A Morte Das Areias do Saara
38 De mudança para o submundo
Notas iniciais

Eu queria ser seu espelho para que você sempre olhasse para mim.
Eu queria ser sua roupa para que você sempre me usasse.
Eu queria ser a água que lava seu corpo.
Eu gostaria de ser o unguento, ó mulher, que eu pudesse te conhecer.
E a faixa em volta dos seus seios e as contas em volta do seu pescoço.
~ Fragmento de poema
Com o olhar brilhante e lágrimas se formando em seu olhos, o olhar de Anput, ao som da doce e importante pergunta, rumou das flores para os carinhosos olhos castanhos de Anúbis. O coração dele palpitava ansioso pela resposta que, embora uma pequena voz dentro de si dizia que seria óbvia, ainda muito preocupava.
Abrindo um sorriso radiante, Anput logo se aproximou dele e, deixando o singelo buquê de flores em sua mão esquerda, usou o braço direito para abraçar o rapaz enquanto seus lábios presenteavam-no com um doce e profundo beijo.
— Claro que eu quero! — disse Anput depois de se separar do beijo por alguns instantes para que pudesse responder apropriadamente.
O coração de Anúbis rapidamente se tranquilizou ao ouvir a resposta e tal tranquilidade chegou até seu olhar e seus lábios que se abriram também em um sorriso. Contudo, o sorriso não durou muito pois logo os lábios do jovem deus estavam ocupados beijando aquela que agora era sua noiva. Por um breve momento Anúbis se separou de Anput e pegou sua mão delicadamente.
Quando alguém pensa nas invenções dos egípcios, poderá facilmente citar o papiro. Pensando mais um pouco poderá citar invenções também criadas por outros povos, como as múmias, a maquiagem, os chinelos, as perucas e o calendário. Mas dificilmente alguém saberá da importância deles na criação do pequeno objeto circular feito de ouro, algo raro para esse tipo de objeto que comumente ainda era feita de marfim ou couro, que os dois jovens deuses fizeram magicamente aparecer em seus dedos como um símbolo dos sentimentos e da relação que ali existiam.
Com olhos brilhantes, Anúbis acariciou a bochecha dela docemente fazendo um sorriso romper na face de Anput. Sem se aguentar mais, os dois se aproximaram e beijaram-se deixando os sentimentos tomarem conta. Enquanto as estrelas se exibiam exuberantemente no céu negro, o casal trocava um apaixonante beijo bem sabendo que não seria necessário muito mais do que simplesmente morarem juntos para serem considerados oficialmente casados, tal era a simplicidade de um casamento para a época. Entretanto, as condições luxuosas em que viviam os deuses permitiam uma festa para celebrar, algo tão difícil dentre os mortais.
Até o raiar do sol eles ficaram ali. Conversando, aproveitando a presença um do outro. Sabiam que assim que contassem as mudanças daquela noite para os outros deuses, eles imediatamente iriam querer começar uma festa, foi exatamente esse pensamento que levou eles a querer simplesmente aproveitar o momento.
Com rapidez a notícia do noivado se espalhou entre os deuses, principalmente porque Hathor mal conseguiu ficar quieta depois que Anúbis perguntou se teria a permissão de pedir Anput em casamento. Depois que Hathor contou para Ísis e Tawaret o acontecimento, a notícia rapidamente se espalhou e então ganhou mais força ainda quando Anput voltou para casa e contou as atualizações.
— Oh, minha garota!- dizia Hathor feliz abraçando Anput — estou tão orgulhosa e feliz! Sabia que não iria dizer não.
— Obrigada! — respondeu Anput cheia de alegria.
— Já veio pegar suas coisas e para levar para o Salão do Julgamento? — perguntou Hathor.
— Sim. — respondeu Anput — Não vejo porquê esperar. Embora sem dúvida sentirei falta de ouvir-lhe tocando algo diferente toda manhã.
— Por mais que minha velha e pequena harpa bem precise de ser renovada. Outro fio se rompeu bem semana passada. Mas acima de tudo, sentirei falta de minha espectadora favorita. — disse Hathor acariciando a bochecha de Anput com o brilho do orgulho no olhar.
— Claro que posso tentar vir frequentemente visitar-lhe. — disse Anput dando de ombros.
