A Morte Das Areias do Saara

166 Sincretismo de Amigos


Notas iniciais
bem vindos a mais um cap desculpa a demora, como sempre. a vida adulta tá foda.

No entanto, o veneno não se desviou de seu curso, e o grande deus não se sentiu melhor. Então Ísis disse a Rá: "Entre as coisas que me disseste, teu nome não foi mencionado. Ó, declara-me, e o veneno sairá; pois a pessoa que declarou seu nome viverá."~ Fragmento do papiro “A Lenda de Rá e Ísis”

Se recuperar da destruição causada por Gaia e Tifão não seria nada fácil. Pessoas morreram, cidades foram destruídas e, no meio de tudo isso, ainda tinha a seca, a doença, os refugiados e os conflitos que se espalharam por várias regiões da Europa, Norte da África e Oriente Médio. Cinco anos haviam se passado desde da luta contra Tifão, e a situação ainda não era das melhores. A seca assolava o Império Hitita, todos os lugares estavam com sua própria parcela de revoltas nos territórios conquistados e, no Egito, dois faraós brigavam pelo poder. O velho Merenptah já ocupava sua tumba há alguns anos e agora o conflito era entre Seti II e o rebelde Amenmesse. Mas no meio de tantos problemas, isso era só mais um pequeno stress na lista dos deuses egípcios.

Justamente para tratar de tantas preocupações, dezenas de deuses se reuniram embaixo de uma noite estrelada no deserto arábico, o local mais neutro que conseguiram pensar. Um pedaço de deserto, uma hora apenas composto de areia fofinha, repentinamente se viu cheio de elegantes cadeiras, divãs, tapetes coloridos e tochas em longas hastes iluminando o local. Dispersos sobre as dezenas de cadeiras, divãs e tapetes, estavam vários representantes dos deuses dos povos ao redor. Alguns deuses inclusive haviam levado deuses de menor importância para ficarem lhe servindo quitutes. Certamente alguns deles sonhavam com o dia em que alguém inventaria um lugar mais prático com reuniões de tantas pessoas assim, como os teatros gregos e os coliseus romanos um dia seriam.

A folga e conforto com as quais os deuses se sentavam, claramente não era um bom indicativo da seriedade daquele momento, nem da cena que se desenrolava no centro do círculo de deuses. Ensanguentada, largada na areia que agora se misturava com sangue, estava uma criatura que era esmagada pelo pé direito de Ereshkigal, que abria suas asas negras de forma triunfante e cheia de orgulho. A criatura, grande, com rosto de cão negro, orelhas pontudas, corpos esquios e negros como focas, mãos humanas com garras afiadas estava nos últimos fragmentos de vida, respirando de forma dolorosa.

— Essa é a última dos Telquines que atrapalham nossos planos! — exclamou Ereshkigal, triunfante — Aos que possam estar desinformados, ano passado descobrimos que Gaia, além de ter acordado Tifão, empregou essas criaturas na inglória tarefa de armar os humanos para causar caos em nossas fronteiras.

— Tem certeza que foram todas? — perguntou Poseidon, parecendo estar no mínimo um tanto desconfortável por estar tão longe de qualquer lugar com qualquer porcentagem pífia de umidade enquanto pegava a taça de néctar que o jovem Ganimedes lhe oferecia depois de Zeus, logo ao lado, ter pego a taça dele também.

— Fomos em todos os três lugares que apontou. O nas margens do Mar Negro e os dois nas margens do Mediterrâneo. — disse Hórus, sentado com toda seriedade e cansaço no olhar, entre Hathor e Ísis, na elegante cadeira que havia trago — Nenhum fugiu.

— Certeza que não tem outro lugar? — disse Lelwani, apreensiva, no pequeno grupo de hititas que havia ido até ali.

— Ao menos foi todos que conseguimos encontrar com bastante ajuda e muito interrogatório com os Telquines. — disse Ereshkigal.

— Se Tarhunna ajudasse, teríamos mais certeza que não tem mais escondidos perto do território hitita… — disse Ísis docemente.

— Bem que queria… resmungou Lelwani, suspirando derrotada junto com os outros dois hititas que a acompanharam, o menor grupo de deuses ali.

— Já temos que nos considerar com sorte por eu ter conseguido ajuda a descobrir esse no Mar Negro. — disse Enki, ao lado de Lelwani — Tarhunna, e muitos dos demais, estão convencidos de que o plano deles irá dar certo.

