A Morte Das Areias do Saara
39 As etapas do treinamento
Notas iniciais

Que jornada eu fiz, as coisas que vi.
Eu sou apenas um de vocês.
Na minha mão, seguro o mastro da vela,
enquanto minha mão esquerda se arrasta na água.
As árvores são pesadas com figos e azeitonas.
Um coco cai no chão.
Eu me separei de mim mesmo para navegar novamente nas águas verdes do Nilo.
Eu viajo para o templo onde os deuses se reuniram para contemplar seus rostos em piscinas profundas.
No meu barco as almas dos anos navegam comigo.
O cabelo fica na minha cabeça ao vento.
Eu ouço os salpicos de remos como a rachadura de uma casca azul fina.
~ Fragmento do Livro dos Mortos
Alheios às visitas tão diferentes que rodeavam uma das casas daquele pequeno vilarejo às margens de uma das ramificações do Nilo, os aldeões, vizinhos de Shadya, Ahmen e Iset, continuavam seus dias tranquilamente. Cuidavam das plantações, faziam pão, faziam artesanato e davam comidas para os filhos enquanto uma escolha importante e decisiva se mostrava diante de Ahmen.
Contar com as cheias do Nilo e temer os males do deserto ou da violência não estavam entre as melhores coisas da vida. Afinal, tal era a vida de meros camponeses. Por isso, Ahmen piscou os olhos duas vezes e se levantou enquanto olhava para o amigo sem conseguir acreditar nas palavras que tinha acabado de ouvir. A breve aula que Anput deu poucos dias atrás tinha feito Ahmen ver que ler e escrever era algo certamente difícil, mas lhe pareceu um preço justo a se pedir. Ou melhor, parecia pouco a se pedir para um cargo tão importante como um sacerdote.
— Sério? — perguntou Ahmen — N-Não prefere encontrar alguém mais apto para o trabalho?
— Considerando que a parte mais importante é a mumificação e os funerais, não há ninguém apto para o trabalho. — disse Anúbis — Sendo assim, ter minha confiança já me parece ser um bom começo. Afinal, é um trabalho importante.
— M-Mas… — gaguejava Ahmen ainda surpreso.
— Pare de questionar e aceite logo. — sussurrou Shadya para o marido embora todos tenham conseguido ouvir — É uma oportunidade e tanto.
Ahmen respirou profundamente enquanto pensava até lentamente começar a afirmar com a cabeça. Ainda tinha muitas dúvidas, a maioria delas relacionadas a própria capacidade de realizar o serviço, mas esperava gradualmente saná-las.
— É muita coisa essa… mumificação… e esses rituais? — perguntou Ahmen.
— Certamente lhe ensinarei tudo. — disse Anúbis — Mas também podemos usar a leitura como oportunidade para que você não esqueça tudo.
— Humanos e suas memórias limitadas… — disse Qebui entediado se encostando na parede da casa.
— Vai escrever todo o processo envolvido? — perguntou Anput que pegava User no colo para aliviar um pouco os braços cansados de Shadya.
— De certa forma… — disse Anúbis cruzando os braços e dando de ombros em seguida — Estava pensando em duas coisas diferentes já que Thoth sugeriu incluir também mais coisa. Como toda a história do que aconteceu com Osíris. E ao invés de descrever as coisas como várias ordens, contar como uma história. Disse que ia ficar mais fácil e mais bonito.
— Tinha que ser o Thoth. — disse Anput soltando uma leve risada — Ele vai querer ajudar, imagino.
— Conhecendo ele, mais fácil ele acabar escrevendo quase tudo sozinho nessa de “ajudar”. — disse Nefertem.
— De toda forma… — disse Anúbis voltando a olhar para Ahmen que, a essa altura, estava tentando acompanhar a conversa — Primeiro ler e escrever. Depois o resto.
— C-Certo… — disse Ahmen afirmando ansioso com a cabeça e respirando profundamente — Vai ser bem difícil né?
— Nunca disse que ia ser fácil, disse? — perguntou Anúbis com um leve sorriso.
