Notas iniciais
mais um capítulo saindo :3 divirtam-se ♥

Porque meu pão será feito de cevada branca, e minha cerveja será feita do grão vermelho do deus Hapi (o deus Nilo), que o barco Sektet e o barco Atett me trarão; Coma minha comida sob as folhas das árvores cujos lindos braços eu mesmo conheço.

~ Fragmento do Livro dos Mortos

O sol queimava forte fritando a cabeça dos jovens mas, enquanto Anput e Qebui olhavam adiante, em direção à Mênfis e ao Nilo, Anúbis olhava ao redor como se procurasse algo.

— Neby não veio com vocês? — perguntou ele botando a mão sobre os olhos para os esconder da claridade.

— Ele estava nos seguindo… achamos que tivesse voltado atrás de você. Desculpa — disse Anput olhando para onde o amigo olhava.

A claridade do sol atrapalhava, mas logo o trio pode ver Neby se aproximando. Com o rabo abanando e a língua para fora, o animal carnívoro se aproximou dos jovens deuses. Anúbis se abaixou e Neby lambeu seu rosto enquanto Anúbis fazia carinho em sua pelagem de cor arenosa.

— Briga com esses egoístas por terem deixado-te pra trás — disse Anúbis que, a essa altura, já conseguia controlar quando as coisas soavam como ordem ou não para Neby. Com certeza tinha sido estranho e um pouco assustador quando, alguns anos atrás, ele notou o controle que exercia não só sobre Neby, mas sobre todos os chacais e muitos outros canídeos.

— Ah.. mas já pedimos desculpas — disse Anput se ajoelhando ao lado de Neby e o abraçando levemente — você desculpa a gente né Neby?

— Não mime o animal… — reclamou Qebui de braços cruzados.

— E você por acaso é o dono dele pra ficar opinando assim? — rebateu Anput olhando para Neby fazendo cafuné agora na barriga dele pois ele havia deitado na areia fina.

— Você por acaso sabe arranjar alguma coisa que consegue ficar sem reclamar, Qebui? — perguntou Anúbis revirando os olhos.

— Ela quem está mimando seu bicho — respondeu Qebui.

— “Meu bicho” dificilmente seria uma definição que eu usaria — disse Anúbis — Neby é livre para ir para onde ele quiser. Duvido você achar ele ‘mimado’ se visse como ele degola uma vaca ou uma cabra.

— Pensei que ele preferisse presas préviamente mortas por outros. — rebateu Qebui depois de bufar levemente.

— Meninos, meninos… calma — disse Anput suspirando cansada e revirando os olhos provavelmente pensando algo como ‘.. homens!...’ — Chega disso! Estamos todos aqui, vamos para Mênfis antes que fique tarde. Sabem que eles não gostam de sair à noite.

“Eles” eram os amigos humanos que haviam feito anos atrás e agora mantinham a amizade. Sim, era possível dizer que cresceram juntos. Eles andavam à passos acelerados marcando a areia quente por onde passavam. Embora usassem sim sapatos, cada um com um par de sandálias de couro, o calor não os incomodava tanto quanto incomodava os humanos. Foram direto para a casa de Shadya e Iset pois ela era nos limites da cidade já que a família era composta basicamente de fazendeiros.

No caminho, puderam ver o estrago que o Nilo havia feito. Era esperado que o nível do rio aumentasse. Suas cheias eram tão constantes que todo o calendário egípcio girava ao redor das cheias e secas do Nilo. Entretanto, algumas vezes o rio, ou melhor, os deuses que decidiam sobre o rio, decidiam que os humanos mereciam alguma punição e o rio não enchia para molhar a colheita. Por outro lado, outras vezes o nível do rio subia demais. Claro que era bom ter água e também era bom ter as plantações molhadas para poder plantar. Mas mesmo quando o rio subia demais havia desvantagens. A prova disso, eram as casinhas que haviam sido engolidas pelas águas turvas do poderoso rio que havia subido demais naquele ano.

Felizmente, a casa de Shadya e Iset não havia sido vítima da cheia além do normal do Nilo. Contudo, havia sido vítima de outro tipo de mal que, embora tivesse passado pela casa das meninas anos antes, ainda estava exposto nos olhos dos membros da família. Shadya e Iset estavam do lado de fora da casa com a mãe. O pai estava fora realizando uma obra para o faraó do Baixo Egito. Foi uma boa oportunidade para a família pois o homem seria pago com cereais, pão e cerveja assim como todo construtor à mando do faraó. A sombra do desastre que havia assolado a família estava na falta de Petiese, o irmão mais novo das gêmeas e o irmão que 10 anos atrás ainda estava na barriga da mãe. Ambos vítima da alta mortalidade infantil da época que dificilmente deixava uma criança passar dos 5 anos de idade. Sem desistir, a mãe das gêmeas estava grávida novamente embora a barriga ainda fosse levemente sutil.

