A Morte Das Areias do Saara
12 Sangue, espadas, morte e magia
Notas iniciais

O peito deste Meri-Ra é o peito de Bast;
ele vem e ascende ao céu.
A barriga deste Meri-Ra é a barriga de Nut;
ele vem e ascende ao céu.
~Fragmento do Livro dos Mortos
O passar dos anos trouxe um novo som para os jardins do palácio real que, embora continuasse bem enfeitado e luxuoso, escondia as problemáticas enfrentadas pelos deuses. O som que se propagava pelas paredes do palácio, vinham de uma sala ampla onde espadas se batiam num treino de luta que usava armas de verdade. Nessa sala, estavam cinco pessoas. Cinco deuses.
Imune à qualquer mudança devido a passagem do tempo, Thoth olhava o treino. Em seu colo, um rolo de papilo, sua mais recente invenção. Lia seus próprios relatórios sobre os avanços dos humanos que, agora, tinham recebido vários conhecimentos para que pudessem usar à seu bel prazer. Dentre eles, a escrita.
Ao lado de Thoth, também sentado, estava Qebui que aderiu a facilidade de ter os cabelos completamente raspados. O garoto cresceu nos anos que se passaram. Agora era um jovem de 15 anos. Jovem até mesmo para os padrões humanos ainda. Não só tinha ficado mais alto, como também ficou mais forte. O motivo da inveja do garoto, estava nos dois jovens que treinavam sob a tutela de Bastet.
Bastet, a deusa gata, de cabelos negros extremamente lisos que quase chegavam até seu ombro, tinha olhos dourados com pupilas verticais como as de um gato, era magra mas extremamente ágil. Osíris tinha contatado ela para que pudesse treinar os três jovens deuses na arte do combate. Qebui, Anput e Anúbis. Enquanto Thoth ensinava a parte da magia. Qebui não era bom em magia, só ganhava de Anput porque ela só conseguia fazer alguns feitiços mais padrões e ele conseguia todos do elemento ar. Qebui achava que poderia ser bom no combate, mas perdia para os dois amigos. As derrotas recentes no treino de combate, eram o motivo pelo qual o jovem deus sentava-se perto de seu professor mantendo o semblante emburrado.
— Vamos! — disse Bastet — O melhor no combate ganha! Não irei mais dar dicas para vocês, já disse! Se errarem a posição de defesa correta, vão sentir as consequências na hora.
— De que adianta se “o melhor no combate ganha” se Anput está invicta nessas vitórias em combate? — perguntou Qebui com tédio apoiando o rosto na mão — Devia liberar a magia também. Aí sim ia ser uma luta legal de se ver já que Anúbis está invicto no combate mágico.
Anput olhou rapidamente para Qebui com o olhar que o alertava para não dar ideias para Bastet. A garota havia acabado de defender-se de um ataque de Anúbis, cada um usando uma Kopesh, e dava agora dois passos para trás para poder preparar seu próximo ataque. Anput crescera e mudara muito com o passar dos anos. Tais anos, fizeram muito bem à ela. O corpo da jovem entrava na adolescência e ia se preparando para a vida adulta. Alta e forte, a jovem tinha muito charme no corpo cor de chocolate. Seus cabelos, longos e negros, permaneciam presos em trancinhas que chegavam quase até a metade de suas costas.
— Gostei da ideia. — disse Bastet com um sorriso e juntando as duas mãos num sinal de alegria e satisfação — Vale tudo agora então!
Um sorriso desafiador abriu-se no rosto de Anúbis, sua bochecha estava cortada com um ataque que Anput tinha feito mais cedo. No entanto, o corte já se fechava rapidamente. Anput sorriu de volta quando Anúbis desapareceu em fumaça negra embora tenha tentado fazer um último ataque contra o amigo. Uma hora ele estava ali, alto, levemente musculoso (como a falta de camisa bem provava), olhos cor de chocolate e inegavelmente extremamente bonito e na outra, não estava mais.
Anúbis reapareceu atrás de Anput atacando com a Khopesh do ar de cima à baixo, ela desviou da arma mas foi atingida pela fumaça negra que começou a ser emanada dele. A fumaça tocou em sua mão e ela chiou de dor quando a ponta de seus dedos começou a necrosar.
— Nek! — reclamou ela xingando na língua morta a qual todos ali tinham como primeira língua, egípcio, mas ela logo desapareceu em fumaça negra assim como Anúbis havia feito. Tão rápido quanto necrosaram, seus dedos também melhoraram.
— Por favor, apenas não se matem, ok? — disse Bastet e Qebui soltou uma risada leve sabendo da impossibilidade disso. Thoth, por outro lado, estava concentrado demais em seus papiros para prestar atenção.