E de fato, não era fácil. E não era apenas toda a dificuldade de aprender a ler e escrever um idioma tão complicado. Todo o processo de mumificação e os rituais funerários tinham muitos detalhes ou partes que, só de pensar em fazer, o estômago de muitos iria se revirar. Mas Ahmen tinha certeza da decisão que tinha tomado e foi pensando em como poderia melhorar a vida da família que ele criava forças para continuar mesmo nas provações mais difíceis. Pois, como se não bastasse todas as partes, por si só já complicadas, ou um tanto repugnantes, Anúbis também era bem rigoroso.
Dia após dia, o treinamento se seguiu. O aprendizado da leitura era acompanhado por aulas de combate, que tinham também sua importância. Ambos eram alternadamente ensinados pelos quatro deuses, embora Qebui evidentemente ajudasse um pouco a contra gosto. E não era Ahmen o único aluno, Shadya e Iset, que não estava em casa no dia do convite dado à Ahmen, também participavam. Era difícil achar horários, pois ainda tinham User para cuidar e ainda dependiam da plantação, mas tentavam achar uma solução.
Com o passar dos dias, as coisas lentamente também mudavam no Egito e na vida de seus cidadãos. Algumas coisas, contudo, pouco mudavam. Por exemplo, Set possuindo o corpo do Faraó Narmer, contra a vontade desse, apesar de apenas os guardas e os nobres mais próximos do Faraó terem conhecimento disso.
Com o raiar de um novo dia, Ahmen preguiçosamente acordou. Um pouco tarde, verdade. A altura do sol já indicava que deveria ter acordado a muito tempo. Mas não foi bem sem motivo que demorou a acordar. O reflexo de seu rosto na água quando, depois de cumprimentar a família e comer, eventualmente foi se lavar mostrava mais do que as mudanças normais resultantes dos seis anos que se passaram desde que aceitou a proposta de Anúbis. Seu reflexo mostrava também as olheiras de uma noite mal dormia e também o começo de uma barba para fazer.
Com uma navalha feita de cobre, Ahmen se livrou da barba e, tentando se sentir mais renovado, olhou para a sua casa tentando encontrar algo que o fizesse se sentir mais desperto.
— Certeza que está se sentindo melhor? — perguntou Shadya preocupada segurando em seus braços uma criança que obviamente não era User, pois era uma menina.
— Não, mas estou tentando. — admitiu Ahmen.
Shadya botou a criança no chão, velha o suficiente para arriscar alguns passos trôpegos pela casa, e se aproximou do marido colocando a mão delicadamente em seu rosto. Seu olhar, bem mais maduro que antes, percorreu o rosto do marido notando os óbvios sinais de como ele parecia abatido.
— Ao menos se sente melhor do que ontem? — perguntou Shadya.
— Sim. Ao menos isso… — respondeu Ahmen — Apesar de todo o luto, ainda me sinto culpado de certa forma. Eu deveria ter feito a múmia dele ao invés de pedir para Anúbis. Mas não acho que teria a força necessária para fazer.
— Hehet! Vem cá! — exclamou o pequeno User correndo atrás da pequena irmã que cambaleava em direção a porta soltando inocentes gargalhadas.
— User, — disse a mãe gentilmente — vamos, pegue suas coisas, temos que ir para a casa de Iset, não se esqueça.
— Tá, mewet. — disse User segurando a irmã mais nova de um jeito meio desengonçado, mas levando-a para perto de um tapete onde repousavam brinquedos de madeira.
— Nyaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa — disse Hehet.
— Tem certeza que vai ficar bem enquanto eu estiver fora? — perguntou Shadya para Ahmen.
— Sim. — respondeu Ahmen sorrindo fracamente e acariciando o rosto da esposa com um sorriso triste — Vou trabalhar para me distrair um pouco.
Shadya depositou um breve beijo nos lábios do marido e então se virou, afinal, tinha coisas para fazer. Ela pegou a pequena Hehet no colo e segurou a mão de User que, animado para mais um dia na pequena aventura de lentamente aprender a ler, acenou um adeus alegremente para o pai com um sorriso no qual faltava dois dentes de leite que caíram. Aquela alegria tão simplória do filho trouxe para Ahmen um pequeno fraco sorriso enquanto ele acenava de volta.