— Já tentei mostrar para Tarhunna o tanto de mortos que estamos tendo! — exclamou Lelwani — Mas não adianta.

Hórus se virou levemente para trás, onde Anúbis estava tranquilamente sentado ao lado de Thoth, Hapi e Serqet.

— Estamos tendo tantas mortes quanto eles? — perguntou Hórus, em voz baixa, enquanto os outros deuses continuavam a discutir.

— Não. Eles estão em situação pior. Bem pior. — respondeu Anúbis — Mesmo que a cheia do Nilo não tenha sido das melhores nos últimos anos, ao menos temos algo.

— Não é minha culpa! — defendeu-se Hapi, aos sussurros.

— Já dissemos que sabemos disso, garoto. — comentou Serqet — Mas o questionamento de Lelwani é válido. Procurei com meus escorpiões o máximo que pude pelo deserto também…

— E assim encontramos as armas que vinham dos ataques no oeste. — completou Hathor, se juntando à conversa.

— Sim. — Mas não vejo ninguém dos Fenícios aqui… — afirmou Serqet, sem esconder a expressão no rosto que denunciava que estava com raiva dos Fenícios — Nenhum deles parece preocupado com tudo isso e nosso controle da região fica cada vez mais frágil com essas revoltas e ataques. Não me surpreenderia que houvesse outro esconderijo de Telquines fazendo armas avançadas para nos desestabilizar com apoio dos Fenícios.

— Óbvio que não estão aqui. Querem ficar independentes da gente. — rebateu Hathor.

— Nos desestabilizar é claramente o objetivo final. — disse Ísis, não só para os egípcios ali ouvirem, mas todos os presentes — E Tarhunna, em meio a sua inveja de nosso poder e longevidade de nosso império, claramente não viu ainda que ele está incluído na lista.

— E mesmo se houver alguma Telquine sobrando ou não, o estrago já está feito. — comentou Hades — Pragas se alastram por todos os lados, secas por outros, refugiados armados por toda parte… e no que sobra de paciência para lidar com eles, vem os humanos fazendo merda como sempre. Golpes de estado, guerras civis, brigas pelo trono… Ouvi falar do que Amenmesse fez…

— Diz da tumba? — perguntou Anúbis e Hades confirmou a cabeça.

— Que tumba? — perguntou o poderoso sumério Ashur.

— Como se já não tivesse coisa demais acontecendo, Amenmesse ainda se dá tempo de decidir destruir a tumba de Seti II. — explicou Anúbis, revirando os olhos — Já que o vale dos reis está do lado do Egito que ele conseguiu controlar.

— Creio que será só questão de tempo para isso deixar de ser mais um problema na lista de vocês. — comentou Ashur — Em minha experiência, Amenmesse não durará muito mais.

— Compartilho da opinião. — concordou Hórus — Dito isso, voltemos para assuntos mais sérios. Sim, destruímos os Telquines nos lugares que sabíamos mas não temos certeza se existem mais lugares agora ou se mais lugares irão surgir…não querendo duvidar da capacidade de tort-… interrogatório… de Ereshkigal…

— Espero que não queira mesmo. — disse Ereshkigal, colocando mais força no pé que esmagava a última Telquine sobrevivente, que claramente não viveria por muito mais.

— É só que é bem provável que os Telquines não tenham conhecimento de todos os planos.. — disse Hórus — O que é realmente mais esperável.

— E não esqueça que, pelo o que Nyx informou, Gaia está devendo à ela uma erupção de vulcão. — disse Zeus — Ainda não tivemos nada do tipo.

— Não mesmo… — concordou Poseidon — Não duvidaria da possibilidade de estar preparando uma erupção bem grande ou tentando libertar Tifão através de uma ou algo parecido.

— Quero levar esse Telquine restante para fazer meu próprio interrogatório. — disse Enki — Estamos em situação pior dentre todos aqui afinal de contas.

— Todo seu. — respondeu Ereshkigal, dando um poderoso chute no Telquine, fazendo ele sair rolando até o pé dos hititas.