Anput tentou reaparecer atrás de Anúbis mas esse desapareceu antes que ela pudesse aparecer. Sozinha no meio da sala, ela olhou para os lados tentando encontrar o amigo que havia sumido. Foi nesse momento que seus braços ficaram presos por faixas de linho branco que eram puxadas por buracos de névoa negra que surgiram no chão. De braços fortes, ela conseguiu movimentar seu braço direito e cortar com a espada em sua mão a faixa de linho que o segurava. Fez isso bem à tempo, pois pode se defender do ataque lateral que Anúbis executou com a espada. Tentando ganhar tempo, ela aproveitou que tinha as pernas livres e que Anúbis ficou com a guarda aberta depois de ter o ataque aparado, e chutou-o bem no meio do estômago.
Anúbis deu dois passos para trás enquanto ela aproveitou a oportunidade para com o braço esquerdo, invocar o feitiço do fogo e queimou a faixa que a prendia à esquerda. Ela fez uma sequência rápida de golpes em sua direção e ele tentou aparar à todos. Conseguiu a maioria, acabou levando um corte no ombro direito. Enquanto trocavam golpes, também desapareciam e reapareciam sem interromper a luta. Anúbis ia ganhando cortes leves e ela ia ficando com partes do corpo roxas até que ela deu três grandes passos para trás para se recuperar um pouco.
Livre, ela se aproximou para atacar com sua espada, Anúbis, no entanto, tacou a própria espada no chão com raiva, não gostava muito de lutar com ela. Ele desviou do ataque dela girando o corpo por pouco e, com a mão esquerda, agarrou o antebraço do braço com o qual ela segurava a espada. Ela reclamou de dor quando o braço começou a necrosar com o toque. Com Anput sem conseguir mexer o braço, Anúbis já iria proclamar sua vitória ao levar a mão até a garganta dela mas ela deu uma joelhada certeira entre as pernas dele.
Os joelhos dele falharam com a pontada de dor mas, o mais importante, foi que ele soltou a mão dela. Ela, sem perder um segundo, ajustou a mão e a espada para um golpe certeiro na garganta dele ao mesmo tempo em que ele, sem se deixar levar pela dor, levou a mão até a garganta dela mas…
— Chega — disse Bastet calmamente e os dois pararam. A mão dele à centímetros da garganta dela, a espada dela, a centímetros da garganta dele — Acho que é um empate bem válido.
— Concordo. — disse Thoth ainda olhando para seu papiro.
— Você nem olhou, irmão. — reclamou Bastet olhando para ele e só aí que Thoth levantou o olhar para deusa gato.
— Prestei atenção o suficiente para saber que a garganta de ambos agradece por você ter interrompido a luta nesse instante.
Nenhum dos dois temia muito as reclamações da garganta quando saíram da posição em que estavam e se entreolharam. O medo não passava de um leve receio no olhar acompanhado de um sorriso pois imaginavam o que aconteceria. O que acalentava o coração deles era o fato de que não morreriam, não enquanto a espada que usavam nos treinos eram meras réplicas da arma que Seth havia desenvolvido e continuava a desenvolver. Claro que Thoth seguia inventando e criando com o intuito de derrotar Seth, mas suas invenções ficavam em mais completo sigilo. Apenas ele e Osíris sabiam até onde Thoth havia chegado.
— Desculpe pela joelhada nos seus filhos, e pelo ombro — disse Anput olhando para Anúbis e dando uma risada.
— Desculpada. Desculpe pelo braço e pela mão — disse Anúbis.
— Desculpado. — respondeu ela. Era fácil desculpar quando em questões de segundo estavam bem de novo. Todos os treinos recentemente tinham sido assim, com machucados de verdade.
— Terminamos o treino por hoje? — perguntou Anúbis olhando para Bastet.
— Sim, terminamos, cachorro.
— Não sou um cachorro. Pare de me chamar assim, gata — disse Anúbis encarando Bastet enquanto ia até onde havia largado sua arma e a pegava.
Bastet deu de ombros. Os dois não se davam tão bem assim. Coisa de cão e gato, talvez? Seria por causa da opinião da deusa quanto ao pai de Anúbis? Ele não sabia. Enquanto Anúbis e Anput deixavam as armas junto com todas as outras, Neby levantou-se do cantinho onde estava e seguiu os dois deuses. Neby agora era um chacal adulto, o porte e a altura indicavam isso. Anúbis também dava-lhe liberdade o suficiente para ele pudesse sair sozinho e caçar a comida que queria. Entretanto, por mais que Neby já não crescesse mais do que aquilo, ainda era óbvio que a forma de chacal de Anúbis ainda era maior.
— Alguma novidade de.. Set? — perguntou Anúbis olhando para Thoth.
— Sim e não. Pouca coisa. — disse Thoth — Sabemos que está juntando muita gente, talvez planejando um ataque, mas não sabemos quando ou onde.
— Quem consegue essas informações? — perguntou Qebui.
— O que acham que eu faço quando não estou dando aulas de combate para vocês — perguntou Bastet sorrindo orgulhosa.
— Sei lá — disse Qebui dando de ombros.
— Ah, antes de ir para onde quer que seja, dê isso para Ísis, sim? — disse Thoth entregando para Anúbis um pequeno papel com alguns hieróglifos escritos.