Contudo, um suspiro escapou dos lábios de Ahmen quando, instantes depois, ele, bom um baú com suas coisas embaixo do braço, cruzou aquele mesmo portal para deixar sua casa. Entretanto, não foi para tão longe assim, apenas virou-se para o anexo que havia sido feito na lateral de sua própria casa. Nesse anexo bem arejado, haviam duas longas mesas de pedra além de um outro baú, maior do que aquele que ele carregava no braço e então colocava sobre uma das mesas.
Os pensamentos de Ahmen estavam focados em como trabalhar talvez o distraísse mais. Apesar disso, se permitiu apoiar-se na mesa, ficando de costas para a outra, enquanto respirava. Fazia dias desde que tinha estado ali.
— Tem certeza que quer voltar a trabalhar hoje?
A pergunta repentina vinda de suas costas assustou Ahmen, que tinha certeza de que estava sozinho. O homem se sobressaltou e se virou vendo ali, em cima da outra mesa sentado calmamente, o velho amigo, Anúbis, que, ao contrário do que aconteceu com Ahmen, não parecia um dia mais velho se quer.
— Que susto… — reclamou Ahmen relaxando o corpo finalmente.
— Desculpe… — respondeu Anúbis coçando a nuca sem graça.
— Sabe, acho que você está ficando tempo demais no Duat. — disse Ahmen tentando abrir um sorriso — Está começando a fazer mais coisas assim.
— Provavelmente estou ficando mesmo… — disse Anúbis suspirando e parando uns segundos para pensar — Mas tem muito a fazer por lá embora as almas ainda cheguem devagar.
— Falando em almas… — disse Ahmen — Obrigado por cuidar de meu pai.
— Não precisa agradecer. — disse Anúbis.
— Preciso sim. Era meu pai. Eu deveria ter ao menos tentado fazer a mumificação dele sozinho muito embora eu não tenha feito também da minha mãe ou dos pais da Shadya. Era minha última chance. Você acabou fazendo de todos. — disse Ahmen.
— Ahmen… — disse Anúbis suspirando — Um familiar querido com certeza deixaria tudo bem mais difícil. Especialmente considerando que você não fez o de ninguém sozinho ainda.
— Você teve que me ajudar em todos até agora… sei disso… mas… é… é algo de tanta responsabilidade. — admitiu Ahmen — Não é um mero corpo. É uma pessoa. Que teve família, amigos, uma história!
— É importante mesmo que nunca esqueça disso mas, você também tem que aprender a lidar com o peso de tal responsabilidade sob seus ombros. — disse Anúbis.
— A-Agora isso vai mudar. Me traga hoje alguém para fazer a mumificação. Por favor! — pediu Ahmen com determinação — Farei-a eu mesmo. Sozinho.
Por alguns segundos Anúbis fitou Ahmen medindo silenciosamente a determinação do amigo. Julgando-a como verdadeira e convincente o suficiente, o deus da morte desceu da mesa na qual estava sentado e, com um mero movimento de sua mão direita, fez surgir nela o corpo de uma jovem e belíssima mulher que não passava dos 25 anos.
Ahmen respirou profundamente e lentamente se aproximou do corpo da garota enquanto Anúbis se afastava para dar espaço para ele.
— Essa é Setibhor. — disse Anúbis — Morreu aos 24 anos devido a uma picada de um escorpião que se escondia dentre suas coisas.
De fato, ao abaixar o olhar Ahmen viu a picada que parecia tão inofensiva diante do dano que causou. A mão da jovem estava extremamente vermelha logo abaixo do polegar. No meio do círculo de vermelhidão, estava a ferida que o escorpião deixou para trás. Além disso, o corpo da jovem estava pálido e havia um pouco de espuma em sua boca.
— Ela com certeza não é daqui do vilarejo… — disse Ahmen, pois comumente as pessoas que chegavam ali eram do vilarejo que lentamente começavam a confiar naquele homem que se dizia sacerdote do senhor da morte — Não me lembro de tê-la visto.
