A Morte Das Areias do Saara

40 O falcão que tenha cuidado


Notas iniciais
sabe quando a inspiração bate forte e vc não consegue se controlar? pois é... foi o que rolou. sei que mal tem alguns dias desde que postei o capítulo anterior, mas não consegui me controlar, tive que postar o próximo :3 divirtam-se ♥

Eu coloquei o céu em duas partes.

Eu passo através.

Eu vagueio pelos horizontes.

Eu sujei meus pés com terra.

Eu usei a pele de uma pantera negra e cantei nos ouvidos das crianças.

Eu como com minha boca.

Eu mastigo com meu queixo.

Eu sou um deus vivo.

Eu estou com a terra milhões de anos.

~ Fragmento do Livro dos Mortos

Hórus corria para longe deixando para trás os gritos de Ísis mandando ele ir para a biblioteca ler alguma coisa para treinar tanto a leitura, como a magia. Mas o jovem faraó simplesmente não queria.

Ele já havia se lavado depois do exaustivo treino com Bastet e, embora o sol já mal brilhasse no céu, ainda queriam mais dele. Ele queria poder correr livre como todos os outros deuses faziam, ou ver seu pai todo dia, como o primo que havia acabado de o visitar fazia, mas não podia. Afinal, sua mãe não parava de lhe lembrar que não podia ir para fora do palácio por ser perigoso demais.

Em seu quarto, Hórus abriu um elegante baú contendo vários brinquedos de madeira. A maioria dele, pássaros detalhadamente esculpidos. Ele pegou o seu favorito, um falcão, tal como ele, e foi para a varanda de seu quarto. Ele sentou-se no batente da varanda e esticou a mão com o brinquedo no ar para parecer que o pássaro voava. Hórus se imaginava no lugar do brinquedo, voando livre pelo céu noturno sentindo a brisa gelada da noite.

—Não gosta de ficar preso aqui né? — disse uma voz no jardim logo embaixo e, ao olhar, Hórus viu Shu.

— Não. Não gosto. — repetiu o garoto.

—Treine bem e quem sabe um dia não seja forte o suficiente para sair e cuidar de si mesmo?

— Já sou. Derrotei Bastet. — disse Hórus.

— É um tolo se acha que Set não está se aprimorando também nesse tempo todo. — disse Shu — Pode ser bom em combate armado mas, até onde eu ouvi falar, ainda é um desastre em magia.

—I-Isso não é verdade. — gaguejou Hórus se virando de costas para Shu e pensando em sair dali e voltar para o quarto já que o bisavô tinha estragado o momento por completo.

—Não finja que minto, garoto. — disse Shu — Todos os deuses falam, e preocupados, do quão ruim andam suas aulas com Thoth e Ísis.

— São péssimos professores. — disse Hórus.

— São mesmo? Não mude a culpa de lugar, garoto. Também ensinaram seu primo que, na sua idade, já tinha matado um humano usando magia por alguma besteira como um filhote de chacal. Você nem consegue fazer as magias mais básicas e, ainda por cima, não tem nenhuma experiência de mundo real.

—Sou seu faraó, não fale assim comigo! — respondeu Hórus com uma voz meio chorosa enquanto corria de volta para o quarto.

Sem se preocupar com as consequências de suas ações, Shu simplesmente deu de ombros e voltou a prestar atenção em seus arredores. A preocupação com ataques de Set era constante. Ainda mais na parte da noite. Algumas vezes ele, ou algum lacaio, havia de fato atacado mas, felizmente, nenhum dano significativo foi gerado.

Enquanto isso, no Salão do Julgamento, Anúbis e Anput voltavam e contavam o que havia acontecido durante o treino de Hórus. Um suspiro de preocupação escapou dos lábios de Osíris enquanto Thoth fitava o chão pensativo abraçando algumas folhas de papiro.

—Sinto-me culpado pelo peso nos ombros que meu filho carrega e por não poder estar ao seu lado. — disse Osíris.