— Olá! Shadya, Iset! — exclamou Anput agarrando a cintura de cada uma das amigas com cada um de seus braços as puxando para um abraço.

— Chegaram rápido eim? — disse Iset dando uma leve risada — Já estávamos indo pra lá.

A semelhanças entre as duas meninas ainda era bem óbvia apesar de Iset deixar seus cabelos negros curtos, na altura do queixo, enquanto Shayda havia deixado seus cabelos negros encaracolados crescerem pelas suas costas. O corpo de Shadya continuava pequeno, delicado, uma moça. Iset também tinha um pouco daquilo ainda mas a presença de músculos tímidos eram a prova de que a menina estava fazendo bem mais trabalhos braçais e talvez até treinando combate.

Os olhos mortos e sem vida da mãe de Shadya e Iset percorreram Anúbis, Anput e Qebui lentamente de cima à baixo. Lembrava-se bem como, quando os viu ainda pequenos, eles passavam sempre a sensação de serem ricos. Afinal, eram cobertos de brincos, colares, pulseiras, tornozeleiras e braceletes de ouro, prata e pedras preciosas. A mulher também notou que estes haviam sumido depois que cresceram. Ela se perguntava se a fortuna havia sumido ou eles haviam decidido deixá-la secreta. Os três sabiam que estavam seguindo a segunda opção. Graças às oferendas, os três tinham acesso à muitas riquezas mas, também graças à falta de necessidade por coisas como comida e a comodidade e praticidade que a magia trazia, essa quantidade de riquezas diminuia lentamente.

— Vão se reunir com Ahmen, Chenzira e Nebetta? — perguntou a mãe das garotas.

— S-Sim — disse Shadya abrindo um sorriso tímido e corado.

— Vão então — disse a mãe das garotas com um sorriso caloroso.

Apenas Iset tinha notado porque a mãe apoiava tanto sempre que iam se juntar com Ahmen, Chenzira e Nebetta. Principalmente com Ahmen. Inclusive, o motivo era Ahmen. Ahmen e Shadya haviam virado muito amigos nos últimos anos e a mãe das garotas tinha esperança que isso desse algum fruto. Especialmente quando considerava que a família de Ahmen tinha condições bem melhores do que eles. Iset havia compartilhado suas impressões com Anput e as garotas tinham se perguntado se a mãe das gêmeas esperava que algo do tipo acontecesse com Iset e Chenzira também. Iset se arrepiou só de pensar. Não era como se Iset tivesse algo contra Chenzira. Mas a ideia de pensar nele daquele jeito a deixava arrepiada.

— E você? — perguntou Iset discretamente puxando Anput para atrás do grupo que ia andando na frente — Algum interesse especial?

— Do que está falando? — perguntou Anput corando fortemente.

— Sabe do que estou falando. Já está com 15 anos. Já é mulher? — perguntou Iset olhando rapidamente, coisa de meros segundos, para entre as pernas de Anput.

— Já sou mulher sim, se é o que quer saber? — respondeu Anput corada — Onde quer chegar?

— Ora… já é mulher. Já pode pensar e casar. — disse Iset — Não tem nenhuma intenção?

— Essa pergunta é impertinente — respondeu Anput com o rosto corando ainda mais e olhando para frente onde Anúbis conversava com Shadya e Qebui permanecia emburrado.

— Ora, vamos, diga-me seu segredo que direi o meu — disse Iset fazendo Anput rir.

— Curiosa você hoje eim? — disse Anput.

— Ah sim, esqueci que vocês três são cheios de segredos — bufou Iset notando que Qebui olhava para trás, para as duas — Eu podia começar sabendo onde vocês moram! — ela disse mais alto para que os garotos na frente pudessem ouvir.

Ao som da voz de Iset, Anúbis, Shadya e Qebui começaram a prestar mais atenção na conversa que Anput tinha com Iset.

— De que tanto falam aí, Anput? — ralhou Qebui se juntando as duas garotas.

— Ora, dignou-se à falar conosco, Qebui? — zombou Iset.