— Não. Ela morava em Mênfis. — disse Anúbis — Foi prostituta desde que seu pai a vendeu aos 13 anos. Não tem contato com ele desde então. Deixa para trás um filho da idade de User.
— Sabe, acho legal que mesmo que esteja me ajudando com as mumificações até agora, você ainda esteja fazendo também. — disse Ahmen — Não só porquê você obviamente faz bem melhor e mais rápido do que eu mas… não sei bem como dizer… olhe ela por exemplo, praticamente sozinha no mundo, provavelmente não teria nem um enterro qualquer como Chenzira teve. Muito jovem. Uma prostituta, não um nobre arrogante. E, mesmo assim, se não fosse meu pedido egoísta, teria tido a honra de ser mumificada pelo próprio deus da morte.
— Primeiro, seu pedido não foi egoísta. — listou Anúbis — Segundo, como toda alma, ela tem o direito de ao menos tentar chegar no Salão do Julgamento e passar por todo o processo.
— E você convenientemente já estava com o corpo dela quando pedi por um?
— Mais ou menos. — disse Anúbis dando de ombros — Ninguém se importava com ela o suficiente para se preocupar se quer com o destino de seu corpo, quem dirá da alma. Bem, seu filho se preocupava, por isso avisei-lhe antes de pegar o corpo de sua mãe. Prometi voltar para sepultarmos ela juntos. Se quiser, pode fazer os rituais em meu lugar também...
— A-Acha mesmo que consigo tanta coisa? — perguntou Ahmen.
— Acho. Você sabe cada passo a passo, lhe falta apenas confiança em si mesmo. — disse Anúbis.
— … F-Farei tudo então… — disse Ahmen já não tão confiante.
Ahmen pensou em perguntar se Anúbis iria o interromper para arrumar algo caso fizesse algo de errado. Mas desistiu da pergunta ao pensar que talvez, assim, ele pudesse se sentir mais confortável para errar. Errar não era uma opção, lembrava-se a si mesmo. Tinha que saber fazer tudo por conta própria sem erros. Não só porque a profissão assim demandava, mas porque devia isso para as pessoas cujos corpos tinha que preparar.
Por horas e horas Ahmen preparou o corpo da jovem Setibhor. Sabia que não iria terminar aquilo naquele dia, nem naquele mês. O processo de mumificação era lento e demorado. Especialmente considerando os dias que deveria obrigatoriamente esperar passarem enquanto o corpo dela secava. Silenciosamente, Anúbis apenas observava sem nada dizer. Não sabia dizer se interromperia Ahmen caso ele fizesse algo errado, pois, felizmente, o rapaz estava indo muito bem.
Cansado, eventualmente Ahmen parou para um breve momento de descanso que foi iniciado no momento que parou para lavar as mãos.
— Acho que, por enquanto, paro por aqui. — disse Ahmen olhando para o trabalho que tinha feito até ali revisando tudo pela milionésima vez — Acha que estou indo bem?
— Está sim. — disse Anúbis — Vai continuar amanhã?
— Sim. — disse Ahmen — Já vai voltar para o Duat ou vai esperar as garotas chegarem com as crianças?
— Esperar. — disse Anúbis
— Hum.. achei que fosse voltar e terminar de escrever o tal papiro que não termina nunca. — disse Ahmen dando uma leve risada — Me deu a parte que interessa do caminho da alma das pessoas, mas queria ver a parte que diz contar a história dos deuses.
— Nisso você teria que reclamar com Thoth. — explicou Anúbis — Minha parte eu já fiz. Thoth que quer colocar mais um monte de coisa e ainda deixar tudo mais poético e complicado de se ler. A parte que você tem inclusive, já deve estar bem diferente.
— Hum… Ele quem está pensando num título também?
— Ele gosta de chamar de “Livro de emergir para a luz” — disse Anúbis suspirando — Mas Anput acha um nome muito longo e dramático e gosta de ficar irritando ele dizendo que deveria chamar apenas de “Livro dos mortos” já que a ideia é as pessoas serem enterradas junto com ele de alguma forma.