— Não se preocupe com isso. Se preocupe com coisas mais importantes. Por exemplo, o fato de que temos que fazer uma festa, sem sombra de dúvidas!- disse Hathor que, como deusa do amor, estava sem dúvida muito empolgada com a ideia.
— Tem certeza?- perguntou Anput- Não temos dado exatamente muita sorte nas últimas festas. Talvez seja melhor simplesmente casarmos.
— Bobagens. Até mesmo os mortais com condições comemoram quando se casam. — disse Hathor pois, ali, mas margens do Nilo tantos anos antes até que as construção das pirâmides, um casamento não necessariamente implicava em uma festa.
Anput logo se viu sem poder contrariar as ideias de Hathor, especialmente depois que ela sugeriu fazer a festa no Salão do Julgamento. Não que também quisesse tanto assim não ter uma festa. A verdade era que a queria, mas tinha medo de interrupções por parte de Set. Mas, ora, se para duas pessoas se considerarem casadas bastava morarem sob o mesmo teto e trocarem momentos e carícias na intimidade da cama, que lugar faria mais sentido para uma comemoração do que o futuro lar?
As facilidades de poderes grandes que beiravam a imaginação diminuíram qualquer esforço necessário para que fosse realizada uma festa de casamento. Assim, alguns poucos dias depois, quando Anput já tinha guardado num bolsão mágico do Duat suas coisas, uma festa já havia começado. Os gritos de alegria romperam o ar do Salão do Julgamento quando Anput chegou e já foi logo abraçando Anúbis toda feliz e tomando os lábios dele num doce beijo.
— Só eu acho que eles são mais apressados do que a gente para esse casamento? — disse Anput soltando uma leve risada mantendo os braços ao redor do pescoço de Anúbis tocando com a ponta de seu nariz no nariz dele.
— Talvez lhes falte motivos para comemorar desde que toda essa confusão com Set começou — disse Anúbis ignorando os deuses ao redor e aproveitando a imagem e o toque da bela jovem elegantemente vestida com um longo vestido de linho de alta qualidade enquanto a música produzida pelo dedilhar dos dedos de Hathor em uma harpa grande, elegante e dourada enchia o ambiente com sua música. O instrumento era presente de Anúbis para Hathor, pois bem dizia a tradição que o noivo deveria presentear o pai da noiva com algo. Na falta de um pai, Hathor ficou mais do que feliz em receber o presente.
Anput deixou-se aproveitar o momento também, e logo depositou um beijo naquele que em instantes seria seu marido. Talvez fosse uma mudança grande feita muito rapidamente para os padrões modernos, mas, para eles, tal mudança era bem mais simples e leviana. Uma mera formalidade.
O brilho no olhar de Anput combinava com o brilho das jóias que adornavam seu corpo dentre as quais a mais importante era o anel que fazia par com o anel no dedo de Anúbis. Sob o olhar carinhoso de amigos como Nefertem, Qebui, Hathor, Tawaret, Osíris e Thoth, o casal aproveitava a companhia um do outro ao lado da parede ricamente trabalhada com cores, formas e desenhos que faziam bem mais do que enfeitar o Salão do Julgamento. Correndo dentre as pernas dos convidados, Ammit se divertia achando tão estranho ter tantas pessoas ali. O demônio cujo propósito era devorar corações, certamente não parecia ameaçador quando começou a brincar com o pequeno Hórus que, deitado de barriga, mas de cabeça erguida, no chão sob um tapete e entre almofadas postas aos pés do trono de Osíris, ria ao interagir com Ammit exibindo seu sorriso banguela.
Apesar de ter ficado dividida entre ir ou não ao casamento, Bastet acabou aparecendo mesmo que chegando atrasada. A deusa gata deixou toda a sua atenção para o delicioso e majestoso filé de tilápia que adornava a exuberante mesa posta diante do trono no qual Osíris sentava-se conversando com Ísis que lhe acariciava gentilmente o rosto enquanto sentada no braço do trono.
—Diga-me — disse Anput olhando para o sofá do qual Néftis, sozinha e segurando um copo de vinho, olhava com um doce sorriso para o casal — Néftis chegou a falar contigo?
—Sim. — respondeu Anúbis- Deu os parabéns poucos segundos antes de você chegar. Talvez irá falar com você mais tarde também. Ela chegou junto com Ísis e Hórus, mas acho que não se sente tão bem vinda aqui quanto eles.