—Estão todos desesperados em prepará-lo mais para um combate. — disse Thoth — Impossível chamar isso de infância.

—Ele não poderia simplesmente ficar aqui? Ao menos por um ano?- sugeriu Anput.

— Já sugeri isso para Ísis- disse Osíris — mas com um faraó tão longe, seria difícil liderar os demais e conseguir mais aliados. Ela não aceitou minha ideia. Acho que não gosta muito daqui também. Quando estava grávida não aceitei a proposta, pois aqui não é lugar para vidas em formação. Não acho que o problema aconteceria com uma criança já nascida, mas acho que Isis se focou demais em fazer um mundo digno para que Hórus cresça e governe mas, ao mesmo tempo, não vê que ele está crescendo sem aproveitar o agora. Mas… vamos tentar mudar de assunto um pouco, pois, no momento, me dói falar sobre Hórus. Como andam as coisas com os humanos?

— Melhorando. — disse Thoth — Novas vilas surgem ou aumentam de tamanho conforme eles se reproduzem ou conforme andarilhos se fixam em algum lugar. Algumas inclusive surgem em Oásis ao invés de às margens do Nilo.

— Bom. Bom. — disse Osíris olhando então para Anput e Anúbis — Talvez possam ser mais lugares para visitarem e conhecerem. Parecem ter gostado do sul da Núbia. Foram até Punt certo?

— Certo. Foi mesmo interessante ver a tal neve no alto de montanhas tão diferentes no ano passado. — disse Anúbis olhando para Anput que sorria confirmando com a cabeça.

— Os humanos lá ainda não se fixaram na terra. Não devem demorar muito para formarem seu próprio reino. — disse Anput — Mas são sem dúvida curiosos e de costumes diferentes. Possuem umas danças estranhas e, sua fala é diferente mas possuem algumas palavras que parecem ser iguais à nossa, mas não sei dizer se possuem o mesmo significado. E a natureza lá tem partes lá tão mais verdes mas outras que parecem tão mais mortas.

Um sorriso cruzou pelo o rosto de Anúbis com a alegria de Anput. De fato, ela tinha gostado muito do passeio de dois meses que haviam feito para o sul passando pelas terras Núbias e de Punt. Terras que, em vários e vários anos no futuro, virariam o Sudão, a Etiópia, a Somalia, a Eritreia e Djibouti. Alguns desses países seriam, em tempos futuros apelidados de “O Chifre da África” e, infelizmente, muitas vezes apelidados como alguns dos países mais pobres do continente.

Se Anput parecia feliz agora, nada se comparava então a emoção dela quando visitaram o lugar. Era fácil ver o brilho no olhar da garota a cada coisa diferente que avistaram. A fauna e a flora eram diferentes, sem dúvida, mas também era o povo. Afinal, foi com o olhar brilhante de curiosidade e admiração que, durante a viagem, Anput também notou que, enquanto os tons de pele do Egito se espalhavam principalmente com cores canela, marrons dourados, atingindo inclusive os tons de ébano, embora existissem tons mais claros, como o de Anúbis, e mais escuros, como o dela, os do sul se tornavam cada vez mais negros e belos como o céu noturno. E era claro pelo pacífico sorriso que ela abria em seu rosto, que ela adorou isso.

— Chegaram a encontrar algum comerciante por lá? — perguntou Osíris — Ouvi dizer que alguns egípcios estão bravamente saindo daqui em busca de mirra, ouro e marfim.

— De fato vimos. — respondeu Anúbis — Muitos só pegavam e voltavam. Mas acho que não vai demorar muito para que precisem fazer comércio com os povos de Punt.

— Falando nisso… — disse Thoth — Todas essas empreitadas tão longe a sul, com certeza farão com que os humanos rapidamente comecem a usar barcos para viagens longas. Já estão mesmo ousando fazer coisas do tipo usando o mar que corta o caminho até Punt.