— Não estava lhe dirigindo a palavra — rebateu Qebui.

— Acabou de fazer — disse Iset fazendo Qebui bufar irritado e revirar os olhos.

— Com o que brigam tanto agora? — perguntou Anúbis perdido parando de andar olhando para os três assim como Shadya.

— Nada, nada — disse Anput — Vamos andando.

Anput acelerou o passo deixando o grupo todo para trás mas logo Iset alcançou-a e passou o braço ao redor de seus ombros sussurrando em seu ouvido para que só ela ouvisse:

— Meu segredo é que eu aceitaria muito bem casar com Ahmen também, mas ele claramente só tem olhos para Shadya.

— E se fosse a segunda-esposa? — perguntou Anput sussurrando de volta. Se referia à “segunda-esposa” não como se a primeira fosse a “ex-esposa”, mas sim de as duas dividindo o marido.

— Aceitaria também. Mas eu ainda precisaria que ele olhasse para mim com outros olhos. — disse Iset dando de ombros com um sorriso triste.

Não demorou muito para que chegassem até onde Chenzira e Ahmen estavam. Nebetta não estava lá. Chenzira também havia mudado com os anos. Havia ganhado muitos quilos à mais. Tinha deixado o visual de careca para trás recentemente e agora alguns fios castanhos levemente encaracolados nasciam de sua cabeça assim como meia dúvida de fios de um tímido bigode.

Ahmen era antes o mais baixo do grupo, mas agora só perdia para Anúbis em altura. Em seu corpo, outrora magro, haviam crescido músculos. Era o que mais se parecia agora com um homem. Seus cabelos castanhos haviam crescidos e agora estavam amarrados em um pequeno rabo-de-cavalo de quatro dedos de comprimento. Uma fina cicatriz cortava sua maçã direita de seu rosto. Ele gostava de contar em como havia adquirido a cicatriz e uma enorme e honrosa batalha, mas na verdade tinha tropeçado nos degraus finais de uma escada e batido o rosto na quina de uma mesa.

— FINALMENTE! Não aguentava mais esperar! — exclamou Ahmen levantando-se do pequeno muro onde haviam se sentado.

— Está quente demais aqui pra ficar esperando… — reclamou Chenzira que suava e não tinha levantado do pequeno muro.

— Está mesmo muito quente hoje… — comentou Shadya.

— Ah.. oi Shadya — disse Ahmen sorrindo timido.

— Oi — sussurou a garota sorrindo timidamente com o rosto completamente corado.

O resto do grupo só ficou olhando de um para o outro esperando qual seria o próximo que faria ou diria alguma coisa. Anúbis abriu um sorriso simples para a cena e revirou os olhos. Qebui bufou. Iset e Anput se entreolharam com sorrisos conspiratórios.

— Se me lembro bem, deve-me algo agora — sussurrou Iset para a amiga.

— Não posso… — disse Anput com uma leve risada — O segredo tem bons ouvidos.

As duas falavam baixinho mas, de fato, Anput podia ver com o canto do olho que Anúbis as olhava com o canto do olho dele. Ela se arrepiou ao notar que ele provavelmente tinha ouvido. Maldita audição canina.

— Onde está Nebetta? — perguntou Anúbis lentamente desviando seu olhar das duas amigas.

— Ela desistiu de vir. — disse Chenzira dando de ombros.

— Já que estamos todos aqui, podemos ir logo para o- — começou à dizer Iset mas foi logo interrompida.

— Ah não não — reclamou Ahmen — Está muito quente hoje. Vamos fazer outra coisa.

— Ficar largado sem fazer nada. Ficar largado se fazer nada — disse Chenzira torcendo para que essa fosse a escolha.

— Mal conseguimos nos juntar e, quando conseguimos, você quer ficar sem fazer nada? — perguntou Anúbis perdido.

— Podemos nadar no rio — sugeriu Anput dando de ombros.

— Ou melhor que isso, podemos fazer uma competição no rio! — exclamou Ahmen animado.

Todos imediatamente ficaram empolgados com a ideia. Quer dizer, quase todos. Chenzira só suspirou com preguiça. O grupo cruzou a cidade de Mênfis e, depois de alguns minutos, estavam botando os pés no Nilo caminhando até as casinhas que agora estavam parcialmente cobertas de água. Graças à água, foi fácil subir no telhado das casinhas. Chenzira teve dificuldades mas Anubis e Ahmen puxaram o enorme garoto para cima da casinha.