— Ah mas “Livro de emergir para a luz” soa tão bonito. — admitiu Ahmen pensando um pouco.
— E também… — continuou Anúbis — Aproveitarei que ainda tenho que fazer um favor para Lorde Osíris por aqui para esperar mais um pouco.
— Uhh… — disse Ahmen enquanto cobria o corpo da jovem com um lençol de linho — Tarefas importantes. Acha que posso saber o que é?
— Nada de muito revolucionário ou extravagante. — disse Anúbis — Ele apenas pediu-me para ver como está Hórus.
Os dois deixaram o anexo onde o corpo da jovem repousava e entraram na casa de Ahmen que, morrendo de fome, foi logo atacando um pão que estava sobre uma cesta dentre algumas frutas. Como de costume, oferecia para Anúbis que, como sempre, recusava. O deus já tinha noção do esforço que podia ser conseguir comida num ambiente tão hostil como o deserto, mesmo com o Nilo provando frequentemente como era uma verdadeira dádiva, por isso, tinha resolvido parar de pegar comida da família de Ahmen mesmo que por educação e o amigo sabia disso, mas sempre oferecia mesmo assim.
Os dois ficaram conversando até que, alguns minutos depois, eles ouviram quando Shadya, Iset e Anput se aproximavam. Era evidente pois as três mulheres conversavam e riam enquanto User e mais uma garota, Ineni, filha de Iset.
— Papai! — exclamou User chegando em casa com um sorriso vitorioso exibindo para o pai uma folha de papiro toda escrita com letras negras e apenas uma correção em vermelho — Olha! Eu escrevi um monte hoje! E a senhorita Anput só achou uma coisinha errada.
— Pois no meu não tinha nadinha errado. — disse Ineni.
— Mas o seu era mais fácil, — disse User — porquê você é mais nova.
Emburrada, Ineni cruzou os braços enchendo as bochechas e Iset, querendo acalmar a filha, passou delicadamente a mão pelos cachos negros que adornavam a cabeça de Ineni. Podia ter pegado a menina no colo, afinal, provavelmente ainda aguentava ela. Mas não queria arriscar, pois a enorme barriga bem noticiava que Iset estava nos últimos meses de gravidez.
— Não fique assim, Ineni. Logo logo você vai pegar deveres mais difíceis. — disse Iset.
— Sim. Não fique chateada. — disse Anput docemente — Você está aprendendo muito rápido mesmo.
— De toda forma, trouxe alguns pães para vocês. — disse Iset indicando, com o nariz, a cesta que Shadya carregava nas mãos enquanto, com dificuldade e óbvio cansaço, se sentava no banquinho de madeira que havia no cantinho da sala.
— Os benefícios de ter casado com o filho padeiro do vilarejo. — disse Ahmen e Iset riu.
— E tenho culpa? Comida é bom. — admitiu Iset gentilmente acariciando a enorme barriga.
— Núbis! Núbis! — disse User ao finalmente notar o deus ali em pé simplesmente acompanhando a cena — Quando eu aprender a ler tudinho você vai me ensinar também né? Que nem pro papai?
— Bem, — disse Anúbis — a idéia é seu pai lhe ensinar e você continuar passando a diante. Mas posso ensinar às vezes.
— E pra ter certeza que o papai tá ensinando certo. — pediu User — Ele não sabe ensinar direito como escrever algumas coisas.
— Hey! Mas ontem você pediu um bem complicado! — disse Ahmen tentando se defender enquanto Ineni já caía na gargalhada e, sem entender muito bem qual era a graça, Hehet começava a rir também.
O sol já quase tocava a linha do horizonte quando, depois de gastar muito tempo conversando, Iset e sua filha voltaram para casa e Anúbis e Anput decidiram que era hora de visitarem Hórus.