Os desenhos, que à essa altura Anúbis já conhecia bem, indicavam que aquilo parecia ser algum tipo de receita. Anúbis não precisou perguntar o que era, tinha um vago chute de o que seria aquilo. Ele olhou para Anput que, sem com que ele precisasse dizer a pergunta que queria, apenas sorriu e afirmou com a cabeça.
— Esperaremos por você lá. — disse ela.
Ele afirmou com a cabeça e desapareceu em fumaça negra reaparecendo em outro cômodo da casa. O cômodo em que estava agora era claro, bem iluminado e colorido devido as pinturas na parede. Tinha também dois sofás. Em um, sentava-se Ísis cabisbaixa, nos outros dois, Hathor e Tawaret.
Hathor era uma deusa de extrema beleza, pele bronzeada, cabelos longos presos em tranças mostrando que talvez foi daí que Anput roubou o visual. Seus olhos eram doces e carinhosos mas seu rosto mostrava a esperteza. Tawaret tinha o mesmo carinho e doçura no olhar, mas ela tinha a pele cinza-arroxeada e a cabeça de um hipopótamo. Tudo nela indicava bondade e doçura, exatamente como as avós que empanturram os netos de biscoito.
— Lady Ísis — dizia Tawaret — Já fizemos de tudo. Todo ritual e feitiço possível em nossas mãos.
— Então porque ainda assim não consigo conceber um filho para meu marido? — disse Ísis com lágrimas nos olhos.
— Já parou pra pensar… que… talvez… — disse Hathor com delicadeza temendo tocar num ponto que incomodava a deusa — Vocês não possam… conceber?
— Nem diga isso! — pediu Ísis chorosa respirando fundo — Nunca achei que fosse ter que fazer como os humanos que imploram aos deuses por um filho.
— Não é um motivo de vergonha — disse Tawaret botando a mão no ombro de Ísis.
— Sei que não é o mesmo e que talvez queira outro, mas não cuidou de Anúbis desde que ele nasceu? — perguntou Hathor — Deveriam logo adotar ele. Thoth e Bastet falam tão bem do garoto. Quer dizer… Thoth fala bem do garoto. Bastet não mostra concordar nem discordar. Sinal que no fundo sabe que Thoth está certo.
— Até porque é bem raro Thoth estar errado sobre algo — disse Tawaret.
— Sou grata por seus irmãos estarem ajudando na educação e treinamento dele, Hathor, mas… Não é a mesma coisa — disse Ísis — E se oficializarmos algo assim, só complicaria as coisas com Néftis e Set.
— Não é como se eles ligassem muito — disse Tawaret.
— Chame-me de tola por ainda ter esperanças em Néftis.
— 15 anos é pouco tempo para um deus — disse Hathor suspirando pesadamente.
A cena claramente deixava Anúbis desconfortável. Assim, já que nenhuma das deusas tinha notado dele até então, ele ficou quietinho no cantinho da sala esperando Ísis se recuperar mais. A deusa respirou fundo e limpou o rosto manchado pelas lágrimas usando as mãos. Tawaret e Hathor, como boas amigas, prestavam atenção em Ísis. Foi Hathor a primeira a notar Anúbis. Ela deu um sorriso sem graça para o rapaz sem que Ísis notasse e o chamou silenciosamente usando a mão incentivando-o a falar o que queria.
— Lady Ísis… desculpe interromper — disse o rapaz lentamente temendo a situação em que estava Ísis.
— Não, não. Está tudo bem. O que foi? — disse Ísis rapidamente tentando se ajeitar como se nada tivesse acontecido.
— Thoth pediu-me para entregar-lhe isso — disse ele entregando o pedaço de papiro para a tia.
— Obrigada — ela disse abrindo um sorriso cansado.
Ele afirmou com a cabeça depois que ela pegou o papel e então desapareceu de novo. Aquele papel continha provavelmente a quarta tentativa de Thoth de desenvolver um tônico para ajudar Ísis à engravidar. Mas, por algum motivo, nada dava certo e a deusa ficava cada vez mais desesperada. Anúbis sempre soube das histórias de que o casal sempre quis ter um filho e nunca conseguira. Quando pequeno, achava que eles tivessem desistido da ideia. Depois de uns anos, na verdade, descobriu que eles nunca tinham parado de tentar. E isso só era mais um dos motivos pelos quais Anúbis nunca conseguiria vê-los totalmente como pai e mãe embora tivessem o criado.
Quando Anúbis reapareceu, o fez em um lugar onde tudo o que se via era areia. No alto de um dos morros de areia, estava Anput e Qebui. Qebui estava sentado na areia visivelmente entediado enquanto Anput estava de costas para Anúbis admirando algo à sua frente. Mas, o que Anúbis prestava atenção, era em como o vestido leve e os cabelos longos se mexiam quando o vento batia neles. Ela olhou para trás e abriu um sorriso quando viu ele se aproximando.
— Finalmente — reclamou Qebui rolando os olhos.
— Você só sabe reclamar eim? — disse Anput cruzando os braços e então voltando à olhar para a cidade que se estendia no horizonte depois do grande morro de areia em que estavam — Mênfis, aqui vamos nós!
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