Os deuses continuaram lá conversando sobre a situação e até onde eles podiam interferir. Afinal, eles tinham que deixar os mortais escreverem a própria história… por pior que pudesse ser os resultados disso. Com o passar dos meses, Seti II de fato se livrou de Amenmesse, tal como os deuses previram, mas alguns meses depois a vida de Seti II também acabou. Mais um faraó sem impacto num Egito que ansiava por um grande governante novamente. Siptah assumiu o trono egípcio, a seca continuava no Império Hitita, Setne continuava estudando um jeito de livrar Seth da magia de Ísis e também de cumprir seus próprios objetivos. Ataques intensos de arameus atingiram a Babilônia, enfraquecendo-a intensamente. Destruição foi também o que assolou o território Micênico, que já parecia dar seus últimos suspiros, tal como o faraó Siptah logo deu os dele.

Tausret subiu ao trono por um pequeno período após a morte do marido. Num Egito fragilizado como estava, não havia muito o que ela pudesse fazer. Territórios palestinos e fenícios foram perdidos, mas ao menos ela conseguiu colocar fim na guerra civil que engoliu o Egito antes de sofrer um golpe e perder o trono para Setnakhte. Era um caos total. Nenhum faraó conseguiu ficar no poder mais de 6 anos desde do herdeiro de Ramsés II, Merenptah. E Setnakhte, em sua total falta de popularidade, forçou seus opositores a se unirem com líderes da Assíria e da recém-independente Palestina.

Quando num desespero de tentar absorver a glória passada de Ramsés II através do nome, subiu ao trono Ramsés III, a situação já era desesperadora e não era um xará de Ramsés, o Grande, que iria fazer as coisas ficarem melhores. Guerras aconteciam de forma quase ininterrupta, batalhas e invasões se espalhavam por todas as fronteiras. Foi essa cruel combinação de invasão e carnificina que, como consequência, levou Anúbis, Anput, Kebechet, Hades, Perséfone, Macária, Melinoe, Ereshkigal e seus filhos, Nungal, Ninazu, and Namtar, a se reunirem no meio de uma estranha formação rochosa criada pela ação conjunta dos humanos e da natureza.

Rochas enormes, cinzentas e pontiagudas se erguiam por quilômetros, deixando apenas uma tímida grama abrindo o caminho entre elas. As rochas eram tão grandes que algumas foram escavadas para servir de tumbas, e várias serviam de templos os registros de histórias divinas ou mundanas, honrando o nome que viria a ter, Yazilikaya, a rocha inscrita. Era um lugar solitário, de beleza silenciosa e afiada no meio do território hitita. Ou melhor, do que um dia foi o território hitita. Pois, quando os deuses se reuniram ali, diante de uma estátua parcialmente esculpida na pedra da antiga forma masculina de Lelwani, o império hitita havia acabado de chegar ao fim e, com ele, Lelwani.

O ar estava denso. Como se o próprio tempo tivesse parado, respeitando a dor da perda. Nenhum pássaro ousava cantar. Nenhuma brisa ousava interromper o luto. Era como se até as pedras chorassem, gritassem e ao mesmo tempo ficassem num silêncio incômodo prestando homenagem ao povo cuja história elas seriam as testemunhas restantes agora.

Alguns anos antes, vários ataques de todas as direções alcançaram a capital hitita, Hattusa, perto de onde os deuses estavam agora. Já fragilizados, não havia muito que os hititas pudessem fazer. Os atacantes queimaram Hattusa até o chão e mataram e estupraram o povo hitita, assassinando e apagando a cultura e religião. Os deuses hititas não eram mais nem memórias, pois não havia uma mente sã que se lembrasse da maioria deles. Tudo o que deixaram para trás, era o que estava na pedra.

Assim, os deuses se reuniam em círculo diante da estátua de Lelwani com uma pequena e tímida fogueira no centro do círculo. Embora a dor e o pesar ardessem no coração dos deuses, não havia um corpo para velar. Lelwani simplesmente sumiu, não deixando nada para trás além das histórias gravadas naquelas pedras e dos próprios pertences que deram a sorte de não ficarem para trás num submundo que se tornou um não-lugar.

Os deuses egípcios, micênicos e assírios ali reunidos, fizeram um funeral do jeito que era possível, considerando a falta de um corpo, reunindo as próprias crenças e as da própria Lelwani. Com a habilidade que havia adquirido depois de anos de treino, Anput, a única sentada na grama seca e rala, tocava uma música triste na arma que havia trago consigo. As notas que escapavam dos dedos de Anput eram um lamento, um choro em cordas que Anput havia dado seu melhor para aprender para aquele dia que já estava ameaçando chegar à um tempo, desde que Lelwani havia subitamente caído num sono irreversível e então, simplesmente sumiu. A música escolhida à dedo por Anput, era hitita, não egípcia.