Os problemas com Set continuavam, verdade, mas todos estavam bem otimistas de que logo tudo se resolveria apesar de frequentemente Set ainda aparecer ou tentar chamar atenção de alguma forma não muito pacífica. A promessa de um novo faraó trazia bem mais do que outros deuses interessados em ir para o lado de Hórus, trazia também as chances de treinar um novo líder. Contudo, alguns viam outra coisa também, a chance de moldar uma mente em crescimento.
— Você contou pro Ahmen o destino da alma do pai dele? — perguntou Anput enquanto andavam pelos corredores do palácio moderado no qual Ísis, junto com outros deuses que protegiam o local, estava morando com Hórus.
— Não… — respondeu Anúbis — Até pensei em contar mas, fiquei me perguntando se era uma informação que podia ser compartilhada tão levianamente.
— Faz sentido. — disse Anput — E você deu para ele e o corpo da Setibhor para mumificar. Notei que ela estava lá quando passamos na frente. Não acha que ele ainda deveria descansar um pouco? Faz menos de uma semana que o pai dele morreu.
— Ele mesmo estava querendo algo para o distrair-se. E pareceu muito focado do começo ao fim.
Depois de terem passado por deuses como Khnum, Tawaret e Bes, o casal chegou no amplo pátio no qual Hórus, apesar da pouca idade, treinava luta com Bastet. O jovem faraó mal tinha completado 6 anos mas, mesmo assim, com uma espada na mão, lutava contra Bastet com muita calma e habilidade. De cabeça raspada, intensos olhos dourados, corpo alto e forte, Hórus já parecia alguém pronto para a guerra.
— Lembra de quando a gente treinava com a Bastet? — perguntou Anput com um sorriso no rosto revivendo as memórias.
— Obviamente mas… não éramos tão novos assim. — disse Anúbis enquanto analisava a luta com atenção.
Apesar de ter platéia, nem Bastet nem Hórus deram qualquer sinal de notar a presença deles ali. A concentração de Bastet estava estampada em seu corpo conforme o jovem faraó atacava seguidas vezes. Enquanto isso, o estranhamento no rosto de Anúbis e Anput começava a aparecer pois, a cada segundo, era claro que Bastet ficava cada vez mais na defensiva, assim como cada vez mais dava um passo mais para trás.
— Impressão minha ou…. — sussurrou Anput para Anúbis.
— Bastet parece estar perdendo…? — arriscou Anúbis sussurrando.
— Talvez ela esteja deixando ele ganhar? — murmurou Anput de volta dando de ombros.
O olhar de seriedade com o qual Hórus se focava na batalha de treino, não era o de uma criança brincando. Era de um guerreiro treinando para a próxima batalha. Ao acompanhar a batalha, se tornava difícil lembrar que o jovem faraó nem tinha completado 7 anos ainda. Tal detalhe ficou ainda mais complicado de ser levado em conta quando, com um ágil e forte golpe de sua espada, Hórus conseguiu fazer com que Bastet soltasse a espada a qual segurava.
A espada, contudo, não girou por muito tempo no ar, nem tocou o chão, pois quase que imediatamente Hórus pegou-a e, juntando agilmente a arma com sua própria espada como num formato de X, tocou o pescoço de Bastet bem onde as espadas se cruzavam parando ali, num momento perfeito e suficiente para declarar-lhe vencedor.
Atônita, a deusa gata não conseguia nem se mexer enquanto tentava digerir o que tinha acabado de acontecer. Ao mesmo tempo, de olhos arregalados, Anúbis e Anput se entreolharam surpresos. A reação de Bastet praticamente descartava a possibilidade de ela estar deixando Hórus ganhar.
Depois de alguns segundos, Hórus ajeitou o corpo, abaixou as espadas e olhou brevemente para elas medindo o peso delas em suas mãos. De forma desinteressada, ele entregou a espada de Bastet de volta para a dona enquanto Anput lentamente se aproximava de maneira tímida dos dois.
— Ei… o treino acabou por hoje? — perguntou Anput.
— C-Creio que sim. — respondeu Bastet tentando controlar o seu orgulho ferido — Já está tarde. Imagino que vossa mãe vá querer passar algum tempo com você hoje ainda, meu faraó.