— Cuidado pra não quebrar a casa — zombou Qebui que, pelo comentário, ganhou uma bela cotovelada de Anput e um olhar raivoso também.

— Se foi pra ficar irritando, não deveria ter vindo! Já te falaram que você é um saco? — perguntou Iset.

— Como ousa falar assim comigo? — disse Qebui começando a elevar a voz (e o ego).

— Ela tá certa! Você só sabe reclamar e ficar menosprezando eles! — exclamou Anput cutucando o peitoral de Qebui.

— Não os menosprezo, apenas os coloco no lugar que os convém. — disse Qebui.

— Você está soando cada vez mais como meu pai — disse Anúbis cruzando os braços.

— Não sou o único por lá que diz isso — respondeu Qebui — Vocês que se rebaixam.

Shadya, Iset, Chenzira e Ahmen apenas olharam de um para o outro apesar de Chenzira estar visivelmente mais cabisbaixo. Dezenas de perguntas nasciam nas cabeças deles por causa dessa estranha conversa entre os jovens deuses pelo simples fato que Shadya, Iset, Chenzira e Ahmen ainda não sabiam quem realmente era seus amigos de infância. Anúbis ia abrir a boca para falar algo mais mas Qebui fez um gesto com a mão que demonstrava pouco caso.

— Divirtam-se com eles. Eu vou ficar aqui quieto. — disse Qebui sentando-se no cantinho do telhado.

Uns segundos de silêncio constrangedor se passou até que Anput foi a corajosa o suficiente para quebrá-lo.

— Bem, façamos assim então… — disse ela — A água aqui não parece funda o suficiente. Podemos apostar uma corrida daqui até aquela casa ali.

Ela apontou para uma outra casa que estava ainda mais coberta em água. A distância entre as duas casas não era muito grande, mas também não era curta. Seria uma boa opção para que eles pudessem apostar uma pequena corrida sem ter que atravessar o rio de uma ponta à outra. O que seria muito mais cansativo e perigoso. Felizmente, as águas do Nilo eram bem tranquilas. Não tinha muitas ondas e nem muita correnteza. Seria um nado bom e refrescante.

— Gostei — disse Ahmen jogando a camisa de lino que vestia no teto da casa junto com seus sapatos e então dando um pulo na água.

Seguindo o garoto, Anúbis, Anput, e Iset fizeram o mesmo. Chenzira olhou uma vez para Qebui, tocou sua barriga volumosa tristemente e então fez o mesmo que os amigos pulando na água logo em seguida.

— Não vem também, Shadya? — perguntou Ahmen.

— N-Não… Vou ficar aqui mesmo — disse ela com um sorriso tímido sentando-se no telhado da casa deixando suas pernas tocarem a água.

— Pode avisar quando podemos ir então — disse Anúbis.

— Certo — disse a garota se levantando mais uma vez.

Ela esperou o grupo se arrumar e então, quando Ahmen afirmou brevemente com a cabeça para ela, ela gritou “VAI!”.

Todos, com exceção de Chenzira, foram espertos o suficiente em usar as paredes da casa como impulso antes de nadar. Nadar era algo que os egípcios gostavam bastante e que os jovens gostavam de competir entre si. Logo, a breve competição de natação não era exatamente uma grande novidade. Assim como tinha acontecido outras vezes, Chenzira foi ficando cada vez mais para trás do grupo. Anput começava disputando a liderança com os outros, mas logo ia ficando em primeiro lugar. Anúbis e Ahmen disputavam cada centímetro pelo segundo lugar enquanto Iset tentava os alcançar. Shadya acompanhava os movimentos dos amigos e seu grito fino cortou o ar quando novos movimentos apareceram e, com meros segundos de diferença, seus amigos um a um foram puxados para debaixo da água.

Notas finais
###### REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ###### Chacal egípcio: https://pt.wikipedia.org/wiki/Chacal-eg%C3%ADpcio Casamento no Antigo Egito: http://www.womenintheancientworld.com/marriage%20in%20ancient%20egypt.htm Natação no Antigo Egito: https://www.quora.com/Did-boys-go-swimming-in-ancient-Egypt / https://en.wikipedia.org/wiki/History_of_swimming / https://commons.wikimedia.org/wiki/Category:Swimming_in_ancient_Egypt Livro dos mortos: https://www.holybooks.com/wp-content/uploads/Egyptian-Book-of-the-Dead.pdf ######################################### mereço comentários XD mal posso esperar pra escrever o prox cap. muahahaha