam se era porque a garota era uma deusa também, mas Anput sentia que, a cada dia que passava, quanto mais próxima ficava de Anúbis, mais próxima ela também ficava do conceito de morte. Talvez estivesse relacionado, pensou ela.
Quando o sol começou a descer no horizonte e User a babar no ombro do pai dormindo, o grupo se separou com a promessa de visitar Chenzira mais vezes. Contudo, enquanto os amigos voltavam para suas casas para dormir e se preparar para o dia seguinte, Anúbis segurou o pulso de Anput apressadamente impedindo que ela resolvesse ir embora também.
— Posso te levar em um lugar? — perguntou Anúbis — Queria mostrar-lhe uma coisa e perguntar-lhe outra coisa.
— Claro — respondeu Anput com a curiosidade crescendo dentro de si.
Um pequeno sorriso nasceu no rosto de Anúbis enquanto ela delicadamente levava uma mecha de seu cabelo cacheado, que estava solto, para atrás da orelha. Com as mãos dadas, o casal deixou a névoa negra envolve-los e levá-los para outro lugar.
Quando a névoa se dispersou, foram recebidos pela vista estonteante de montanhas que subiam, desciam e cruzavam as nuvens estando eles mesmos na montanha mais alta ali. Um suspiro de admiração escapou dos lábios de Anput enquanto ela processava a ampla e bela vista tocada pelo alaranjado do sol que se punha e refletia as cores do céu e do deserto.
— Nossa.. — disse Anput enquanto Anúbis se sentava em uma das pedras que ali estavam marcando o lugar perfeito para simplesmente admirar o sol se pôr.
— Estava já achando que íamos ter chegado tarde demais para ver o sol se pôr. — disse Anúbis.
— Como descobriu esse lugar? — perguntou Anput.
— Lorde Osíris mencionou uma vez. — explicou Anúbis — Disse que Geb vinha aqui para admirar Nut.
De fato, parecia fazer sentido o avô de Anúbis ir até ali. Afinal, Geb era casado com o próprio céu, a deusa Nut. E aquela montanha, até então sem nome, era nada mais, nada menos, do que o ponto mais alto em toda a redondeza da crescente civilização egípcia. Ao redor daquela montanha, vários outros morros e picos se elevavam. Um deles em especial, em alguns séculos no futuro, iria ter uma importância singular para um povo. Tal importância acabaria por dar nome à aquela região pois, o tal monte que à alguns quilômetros se erguia, era nenhum outro além do Monte de Sinai.
— Isso que é vista… — disse Anput com um sorriso sentando-se ao lado de Anúbis e deitando a cabeça no ombro dele.
Apesar do show que a natureza dava com aquele espetacular pôr do sol cheio de cores, a mente de Anúbis estava fixada na próxima tarefa que tinha que cumprir. Alheia aos pensamentos que tumultuavam a mente de Anúbis, Anput simplesmente admirava a vista.
— Já parou para se perguntar o que tem além do horizonte? — perguntou Anput.
— Além do horizonte? — questionou Anúbis.
— É. — disse a garota — Thoth mencionou aquele povo que vive na direção de onde o sol nasce. Qebui viu outros subindo o rio. Queria ver o que mais se tem para ver. Além do deserto que tanto parece sem fim e além da imensidão azul do mar.
— Os humanos não descobriram os barcos ainda, então uma expedição pelo mar certamente chamaria atenção mas… — disse Anúbis — Se quer ousar cruzar o limite do deserto, podemos sem dúvida tentar.
— Especialmente quando sede e calor não são problemas que podem afetar. — disse Anput enquanto o sol terminava seu espetáculo, desaparecia no horizonte e lentamente dava lugar a escuridão onde a lua brilhava suprema.
— Se é conhecer o mundo que existe longe do Nilo é o que quer, só escolher um lugar e podemos ir até lá.
— Sério?! — perguntou Anput surpresa — Não tem que ficar no Salão do Julgamento ou algo do tipo?
— Thoth já chegou a conclusão que o dia corre mais lentamente por aqui e, com literalmente ninguém sabendo os rituais necessários para chegar até lá, duvido que eu fique ocupado por muito tempo ao menos nas primeiras décadas.
— Então com certeza vou querer conhecer algum lugar. — disse Anput beijando Anúbis na bochecha e então entrelaçando seus dedos com os dele ao fitá-lo profundamente nos olhos enquanto as estrelas surgiam no céu — Pensarei com muito cuidado em minhas opções. Embora não saber o que me espera dependendo da direção que escolher deixe tudo mais difícil.
— Mas… deixando esse assunto de viagem de lado por um mero instante, — disse Anúbis suspirando profundamente bem sentindo seu coração batendo rapidamente em seu peito — tem algo mais importante sobre o qual quero falar e envolve uma escolha de sua parte também.
— O quê? — perguntou Anput.
Com um mero movimento de mãos, uma pequena névoa se acumulou na mão de Anúbis como se ele segurasse algo. A névoa então se dispersou revelando um pequeno buquê de flores com exuberante lótus azuis, delicadas jasmins brancas e belas anêmonas de tons rosas claros e leves tons brancos nas bordas de suas pétalas.
— Creio que o pedido tenha sido por lótus azuis, jasmins e anêmonas, certo? Espero ter acertado dessa vez. — disse ele.
Extremamente corada, Anput olhava para as flores com os olhos marcados pela surpresa e pelo carinho. Evidentemente tocada, ela pegou as delicadas flores em suas mãos e sentiu o perfume que delas exalava.
— Anput — disse Anúbis roubando a atenção dos olhos de Anput com o simples tom de sua voz — quer casar comigo?
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