Aparentando cansaço, Perséfone abriu uma ânfora de vinho e jogou o seu conteúdo sobre a pequena fogueira, que rugiu e se intensificou com o acréscimo do álcool. Uma oferenda. Oferenda a quem, ninguém ali sabia dizer. Quando os mortais faziam tal oferenda funerária, ela seria para a própria Lelwani, mas não achavam que ela estivesse na capacidade de receber mais oferendas.

Nungal jogou um pedaço de pão quentinho e de cheiro maravilhoso na fogueira, Anúbis e Kebechet organizavam um amontoados de flores e incenso aos pés da estátua de Lelwani. Melinoe ofereceu azeitonas à fogueira, Macária ofereceu uvas. Ninazu e Namtar ofereceram juntos uma grande e suculenta carne de cordeiro e Hades concluiu as oferendas à fogueira jogando um punhado de joias de ouro, uma das poucas coisas que Lelwani deixou para trás.

Cada oferenda seguia alguma tradição dos ali presentes. Comida e bebida para o morto, ouro para a travessia, o som da música e o cheiro do incenso e das flores elevando a alma. Um sincretismo de um grupo de amigos que tentava passar um conforto para a amiga que se foi, e ao mesmo tempo se dar um pouco de conforto em meio a um funeral sem corpo.

Os deuses se organizaram novamente no círculo, ficaram vendo o fogo destruir as oferendas que recebeu por alguns segundos, até Ereshkigal respirar profundamente de forma bem audível. Ela abriu suas grandes e poderosas asas negras, como se quisesse proteger aquele momento embaixo delas. Respirava com calma, com movimentos contidos e sem pressa, como se nada ali pudesse ser mais urgente do que o que já estava perdido. Seu rosto permanecia imóvel, impassível, como uma máscara esculpida em basalto. Não chorava. Não tremia. Mas os olhos… os olhos tinham o pesar e a saudade bem óbvios.

— Não é sempre que vemos um deus partir… é menos frequente ainda nos aproximarmos tanto assim daqueles que não são nossos conterrâneos. — disse Ereshkigal, enquanto Anput parava de tocar nas primeiras palavras da deusa — Mas esse momento mostra que ambos podem acontecer. Muito aconteceu e estamos claramente entrando numa nova Era… e infelizmente Lelwani não entrará nela conosco.

Um sopro de vento cortou o círculo, levantando brasas da fogueira como se Lelwani estivesse tentando falar de volta, mesmo que em vão. Ereshkigal parou por uns segundos, e tentou controlar seus próprios olhos, que eram repelidos como imãs para os deuses micênicos ali presentes. Eles não pareciam estar nas melhores condições tão pouco. Pareciam cansados, controlavam a vontade de soltar bocejos aqui e ali e levemente transparentes, e foi assim que tudo havia começado com Lelwani.

— Não sabemos para onde Lelwani foi… — continuou Ereshkigal — Nem se de fato foi para algum lugar. Mas sabemos que a memória dela e de todas as suas formas, faces e histórias está conosco, que continuamos aqui. Só podemos torcer para que um dia, quando os mortais ocuparem novamente essa região, eles encontrem o que os hititas deixaram para trás, e se lembrem de Lelwani, o que provavelmente não a trará de volta, mas ao menos mais irão conhecer o seu nome. Mas, tudo isso, não passa de um conforto pequeno demais, eu sei, diante da falta que Lelwani fará para nós.

Com o fim da fala de Ereshkigal, o único som se tornou o do crepitar do fogo, que parecia convidar alguém a falar algo. A língua pesava na boca de todos. Não era fácil encontrar as palavras certas, mesmo considerando que todos ali eram deuses muito bem familiares com a morte. Mas a morte de um dentre eles, de um ser que deveria olhar para a eternidade como o fim da própria vida, deixava um gosto amargo na boca.

— Lelwani… era uma boa amiga… — disse Anúbis repentinamente, sentindo os olhos arderem, mas logo interrompendo sua fala por alguns segundos ao ver Anput soluçando ao seu lado, com uma lágrima rolando pelo rosto.