— Ah e que mar é aquele. — disse Anput se referindo ao Mar Vermelho — Tão belo!

— Imagino que tenha interferência sua nessa invenção dos barcos, Thoth. — disse Osíris abrindo um sorriso divertido.

— Não chamaria de interferência, é apenas uma pequena força. — disse Thoth — Ora, já não ensino os humanos à ler e escrever? Assim que conseguirmos tirar Set do trono em Mênfis, certamente pegarei o maior templo que tiver na cidade para fazer um plano que tenho em minha mente.

— Que plano seria esse? — perguntou Anúbis.

— Penso em criar algo que quero batizar de Casa da Vida. — disse Thoth — Resumindo, ensinar aos mortais mais coisas do que ler e escrever. Quem sabe até magias e matemática. Eles muito se beneficiarão do aprendizado.

— Falando em os humanos se beneficiarem… — disse Osíris olhando para Anúbis — Presumo que esteja considerando já encontrar um segundo sacerdote. Um culto não se espalhará o suficiente com apenas um.

— Penso em terminar de ensinar as coisas à Ahmen perfeitamente primeiro e então, sim, irei em busca de outro. — disse Anúbis — Seguindo a tradição, Ahmen deve provavelmente ensinar seu ofício à User e à Hehet e eles farão o mesmo com seus filhos. Já falei para Ahmen queimar os papiros com as instruções de embalsamento depois que considerar que considerar que ele as aprendeu perfeitamente. Claro que certas coisas tem sua serventia em serem escritas e lidas, como o conteúdo do “Livro de emergir para a luz” que Thoth termina de escrever e demais coisas para acesso do povo, mas não quero qualquer um tentando fazer por conta própria um embalsamento ou qualquer ritual que uma alma precise para chegar até o além.

— Nem ao menos tentar? — perguntou Thoth.

— São rituais e processos por demais complexos e cheios de detalhes para simplesmente passar numa escrita. — justificou Anúbis olhando para Thoth — Ainda mais quando ainda tão poucos sabem ler e não podemos descartar a possibilidade de alguém mentir para alguém que não sabe. Então não… não quero ninguém além de meus sacerdotes ou de embalsamadores preparando os corpos daqueles cujas almas tentarão chegar até aqui. Um pequeno passo errado pode condenar essa alma por toda a eternidade.

— É um bom argumento. — disse Anput concordando com a cabeça.

Enquanto ali, tão nas profundezas do submundo, conversas calmas aconteciam e deuses imortais viviam a vida, viajavam, riam e amavam, num elegante palácio com vista para o exuberante deserto, uma criança olhava para o céu desejosa por nele voar.

Era triste para o pequeno Hórus ter o poder de se transformar num exuberante falcão, mas não poder voar pelo céu. Cada vez mais, aquele palácio se tornava sua gaiola. Uma voz dentro de si dizia para ignorar tudo o que lhe falavam e simplesmente sair por aí voando um pouco. Não tinha medo de desobedecer sua mãe. Era o faraó afinal de contas, apenas tinha medo dos perigos que ela tanto dizia que se escondiam na areia avermelhada. Contudo, Hórus registrou em sua cabeça que um dia, quando fosse maior, com certeza iria desafiar os avisos da mãe e voar livre pelo céu.

Enquanto os deuses botavam todas suas apostas em Hórus, a cada ano que se passava as preocupações deles aumentavam. Afinal, Hórus, por mais que fosse indiscutivelmente um lutador prodígio, não parecia capaz de, ao menos no começo, fazer magias muito diferentes. Por mais que cada deus tivesse sua área de atuação na mágica, eles dividiam algumas magias simples em comum. No entanto, por algum motivo, Hórus não parecia capaz de fazer praticamente nenhuma delas. Foi só aos 10 anos que Hórus conseguiu invocar uma chama em sua mão. Aos 13 aprendeu a aumentar de tamanho, tal como na batalha entre Sobek e Anúbis que fez Sobek sumir até então. Aos 15 conseguiu lançar pequenas ondas invisíveis de força. Aos 18, com os olhos dourados concentrados em uma pena, ele notava pelo delicado objeto tremendo que parecia que talvez seria capaz de movê-lo com apenas a força na mente.