— Complicado. Mas, falando no pequeno Hórus, olhando assim, nem parece que é o todo poderoso faraó, né? — disse Anput olhando para Hórus enquanto suspirava e então se apoiava na parede que estava logo ao lado dos dois.
— Até que todo esse problema com Set se resolva e Hórus possa então ser verdadeiramente faraó e exercer a função, ele provavelmente não será mais um mero bebê. — disse Anúbis lentamente se aproximando de Anput abraçando-a pela cintura.
— Verdade. — respondeu a jovem abraçando-o de volta e deixando a parede de lado para deitar a cabeça no ombro dele enquanto ainda fitava Hórus — Sabe que… casando, eles todos vão começar a nos pressionar para ter filhos né?
— Sim. Eles são previsíveis a esse ponto. — respondeu Anúbis passando delicadamente a mão pelas trancinhas de Anput.
— Você… — disse Anput levantando a cabeça e olhando para Anúbis — Ficaria chateado se eu não quisesse ter filhos agora?
— Claro que não. — disse Anúbis negando com a cabeça — Mas sem dúvida fico curioso. Pareceu tão feliz segurando o User que…
— Achou que eu fosse querer logo um pra mim né? — completou ela soltando uma leve risada — Não. Ainda não. Queria… aproveitar mais a vida. Não estou dizendo que uma criança não traria muita alegria também mas, não deixa de ser uma enorme responsabilidade.
— Mesmo uma imortal. — disse Anúbis concordando com um suspiro — Sem falar que… para padrões humanos com certeza já estamos passando até da idade ideal para começar a ter filhos… Quer dizer, mais dois anos e chegamos em 20. Poucos mortais ficam sem filhos até os 20.
— E aqui estamos nós, realmente não envelhecendo mais… — disse Anput com um sorriso triste pensando em como os amigos humanos mais e mais se pareciam com verdadeiros adultos — Mas entendo onde quer chegar. Para padrões divinos, somos praticamente bebês. Teremos muito tempo para isso nos séculos que vierem. Vamos aproveitar o agora.
— Vejo bem quem mais quer aproveitar o agora. — disse Anúbis apontando com o nariz para o outro lado do salão onde, de olhos fechados, Nefertem segurava o queixo de um tímido Qebui e beijava- lhe.
A expressão de surpresa ocupou o rosto dos dois. Mas uma surpresa boa, tal como o sorriso que apareceu no rosto de Anput sem seguida provava. Atingida por uma súbita energia feliz, a garota se soltou do abraço e segurou um dos braços de Anúbis.
— Não vamos ficar para trás então! — disse ela — Vamos terminar as coisas que faltam para estarmos realmente casados.
Segurando-o pela mão, Anput puxou-o à passos apressados para o corredor que, saindo da lateral dos fundos do Salão do Julgamento, levava para áreas mais profundas nele. Áreas que não eram destinadas à julgamentos, e sim para cômodos com outras funcionalidades, como bibliotecas, escritórios, salas para simplesmente relaxar e quartos.
Os deuses podem até não ter tanta necessidade para trivialidades como dormir e comer, mas sem dúvida gostavam de aproveitar do conforto e das sensações que estes podiam proporcionar. Assim, conforme as tochas se acendiam por conta própria no corredor em que o casal entrava, eles logo entraram no quarto que Anúbis estava preparando para ser dele ali no Duat.
O singelo quarto ainda não estava muito ocupado por móveis e afins, exibia apenas uma simples mas elegante cama feita de madeira de alta qualidade, um grande baú ricamente adornado com imagens variadas que incluíam até detalhes em ouro puro, o mesmo podia ser dito para o pequenino baú que repousava em uma estante com várias prateleiras repletas de pergaminhos e até meia dúzia de placas de cerâmica ou pedaço de couro datados de antes de Thoth inventar o papiro. Junto com os papiros, estava uma pequena caixa que tanto era o tabuleiro de um jogo chamado Senet, como também, em uma pequena gaveta, guardava suas peças. O jogo de tabuleiro mais antigo da história. Uma solitária janela se abria para o lago em chamas que contornava a ilha onde se erguia o Salão do Julgamento enquanto as paredes coloridas enfeitadas com desenhos de flores de lótus e palmeiras traziam cor para o cômodo.