Como ele estava de pé e ela não, ele estendeu a mão para ela. Ela agarrou e, por um segundo, pareceu que ele ia se sentar ao lado dela, mas ela logo se ergueu, deixando a arpa de lado, e ficou de pé ao lado dele, apoiando a cabeça no ombro dele.

— Lelwani… era uma boa amiga… — recomeçou Anúbis — E ela continuou sendo mesmo depois de termos lutado.. um tanto… brutalmente … em Karnak, quando a morte era algo impossível. Era até a morte, mas também não era nada pessoal. Não imaginei que iria lembrar com tanto saudosismo de uma luta até a morte… mas é como estou agora. Ela era uma boa amiga… uma boa deusa… e amava o seu povo. Uma combinação que nem sempre encontramos por aí. Ela merecia mais. Merecia um funeral maior e melhor… mas quase toda sua família desapareceu junto com ela e os que sobraram podem muito bem sumir nos próximos dias ou meses… Mas talvez, se ela estiver em algum lugar, isso signifique que ela não está sozinha.

O silêncio envolveu-os novamente e foi interrompido pelo leve fungo de Anput, que logo tratou de limpar as lágrimas. Contudo, como um vírus altamente contagioso, Perséfone começou a chorar também.

— O mundo tem me parecido extremamente injusto. — disse Perséfone, parando uns segundos para olhar para céu e deixar suas lágrimas rolarem pelo seu belo rosto, enquanto lágrimas teimosas conseguiram escapar dos olhares de todos os demais que ainda tentavam deixar os sentimentos presos no olhar — Lelwani se foi… eu e minha família podemos muito bem sermos os próximos… E então, sabe-se lá o que vai acontecer. Lelwani não merecia isso, nós não merecemos isso! É o que meu cérebro me diz mas… não seríamos nós sortudos no fim das contas? Vivendo séculos a fio enquanto os mortais não vivem mais do que algumas dezenas de anos? Não sei. Só sei que essa sensação de injustiça está entalada na minha garganta com um gosto amargo. Sentirei falta de Lelwani, e tenho medo do que será de mim.

Perséfone se encolheu e abaixou a cabeça e logo Hades se aproximou, abraçando-a e deixando ela pousar o rosto em seu peito. Mesmo ele não estava com as melhores da aparência. Ambos pareciam exaustos e era relativamente fácil ver através deles conforme, ano após ano, eles ficavam mais transparentes. Ainda assim, não estavam todos os micênicos igualmente ruins. Macária e Melinoe estavam especialmente piores. Talvez por isso estivessem agora segurando tão fortemente as mãos com Kebechet, que estavam grudadas com em toda oportunidade desde do começo do funeral.

A escuridão os abraçava devagar. E no fundo de suas almas, o medo era o mesmo: “Quando será o nosso funeral?”. Se perguntaram se era assim que os mortais se sentiam, afinal de contas. Ao menos os mortais sabiam que a velhice costumava vir acompanhada da morte. Agora eles? Já passaram séculos e milênios demais na Terra. “Velhice” era um conceito abstrato demais.

Um a um, os deuses diziam suas palavras, que eram poucas ou muitas, mas sempre carregadas de emoções. O sol logo começou a se pôr, pintando as pedras ali de um belo tom de dourado. Depois que todas as palavras ditas se acabaram, e tudo o que os deuses tinham a fazer era ver o fogo terminando de queimar, com sua fumaça subindo aos céus acompanhada da melosa música que Anput tocava na harpa. Ereshkigal e seus filhos foram embora, e os que ficaram para trás, claramente tinham mais do que apenas Lelwani na mente. Perséfone e Anput continuavam velando a solitária fogueira, sentadas diante da estátua, Kebechet, Melinoe e Macária resolveram explorar os segredos que aquele enorme conjunto de rochas guardavam enquanto conversavam e aproveitavam a própria companhia. Hades e Anúbis se aproximaram um pouco de suas esposas. Anúbis se agachou ao lado da cabisbaixa Anput, e colocou a mão em seu ombro gentilmente.

— E-Eu tô bem… — resmungou ela.

— Mentira. — respondeu ele — Tá escrito na sua cara e eu também não estou bem. Você acabou ficando mais amiga de Lelwani do que eu.