Sentado na biblioteca ignorando os livros que deveria estar lendo, Hórus focava sua atenção completamente na pequena pena tentando fazer ela mexer sem que precisasse tocar nela.

Era evidente o poder do tempo sobre a aparência do deus. Hórus não era mais uma criança. Era um jovem que sabia bem seu propósito. Deus da guerra e do céu. Deus da realeza, faraó dos deuses. Em semelhança com a infância, ele ainda deixava seus cabelos raspados e, apesar do grande título que tinha sobre os ombros, não era de uma vaidade muito grande. Para ele, apesar dos braceletes de ouro em seus pulsos e do kajal que marcava os seus olhos como um delineador assim como marcava de todo homem ou mulher naquelas terras, o adereço mais importante era a espada que carregava nas costas. A arma, era a mesma que usava em todos os treinos com Bastet e até outros deuses que ali residiam, nunca perdia nenhum duelo se quer. Tantos duelos traziam bem um reflexo no deus, isso é, os músculos que enchiam o seu corpo forte e cobreado.

Como se correspondesse a atenção de Hórus, a pena levemente tremia ameaçando se mexer sob o olhar do faraó, mas logo parou quando ele foi interrompido por vozes que vinham do corredor.

— Não acha que cometemos um erro? — disse Khnum, conforme a voz Hórus reconheceu.

— Quanto o quê? — perguntou Tefnut.

— Hórus é um lutador incrível, não nego. — disse Khnum — Mas não é muito bom em magia e, no final, isso pode ser um grande diferencial.

— Acha mesmo? Até onde eu saiba, nem você conseguiu ganhar do garoto. — disse Tefnut.

— O que passa por sua cabeça, Khnum? — perguntou Shu.

— O filho de Set… — disse Khnum — Claro, não é tão bom com armas quanto sua própria esposa mas, não podemos negar que é muito bom em magia. Mês passado mesmo invocou dezenas de corpos de mortos para lutar contra o exército humano de Set que atacava a vila aqui perto. Deveriam ver a carnificina que foi. Os soldados humanos não conseguiam ferir suficientemente os soldados mortos que andavam e lutavam. Não subestime a habilidade de poder encontrar um exército em questão de segundos. Além disso, de certa forma, ele tem tanto direito ao trono quanto Hórus.

— Nem tanto. Lembre que Geb escolheu Osíris. — disse Tefnut.

— Lorde Osíris e Lady Ísis praticamente adotaram o garoto. Só não oficializaram nada. — disse Khnum — Adoções são válidas para seguir a linha do trono.

Não querendo mais ouvir um minuto daquilo, Hórus resmungou com raiva e saiu do cômodo que estava se transformando em um falcão e voando pelo céu para longe. Não era a primeira vez que saía assim do palácio, contudo, era apenas a segunda. Não sabia também se alguém sabia que fazia isso e, na verdade, não ligava para as opiniões e preocupações que qualquer um teria com sua breve escapada, mesmo se a pessoa preocupada fosse Ísis.

Extremamente longe dali, no Salão do Julgamento, uma alma de um homem careca com aproximadamente 50 anos chorava de joelhos implorando por sua alma quando a balança pendia mostrando que seu coração era mais pesado do que a pena da verdade.

— NÃO, POR FAVOR! EU IMPLORO! — gritava o homem enquanto lágrimas escorriam por seu rosto descontroladamente — EU JURO QUE ME ARREPENDO DAS COISAS QUE FIZ. TENHA PIEDADE.