Sem uma cerimônia de casamento propriamente dita, para ser considerado casado pela comunidade egípcia daquela época, o primeiro passo era fazer toda a mudança para um mesmo lar. Assim, com um mero movimento de mãos que foi acompanhado de uma fumaça negra por seus dedos, Anput fez aparecer na parede oposta à qual descansava o baú maior, o seu próprio baú. Com detalhes mais femininos que incluíam flores e pequenos pássaros, o baú continha já boa parte de seus pertences. Contudo, ainda foi necessário para ela arrumar um pequeno espaço na estante ao lado do tabuleiro de Senet para deixar sua flauta.
— Esse é novidade… — disse Anput se referindo ao jogo enquanto fazia um sofá elegante aparecer ao lado de seu baú — Desde quando tem um tabuleiro de Senet?
— Desde antes de ontem. Acredita que ainda não joguei? — disse Anúbis.
— Acredito. Ainda é bem novidade e deve estar ocupado com as coisas com Lorde Osíris. — disse Anput — Jogaremos amanhã.
— Ou nos juntar com Ptah. — disse Anúbis — Parece-me que ele trouxe um para jogar também. Estava bem concentrado com Bes.
— Shh. Quero treinar um pouco antes pra poder ganhar gloriosamente. — disse Anput enquanto fazia aparecer um jarro de flores ao lado da porta de entrada do quarto — Conhecendo Ptah, ele deve ser um jogador fenomenal.
— Não posso discordar dessa lógica. — respondeu Anúbis com um simples sorriso.
O quarto se encheu mais ainda quando ela colocou uma mesa acompanhada de uma cadeira, de seu kit de maquiagem, e alguns papiros mais. Felizmente, o quarto era bem espaçoso. Assim, ele mal sentiu qualquer impacto com as recentes adições. Muito pelo contrário, o quarto agora parecia bem mais vívido. Especialmente depois que a cama teve seu tamanho magicamente duplicado.
— Mudança feita.- disse Anput de forma vitoriosa — Acho que então a parte mais crucial de um casamento foi feita com sucesso.
— Não mesmo. — disse Anúbis.
— Não?- perguntou Anput perdida pois, bastava juntar as coisas do casal e a convenção já os consideraria como casados.
— Tem… uma coisa faltando sim — disse Anúbis que, embora corado, abraçou Anput por trás lentamente e depositou um beijo na clavícula dela que estava exposta pela roupa.
— Sabe que vão notar nossa falta na festa…- disse Anput sentindo as maçãs de seu rosto também se ruborizarem.
— Eu não ligo.
Lentamente ela girou-se deixando as mãos dele, que a envolviam, deslizarem pelo seu corpo até que estivessem um de frente para o outro. Anput ergueu uma mão lentamente para a bochecha dele antes de se aproximar para um lento e ao mesmo tempo profundo beijo o quão foi devidamente correspondido. O beijo ia se intensificando enquanto aos mãos ficavam gradualmente mais ousadas ansiosas por fazer a última ação necessária para se consumar o casamento.
Por mais que um casamento egípcio carecesse de uma cerimônia propriamente dita, horas e horas se passaram até que a festa estivesse, por fim, dada por encerrada e o casamento devidamente consumado.
Era difícil dizer o que era dia e o que era noite ali na escuridão do Duat mas, eventualmente, um bom tempo depois de já terminada a festa, quase 24 horas depois, Anput, Anúbis, Qebui e Nefertem decidiram que visitas mereciam ser feitas. Mais do que visitas, achavam que os amigos humanos mereciam algumas das comidas que sobraram e ainda prestavam. Afinal, nenhum dos deuses tinha realmente necessidade de comer, apenas aproveitavam o prazer de sentir o sabor em seu paladar.
— Pena que Bastet devorou o peixe inteiro. Ele estava muito bom. — disse Nefertem.
— Ele não iria durar até agora. — disse Anput arrumando as frutas e pães na cesta de folhas de capim trançadas.
— Mas, mudando de assunto. — disse Qebui olhando para Anput e Anúbis — Achei que fossem preferir passar o dia todo à sós ao invés de ir visitar Ahmen, Shadya e Iset.
— A opção sem dúvida é bem atrativa. — disse Anúbis.
— Sim, mas fico meio chateada por não pois não podemos incluí-los nessas comemorações. — admitiu Anput.