— Saímos muito mesmo. — disse Anput, olhando para Perséfone e compartilhando um triste sorriso antes de olhar para o céu — Vimos paisagens lindas… fizemos piqueniques em lugares que não imaginaria nem em sonhos. Tá que às vezes ela levava a gente para algum campo de batalha com mais ninguém vivo para contar o que aconteceu, e parecia achar que aquilo era tão lindo quanto um campo das mais belas e coloridas flores… mas era o jeitinho dela.

— Vocês sempre souberam que a gente era meio fora do jeito considerado mais normal… — disse Anúbis, dando de ombros e fazendo Anput e Perséfone rirem um pouco mesmo que sem tirar a expressão triste do rosto.

— Ter como passatempo mumificar corpos que o diga… — comentou Anput — Mas vou ficar bem. Só preciso de um tempo a sós com Lelwani… se é que podemos dizer isso ainda…

— Eu também… — acrescentou Perséfone.

Anubis afirmou com a cabeça, tirou a mão do ombro de Anput e se ergueu. Sem combinar nada com palavras, como se fosse a ação óbvia a fazer em seguida, Hades e Anúbis sentaram-se na pedra oposta à rocha que guardava a estátua de Lelwani, e ficaram fitando o conjunto formado pelas esposas e a estátua da falecida.

— Já viu algum momento tão… drástico… assim? — perguntou Hades subitamente.

— Como assim? — perguntou Anúbis.

— Uma coisa eram as trocas de governantes, ou o aparecer e sumiço de algum povo… mas… — explicou Hades — Agora parece algo tão mais brusco. Mais do que só uma troca de governantes.

— Não… — admitiu Anúbis já que, uma troca de Eras só havia acontecido antes com o fim da Era do Cobre não havia sido nem um pouco tão impactante quanto para eles — Como estão as coisas em Micenas?

— Sinceramente? — perguntou Hades, enquanto Anúbis olhava para ele, preocupado.

— Preferencialmente. — respondeu Anúbis.

— Cada ataque grande me faz sentir que vai ser o começo do meu fim. — admitiu Hades — Apesar de que não faz tanto sentido essa sensação, já que ainda há fieis espalhados por algumas partes mas… entre guerras e pragas, não é como se as chances deles de sobreviver estejam tão boas assim.

— Argh… Nem me fale de guerras e pragas. — resmungou Anúbis — Ao menos esse Ramsés III parece ser menos incompetente que os faraós anteriores mas… está longe de ser o ideal. Esses povos do mar seguem atacando sem parar. De onde vem tanta gente?

— E todos muito bem armados né? — perguntou Hades, logo soltando um resmungo de reprovação — Sinceramente acho que estão escondendo mais forjas de Telquines de Gaia em territórios que não podemos acessar. Ao menos não estão com armas que podem de fato nos cortar. Isso seria muito mais problemático.

— E Gaia pode fazer algo assim em larga escala? — perguntou Anúbis.

— Acho que não. — disse Hades — Os Telquines até fizeram o tridente de Poseidon e outras coisas mais, mas fazer armas que cortem deuses não é uma atividade com tanta matéria prima assim disponível, nem tempo, pra fazer em escala tão grande quanto esses povos do mar. Ficou sabendo que os povos do mar atacaram Pilos também?

— E onde não atacaram à essa altura? — questionou Anúbis.

— É uma de nossas maiores cidades… Destruíram o palácio completamente. — disse Hades, soltando um pesado suspiro olhando para a própria mão — Eu não estava tão transparente assim antes de atacarem lá. Tinha que forçar muito os olhos para notar… Mas agora…

— E a cidade de Micenas? — perguntou Anúbis.

— Inteira o suficiente. — respondeu Hades, enquanto a escuridão da noite completava seu serviço de envolver todos ali — Eu não estaria calmo assim se ela tivesse sido destruída.

Mais alguns segundos de silêncio se instauraram. Silêncio esse que não era mais novidade naquele dia. O brilho que restava da fogueira que se apagava era refletido nos olhos cansados e amargurados de Hades, que eventualmente perguntou:

— Já pensou no que acontece quando nós desaparecemos?

— Já… — admitiu Anúbis — Não que eu tenha alguma resposta para dar para você.

— Talvez seja meio como agora: silêncio. — disse Hades — Mas também, vazio. Verdadeiramente vazio. O tipo de fim que não dá nem trabalho. Sem reclamações de vivos pedindo por “clemência” ou “justiça”. Quando eu descobrir, o que claramente eu vou fazer antes de você, eu volto pra te assombrar e pra te falar como funciona.