Prostrado no chão em completo desespero, ele tentou tocar nos pés da figura que estava diante de si mas, no último segundo, ela deu dois passos para trás. O homem fungou o nariz e olhou para aquele do qual tentava pedir por piedade mas não viu qualquer sinal disso nos olhos frios da cabeça de chacal que o olhavam de volta.

A visão de um ser com cabeça de chacal com certeza era intimidadora mas, só aqueles versáteis em magia poderia ver que tudo o que havia ali era um rapaz de cabelos negros que, ao menos quanto a aparência, não se diferenciava tanto assim de qualquer outra pessoa. Anúbis, novamente, não havia mudado nada com a passagem do tempo. Na verdade, já havia aceitado a ideia de que ficaria com aquela aparência pelo o resto da eternidade, sem envelhecer mais um dia sequer.

As mãos de Anúbis pingavam com o sangue de quando ele havia, minutos antes, arrancado o coração do peito daquela pobre alma que estava sendo julgada. Elas ainda estavam sujas quando, ignorando o homem em total desespero, pegou o coração sangrento da balança lentamente. O coração não batia, afinal, o homem já estava morto. Mas o homem desesperado quase podia sentir o coração batendo em seu peito em desespero quando Ammit lentamente se aproximava.

Os olhos de Anúbis se desviaram brevemente do homem e fitaram em Ammit. O deus da morte sabia bem que o demônio devorador de corações estava fazendo cena querendo intimidar o homem. Depois de tantos anos, Anúbis podia dizer que Ammit era bem carinhosa e bobinha. Por vezes inclusive, ela a lembrava de Neby. Era também nesses momentos que ele entrava no Aaru para ver o velho amigo e abria um sorriso ao ver ele correndo pelos campos de juncos dourados junto com outros chacais que, por diversos motivos diferentes, Anúbis tinha trago até ali. Os humanos ainda eram poucos no Aaru, mas as poucas casinhas que se erguiam pelos campos eram as provas de que eles estavam de fato no lugar.

Um grito mudo se abriu na boca do homem quando Anúbis jogou o coração dele para Ammit. Como um animal recebendo um petisco, Ammit mordeu e engoliu o coração com alegria e lambeu os beiços depois. Foi também nesse momento que seu olhar mudou, ficou mais feroz. Não era mais o inofensivo demônio, mas sim um predador voraz que, com água na boca, avançou contra o homem que, sentindo-se completamente sem forças para mover um músculo agora que seu coração havia sido devorado, foi rapidamente estraçalhado e devorado.

Os gritos do homem encheram o Salão do Julgamento, mas eles logo se calaram e tudo o que Anúbis podia ouvir era o som de Ammit mastigando enquanto ele magicamente limpava suas mãos de todo aquele sangue. Também pode ouvir o breve ruído de Thoth registrando em um pedaço mágico de papiro o nome e o destino da alma que havia acabado de ser julgada.

— Mais uma alma julgada, meus parabéns. — disse Néftis com um doce sorriso tentando ganhar alguns pontos com o filho.

— Apesar de ser um tanto triste como o coração sempre parece pesar mais. — disse Anúbis.

— Pode ser só impressão sua… — disse Thoth passando pela sua lista de nomes registrada no papiro — Vou tentar calcular os números mais tarde…

— De toda forma, não acha meio dramático demais ficar mostrando essa forma com cabeça de chacal para as almas que chegam ao invés de você mesmo? — perguntou Anput

— Não lembra do homem cinco anos atrás que ficou rindo porque ia ser julgado por um “moleque”? — perguntou Anúbis.

— Ammit fez ele de palitinho já, supere isso. — disse Anput com um pequeno sorriso — As almas então perdendo uma bela vista.

Para comprovar que não estava falando das paredes ricamente trabalhadas quando se referiu a vista, Anput acariciou gentilmente uma das bochechas de Anúbis. O simples ato, junto com a fala, fez ele ficar sem graça. Mas aproveitou a oportunidade para depositar um beijo no topo da cabeça de Anput.