— Posso sem dúvida pensar em uma longa lista de outros deuses que iriam surtar caso tivesse convidados humanos na festa ao invés de músicos e dançarinos que foram cegados para não olhar para nós. — disse Nefertem revirando os olhos — Só eu que acha que isso soa ridículo?
— Não. — disseram os outros três a mesmo tempo.
— Falando em ficar à sós… — disse Anput abrindo um sorriso — E vocês dois eim? Qebui e Nefertem.... Quem diria.
— N-Não sei do que está falando… — desviou-se Qebui corando e desviando o olhar.
— Quanto a mim, não sei como não notou na festa de Hórus, Anput. — disse Nefertem soltando uma gostosa risada.
— C-Claro que não notaram nada… estavam longe trepando… — resmungou Qebui.
— Shiiiuuu… — disse Nefertem passando o braço ao redor do ombro de Qebui enquanto Anúbis e Anput olharam para Qebui num misto de vergonha por terem sido pegos, raiva pelo tom de voz de Qebui, e surpresa por ele saber o que eles fizeram na festa de Hórus — Temos que aprender a não ficar resmungando dos outros e sendo grossos né, Qebui?
— Por Rá, espero que consiga deixar ele menos irritante, Nefertem. — rebateu Anput séria após os breves segundos de silêncio de Qebui.
— Vamos trabalhar nisso né? — disse Nefertem, sempre sorridente, dando dois leves tapinhas no peitoral de Qebui a medida que se aproximavam da casa de Ahmen, Shadya e Iset.
Se sentindo um pouco deslocado, Qebui olhava tudo ao redor. Fazia muito tempo mesmo desde que vira os amigos humanos pela última vez. Na verdade, ele até tinha dificuldade em colocar eles na categoria de amigos. Nem mesmo Nefertem sentia essa dificuldade apesar de conhecer o grupo a pouco tempo.
Quando eles chegaram, encontraram uma cena um tanto peculiar. Shadya e Ahmen discutiam logo na frente do portal de entrada da casa fazendo inclusive o pequeno User começar a chorar embora a mãe ficasse desesperada na tentativa de dividir a atenção entre o bebê que chorava e o marido.
— Largue de ser teimoso! — exclamava Shadya para Ahmen enquanto ainda tentava acalmar User que a plenos pulmões chorava.
— Você não entende! — exclamava Ahmen que, por algum motivo, estava com uma série de hematomas e até mesmo um corte nas costas — Eu sou o seu marido e pai de seus filhos, eu deveria conseguir fazer ao menos isso!
— O que está acontecendo aqui? — perguntou Anput preocupada.
— Você vai acabar se matando! — exclamava Shadya de volta ignorando a pergunta da amiga.
— PREFIRO ISSO DO QUE- — gritou Ahmen com os olhos lacrimejando.
— Parem. Parem. E parem. — ralhou Anput se colocando entre os dois enquanto os outros deuses se entreolhavam perguntando-se no que fazer — Vocês não tem vergonha? Discutindo a plenos pulmões na frente da pobre da criança?
Dando as costas para o marido, Shadya passou à sua missão de fazer User se acalmar. Com a voz doce, a jovem embalou o filho em seus braços enquanto murmurava palavras carinhosas.
— Então…? — perguntou Anúbis olhando para Ahmen que deu uma leve fungada no nariz e escondeu o fato de estar limpando pequenas lágrimas com o braço.
— Desculpem. — disse Ahmen — Não queríamos que tivessem chegado vendo essa cena.
— O que desencadeou essa discussão e exatamente sobre o que é ela? — perguntou Nefertem.
— E esses hematomas e cortes… — questionou Qebui.
— Pra começar, esse gênio… — disse Shadya de forma sarcástica — resolveu começar a aprender a lutar com um caçador da vila. Aí volta pra casa nesse estado.
— Lutar? — perguntou Anúbis pendendo um pouco a cabeça para a diagonal, uma pequena mania.
— É. — disse Ahmen — Vocês não devem entender. Sendo todos poderosos e imortais, mas a vida aqui não é exatamente fácil. Por mais que aparentemente tenhamos apenas um faraó por toda a terra, ainda temos que nos preocupar com bandidos e soldados errantes. Eu sou o marido, eu sou o pai, eu deveria conseguir proteger minha família! Ainda mais agora que meu pai está cada vez mais velho.
— Até vejo certa lógica nisso. É importante saber se defender. — disse Anput.