— Não acho que seja assim que funcione. — comentou Anúbis, quase deixando escapar uma pequena risada.

— Somos deuses da morte, dos mortos, do submundo ou o que for… daremos um jeito. — comentou Hades, embora fosse claro que fosse mais pela brincadeira do que por realmente acreditar nessas palavras.

— Teve uma vez um morto que estávamos julgando que questionou quem nos julgaria no final. — comentou Anúbis, e o comentário conseguiu tirar uma pequena risada de Hades.

— Sei alguns deuses que iriam odiar essa ideia de serem imperfeitos em suas ações a ponto de precisarem ser julgados. — comentou Hades — Quem foi esse cara?

— Akhenaton… — respondeu Anúbis.

— O doido monoteísta? — perguntou Hades, e Anúbis só afirmou com a cabeça — O deus que ele “criou” deve ter sumido já né?

— Sim… — respondeu Anúbis — Nunca foi muito popular e depois só piorou. Também não teve um julgamento tradicional. Mas sim um mais criativo. Coloquei-o para eternamente construir a própria cidade, mas ela nunca ficaria pronta.

— Ainda julgou ele? — perguntou Hades, meio surpreso — Não rezava para você.

— Ainda era egípcio e seu próprio deus não poderia julgar. — disse Anúbis, soltando em seguida um pequeno bufar de desgosto de Akhenaton — Não acho que seu deus sequer tinha um pós vida planejado ainda. Foi feito às pressas de qualquer jeito afinal de contas. SImplesmente focando em ser uma misto esquisito de Rá e do próprio Akhenaton.

Não tão longe dali, num tipo de pesar mais meditativo, estava Ísis. Ela estava tranquilamente de pé numa praia egípcia banhada pelo mediterrâneo pensando em tudo que aconteceu, nos invasores que chegaram por aquele mesmo mar, e nos deuses hititas desaparecendo. Atrás dela, Hathor e Néftis estavam sentadas na areia sobre um tapete colorido com os mesmos pensamentos passando em suas mentes. Copos de cerâmica estavam bom o interior sujo de vinho que havia vindo da ânfora, agora vazia, que pousava no meio do tapete. Ao lado da ânfora, havia um prato com restos de pão e sementes de frutas que não estavam mais ali.

O vento batia forte, mas de certa forma tranquilo, balançando o cabelo das três mulheres e das tamareiras que se erguiam atrás delas, depois da areia. Certamente não era um dia que muitos deuses estavam com os melhores dos humores. Talvez exatamente por isso que, escondido no meio da brisa do vento, estava uma estranha e ponta de flecha de material difícil de achar e moldar. A ponta de flecha voava, rápida e certeira, como se tivesse sido lançada por um arqueiro, mas não havia arqueiro algum.

Ousada, a flecha se lançou até Ísis e atingiu-a no braço de surpresa, e saiu voando, tão rápida quanto chegou. Ísis exclamou em surpresa em meio a pequena e estranha dor e olhou para o braço cortado, onde agora sangue prateado escorria. Sangue prateado esse que também estava na flecha enquanto ela continuava seu caminho para o mais longe possível de forma agora quase desesperada.

Já longe de terras egípcias, nas profundezas do deserto arábico, o vento que abraçava a flecha se transformou num jovem com quatro pares de asas cinzentas, dentes grandes que nem cabiam na boca e um pequeno rabo de cavalo, seco e estirado, tão curto que a gravidade nem conseguia lhe fazer cair um pouco. Era um demônio mesopotâmico do vento, arteiro e discreto, mas irrelevante demais para seu nome ser tão conhecido quanto de seu mestre, Pazuzu. Mas, naquele dia, enquanto ele olhava para a flecha suja com o sangue da deusa, ele pensava naquele que contratara seu serviços.

Parecendo até ter ouvido seus pensamentos, diante do jovem demônio apareceu ninguém menos do que Seth, que estendeu a mão direita sem dizer nada, mas com um pedido claro. O demônio botou a ponta de flecha na mão do deus, que analisou o sangue prateado que a sujava. O sorriso que brotou no rosto de Seth era prova suficiente de que tinha certeza que aquele sangue era de Ísis.

— Agora… minha parte do acordo… — pediu o demônio, tendo dificuldade em segurar o sorriso diante da expectativa de seja lá qual foi o preço por conseguir o sangue de uma poderosa deusa egípcia.