Contudo, não tinham tempo para muita coisa. Afinal, a próxima alma logo chegaria. Como ela tinha ainda que passar por todos os vários juízes que separavam Anúbis e a balança da entrada do Salão do Julgamento, ele ainda tinha algum tempo para preparar as coisas enquanto Ammit bebia água no canto e algumas vozes chegavam até a cabeça de Anúbis. Sim, vozes. Desde que os mortais começaram a entender que havia um deus que cuidaria de seus entes queridos falecidos, as preces destes começavam lentamente a chegar até sua cabeça. Ainda era raro, é verdade, mas às vezes acontecia. Aquela vez era um ótimo exemplo.

“Por favor, Lorde Anúbis… Senhor da morte… “ dizia a voz “Cuide da alma de meu irmão.”

Algumas vezes, era difícil separar as vozes de seu próprio pensamento, mas estava começando a pegar o jeito disso.

— As preces de novo? — disse Anput olhando para ele enquanto limpava com magia o sangue que enchia a balança da verdade.

— Está tão óbvio assim? — perguntou Anúbis.

— Você fecha a cara de um jeito único quando elas chegam. — justificou Anput — Parece ficar estranhamente concentrado do nada.

— Tenho que aprender a lidar com elas mais facilmente… — disse Anúbis — Quanto mais mortais souberem que existo, mais elas devem chegar. Ainda mais agora com mais outros dois sacerdotes sendo treinados, além de Ahmen estar dividindo e ensinando a mumificação já com User.

Os outros deuses já haviam começado a julgar a próxima alma quando outra voz chegou na cabeça de Anúbis. Essa voz, contudo, era muito familiar. Uma voz feminina, firme mas ao mesmo tempo bem preocupada e desesperada que, com alguns segundos, ele reconheceu como sendo de Iset.

“Anúbis, Anput…” dizia a voz da amiga “por favor… nos ajudem. Salvem a minha irmã. Me envergonho de abusar de vocês dessa forma, mas, por favor, tragam alguém. Tawaret, Hathor, Thoth… alguém. Ajudem minha irmã em seu trabalho de parto. As coisas não parecem nada bem.”

Notas finais
desculpa por tantos time skips seguidos. eles foram necessários e eu achei muito bruto simplesmente ignorar o anterior e vir até esse de uma vez. mas ficaremos aqui nesse por mais um bom tempo agora :) ## REFERÊNCIAS Siwa - https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Oásis_de_Siuá Etiópia - https://en.wikipedia.org/wiki/History_of_Ethiopia#Antiquity Somalia - https://www.ancient-origins.net/ancient-places-africa/somalia-ancient-lost-kingdom-punt-finally-found-006893 Estreito de Bab-el-Mandeb - https://pt.wikipedia.org/wiki/Babelm%C3%A2ndebe Mar vermelho - http://www.newworldencyclopedia.org/entry/Red_Sea Etnia do Egito Antigo - https://en.wikipedia.org/wiki/Ancient_Egyptian_race_controversy#Kemet Chifre da África - https://en.wikipedia.org/wiki/Horn_of_Africa Asiut - https://es.wikipedia.org/wiki/Asiut sacerdotizas - http://historicaleve.com/ancient-egypt-religion-gods-priests-and-priestesses/ embalsamento - http://www.historyembalmed.org/egyptian-mummies/ancient-egyptian-embalmers.htm Livro dos mortos - http://www.jbeilharz.de/ellis/egypt.html Hórus - https://riordan.fandom.com/wiki/Horus#Powers_and_Abilities Livro dos mortos 2 - https://en.wikipedia.org/wiki/Book_of_the_Dead Parto - https://www.midwiferysupplies.ca/blogs/ancient-midwifery-blog/295322-ancient-egyptian-midwifery-and-childbirth Parto 2 - http://www.touregypt.net/featurestories/mothers.htm