— Hum.. — disse Hórus olhando para Anúbis e Anput e ignorando Bastet — Meu pai mandou alguma mensagem?
— Ele está, como sempre, curioso com como está. — respondeu Anúbis — Como vão seus dias, como vão os treinamentos, se não quer ir visitá-lo…
— Os dias vão como qualquer outro, primo. — disse Hórus — Bem passaria mais dias aproveitando a companhia de meu pai se não estivesse ocupado demais me preparando para derrotar o seu pai desprezível e me vingar de meu pai.
Anput até tentou trocar olhares de estranhamento com Bastet, mas a deusa estava ocupada demais já de costas se afastando do grupo lentamente e um tanto cabisbaixa.
Respostas daquele jeito não eram incomuns para Hórus que aparentemente não parecia ver nada de errado nelas. Extremamente mimado por Ísis, e com o título de faraó ainda por cima, poucos eram os que tinham a coragem de corrigir o garoto. Mas muitos eram os que sussurravam palavras nos ouvidos dele tentando convencê-los de certos planos e ideais, Shu, por exemplo.
Sem interesse nas visitas, Hórus apoiou sua espada sobre o ombro e se distanciou provavelmente indo em busca da mãe ou de um banho já que, nas aulas que tinha com Thoth no período da tarde, ainda não tinham passado por magias tão inúteis para uma batalha, como limpar-se magicamente.
— Sabe… — disse Anúbis sussurrando para Anput — pode parecer errado dizer isso mas… eu não consigo gostar dele.
— Compartilho do sentimento, primo. — exclamou Hórus provavelmente tendo ouvindo a conversa.
Não se importando muito com o que Hórus achava dele, Anúbis simplesmente deu de ombros e Hórus também não se importava em se dar bem com o primo. Era uma situação indiscutivelmente complicada. Anúbis, apesar de ter tentado ser simpático nos anos iniciais da vida de Hórus, tinha inveja de toda a atenção e carinho familiar recebidos por Hórus. Por outro lado, Hórus estava sob a influência de vozes que sussurravam como ele tinha que se vingar lutando contra um homem que era o pai de Anúbis enquanto também nutria inveja do primo, pois este passava intermináveis horas ao lado de Osíris servindo como o braço direito dele no submundo.
— Bastet… — disse Anput olhando preocupada para a deusa gata.
— Hum? — respondeu Bastet se distraindo enquanto limpava a espada com um pedaço de pano minuciosamente embora a arma já estivesse brilhando de tão limpa.
— Você… por acaso deixou ele ganhar? — perguntou Anput.
— Preciso responder? — perguntou Bastet deixando um suspiro escapar por seus lábios — Já não foi humilhação suficiente, Anput?
— Não era para estar feliz por ele ser bom? Afinal, assim as chances de derrotar Set são melhores… — disse Anúbis.
— Você também não me parece muito feliz. — disse Bastet.
— Verdade seja dita, se não fosse obrigado a vir checar ele por causa dos pedidos de Lorde Osíris, eu não faria questão alguma de falar com ele. — admitiu Anúbis.
— Pode falar à Lorde Osíris que o herdeiro dele continua arrogante. — disse Bastet aos sussurros e olhando ao redor para não ser ouvida — Mimado, sem sombra de dúvidas. Vozes sussurrantes chegam aos seus ouvidos e enchem a cabeça dele de ideias. Ele chama atenção em quase tudo que tenta. Não é tão bom em magia, verdade, mas o combate compensa, como bem podem ver. Shu, Ptah, Lady Ísis e Tefnut estão felizes de ver que o garoto é forte. Lady Ísis está realmente nas nuvens. Não para de bajular o garoto.
— Claro que Lady Ísis estaria feliz… — disse Anúbis com um claro ciúme na voz e no olhar frio que lançou para o portal por onde Hórus havia passado segundos antes. E, assim como aconteceu em todas as outras vezes que havia ido ali visitar Hórus, mal podia esperar para voltar para o Duat novamente e torcer para demorar bastante para ter que pisar ali ou chegar perto do garoto que, tão jovem, já tinha tanto poder e influência em suas mãos.
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