— Ah, claro… — disse Seth tranquilamente.

Entretanto, o movimento de braço que o demônio julgou ser para Seth lhe dar seja lá o que havia prometido, acabou se tornando um movimento para invocar a própria espada e, num misto de fogo e areia, atacar o demônio. Seth facilmente decepou a cabeça do monstro, que caiu na areia do chão e logo se transformou em mais areia que se misturava à aquela carregada pelo vento.

Antes de deixar o rastro de seu crime desaparecer, Seth deixou o lugar para trás e foi direto para sua sala secreta onde, já a tantos anos, Setne trabalhava num método de livrar o deus do encanto de Ísis. O fantasma do príncipe falecido olhou para o deus com expectativa quando este surgiu diante de si, e perguntou:

— E?

— Isso é suficiente? — perguntou Seth, entregando ao mago a ponta de flecha suja de sangue.

— Creio que sim. Espero que sim. — respondeu Setne, com um sorriso macabro no rosto.

— Mas tem certeza mesmo que esse plano vai dar certo? — perguntou Seth.

— Já disse que tenho. — respondeu Setne.

— E eu já disse que não acredito em você. — respondeu Seth — Foi a mesma coisa que disse da outra vez, e também da vez anterior. E aqui estou eu, ainda magicamente obrigado por Ísis à obedecer Osíris.

— Eu entendi os erros de nossa última tentativa. — disse Setne, empolgado, pousando a flecha suja de sangue com muito cuidado num esquecido prato de cobre — Faltou algo para ligar a magia à Ísis. E também o que usamos para tentar equiparar o poder dela… não foi suficiente.

— Então está considerando que o que vamos usar agora vai ser suficiente? — perguntou Seth.

— Se conseguir pensar em algo melhor do que um frasco cheio do silêncio de Maat. — disse Setne, olhando para ânfora muito bem tampada que, de alguma forma, guardava algo tão intangível quanto o silêncio — O mais importante é você ter feito exatamente como disse o papiro.

— Se o papiro estiver certo, pra começo de conversa. — respondeu Seth — Sinto que tem de fato algo dentro da ânfora e não só… nada…

— Não duvide do autor do papiro! Já disse que fui eu mesmo passando a limpo quando tinha o Livro de Thoth em mãos. — reclamou Setne, fazendo pouco caso com uma das mãos — Foi uma sorte ter conseguido encontrar.

— Estava mais destruído do que inteiro! — rebateu Seth — Dificilmente eu consideraria isso um papiro muito convincente por mais que tenha sido uma cópia de uma parte do Livro de Thoth! É melhor que dessa vez realmente funcione! Pois certamente Ísis vai começar a questionar o que pode ter acontecido para, do nada, ela ser cortada assim!

— Quando vai querer fazer a primeira tentativa? — perguntou Setne.

— Espere um pouco. — respondeu Seth, sabendo muito bem que, provavelmente naquele exato momento, Ísis já estava no Salão do Julgamento tirando todos de onde estavam para compartilhar, que algo havia cortado-lhe o braço — Devem vir atrás de mim em breve. Deixe eu me manter ocupado com algo que esperam que eu esteja fazendo agora.


Notas finais
*** UM POUCO DE VIDA REAL *** Yazılıkaya é uma espécie de santuário hitita que sobreviveu ao tempo. Hoje em dia está na Turquia. O santuário é uma área com grandes pedras cinzentas que os hititas esculpiram formas e abriram até câmaras. E sim, uma das esculturas que resistiram ao tempo, é uma de Lelwani em sua forma masculina, que é a mais antiga. O fim da Era do Bronze trouxe várias consequências, dentre essas consequências, o fim do Império Hitita e a independência dos territórios asiáticos que o Egito controlava no Levante. Depois que Ramsés II morreu, Merenptah ficou no trono por talvez uns 10 anos e depois dele e até Ramsés III, nenhum faraó durou muito e todos tiveram suas próprias parcelas de tretas em meio a um cenário que estava bem ruim. **** REFERÊNCIAS **** A lenda de Rá e Ísis - https://sacred-texts.com/egy/leg/leg20.htm Yazılıkaya - https://en.wikipedia.org/wiki/Yaz%C4%B1l%C4%B1kaya Fim da Era do Bronze - https://en.wikipedia.org/wiki/Late_Bronze_Age_collapse