— Estaria tudo bem se fosse até aí. Mas o que o pai de Ahmen é? — perguntou Shadya retoricamente — Caçador. Ao menos desde que deixamos Mênfis. Ou seja, Ahmen logo pegará o cargo e terá que nos sustentar.
— Mas como raios eu vou caçar animais cuja pele e a carne valham o suficiente se eu não sei lutar e perdi o braço bom!? — questionou Ahmen cabisbaixo sentando-se repentinamente no chão tamanha era a frustração dele — Vou matar minha família de fome.
— E o campo? — questionou Anput.
— Não é exatamente fácil cuidar de um campo. Por mais que o Nilo seja previsível, se os deuse…. — disse Shadya já indo mencionar os deuses mas parando ao lembrar-se que estava falando com quatro deles — bem…
— Se os deuses bem quiserem a cheia dele nem virá ou será forte demais e destruirá toda a plantação. — disse Anúbis sabendo bem o que ela queria dizer.
Shadya soltou um suspiro e afirmou com a cabeça. Nefertem e Qebui se entreolharam enquanto Anput notava a expressão pensativa que estava presente no rosto de Anúbis. Ao colocar a mão embaixo do queixo para pensar numa provável solução, Anúbis também sentia em seus ombros o peso da culpa. Claro que tinha conseguido salvar Ahmen, ao contrário do que aconteceu com Chenzira, mas se culpava por não ter o recuperado por completo. Achando uma solução para o problema do amigo, Anúbis se agachou na frente dele enquanto Ahmen mal se movia.
— Se está querendo me fazer desistir dos treinos, pode desistir. — disse Ahmen.
— Ah não não. — disse Anúbis — Vejo que saber lutar tem suas utilidades embora pudesse certamente tomar mais cuidado.
— O que é então? — perguntou Ahmen enquanto todos prestavam atenção para saber o que passava na cabeça do deus da morte.
— Caçar… isso é perigoso mesmo para os mais experientes. — disse Anúbis — Sei uma coisa ou outra sobre caçar, afinal, chacais são caçadores.
— Quer me ensinar a caçar? — perguntou Ahmen com surpresa.
— Não não. Bem, certamente não me importaria de ensinar mas, o ponto é, é uma atividade perigosa. E, se se preocupa tanto com a sua família, quem ficará com ela se você morrer? — perguntou Anúbis — Pode tentar outra coisa para ajudar Shadya a sustentar a família.
— Já tentei tanta coisa desde que viemos de Mênfis que você não faz ideia. — resmungou Ahmen cabisbaixo.
— Imagino que tenha. Mas… já tentou ser sacerdote do deus da morte? Só uma sugestão. — disse Anúbis dando de ombros.
De olhos arregalados Ahmen olhou para ele. A expressão de surpresa foi compartilhada por todos os outros ali presentes. Era como se não acreditassem no que os ouvidos haviam acabado de escutar.
— É… É s-sério? — perguntou Ahmen.
— Sim. Você quem sabe. — disse Anúbis — Bem entendo que preparar corpos, fazer rituais funerários e sacrifícios podem ser um pouco desconfortáveis mas… tenho certeza que conseguirá manter a família assim.
— Eu apostaria que muito bem inclusive. — disse Anput pensando.
— Quanto os humanos dariam para que seus corpos sejam devidamente preparados para que a alma chegue até diante de Lorde Osíris? — disse Qebui se perguntando quanto valia todo o processo de mumificação.
— Só aquele sarcófago lindo que Anúbis fez para Lorde Osíris deve valer no mínimo umas três vacas. — ponderou Anput.
— Nossa… o tanto que ajudaria ter três vacas… — disse Shadya com um tom sonhador já se imaginando tendo três vacas leiteiras.
— T-Três vacas? — gaguejou Ahmen diante do que lhe parecia uma fortuna. Contudo, rapidamente retomou a calma — M-Mas… três vacas seria você fazendo… uma qualidade sem dúvida exemplar. Duvido que eu chegaria à ganhar sequer um mísero bezerro.
— Eu mesmo lhe ensinarei. — disse Anúbis — Cada passo a passo para que faça com perfeição e passe adiante para seus filhos. Com uma condição.
— Qual? — perguntou Ahmen.
— Terá que aprender a ler e escrever. — disse Anúbis se levantando — E então, o que me diz?
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